não precisa esperar nascer

No fim do dia
sinto o bebê mexendo
dentro do meu ventre
pela primeira vez por vários minutos
vezes seguidas
sinto
leves movimentos
a vida brincando dentro de mim
crescendo
reconhecendo espaços
mandando sinais
me fazendo lembrar do agora
do que importa ser
cultivado
nutrido
cuidado
e então eu paro
celebro
sorrio e consinto
a força é tão grande
potente
que a gente sente
mesmo antes de ver

e hoje
no limiar
entre o fim da tarde e o princípio do luar
lá estava a vida
ativa
a avisar
que já existe agora
e que não é preciso esperar nascer
para sentir
nascer
para dizer
nascer
para viver
abrir caminhos por dentro não só é possível
é o princípio
da vida
do sim
e da revolução de ser.

Marina Matos
em 11 de outubro de 2018.

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Vida nova

Quando você para de querer entender com a razão cada passo que é dado no seu caminho, você abre as portas e as janelas do peito para finalmente SENTIR e SER a tal da mudança que você tanto queria.

Aquela brisa em fim de tarde que traz vida e renovação.

Você aprende a respeitar o seu ritmo, o ritmo do seu corpo. A celebrar as pequenas conquistas. Navega com mais fluidez no rio da vida – e respeita os tempos de mergulho, de descanso e, principalmente, respeita as margens e os desenhos do rio.
E quando a noite chega, antes mesmo que você sinta medo do breu, só o que te salta aos olhos é um céu estrelado que te lembra de ser estrela, de ser sonho e de silenciar para ouvir tudo que está sendo dito pelo invisível.
Invisível. Aquilo que não podemos ver com os olhos físicos. Mas que a alma sabe. As maiores mudanças começam dentro, em silêncio. Feito semente plantada na terra. Feito sonho plantado no coração.
Feito uma vida que começa no útero.
Semente que cresce e que transforma, antes mesmo de poder ser vista e tocada, as paisagens e os passos dados “aqui fora”.

A primavera vem chegando, é tempo de florescer.
É tempo de celebrar a vida que vem pra colorir ainda mais essas terras.

13 semanas de uma pessoinha inteiramente nova sendo feita dentro da minha barriga.
Eu tô é feliz demais.
É mesmo bem mágico essa coisa de viver.

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Das coisas que a gente fala

“Mamãe, hoje na escola ninguém queria jogar a bola pra mim”

“É, filha? E como você se sentiu com isso?”

“Acho que eu me senti sozinha”

Nos abraçamos em silêncio. Não era só a mãe da Agnes dando um conforto pra sua filha. Era a criança que eu fui abraçando um sentimento que ela reconhece tão bem. Éramos nós duas sendo abraçadas e sentindo que ainda bem que o tempo é vivo e faz a roda girar e ficar tudo bem.

Mas independente disso, é mesmo um baita presente poder olhar pra minha filha e ver que ela consegue falar o que sente. Dentro do possível pra ela e para os seus quatro anos – e as vezes demora uns dias pra ela soltar e dizer. Mas ela fala.

Como num dia que ela virou pra mim e disse:

“Mamãe, quero conversar com você. Por que você tá brigando tanto comigo?”

“Porque a mamãe anda muito cansada, filha. E quando eu tô cansada eu acabo brigando com mais facilidade. Mas me desculpa. Já percebi e estou melhorando essa parte, não é culpa sua”.

Esse diálogo aconteceu depois da sequência de fatos: eu cansada/estressada brigando ou me irritando com facilidade sem nem perceber as consequências -> Agnes absorvendo a energia e ficando mais sensível -> Agnes chorando na escola/querendo ficar só perto de mim e nervosa com o pai -> eu irritada com isso e o ciclo todo de novo -> minha ficha caindo que ela queria mais atenção dos pais, com presença inteira -> Cleber e eu alinhando isso e passando mais tempo juntos dela -> ida só nós três no parque sexta depois da escola, com muita conversa e atenção + fim de semana de boas -> ela me dizendo a frase do começo na segunda.

Ou seja.

Ela tem o tempo dela. Nós todos temos os nossos processos. E quando ela se sente segura, num ambiente calmo, ela fala com muita tranquilidade o que quer dizer. Nós, enquanto adultos cuidadores, precisamos mesmo é dar base, suporte, amparo. E deixar que eles cresçam e digam o que tiverem de falar, e sejam o que quiserem ser.

É um puta trampo educar e criar uma pessoa. Ainda mais porque temos os nossos próprios fantasmas para lidar ao mesmo tempo em que fazemos todo o resto. Mas é lindo de ver quando alguma tentativa dá certo – e dar certo significa apenas o momento, e não a vida toda resolvida, rs.

É mesmo um trabalho de formiguinha. Mas é muito bom – e nos faz muito bem – poder construir isso, essa base, plantar essa sementinha, dentro dela.

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Carta do dia: bilhete poderoso

Filha,

hoje, no trabalho, a mamãe fez um desafio com algumas pessoas e combinamos de escrever um bilhete poderoso para nós mesmos. Queria te escrever um bilhete também, porque você tem quatro anos e ainda não sabe escrever, e porque já quero que você saiba. A gente escreve bilhetes para lembrar coisas importantes, para ter ao alcance dos olhos, vindo de fora, aquilo que a cabeça não pode esquecer, dentro. É um recurso, um suporte, uma espécie de forcinha extra. Algumas pessoas o escrevem quando querem lembrar compromissos da rotina. Eu escrevo para reforçar as prioridades da vida. Afeto, vínculo, cuidado, carinho. Comigo mesma, principalmente.

Pois bem, queria escrever um bilhete pra você hoje, até que você possa fazer isso por si mesma.

E o meu bilhete é esse: é seguro existir no mundo sendo exatamente quem você é. Seja. Só seja, meu amor. Que é pra isso que estamos aqui neste planeta.

com amor,
mamãe.

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Carta do dia: 4 anos!

São Paulo, 15 de julho de manhã 2018

Filha,

a profundidade do seu olhar é a porta pro tamanho da sua força.
E ela é exatamente assim, linda e cheia de energia, vinda de mares distantes – e vai reverberar por centenas de anos, e além, como as tartarugas que você tanto gosta.

Hoje é o seu aniversário e o meu coração está inundado de amor e gratidão pelos seus 4 anos de vida.
Minha menina maravilhosa, que sabe bem o que quer, que tem muita amorosidade nos gestos e um jeito todo seu – da expressão ao caminhar – saiba que eu sou imensamente feliz de ser sua mãe, de ser sua amiga, de caminhar contigo por essa estrada.
Que o seu ano novo seja INCRÍVEL!
Te amo bem grande.

Com amor,
Mamãe

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4 ANOS!

Gente amiga, vocês acreditam que a minha pequena moça vai completar quatro anos no próximo domingo?

Quatro anos.
4 anos.

Não que eu tivesse alguma dúvida, mas é oficial: cabô bebê!
A pessoa é 100% criança. E eu sigo achando esse Sr. Tempo muito fanfarrão.

Estava aqui pensando no que vou escrever na carta deste ano e, nossa, tanta coisa.
Tanto aconteceu nesse último ano, tanto que ela cresceu, se desenvolveu, aprendeu. Pra mim também foi assim, com certeza.
O que eu sei é que está linda demais essa fase. Ir conhecendo cada dia mais a pessoinha que ela já é – isso é muito legal!

Ela faz tudo sozinha… menos comer, hahaha. Quer dizer, ela come sozinha na escola, claro, mas aqui em casa faz um charme imenso, rs. Aí em casa eu digo que vou colocar o meu almoço pra gente comer juntas e geralmente funciona bem, mas tem vezes que ainda prefere que a gente dê – e sabe, eu nem tô sofrendo com isso porque ando sem tempo, kkkkk. De resto, não posso nem chegar perto. Tomar banho, escovar os dentes, ir ao banheiro, vestir a roupa, colocar a mesa pro café da manhã, calçar o tênis, correr na rua (socorro, hahaha).

E as conversas, gente? De vez em quando tem umas frases muito maravilhosas, tipo essa semana que ela disse: eu não consigo deitar em mim mesma (!)
Tem o temperamento super forte, sabe o que quer.
Que as deusas conservem isso.

Brinca bem sozinha quando está em casa, inventa música e reproduz uns diálogos da escola – e eu só “de longe” ouvindo, hehe.
Ainda fica tímida quando chega em lugares novos, com mais pessoas e tal. Quer ficar perto de mim ou um pouco mais afastada da geral. Aos poucos vai se soltando e inventando o próprio jeito de ficar bem no ambiente E é engraçado de ver, porque ela raramente dá “oi” quando chega, abraço e beijo, então, só pros íntimos. Mas o tchau sempre rola mais suave e natural, rs. Ela realmente precisa de um tempo e gosto de respeitar isso.

É muito carinhosa, muito amorosa e gosta de ficar em família
#cancerianatotal

E eu sigo uma mãe babona, como vocês podem constatar, rs.

E é isso, vida seguindo no compasso – ora suave, ora doidão – e a gente aprendendo a dançar conforme a música. Ainda bem que música é mesmo uma constante aqui em casa.

Volto domingo com a carta e mais amor pra derramar por aí.

Beijo em todo mundo e até já.

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carta do dia: a natureza é mãe

Filha, tô te escrevendo porque eu também não quero esquecer.

Foi hoje cedo.

Depois de um tempo chorando – cansaço, sono, vontades, sentimentos – você no meu colo. nós duas juntas pra tentar acalmar os ânimos, lembrei de uma coisa e te falei:

-filha, você consegue, meu amor. isso não é seu. deixa ir. solta. deixa o vento levar isso embora, pra longe, pra libertar. a natureza sempre ajuda a gente, meu amor. é só você lembrar. o vento vai levar embora esse choro, deixa ele ir, tá?

-é, mamãe?

-sim, meu bem.

-tá bom!

e acabou o choro.

a natureza é mãe, filha. ela vai sempre dar colo e nos ajudar quando a gente pedir.

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Respirar fundo sempre ajuda

Agnes chorando de manhã antes de ir pra escola.
Queria dormir mais, ela diz. Cansaço pelo dia cheio de idas, vindas, encontros e brincadeiras, ontem.
Saindo de casa, mostro pra ela o céu azul quase sem nuvens. Digo que ela está cansada, mas que daqui a pouco tem soneca na escola. E que ela vai se divertir lá. Lembro que respirar fundo sempre ajuda. Que ela é uma menina forte e muito amada. Depois ela me pede pra cantar uma música e vai se acalmando.
Daqui a pouco tem mais choro de novo, eu sei. Não é sobre calar definitivamente. É sobre como a gente pode lidar com o que incomoda (dentro e fora) – principalmente antes das oito da manhã.

Faço isso pra ela.
E lembro a mim mesma também.

Respirar fundo sempre ajuda.

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Carta do dia: o difícil não é ruim

Filha,

tem rolado muita coisa no mundo. Muita revolução, muita luz entrando e mostrando, com aquela claridade desconcertante, feridas antigas, dores profundas, traumas e medos que andavam rondando a mente e as ruas e que agora parecem estar escancarados bem na nossa frente. E isso é muito difícil de lidar, mas pode ser um caminho de cura também, se assim quisermos. 

Calma, vou refazer a frase. É difícil de lidar e também um caminho de cura, porque as duas coisas são verdade, uma não anula a presença da outra. 

E por falar em difícil, preciso confessar que algumas vezes esse discurso do fácil x difícil (que eu mesma faço também, tudo é caminho e seguimos aprendendo) me irrita um pouco. É preciso entender que nem sempre difícil é ruim. Ok, as vezes é ruim mesmo e tudo bem, aceitemos. Tenho a vaga impressão de que aceitar torna o processo mais fluido. Fluido significa apenas que vamos tirar nossa mente controladora do caminho e aceitar que nem tudo é sobre a gente (oi, ego) e permitir que o nosso corpo, que a nossa vida, siga o fluxo dos acontecimentos que já estão arrombando a porta. Mas, sim, voltando. Achar que tudo que saia do fácil é ruim é uma armadilha da nossa zona de conforto, que prefere ficar reclamando sentada no sofá – mesmo que esse sofá esteja afundando em areia movediça. Vamos pensar juntas, filha. O que é fácil? Respirar é fácil e mesmo assim a gente consegue se desconectar disso – e, por vezes, fazemos até cursos, participamos de aulas e assistimos palestras sobre como respirar “certo”. Esse é um caminho, inclusive agradeço a muita gente que já me ajudou a voltar a respirar de forma mais livre e eficaz (não é engraçado usar uma palavra como eficaz, que remete a algo produtivo e quase mecânico, para falar de algo tão involuntário e natural como respirar?). Me dispor a aprender, e a praticar, tem algo de esforço, sim, porque estou saindo de um padrão estabelecido há muito tempo pela minha mente. Posso entender isso como difícil, ou como um processo que vou passar até que respirar pelo nariz e não pela boca esteja incorporado em todas as minhas células e eu não precise mais pensar sobre isso.

Percebe que fácil é tudo aquilo que fazemos sem pensar? Ou que pensar é sempre relacionado a esforço e dificuldade? A quem interessa que o mundo, a vida, seja assim? Fica a reflexão.

A transformação vem pela prática diária, pelos aprendizados, pela nossa vivência. Prática diária significa esforço, persistência, paciência, não julgamento, entre outras coisas. A isso costuma-se dar o nome de vida também (rs). Se olharmos para o que nos acontece apenas pela lente do difícil, então vai ser difícil. Se olharmos pela lente das possibilidades infinitas de autoconhecimento e oportunidades de aprendizado, assim será.

Porque, por acreditar, é.

E isso tem uma força enorme. O que não significa, de forma alguma, que não haverá dores em diferentes escalas, ou abismos. Algumas coisas são como são e fim. Como a gente escolhe atravessar esses momentos é o que fortalece, dentro de nós, os sentimentos todos. Falar em facilidade ou dificuldade, por si só, é muito raso diante de todas as camadas que compõem o ser humano e o mundão véio sem porteira em que vivemos.

Então, filha, preciso te dizer que sim. Tem rolado muita coisa no mundo. Parece retrocesso, parece loucura, parece o caos. Os monstros que antes moravam embaixo da nossa cama tem rosto, nome, sobrenome, cargo importante e estão por aí, pelas ruas, nas casas, na internet, tomando decisões de escala federal com base apenas na sujeira de seus umbigos. Mas tem rolado muito mais coisa no mundo, filha. Muito mais. As pessoas estão se unindo em escala mundial, estão abraçando sonhos, abraçando ideias e dando abraços coletivos no meio da rua. Estão reconhecendo semelhantes. Estão deixando sua voz sair. Estão aprendendo a ouvir e a ver o tamanho da força de suas intenções. Isso realmente não está na escala do fácil, filha. De aceitar. É como acender a luz do quarto mais escuro da nossa mente. Mas é que pra curar a gente precisa enxergar, precisar nomear, precisar pegar e sentir. E precisa querer também, porque parece que a cura só  acontece quando a gente procura por ela.

A história é construída todos os dias, filha. Todos os dias. 

O que está acontecendo é difícil de lidar, sim. Muito. A gente pode internalizar como algo ruim. Este é um lado da verdade e eu o reconheço. Mas reconheço também o poder enorme de transformação e de expansão que está acontecendo no exato agora. Não depois que toda dor passar. Ao mesmo tempo. 

O movimento está acontecendo e está cada vez mais claro e mais aparente. Vamos escolher resistir a ele, ou vamos tirar a bunda do sofá para aprender com ele? 

 

com amor,
mamãe

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Carta do dia: verdades que surgem às sete da manhã

Filha,

hoje de manhã, enquanto comia seu mingau de aveia, você começou a chorar dizendo que não queria ir pra escola.

Você passou o fim de semana sensível dizendo que não queria ir mais pra escola. Imaginei ter sido porque, na quinta e na sexta passada terem sido os primeiros dias em que você ficou todo o período, e não mais o tempo da adaptação. Isso depois de cinco dias direto em casa, por conta do carnaval. Foi uma conta que não fechou, né? Também teve o fato de que sábado eu fiquei até as seis da tarde longe, num encontro mensal que participo – e calhou do de fevereiro ser justamente nesse balaio de escola, horas longe, adaptações, etc. Entendo completamente. E no domingo, por mais que estivéssemos pertinho, foi na rua, em movimento e em bando – com toda euforia e cansaço que tudo isso traz.

Aí de madrugada você acordou com uma dor na barriga, pediu chá, e depois vomitou. Dormiu tranquila depois disso, ainda bem. Também natural, visto que é mesmo muita coisa pra digerir. E não digo só pelo fim de semana, mas pelo período que estamos passando, a saber: adaptação na escola, ou seja, uma rotina completamente nova também, já que você fica lá semi integral. Reforma completa na casa da vovó e do vovô, que é o lugar que mais vamos e que, com a reforma, você foi privada de ir; e você entrou lá algumas vezes rapidinho e viu que estava tudo completamente diferente. O Dindo aqui em casa – que é uma coisa boa, mas também nova. Mudanças internas da mamãe e do papai. A vovó que foi pra Minas de repente cuidar da mamãe dela. E até as mudanças na nossa casa coloco nessa conta. Sim, o ano mal começou e já veio um combo de alterações e desafios.

Você colocou pra fora os excessos e eu te admiro por isso.

Escolhi não te levar pra escola ontem porque, além de você ter pedido muito, e do episódio do vômito, eu senti que era mesmo pra você ficar. Pra reforçar nosso vínculo na presença física, num dia de semana normal, na nossa rotina que você estava habituada. E para não se tornar um tormento ir pra escola, aquela coisa que somos obrigados a ir de qualquer jeito e engole o choro. Podendo escolher, não te obrigo a nada, foi sempre assim; caminho do meio total, sentindo o seu tempo, indo com calma; por que ter que já entrar numa coisa fixa e rígida agora? Não faz sentido pra forma que lidamos com as coisas aqui em casa. Tudo bem ficar em casa um dia pra fortalecer o emocional e ir mais calma nos dias seguintes. Tem quem fale que isso faz você não se adaptar, mas eu não estou lidando com suposições, nem com achismos e muito menos com pitacos aqui, estou sentindo você, nossa história, nossa relação. Ontem era melhor que você ficasse e você ficou, ponto. Conversamos bastante no fim do dia sobre a ida pra escola na manhã seguinte, estive calma, te expliquei mil coisas. Enfim. Fiz o que achei que me cabia e que consegui.

Hoje de manhã te senti bem mais calma, apesar das frases de não querer ir e de algumas lágrimas, como as que rolaram depois do café da manhã.

Depois de poucos minutos, você disse:

– por que eu tenho que ficar longe de você e do papai?

(pausa pro meu coração voltar a bater, lembrar que essa é a sua história, não te projetar meus traumas infantis, não chorar também e ir direto cancelar essa merda de escola e vivermos pelados pintados de verde num eterno domingo. respirei. olhei pra agnes e pra vida da agnes)

-é por isso que você não quer ir, filha?

-siiiim (já chorando e novo)

E aí eu entendi, filha. É mesmo uma fase de adaptação. Três anos e meio, toda a sua vida, sendo cuidada por mim, pelo papai e sempre por pessoas da família e, de repente, lá vem essa coisa de escola, de tantas horas longe de todas as referências familiares (#cancerianafeelings), em meio a todas as mudanças que já andavam rolando? Putz, essa é mesmo uma pergunta muito boa. Por que ter que ficar longe das pessoas que mais amo e me passam segurança?

Eu te disse que estamos sempre juntos, que você pode sempre respirar fundo, se acalmar e lembrar da gente com carinho; e que faríamos muita farra e chamego quando estivéssemos juntos. Além de outras coisas que também disse, em outros momentos. E comecei a focar nas coisas boas que tem na escola, ao invés do fato de ser um lugar que você fica sem a gente. Porque pode mesmo ser muito legal, filha, e você vai descobrir ao longo da vida que é bem divertido ter nossas próprias experiências, rs.

Todos os dias, desde que me descobri grávida, aprendo com você, minha pequena moça. É um privilégio sem tamanho ser sua mãe. De novo e sempre eu te digo: que bom que você veio, meu amor. Que bom!

Sigamos juntas, então, crescendo, aprendendo, chamegando e esticando a borda do horizonte do que conhecíamos até ontem – dentro e fora de nós. De vez em quando dói, arde, dá vontade de viver pra sempre no quentinho do colo e do conhecido. Mas aí é só lembrar que nem existe esse lance de pra sempre e que bom mesmo é sentir a nossa força e nossa coragem pelos caminhos dessa vida.

 

com amor,
mamãe.

 

(tudo isso pra dizer que, sim, eu também tô me adaptando e acho que viver no mato sem muros nem regras segue sendo uma ideia maravilhosa que irei defender pra sempre – não péra. que irei cultivar em nós. que irei cultivar dentro. e que sigo sendo uma pessoa que não obedece todas as regras nem na fase de adaptar a pequena na escola e já tô ensinando que pode, sim, cabular. ô se pode!) (apagar essa parte quando ela for pro ensino médio) (ou relembrar isso aqui exatamente nessa época?) (fica a ideia) (não me interditem) (sou doidinha mas sou legal) (dizem) (hahahahaha).

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