A primeira carta

Liz,

em abril, sua irmã disse assim pra vovó Zazá:
– vovó, sabia que a mamãe vai comprar uma irmãnzinha pra mim?

Eu ainda não sabia que você vinha, mas naquele momento eu entendi que talvez já tivesse alguém por perto, esperando o momento de chegar.

Ainda brinquei que eu ia procurar nas lojas, a gente deu risada, a vida seguiu. Ela não falou mais no assunto.

Em julho, o teste de gravidez deu positivo.
Um dia antes da sua irmã completar 4 anos.
Nem atrasada eu estava, mas sentia sua presença.
E no instante exato em que eu peguei o celular para conferir se já tinham se passado os minutos pro teste ficar pronto, chegou uma mensagem de texto com a única frase: é bem isso mesmo.
Era isso mesmo. Positivo. Você já estava por aqui.

Quando fomos contar pra Agnes, o papai disse:
– Filha, o que você acha da ideia de ter um irmãozinho?
– Não.
E continuou brincando.

Passou uns dias e eu quis tocar no assunto de novo:
– Filha, lembra quando você falou pra vovó que a mamãe ia comprar uma irmanzinha pra você?
Os olhinhos se acenderam.
– Sim!!!
– Então, é que a gente não compra, o bebê está sendo feito aqui na minha barriga.
_ É, mamãe? A minha irmanzinha?
– Ainda não sabemos se é menina ou menino, meu amor. Vamos descobrir daqui um tempo.
– Tá, mas é a minha irmanzinha.

E daí em diate era só isso. Quem falasse que era irmão, ela logo tratava de dizer que não era. De vez em quando eu tentava dizer pra ela que podia ser legal se fosse um irmão também, mas ela falava com tanta simplicidade que a gente começou a dizer que sim.

E antes disso, antes até que eu contasse pra ela que eu estava gestando, certo dia tive um “sonho” em que eu via um bebê com roupinha branca, perto de muita luz, e me veio a frase: Liz é luz.

Apesar de ter sonhado outras vezes com outros bebês, isso ficou no fundo do peito e eu sabia que, se fosse menina, o nome seria Liz.

Seu pai disse que não tinha nenhum palpite, mas “coincidentemente” não aceitou ne-nhum nome de menino que cogitávamos. Nada o fazia gostar.

Você sempre foi Liz.

Nossa pequena e amada Liz.
Que já me traz uma força absoluta e uma calma igualmente marcante. Está sendo maravilhoso ter você aqui com a gente – e agora já sentindo seus movimentos.

A gente pode não ter calculado milimetricamente a sua chegada, minha amorinha, mas em algum lugar a gente sabia que você vinha.

Estamos muito felizes com a sua presença, meu benzinho.
Que bom que está sendo exatamente assim.

com amor,
mamãe.

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Grávida de segunda viagem

Uma das coisas mais legais de estar grávida do segundo filho é a tranquilidade.
Veja bem, estou aqui com minhas 17 semanas e tô tão relaxada que as vezes acho que é bom achar algo pra pensar, se não me perco,daqui essa pessoa nasce e eu vou estar aqui achando que ainda estou de 4 meses, hahaha.

Aliás, a primeira coisa diferente já é essa.
Vez em quando eu falo o mês, e não as semanas. Da primeira vez é: estou de 16 semanas e 6 dias. 17 semanas e 4 dias. 30 semanas e 2 dias. Agora está sendo: tô de 16 semanas – sem detalhes, rs. E pra quem prefere eu falo em meses e tudo bem, tranquilo. O resumo é: tá previsto pra nascer no fim de março e isso é tudo.

Não tô pirando com equipe de parto, como da primeira vez (aliás, na primeiríssima gestação, que foi a de bolota, eu já tinha doula com 6 semanas :P). Estou fazendo o pré natal pelo SUS e com 28 semanas vou na Casa Angela – e se algo tiver que ser diferente, eu vejo quando chegar a hora.
Não comprei nada-nadinha ainda. Tenho alguns poucos macacões e bodys que foram da Agnes, as mantas dela; minha tia deu umas roupinhas esse fim de semana, e é só.

Considero que tive duas primeiras gravidezes, rs, já que a primeira mesmo não evoluiu aos 4 meses – céus! é a mesminha idade gestacional que estou agora. E a gestação da Agnes, que foi bem tranquila, em termos físicos.

Estar cuidando da minha mente, da minha ansiedade, das questões todas que me rondam está fazendo uma super diferença nessa calma que sinto agora. Ter dedicado tempo pra mim mesma, para os meus interesses e vivências para além dos limites maternos, também. Vou aos meus shows, sozinha ou acompanhada. Tenho meus momentos sozinha, em silêncio. Tenho produzido bastante, ido nas rodas de mulheres. Tudo isso só me fortalece e acalma meus passos.

Claro que o fato de já ser mãe também ajuda. A gente sabe que vai dar tudo certo. Dá pra comprar roupinha depois que nascer porque as lojas ainda estarão todas abertas. O parto é um evento tão selvagem que não dá pra fazer mil programações (além de pré natal certinho e informações baseadas em evidências científicas, óbvio). Um monte de coisa que compra não usa, e assim vai.

Recém nascido precisa mesmo é de colo, fralda limpa e livre demanda de amor. Mãe precisa mesmo é de rede de apoio (em todos os tempos). Isso é mais trabalho interno, entrega, disponibilidade e combinados do que outra coisa. E é só com a prática, então é construir a base da segurança antes e fortalecê-la com as escolhas e a prática quando chegar a hora.

Da segunda vez a gente sabe que tudo se ajeita no tempo certo, que as coisas acontecem – e que o desespero e a ansiedade não são bons amigos das grávidas e puérperas – na real, não são de ninguém, mas quando envolve muito hormônio e uma pessoinha que acabou de chegar no mundo, aí fica mais complicado, né.

Não tem arrependimento nessa minha fala. Acredito que as tudo pode ensinar, e que estamos sempre fazendo o melhor com os recursos internos que temos. Então sim, dei o melhor das primeiras vezes. Estou dando o meu melhor agora. Mesmo sendo diferente. E tá tudo bem. Muito menos acho que vai ser igual, porque se eu já mudei um monte, imagina estar lidando com outra pessoa. É bem diferente, sim. (E eu já sinto que sim, mesmo; são energias bem diferentes). Digo mais sobre ansiedade mesmo, sobre querer controlar os eventos todos muito antes de eles sequer existirem.

E posso dizer que é assim que estou hoje, né. Não tô garantindo nada pro futuro, hahaha. Mas é bom registrar pra lembrar depois. Tô desencanada mas tô bem feliz com essa nova vida já se mexendo aqui dentro. Muito amor envolvido.

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não precisa esperar nascer

No fim do dia
sinto o bebê mexendo
dentro do meu ventre
pela primeira vez por vários minutos
vezes seguidas
sinto
leves movimentos
a vida brincando dentro de mim
crescendo
reconhecendo espaços
mandando sinais
me fazendo lembrar do agora
do que importa ser
cultivado
nutrido
cuidado
e então eu paro
celebro
sorrio e consinto
a força é tão grande
potente
que a gente sente
mesmo antes de ver

e hoje
no limiar
entre o fim da tarde e o princípio do luar
lá estava a vida
ativa
a avisar
que já existe agora
e que não é preciso esperar nascer
para sentir
nascer
para dizer
nascer
para viver
abrir caminhos por dentro não só é possível
é o princípio
da vida
do sim
e da revolução de ser.

Marina Matos
em 11 de outubro de 2018.

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Vida nova

Quando você para de querer entender com a razão cada passo que é dado no seu caminho, você abre as portas e as janelas do peito para finalmente SENTIR e SER a tal da mudança que você tanto queria.

Aquela brisa em fim de tarde que traz vida e renovação.

Você aprende a respeitar o seu ritmo, o ritmo do seu corpo. A celebrar as pequenas conquistas. Navega com mais fluidez no rio da vida – e respeita os tempos de mergulho, de descanso e, principalmente, respeita as margens e os desenhos do rio.
E quando a noite chega, antes mesmo que você sinta medo do breu, só o que te salta aos olhos é um céu estrelado que te lembra de ser estrela, de ser sonho e de silenciar para ouvir tudo que está sendo dito pelo invisível.
Invisível. Aquilo que não podemos ver com os olhos físicos. Mas que a alma sabe. As maiores mudanças começam dentro, em silêncio. Feito semente plantada na terra. Feito sonho plantado no coração.
Feito uma vida que começa no útero.
Semente que cresce e que transforma, antes mesmo de poder ser vista e tocada, as paisagens e os passos dados “aqui fora”.

A primavera vem chegando, é tempo de florescer.
É tempo de celebrar a vida que vem pra colorir ainda mais essas terras.

13 semanas de uma pessoinha inteiramente nova sendo feita dentro da minha barriga.
Eu tô é feliz demais.
É mesmo bem mágico essa coisa de viver.

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Das coisas que a gente fala

“Mamãe, hoje na escola ninguém queria jogar a bola pra mim”

“É, filha? E como você se sentiu com isso?”

“Acho que eu me senti sozinha”

Nos abraçamos em silêncio. Não era só a mãe da Agnes dando um conforto pra sua filha. Era a criança que eu fui abraçando um sentimento que ela reconhece tão bem. Éramos nós duas sendo abraçadas e sentindo que ainda bem que o tempo é vivo e faz a roda girar e ficar tudo bem.

Mas independente disso, é mesmo um baita presente poder olhar pra minha filha e ver que ela consegue falar o que sente. Dentro do possível pra ela e para os seus quatro anos – e as vezes demora uns dias pra ela soltar e dizer. Mas ela fala.

Como num dia que ela virou pra mim e disse:

“Mamãe, quero conversar com você. Por que você tá brigando tanto comigo?”

“Porque a mamãe anda muito cansada, filha. E quando eu tô cansada eu acabo brigando com mais facilidade. Mas me desculpa. Já percebi e estou melhorando essa parte, não é culpa sua”.

Esse diálogo aconteceu depois da sequência de fatos: eu cansada/estressada brigando ou me irritando com facilidade sem nem perceber as consequências -> Agnes absorvendo a energia e ficando mais sensível -> Agnes chorando na escola/querendo ficar só perto de mim e nervosa com o pai -> eu irritada com isso e o ciclo todo de novo -> minha ficha caindo que ela queria mais atenção dos pais, com presença inteira -> Cleber e eu alinhando isso e passando mais tempo juntos dela -> ida só nós três no parque sexta depois da escola, com muita conversa e atenção + fim de semana de boas -> ela me dizendo a frase do começo na segunda.

Ou seja.

Ela tem o tempo dela. Nós todos temos os nossos processos. E quando ela se sente segura, num ambiente calmo, ela fala com muita tranquilidade o que quer dizer. Nós, enquanto adultos cuidadores, precisamos mesmo é dar base, suporte, amparo. E deixar que eles cresçam e digam o que tiverem de falar, e sejam o que quiserem ser.

É um puta trampo educar e criar uma pessoa. Ainda mais porque temos os nossos próprios fantasmas para lidar ao mesmo tempo em que fazemos todo o resto. Mas é lindo de ver quando alguma tentativa dá certo – e dar certo significa apenas o momento, e não a vida toda resolvida, rs.

É mesmo um trabalho de formiguinha. Mas é muito bom – e nos faz muito bem – poder construir isso, essa base, plantar essa sementinha, dentro dela.

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Carta do dia: bilhete poderoso

Filha,

hoje, no trabalho, a mamãe fez um desafio com algumas pessoas e combinamos de escrever um bilhete poderoso para nós mesmos. Queria te escrever um bilhete também, porque você tem quatro anos e ainda não sabe escrever, e porque já quero que você saiba. A gente escreve bilhetes para lembrar coisas importantes, para ter ao alcance dos olhos, vindo de fora, aquilo que a cabeça não pode esquecer, dentro. É um recurso, um suporte, uma espécie de forcinha extra. Algumas pessoas o escrevem quando querem lembrar compromissos da rotina. Eu escrevo para reforçar as prioridades da vida. Afeto, vínculo, cuidado, carinho. Comigo mesma, principalmente.

Pois bem, queria escrever um bilhete pra você hoje, até que você possa fazer isso por si mesma.

E o meu bilhete é esse: é seguro existir no mundo sendo exatamente quem você é. Seja. Só seja, meu amor. Que é pra isso que estamos aqui neste planeta.

com amor,
mamãe.

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Carta do dia: 4 anos!

São Paulo, 15 de julho de manhã 2018

Filha,

a profundidade do seu olhar é a porta pro tamanho da sua força.
E ela é exatamente assim, linda e cheia de energia, vinda de mares distantes – e vai reverberar por centenas de anos, e além, como as tartarugas que você tanto gosta.

Hoje é o seu aniversário e o meu coração está inundado de amor e gratidão pelos seus 4 anos de vida.
Minha menina maravilhosa, que sabe bem o que quer, que tem muita amorosidade nos gestos e um jeito todo seu – da expressão ao caminhar – saiba que eu sou imensamente feliz de ser sua mãe, de ser sua amiga, de caminhar contigo por essa estrada.
Que o seu ano novo seja INCRÍVEL!
Te amo bem grande.

Com amor,
Mamãe

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4 ANOS!

Gente amiga, vocês acreditam que a minha pequena moça vai completar quatro anos no próximo domingo?

Quatro anos.
4 anos.

Não que eu tivesse alguma dúvida, mas é oficial: cabô bebê!
A pessoa é 100% criança. E eu sigo achando esse Sr. Tempo muito fanfarrão.

Estava aqui pensando no que vou escrever na carta deste ano e, nossa, tanta coisa.
Tanto aconteceu nesse último ano, tanto que ela cresceu, se desenvolveu, aprendeu. Pra mim também foi assim, com certeza.
O que eu sei é que está linda demais essa fase. Ir conhecendo cada dia mais a pessoinha que ela já é – isso é muito legal!

Ela faz tudo sozinha… menos comer, hahaha. Quer dizer, ela come sozinha na escola, claro, mas aqui em casa faz um charme imenso, rs. Aí em casa eu digo que vou colocar o meu almoço pra gente comer juntas e geralmente funciona bem, mas tem vezes que ainda prefere que a gente dê – e sabe, eu nem tô sofrendo com isso porque ando sem tempo, kkkkk. De resto, não posso nem chegar perto. Tomar banho, escovar os dentes, ir ao banheiro, vestir a roupa, colocar a mesa pro café da manhã, calçar o tênis, correr na rua (socorro, hahaha).

E as conversas, gente? De vez em quando tem umas frases muito maravilhosas, tipo essa semana que ela disse: eu não consigo deitar em mim mesma (!)
Tem o temperamento super forte, sabe o que quer.
Que as deusas conservem isso.

Brinca bem sozinha quando está em casa, inventa música e reproduz uns diálogos da escola – e eu só “de longe” ouvindo, hehe.
Ainda fica tímida quando chega em lugares novos, com mais pessoas e tal. Quer ficar perto de mim ou um pouco mais afastada da geral. Aos poucos vai se soltando e inventando o próprio jeito de ficar bem no ambiente E é engraçado de ver, porque ela raramente dá “oi” quando chega, abraço e beijo, então, só pros íntimos. Mas o tchau sempre rola mais suave e natural, rs. Ela realmente precisa de um tempo e gosto de respeitar isso.

É muito carinhosa, muito amorosa e gosta de ficar em família
#cancerianatotal

E eu sigo uma mãe babona, como vocês podem constatar, rs.

E é isso, vida seguindo no compasso – ora suave, ora doidão – e a gente aprendendo a dançar conforme a música. Ainda bem que música é mesmo uma constante aqui em casa.

Volto domingo com a carta e mais amor pra derramar por aí.

Beijo em todo mundo e até já.

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carta do dia: a natureza é mãe

Filha, tô te escrevendo porque eu também não quero esquecer.

Foi hoje cedo.

Depois de um tempo chorando – cansaço, sono, vontades, sentimentos – você no meu colo. nós duas juntas pra tentar acalmar os ânimos, lembrei de uma coisa e te falei:

-filha, você consegue, meu amor. isso não é seu. deixa ir. solta. deixa o vento levar isso embora, pra longe, pra libertar. a natureza sempre ajuda a gente, meu amor. é só você lembrar. o vento vai levar embora esse choro, deixa ele ir, tá?

-é, mamãe?

-sim, meu bem.

-tá bom!

e acabou o choro.

a natureza é mãe, filha. ela vai sempre dar colo e nos ajudar quando a gente pedir.

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Respirar fundo sempre ajuda

Agnes chorando de manhã antes de ir pra escola.
Queria dormir mais, ela diz. Cansaço pelo dia cheio de idas, vindas, encontros e brincadeiras, ontem.
Saindo de casa, mostro pra ela o céu azul quase sem nuvens. Digo que ela está cansada, mas que daqui a pouco tem soneca na escola. E que ela vai se divertir lá. Lembro que respirar fundo sempre ajuda. Que ela é uma menina forte e muito amada. Depois ela me pede pra cantar uma música e vai se acalmando.
Daqui a pouco tem mais choro de novo, eu sei. Não é sobre calar definitivamente. É sobre como a gente pode lidar com o que incomoda (dentro e fora) – principalmente antes das oito da manhã.

Faço isso pra ela.
E lembro a mim mesma também.

Respirar fundo sempre ajuda.

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