Carta do dia: sobre sua irmã, você e os mistérios que cada uma carrega

Filha,
hoje a mamãe vai te contar duas histórias. Uma que já aconteceu e uma que está acontecendo. 

Antes de você vir morar aqui na minha barriga, outra pessoa veio. Era a sua irmã. Seu pai e eu tínhamos uma clara sensação de que era uma menina, e a ela daríamos o nome de Valentina. Era um nome lindo, forte e soava muito bem aos nossos ouvidos. Nós estávamos muito felizes e só esperando a data certa de saber se era mesmo ela quem estava aqui. Sua avó materna também amava o nome, disse até que ia sugerir esse, caso não tivéssemos falado antes.
Mas aí aconteceu uma coisa estranha. Não gostaram do nome que escolhemos. Em nossa empolgação inicial, não conseguíamos (eu) segurar a língua dentro da boca e falávamos até para quem não tinha perguntado que, se fosse menina, seria a Valentina. Era aí que acontecia: as pessoas ficavam meio estranhas quando ouviam esse nome, filha. Alguns detestaram, na verdade. Nos chamaram de corajosos (como se fosse ruim ser corajoso, veja só o mundo doido em que vivemos), loucos, e mais tanta coisa que nem vale a pena repetir aqui. A mamãe ficou muito nervosa quando isso aconteceu. Triste. Ao invés de ficarem felizes com a chegada dela, usavam suas energias para (tentarem, em vão) me fazer mudar de ideia. Para tentar me mostrar algo que não existia, que criaram em suas próprias cabeças. Declararam o fracasso dela na escola, de tanto que sofreria por carregar tal nome. Temiam que fosse uma menina “valentona”, “respondona”, “agressiva”. E a culpa seria nossa, minha e do seu pai, por termos escolhido esse nome pra ela.
Nós fomos irredutíveis, filha, não mudamos de ideia nem por um segundo sequer. Fiquei nervosa, fiquei chateada com a insistência das pessoas que me falaram isso, mas não mudamos. 
Primeiro, porque era esse o nome dela mesmo, a gente sabia. 
Segundo, porque – você vai ver – seu pai e eu temos uma forma só nossa de levar a vida, e não costumamos mudar de ideia por causa de terceiros. 
Terceiro, e muito importante: ser valente era também o que a gente desejava pra ela, assim como desejamos muito para você. Estou te contando essa história para registrar, filha: é preciso ser valente. Enfrentar as dificuldades, mesmo as que venham em forma de alguma rejeição dos mais próximos. Lutar para que nossos sonhos passem pro plano da realização. Assumir verdadeiramente suas escolhas, seus amores e seu caminho com consciência e peito aberto, mesmo que sejam coisas completamente fora dos padrões (ainda bem que existe o fora do padrão, você vai aprender isso mais adiante). Isso é para os valentes, meu bem. Ser valente é ser corajoso, acima de tudo. Sua irmã me ensinou um pouco sobre isso, e sinto que você vai me ensinar um tanto mais também. 

Sua irmã não veio. E sabe o que mais? Não chegamos a saber se era mesmo ela. Nunca saberemos, na verdade. Dia desses me dei conta que poderia muito bem ser um menino. Pode ter sido, pode não ter, simples assim. O mistério vai ficar no ar e na nossa história, e por mim tudo bem. Assim como permanece mistério a causa que a fez ir embora, como saiu tão rápido de mim sem ninguém ver, entre tantos outros.

Mistério. A vida da gente é cheia de mistérios, filha. Isso é uma das coisas mais lindas e incríveis que existe. A natureza é fascinante e carrega esses mistérios com todo cuidado que lhe cabe, para que assim permaneçam, a despeito de tudo que a mente humana seja capaz de produzir para tentar desvendá-los. Como parte da natureza que somos, também guardamos os nossos – e muitas vezes queremos trazê-los à luz da razão, mesmo que não seja esse o intuito da coisa toda: somos parte disso tudo, não uma peça a parte do quebra-cabeça. 

Com você não é diferente, filha. Você já tem seus próprios mistérios. Me traz experiências que ainda não tenho como explicar, e sentimentos igualmente singulares. Por exemplo, nunca tive pressentimento algum sobre o seu gênero. Não que seja uma coisa decisiva, mas como aconteceu da outra vez e como eu sou toda cheia de pressentimentos, me surpreendi quando me dei conta que dessa vez ele simplesmente não existia. Muitas pessoas disseram que era um menino, poucas que seria uma menina. Com 17 semanas e 3 dias, seu pai e eu entramos numa salinha escura e o médico nos disse que era uma menina que morava aqui na minha barriga: você, filha! Pouco tempo depois fiz outro exame, em outro laboratório, e a médica disse a mesma coisa: menina! Depois ainda teve o morfológico, que é um exame necessário mesmo, e na primeira imagem que surgiu na tela, a médica disse que era uma menina, sem que a gente precisasse perguntar nada. Três exames de imagem, feitos por médicos diferentes, em locais completamente diferentes. 
Mas não seria mistério se a história não continuasse. Existe, ainda, as pessoas que insinuam que essas imagens não condizem com a realidade, que você é um menino. Chegam até mim histórias de gente que pensava estar esperando um sexo, e veio outro. De gente que passou por isso, que é uma probabilidade real de acontecer. A primeira pessoa que me disse isso não é íntima da minha vida e falou de um jeito que eu não gostei, fiquei muito brava. Mas parece que tem mais gente jogando nesse time, então eu resolvi refletir: e se for mesmo um menino? E se não for, por que essas pessoas, que tem uma super sensibilidade a mais, disseram tal coisa? Se for um menino, vai ser completamente impressionante o fato de três exames modernos de imagem não terem visto o que era pra ver, considerando que não foram exames precoces. Vai ser uma história e tanto, fico até imaginando. Se realmente for menina, não sei o que essas tais pessoas me dirão. Por que sentiram ser menino? Qual a resposta dessa charada? Por que isso está acontecendo comigo?

Mistérios.

E sabe o que mais, filha? Por mais que as chances sejam de 50% para ambos os lados, quem carrega essa resposta e também o porquê desse mistério, é só você. O que eu sinto é que você traz consigo essa coisa só sua, de não entregar tudo assim de mão beijada, meio que não ligando muito para o que os outros esperam ou dizem, meio que brincando com isso, até porque não é tudo que podemos controlar, afinal de contas. Nem cientificamente, nem mediunicamente. Em julho – ou melhor, quando você quiser – saberemos parte da resposta com alguma certeza. Te chamamos de Agnes, de nossa pequena, nossa menina, pequena moça. Porque foi assim que você se mostrou até agora, então estou entendendo que é assim que você quer e que tem que ser. Se em algum momento daqui por diante, seja em um próximo exame, seja no seu nascimento, ou em qualquer momento da vida, você se mostrar uma pessoa do gênero masculino, por mim tudo certo – e pro seu pai também. 
É muito importante pra mim deixar isso claro e é esse o segundo e relevante motivo de registrar todas essas palavras: eu aceito os mistérios que cercam a minha vida, não luto contra. Tento aprender com cada um deles. E aceito os que você me traz também, sempre, porque vindo de você, não tem como não ser enriquecedor.

Enquanto o mundo corre lá fora, você tem o seu próprio ritmo aqui dentro, minha querida. Um ritmo que eu descubro um tantinho a cada dia, e que sempre me surpreende. E a forma como ele funciona é tão importante pra você, que está me mostrando desde já. Então não se apresse, não. As coisas são como devem ser, não precisamos complicar nada, muito menos lutar contra uma essência que é tão nossa. 

Você e a sua irmã são os meus mistérios particulares, que eu amo ter e que não param de me ensinar. A ser mais valente, a respeitar os tempos da vida, a aceitar o que não controlamos, a lidar com o que sempre tive dificuldade; e ainda entender que, sim, tudo bem as coisas estarem acontecendo desse jeitinho, algum motivo – ou mistério – sempre há de ter, e é muito bom (e dá um certo friozinho na barriga) fazer parte disso tudo. Obrigada, filha. Muito obrigada mesmo.


um beijinho e um chamego,
mamãe.

Anúncios

10 Comentários

Arquivado em aprender, carta, filosofando, história, mistério

10 Respostas para “Carta do dia: sobre sua irmã, você e os mistérios que cada uma carrega

  1. Que lindeza de carta, tão cheia de amor e de respeito!!!
    Um mistério que não há: Agnes é uma menina de muita sorte, que só tem mistérios e coisas a ensinar porque vcs aceitam e estão abertos pra aprender!! Coisa linda!!

    Beijos em vcs!

    Curtir

  2. Amo seus posts. Sua força. Sua esperança. Tudo de bom para você e Agnes.

    Curtir

  3. Apenas chorei lendo essa carta e nem encontro palavras para continuar comentando aqui. rs

    Um beijão, Má e Agnes!!!

    Curtir

  4. Lindo! sabe, essa questão de nomes realmente é muito particular. Quando decidi que o meu menino se chamaria Thomas, ouvi da minha sogra que “era nome de assassino”, da minha mãe que “era o nome do marido escroto (?) da amiga dela”, ouvi que todo mundo chamaria ele de Thomas Turbando. e quer saber? eu dei de ombros. Liguei aquela tecla F enorme e disse: poxa, que bom. o MEU THOMAS vai vir pra mostrar que esse nome é lindo e assim foi. Sobre a questão do sexo, eu no começo, achava que ele era uma menina, mas uns dias antes eu tive certeza que era um menino. sonhei com ele, loirinho como é hoje, mas minha sogra cismava desde o começo que ele era menino. Ela tem um papel de 1800 e guaraná com rolha, escirto à mão em cima: Tabela médicos USP e lá vc faz uma espécie de tabela chinesa que “diz” o sexo do bebê. eu não acredito nisso e tampouco me importava com o sexo, mas minha sogra um dia ficou tão puta com uma moça da feira que disse que estava grávida de um menino, mas minha sogra cismava em ser menina segundo a tabela dela, que “não falha nunca”. Pois bem, a “menina” nasceu com um bilau e minha sogra teve a pachorra de dizer que a “anta da moça da feira” disse a data da concepção errada! hahahah Tipo, minha sogra sabia mais que a pessoa q fez o filho…hahaha Então, só te digo: mantenha essa calma, essa paz que é isso que a Agnes precisa. Você ainda vai ouvir MUITO palpite, intromissão. Ainda vão te chamar MUITAS vezes de corajosa, pejorativamente, depois do seu parto natural, pode ter certeza…. rs Então, Má: relaxa e aproveita essa delícia que é um babê na barriga! 😀 hehe
    bjoks
    carol

    Curtir

  5. lindo é um mistério mesmo Deus e mt grande e sabio faz coisas lindas como dar a oportunidade de sermos mães.bjs

    Curtir

  6. ai amiga, quanto amor….

    Agnes vem cheia de mistérios e assim continuará. Eles são uma caixinha de surpresa e vc vai ver que sempre estará pronta para desvendar qlq mistério que a envolva.

    Um grande beijo!!!

    Curtir

  7. Quando crescer, eu quero ser igual você. Ja te disse isso?

    Bjs

    Curtir

  8. Li, Tomás me solicitou e não pude comentar na hora. Mas a carta não saiu da minha cabeça. Que coisa mais sublime, Marina! E quanto respeito. Os mistérios são muitos mesmo, mas o que seria da nossa vida sem eles, né? E os mistérios da maternidade, pode ter certeza que no tempo certo, eles se desvendam. Beijos

    Curtir

  9. Quando eu pensava em chamar minha filha de Clarice (marido vetou) eu pensava muito nessa música. Dedico a vocês, com amor. http://letras.mus.br/caetano-veloso/144331/

    Curtir

  10. Ah, como eu amoooo suas cartas!!!! Já te contei isso?

    Que felicidade a Agnes terá, ao ter uma mãe tão sensível, tão respeitosa, tão evoluída!!!

    ótima semana pra vcs!!!

    bjsssss
    http://meupequenoreidavi.blogspot.com/

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s