Relato de parto

Desde o começo da gravidez eu repito sempre uma mesma frase: o tempo da Agnes é muito precioso. Sempre senti isso, em diversos momentos. E sempre senti que era um tempo diferente. Diferente do padrão, diferente do meu tempo. Esse era só dela. E não teve momento mais propício do que o seu nascimento para me mostrar que sim, esse meu sentimento estava certo.
A Janie, minha doula, me disse em um dos nossos encontros que a gente só sabe mesmo quando começou o trabalho de parto depois que ele acaba. Do tipo “ah, aquela dorzinha que eu senti quando estava em tal lugar, já era o início”. Achei engraçado no dia, e depois vi que é desse jeitinho mesmo que acontece.
 
Na madrugada de domingo (dia 13 de julho), por volta de umas 03:00 da manhã, comecei a sentir umas cólicas no pé da barriga e na lombar. O dia anterior tinha sido agitado, de certa forma, marido e eu fizemos caminhada duas vezes no dia, eu estava super bem disposta – na noite de sábado, inclusive, já sentia umas fisgadas fortes e o início de uma dorzinha, mas como tinha me movimentado bastante, atribuí a isso.
Como eu só sentia as cólicas e não a barriga dura como nas contrações, fiquei observando (depois percebi que a barriga ficava dura, sim, mas não doía nada-nada, só em baixo mesmo). Eram leves e não duravam muito, mas percebi que o negócio estava vindo com uma certa regularidade. Era como se viesse uma onda que ia crescendo, chegava num ponto e ia caindo até acabar. Quando eu vi que não estava passando, mandei mensagem pra Janie, pra avisar que tinha algo rolando. Ela falou pra eu tentar descansar ao máximo, porque não sabíamos quanto ia demorar até engatar mesmo e coisa e tal. Ok. Só que quem disse que eu conseguia dormir? Fiquei deitada, mas rolou no máximo uns cochilos só. Só aqui entre a gente: nesse momento me veio a mente que meu outro “parto” tinha começado bem daquele jeito, de madrugada, eu sozinha sentindo dores que eu achava que eram só o início (e naquele caso terminou rápido), tive um medinho, sim, e usei esse tempo acordada para mandá-lo embora. Meus pais foram pra missa (saem 5 e pouco da madrugada pra ir a missa) e eu levantei pra andar um pouco e tomar um banho. A essa altura, eu já tinha acordado o Cleber e contado a novidade. Lembrei que, além de descansar, seria bom eu me alimentar também, e como estava mesmo com fome, liguei pros meus pais passarem na feira e trazer frutas pra fazer vitamina. Em algum momento eu cronometrei as dores – que sim, estavam bem suportáveis, eu nem precisava de uma posição específica para passar por elas, então estava tranquila quanto a isso, só o que me fez contar foi perceber que elas vinham com regularidade – e para minha surpresa, estava numa média geral de 3 ou 4 minutos (não todas, algumas vinham com mais espaço, mas a média foi essa) e durando uns 20 e poucos ou 30 segundos. Ou seja, minha gente, tinha algo acontecendo, sim.
 
Meus pais chegaram empolgadíssimos da rua, já no clima de “a Marina está em trabalho de parto, que legaaal!!!” e isso me deu uma travada. Porque assim, o negócio tava só começando, eu não queria alarde. Na verdade, esse foi um ponto complicado do TP: lidar com a ansiedade e animação deles versus a minha vontade de me isolar, feito bicho mesmo, pra parir minha filha no meio do mato. Não sei o quanto isso empacou o processo como um todo, mas sei que não foi como eu imaginava. Enfim. Falei pra eles que aquilo ainda nem era trabalho de parto, expliquei o que são pródromos, e que eu não queria que ninguém soubesse ainda, pra não causar mais ansiedade fora de hora na família.
 
A Janie resolveu vir aqui ver pessoalmente como eu estava, já que os intervalos estavam curtinhos, mas eu não tinha nenhum outro sinal. Tomei outro banho enquanto ela não chegava. Ela chegou, conversamos um pouco e percebemos que tinha espaçado mais. Ela viu que eram curtas. O negócio é que já era quase hora do almoço e eu ainda não tinha dormido. Precisava descansar, pra ter energia. Depois de um tempo ela foi embora e voltaria quando a coisa andasse; ficamos em contato.
 
Os intervalos entre as contrações continuaram espaçados no restante da tarde, aí sim parecia o começo de tudo. Eu estava meio nervosa porque queria ficar sozinha e não estava rolando. À tarde eu fui pro quarto com o Cleber e conseguimos dormir (tanto que nem vimos o jogo da final da Copa, rs). E comecei a perder um tiquinho de tampão. Até então eu meio que sabia que não tinha dilatação ainda, sei lá, pra mim só começaria de fato quando viesse o tampão (vai entender, rs). Foi bem pouquinho mesmo, mas já vi que a roda estava girando.
 
Na madrugada de segunda foi a mesma coisa da anterior: dores e eu acordada a maior parte do tempo. Quando amanheceu, estavam mais fortes, e perdi mais tampão. Tomei café da manhã em pé, porque sentada incomodava um bocado. Não sei explicar direito, mas pra mim ainda faltava muito até ela chegar (e agora percebo que faltava mesmo, mas não taaanto assim, hehe). As dores vinham sempre iguais, desde o começo, e como já começou com intervalos pequenos, depois é que espaçaram, não sabia ao certo quando considerar trabalho de parto ou não. Até porque eu não estava fazendo “nada”. Só tomava banho e seguia a “ordem” de descansar. Eu estava muito tranquila quanto a dor e tudo mais.
 
Meu pai foi trabalhar e finalmente ficamos sozinhos em casa. Tomei mais um banho (domingo foram 3, rs) e depois pedi pro Cleber fazer uma massagem nas minhas costas – de tanto cair água quente, pelos banhos que tomei, a pele estava sensível, eu queria algo que aliviasse. Sentei na bola de pilates pra ele fazer a massagem (foi a única vez que usei a bola) e ele massageou com o óleo que eu usava na gravidez pra dormir melhor (hahaha, era o único que tinha). Foi uma delícia!! Aí aconteceu o que? Comecei a sentir sono (óbvio, rs). Coloquei um dvd do Arnaldo Antunes (porque eu simplesmente não fiz uma playlist pro parto, apesar de ter começado diversas vezes) e deitei no sofá. Não deu pra dormir muito, porque as contrações ficaram meio diferentes, eu não queria mais conversar como se não tivesse acontecendo nada. Eu estava concentrada. E o mais engraçado é que eu ainda comentei que o óleo tinha me deixado numa vibe muito louca, as coisas estavam diferentes pra mim – eu muito calma e achando tudo muito legal (quase uma bêbada, haha). A Janie ligou e o Cleber falou com ela como eu estava. Pouco tempo depois ela chegou aqui. Decidimos juntos irmos na Casa Angela dar uma avaliada, porque o meu quadro não era “como os outros”: eu tinha contrações desde o dia anterior, intervalos relativamente curtos, mas que não estabilizavam (apesar de terem espaçado bem no domingo a tarde) e eu passava por elas deitada, na minha, e conversava normal (apesar de me sentir nessa outra vibe depois da massagem, ainda não era exatamente a partolândia). Estava tranquilíssima. E foi importante a presença dela aqui nessa hora, nos ajudando nessa decisão de ir logo, me lembrando que cada corpo é um, que cada história é uma, e também me ajudando a pegar as coisas que faltavam na mala, hehe. Ligamos pro meu pai, que chegou aqui rapidinho, e nos levou até lá.
 
Chegando lá, fomos atendidos pela enfermeira Marina (xará! rs), que me examinou. Pressão, pulso e temperatura ok. A altura da barriga estava 34cm mas a Agnes estava super baixa já. Aí ela fez um exame de toque: 5 pra 6 cm de dilatação, colo médio ainda. Já tinha passado da metade. Aí era hora de fazer o cardiotoco. Sério, essa foi uma das partes que eu não gostei. Aquele tum-tum-tum do coraçãozinho dela foi me dando um negócio e eu fui ficando nervosa. Chorei. A Janie e o Cleber foram uns lindos nessa hora, conversando comigo e me acalmado. Sei lá, acho que veio um fantasma da gravidez anterior, querendo ou não foi ali que eu não ouvi o coração e soube que a bolota tinha ido embora, acho que me veio isso, eu tinha medo dos batimentos da Agnes irem caindo até sumir, nossa, não foi legal. Quando eu saí da sala, minha mãe já estava chegando lá (eu disse que eles estavam animados, rs). Devia ser quase 14:00. Meus pais saíram pra comer e comprar lanche pra Janie. Nós ficamos e nos instalamos na sala de parto, comemos um lanche também. Não tinha nenhuma outra parturiente na Casa, só eu, então pude escolher o quarto. Nessa hora foi meio estranho, sei lá, eu não sabia muito bem o que fazer, com tantos aparatos a minha disposição. Vinham algumas dores, me apoiei na banheira, pra ver se seria melhor. Brincamos com a câmera um pouquinho. Na verdade, minha amiga tinha se disponibilizado a fotografar e estava a caminho, mas como eu também tenho câmera, levei também. E saímos pra dar uma caminhada ao redor da Casa e na rua. Eu andava normal e quando vinha a dor eu dava umas respiradas, às vezes parava pra sentir e deixar vir.
 

 

 

 

 

 
Meus pais chegaram e ficamos por ali conversando, uma animação, ele querendo saber se eu ficaria ou iria embora, em que pé estava, etc – e por dentro eu achando aquilo tudo forçado demais. Daí a Marina veio e disse que como eu estava super bem e tudo mais, poderia ir pra casa ou dar uma volta em outro lugar se quisesse; ou não, eu poderia escolher. Nessa hora a Lilian chegou (minha amiga que ia fotografar),mas nem cheguei a falar com ela direito. Como eu já estava ~meio assim~ ali no meio de todo mundo, falei que para decidir eu precisava ficar sozinha. Entrei rápido e fui direto pro quarto. Deitei na cama e… comecei a chorar. Nem sei direito porquê eu estava chorando, mas deixei vir. Acho que uma parte minha “não acreditava” que a hora estava mesmo se aproximando, que eu estava prestes a conhecer a minha filha, que eu tanto desejei e já amava. E aí descobri que sim, no parto vêm mesmo coisas da nossa história que estavam guardadas, da nossa personalidade, tudo é muito forte. E só pra situar quem me lê, vou usar a frase que eu costumo usar em outros momentos: apesar de eu ser leonina, não gosto de ter os holofotes em mim. Ou não desse jeito escancarado, pelo menos. Quando eu era criança, por exemplo, era infinitamente mais tímida do que sou hoje, nunca fui de turma grande ou esportes coletivos, sempre detestei ter alguém olhando o que quer que eu estivesse fazendo, ou me falando o que deveria ser feito. Isso tudo é parte de mim, mas eu cresci e arrumei um jeito de lidar com isso… até aquele momento. Naquela tarde de segunda-feira, eu só queria ficar sozinha, quieta, sem aquela agitação. Eu precisava me concentrar, poxa! Não dava pra ser toda sintonia e intuição com a Agnes com tanta expectativa em cima de mim. Enquanto estivesse sendo daquele jeito, não daria muito certo. Eu me sentia fugindo dos outros, ao invés de estar indo ao encontro de mim mesma. Aí eu vi que aquele parto animado, com músicas, risadas, gente falando o tempo inteiro, como a gente vê em alguns vídeos (lindos e emocionantes, por sinal) não seria o meu. O meu parto real me trouxe um outro olhar. E eu precisava aceitá-lo e acolhe-lo.
 
Pois bem. A Marina veio ver como eu estava. Sentou ao meu lado e me olhou de um jeito muito acolhedor. Eu perguntei se poderia ficar lá, porque precisava de espaço, de tranquilidade. Ela disse que sim, claro que eu podia ficar. Conversamos um pouco e depois combinamos que se ficasse na mesma até a manhã seguinte, veríamos o que seria feito. Adorei ter tido essa minha escolha respeitada. E antes eu achava que “travaria” se chegasse lá antes da hora, tinha planos de ficar em casa atééé o máximo que eu conseguisse e chegar lá parindo, vi que o que planejamos pode simplesmente não acontecer, tudo é uma caixinha de surpresas. A Janie também veio me ver e contei sobre a decisão – vimos que o ímpeto dela de me levar pra Casa Angela foi mesmo de me deixar “sozinha”, visto que quando mais engatou foi quando Cleber e eu ficamos a sós. Ela foi lá fora dizer isso aos meus pais (eu acho) e todo mundo foi embora. Ela ficou lá fora e eu fiquei no quarto com o Cleber, num momento muito nosso.
 
Teve a troca de plantão e a Carina e a Rose que estariam com a gente na madrugada. A Rose teve a ideia de nos mudar de quarto, nos levar pra um que tinha duas camas (uma tipo hospital e outra cama comum mesmo), porque segundo ela “tinha mais cara de hotel e menos de hospital”, haha, disse que nos sentiríamos mais confortáveis, o Cleber poderia dormir também, etc e tal. Foi só então – umas 20:00 – que eu descobri que minha amiga não havia ido embora com meus pais (como eu pensei que tivesse acontecido), estava lá fora conversando com a Janie. Então ela entrou, conversamos e ficamos todos juntos.
Quando estávamos jantando, tomei um pouquinho de chá de canela (só pelos filhos mesmo que eu tomo chá). A Carina veio dizer que poderia demorar ainda a engrenar (tudo isso baseado no meu comportamento, não fui examinada de novo), que podia ficar cansativo pra Janie e pra Lilian e que elas poderiam ir embora se quisessem. Como, teoricamente, eu não estava fazendo nada (nem bola, nem chuveiro, nem nada para auxiliar a aliviar as dores ou engrenar de vez) e a Janie tem uma filhinha que ainda mama, falei que ela poderia ir sem problemas. Ela foi. A Lilian ficou mais um pouco. Foi uma linda de tudo, respeitou meu silêncio e ficou lá, esperando meu tempo. Não rolou fotos nesse momento, eu sei lá o que eu estava esperando, nem lembrei de pedir pra ela fotografar o momento como estava mesmo, eu lá deitada – fui uma gestante em TP preguiçosa, percebem? Só descansei, haha – a gente conversando e tudo mais. Como diria o célebre Chicó “num sei, só sei que foi assim”.
Estava uma noite fria e tínhamos esquecido de levar um cobertor pro Cleber (eles pedem pro acompanhante levar). Como íamos ligar pro meu pai levar isso pra gente (e blusas de frio também), perguntamos se ela queria ir descansar, porque eu estava ficando com pena dela lá sentada sem muito conforto e a gente deitado nas camas, rs. Ela aceitou e assim foi; isso por volta de umas 23:00, se não me engano. A Carina veio e me fez uma massagem ótima no corpo todo. Depois, como sempre, a ordem era tentar dormir – e como sempre, não rolou de forma muito eficiente.
 
Meia noite eu fui ao banheiro e o papel higiênico tinha acabado. O Cleber estava me esperando na porta e falei pra ele ir pedir um. Enquanto eu esperava, percebi que estava pingando. “Ué, mas eu já acabei de fazer xixi, gente, que coisa”. E saquei que poderia ser uma ruptura alta de bolsa. Contei pra ele e fomos falar pras meninas, avaliar se era bolsa mesmo ou não. A Carina veio me examinar, ouviu o coraçãozinho da Agnes pelo sonar, estava ok, depois fez um teste numa fitinha pra ver se era líquido mesmo – e era. Aí ela perguntou se podia fazer um toque, já dizendo que poderia estar na mesma, pra eu não me frustrar e tal. Mas estava com 7 cm, fiquei super feliz em saber isso, nem me toquei que tinha sido uma evolução “lenta”, eu só pensei que estava chegando perto. Ela me disse que como era bolsa rota eu teria mais 18 horas até a pequena nascer, senão teriam que me transferir, e disse tudo que podíamos fazer pra ajudar. Eu preferi esperar mais um pouco pra ver como ia evoluir depois dessa novidade, se nada acontecesse até amanhecer eu tomaria um shake que prometia fazer milagre, rs. Falei pro Cleber dormir, porque precisava dele descansado. Como não queria ficar sozinha, liguei pra Janie e ela chegou em meia hora, foi ótimo tê-la ali comigo. Da 01 da manhã até umas 03:00, as dores começaram a se intensificar. Eu respirava fundo, mandando ar pra pequena, e depois de um tempo já falava uns “aaai” baixinho.

 

 

Fui ao banheiro de novo, já andando meio torta, e quando voltei pro quarto, não deitei mais (era umas 3:30 – eu sei graças ao horário das fotos na câmera, hehe). Me apoiava na parede quando vinha a dor, que já estavam mais longas e intensas. Chamamos a Carina e lembro que a Janie disse pra ela “acho que tem neném querendo chegar”. Depois de auscultar de novo, dessa vez por mais tempo (era pra ter feito outro cardiotoco, mas eu não quis, pra não ficar nervosa), ela sugeriu que eu fosse pro chuveiro, até foi ligar antes pra ficar tudo quentinho. Tava frio demais e eu não queria nem pensar em chuveiro, em ficar lá em pé. Deitei de novo e aí tirei a roupa que eu tava, pra colocar uma camisola da Casa depois. Eu me sentia indo pra outro lugar. O Cleber foi acordando, me lembro de segurar a mão dele nessa hora, do nosso olhar. Acho que minha ficha só caiu aí que sim, ela ia nascer e estava muito perto. Quando vi, estava chorando. Não de tristeza, de emoção mesmo. Me lembro de me sentir bem por não estar sozinha, por estar com eles ali, daquele jeito.
Como eu não quis ir pro chuveiro, tiveram a ideia de irmos pra banheira, no outro quarto. Eu tinha a sensação que se levantasse, a Agnes ia nascer ali mesmo, então relutei um pouquinho em ir. “Tô tão bem aqui mesmo”, eu falava. “Mas a água é ótima, Má, você vai gostar”. Fomos. Aquele corredor nunca foi tão grande, céus!
E quando eu entrei na água… nossa! Que paraíso!!! Aí sim, aquilo que era vida, haha.
 

Não sei certinho o que aconteceu depois que entrei na banheira.
Sei que consegui achar uma posição confortável, a água era realmente muito gostosa e eu me sentia muito bem ali.
Não sei quanto depois, sei que foi pouco, senti o primeiro puxo. Uau, estava acontecendo mesmo!

 

 

Difícil explicar com precisão esses momentos.
Os primeiros puxos vieram e eu não sabia muito bem o que fazer. É uma força diferente de tudo que eu já tinha sentido antes. Só que, na verdade, a única coisa que eu tinha que fazer era deixar vir, não bloquear, não travar meu corpo. Dali pra frente ele agiria sozinho.
Mas ainda demorou umas duas forças ainda pra eu sacar isso de vez. É algo tão intenso e tão involuntário que eu fiquei meio assustada, se é que foi essa a palavra mesmo. Você tá lá, relaxando na banheira, de repente – e eu disse de repente mesmo – sem nenhum aviso prévio, seu corpo assume o comando e simplesmente faz força – é mais rápido do que o seu pensamento. Surreal! Mesmo se você tentasse não poderia parar aquilo. A natureza é muito perfeita mesmo. Lindo!
Não sei quantas contrações demoraram. Sei que, quando apontou a cabecinha (mas ainda não tinha saído totalmente), ela ainda estava dentro da bolsa – e eu vi! Lembrei do sonho que eu tive, em que ela nascia empelicada. Era muita emoção! Mas a bolsa rompeu quando saiu a cabeça. Essa é aquela famosa hora em que eu achei que fosse rachar, haha. Foi o único momento do expulsivo que doeu, porque nos outros momentos não era exatamente uma dor, é a força, uma pressão forte mesmo.
A cabecinha dela saiu e ainda demorou uns minutos até vir outra contração. A Janie gravou o expulsivo e ontem eu assisti de novo e vi: quase 4 minutos. Foi o tempo que a cabecinha dela ficou na água. Vinha uma contração mas parecia que não era suficiente. Eu chamava por ela, conversava, e em certo momento eu falei assim “ela me responde”. Só lembrei disso vendo o vídeo, muito amor!
Ajudei como pude a manter a força quando ela vinha. Acho que chegou a passar pela minha cabeça que eu queria que fosse suave, que eu precisava respirar pra não lacerar, lembrei das minhas conversas com a Maíra, mas naquele momento tudo que meu corpo falava era que eu precisava fazer força. E eu fiz. Toda a tranquilidade do trabalho de parto deu lugar a uma intensidade sem tamanho quando entrei naquela banheira, e parece que só fez crescer; eu gritava. Era a mãe leoa nascendo também. Eu vocalizava, chamava por ela… e no tempo que ela escolheu, senti seu corpinho escorregando pelo meu, e voltando pra mim. O momento mais forte e mais inesquecível da minha vida, sem sombra de dúvidas.
Saiu da água já chorando forte, coloquei deitadinha no meu peito, falei com ela… e ela parou de chorar. Ficamos ali nos namorando por um tempo, o Cleber junto da gente – como esteve o tempo todo, aliás. Um momento único.

 

 

 

 

 

Aí a Carina falou que era bom eu sair da banheira, pra esperar a dequitação da placenta. Meu único receio de parir na banheira sempre foi esse momento: a saída com o bebê no colo, ainda ligado a mim pelo cordão. Mas a ocitocina e o coquetel de hormônios naturais dominam e não tem como passar mal. Elas encostaram a cama lá do ladinho e me ajudaram a levantar e me sentar na cama. Pra ajudar a placenta a sair – e também porque era um desejo e um direito nosso – coloquei a Agnes pra mamar. E parece que ela estava só esperando por isso, porque pegou direitinho e sugou lindamente. Ficamos assim por quase 2 horas, eu acho. Enquanto mamava, recebeu a dose injetável de vitamina K (a única intervenção que teve, não tinha como ser oral). Eu não olhei e ela nem chorou.
E nada de placenta. Quer dizer, ela descolou da parede do útero e ficou parada no canal. Com a Agnes no meu colo (eu não parava de olhar pra ela), não conseguia me concentrar para expulsá-la. Como o cordão já havia parado de pulsar, o Cleber veio cortar, e foi lindo. Aí enquanto a Rose a limpava, media cabecinha, pesava e vestia, me concentrei na dona placenta. Fiquei com um pouco de medo porque doeu. E tive que me lembrar dos exercícios com o epi-no (e com a ajuda do Cleber), e ela finalmente saiu.
Como tinha bastante sangue na água, achamos que tinha lacerado, até porque a Agnes nasceu com uma mãozinha no rosto e outra no ombro. Quando me examinaram, não tinha nada. Quer dizer, tinha um cortezinho muito pequeno (disseram que era como se tivesse soltado uma pelezinha só, igual quando batemos o dedo, sabe como?) que obviamente não precisou de sutura nem me incomodou em nada depois.

Ah, voltando um pouquinho… assim que eu fui pra banheira, a Janie mandou mensagem avisando meus pais que estava chegando a hora – até porque a Lilian estava descansando lá. Minha mãe disse que foi tomar banho e, antes de saírem de casa, chegou outra mensagem dizendo que já tinha nascido. Ou seja, essas fotos aí de cima quem clicou foi a Janie. E foi mesmo muito rápido: 3:30 eu ainda estava no outro quarto, e ela nasceu 4:30! Pelo horário dos registros, foram uns 30 minutos de expulsivo (contando de quando eu senti os puxos). Não imaginei que fosse ser tão rápido.
Eles chegaram e depois que a placenta saiu, a Lilian entrou pra fotografar a Janie fazendo os carimbos com a placenta – ficaram lindos! Aí ela fotografou a Agnes, a gente com a equipe, enfim, o depois. Gostei muito.
Depois de tudo meus pais entraram no quarto, todo emocionados, e ficaram lá babando a neta (e impressionados que eu não tinha levado nenhum ponto, rs.

E sim, meus amigos, o que eu falava estava mesmo certo: o tempo da Agnes é só dela. É tranquilo, mas também é muito intenso. Forte e suave. É precioso. Como a minha menina é.

 

 

E foi isso. Um parto que está reverberando em mim até hoje, me trouxe muitos sentimentos e lições, com certeza vou levar um tempo pra digerir tudo ainda.

Eu gostaria de agradecer imensamente as pessoas que estiveram comigo nesse caminho.
As minhas doulas lindas: Maira e Janie, por todo apoio, informação, ouvidos, palavras, massagens e abraços. Vocês foram muito importantes, obrigada.
A toda equipe da Casa Angela, muitíssimo obrigada pelo acolhimento. Por respeitarem meu plano de parto, meu espaço, meu silêncio, minhas vontades. Todo mundo que faz parte e contribui pra Casa ser o que é, as enfermeiras que me assistiram, as meninas da cozinha (jesus, que comida ótima!), obrigada.
A minha obstetra Catia Chuba, que me incentivou a buscar o empoderamento durante todo o pré-natal, obrigada.
Aos meus pais e a minha família, pela paciência, disposição e todo apoio, obrigada.
A Lilian, que se disponibilizou a fazer o registro do parto e esteve ali o tempo todo, muitíssimo obrigada.
Aos amigos que se fizeram presentes e estiveram comigo durante a gestação, obrigada.
E por último, mas não menos importante, quero agradecer muito ao meu parceiro de vida, Cleber, por ser quem é, por ter se empoderado, estudado e bancado tudo isso comigo, não me deixando sozinha em nenhum momento. Por confiar em mim. Pelas palavras. Pela presença. Pelos abraços. Enfim, é muita coisa. Por tudo. Obrigada.

Ufa, que bom que consegui terminar o relato. Ficou grande, mas tinha de ser assim.
Beijo!

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17 Comentários

Arquivado em acontece comigo, Agnes, amor, Casa Angela, casulo, coisa linda, doula, espera, parto natural, relato de parto, tempo

17 Respostas para “Relato de parto

  1. MUITA EMOÇÃO! MUITO LINDO!

    Ai Marina, o teu parto foi perfeito pra ti. Foi tudo a tua cara, do teu jeitinho, bem como te imagino.
    Tu é uma fortaleza frágil, uma meiguice forte…não sei explicar, mas eu te admiro muuuito e ler o teu relato antes de parir, foi muito importante, pode ter certeza.

    To muito feliz de ter sido tudo do jeito que foi, como tu quis, com respeito, com amor, no tempo de vocês. Que coisa mais linda, não canso de dizer!
    Muito orgulho amiga. Agnes chegou com tudo, é uma linda sortuda que soube bem escolher a família que nasceu!

    Parabéns mais uma vez. Vocês são uns lindos ❤

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  2. Lindo, lindo, lindo!!!

    Sabe o que eu achei mais bonito?
    Foi um parto muito “sua cara”, muito como vc é e como foi a gravidez: um parto de intensidade interna, um parto de conexão mãe-bebê, sem movimento, sem atividades, fugindo aos planos racionais e acontecendo (não só literalmente..rs) de dentro pra fora!!!
    Emocionante, Má!! As fotos tb!!

    (ps bobo: me identifiquei MUITO com sua definição de vc criança..até hoje sou assim!
    ps bobo2: aí, que inveja, vc sentiu os puxos!!!)

    Parabéns por esse momento lindo e essa experiência transformadora!!

    Beijos!!

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  3. Choreeeeei aqui! Choreeeeeeei!
    Gente, que coisa linda vocês! Que coisa linda essa chegada….sou muito de falar, mas hoje vou só sentir. Lindíssimo, Marina! A estreia da Agnes foi maravilhosa ❤️❤️❤️❤️

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  4. Que lindo ! E sua cara com ela no colo, esse primeiro reconhecimento ! Nossa, que lindo. Parabéns pra voces que se permitiram viver tudo isso. Parabéns ao seu marido, parceiro pra caramba. Que inspire muitos outros. E saúde, muita saúde pra voces todos. Beijos !

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  5. Uau, que lindo, que intenso, que perfeição da natureza…
    Obrigada por compartilhar conosco sua história linda.
    Beijos em vocês

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  6. Relato lindo e intenso.
    Parabéns a vcs!
    Estou cada dia mais fascinada pelo universo do parto humanizado. Já imaginando que quero um assim, também no tempo do meu bb.
    Bjus***

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  7. Ahhhhhhhhh! Uau, Marina! Que lindo, lindo! Meus parabéns! Nossa, o seu relato é um dos primeiros que leio depois de parir e como agora vejo de forma diferente, fico comparando com o meu e percebo o quanto com cada uma é diferente mesmo, mas parecido ao mesmo tempo…
    Uma linda lua de leite pra vocês, Rita
    http://melancianabarriga.blogspot.com/

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  8. Uaaau, que lindooo. Sonho de parto!
    Deu para imaginar tudo, vc relatou de uma forma tão doce.
    Parabéns por ser essa mulher e mãe empoderada.

    Beijos

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  9. relato lindo, forte e intenso.
    Parabéns, Marina e seja bem vinda, Agnes…

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  10. Que lindo, que sublime, que doce!
    Feliz por vocês: pelo processo, pelo parto, pela chegada da Agnes!
    Parabéns Marina!

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  11. Lido,lindo,forte mexeu comigo esse relato
    como é lindo deixar acontecer a mãe se entrega
    a natureza responde,e Bebê ajuda.Parabéns

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  12. Lindo, emocionante!!! Obrigada por compartilhar esse momento!! Desejo muita saúde, paz e luz pra Agnes e pra vcs!! um grande beijo

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  13. Patricia pereira

    Marina , não te conheço , conheço a Janie, uma linda mulher que tive o prazer de caminhar ao lado e, alguns momentos nesta existência, por isto cheguei até ao teu relato.
    Me emocionei e parece que tinha um filme passando na minha frente! Tudo tão intenso, tão verdadeiro. Parabéns por teres atraído e deixado entrar esta experiência tão única de ser mãe , desta forma, a mais natural possível , sem métodos violentos, somente com muito amor e entrega! Um luxxxxooo!
    Grata pelo compartilhamento.

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  14. Pingback: TODOS CONTRA A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA – #VOBR2014 | Travessia Materna

  15. Jéssica de Sá

    E eu que só li esse relato hoje 24.07.2017. Que maravilhoso, Marina. Estava lendo o e-mail com o texto que você escreveu sobre os 3 anos da Agnes (com atraso porque a vida é assim mesmo e só hoje consegui ler, mas não deixo passar porque sei que sempre vem algo de maravilhoso). Fiquei como coração disparado já no texto do e-mail. Esse por trazer mais detalhes fiquei um pouco mais calma, mas ansiosa também. Que lindo. Quanta coisa. ❤

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  16. Pingback: Em paz com a minha história | Travessia Materna

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