Um lugar chamado puerpério

Então você pari um bebê lindo e rosa, se sente inundada de felicidade e ocitocina, fala pra todo mundo (várias vezes) o quanto você está feliz por ter dado tudo certo e por estar vivendo aquele momento. Claro que você não consegue parar de olhar pra cria – e fica siachando porque acabou de parir e nem quer dormir pra descansar, olha que forte! Mas aceita de bom grado o farto café da manhã que surge na sua frente, óbvio. Você quer contar pra todo mundo que pariu, que sua filha é linda, que o mundo é bom! Tudo é divino maravilhoso! As horas vão passando, a euforia vai dando lugar a algo mais palpável… parece que você fez uma maratona e seu corpo começa a doer pelo esforço físico. Você vai ficando dividida entre dar só uma descansadinha e continuar com o neném no colo, aí dorme, mas parece que não funcionou muito bem, parece que permanece em alerta.
Acho – não tenho muita certeza, a placa estava meio apagada – que é nesse ponto em que tem uma porta aberta te esperando: bem vinda, você chegou ao puerpério! 

Bom, pelo menos foi assim que eu percebi a coisa. Ou quase assim.
O fato é que – vou confessar aqui só pra você – sempre tive medo do puerpério.
Nunca tive medo do parto, nem da dor. Nunca tive medo de cuidar de um bebê, de me sentir responsável por um serzinho tão pequeno. Mas eu tinha um receio grande do pós parto, sim. Porque eu li e me informei que os hormônios ficam doidões, que a gente chora, ri e sapateia ao mesmo tempo. E bem, eu já sou super sensível, chorona de natureza, eu imaginava que não ia dar certo ser tomada por esse turbilhão de hormônios desse jeito. Por outro lado, também tinha lido que quem tem um parto respeitoso, inundado de ocitocina natural, sente menos o tal do baby blues. Daí era esperar pra ver, né. O dia chegou e, bem, só posso dizer por mim: os primeiros 15 dias não foram fáceis, não.

Fui entrando nessa fase aos poucos – ou foi o puerpério que foi entrando em mim? – sem muito alarde. Um passinho de cada vez e quando eu vi tava dentro do furacão.

Começou com o cansaço físico – essa coisa de parir cansa mesmo, né? Sem contar a privação de sono. Sem brincadeiras, quando eu fico sem dormir eu pifo, não funciono de jeito nenhum. Esse era um receio grande meu em relação aos primeiros dias: como eu faria com a privação de sono. Para ser bem sincera, teve um episódio em que eu simplesmente apaguei, assim, de uma vez. Foi lá na Casa Angela ainda. Acordei achando que tinha só tirado um cochilo, que tudo estava sob controle, e o Cleber me perguntou se eu estava bem, com uma carinha meio preocupada. Aí eu vi que tinha rolado alguma coisa. E o que tinha rolado? A Agnes tinha se esgoelado de tanto chorar, eu não acordei. Ele me chamou, tentou me acordar, eu nem tchum. Ele a pegou, colocou no meu peito… e eu não vi!! Nada, não lembro de nada-nada, até hoje. Quando ele me contou isso, comecei a chorar, fiquei apavorada. Imagina! Eu ser incapaz de ouvir minha filha recém nascida! Me senti muito culpada, a pior das mães. Só agora consigo falar sobre isso, mas me senti muito mal, com vergonha. Naquela madrugada uma enfermeira me ajudou bastaste, conversou comigo e ficou com a Agnes no colo por 1 hora pra eu poder dormir tranquila. Mas eu tinha muito medo de dormir e acontecer de novo. Tive que aprender na raça a descansar junto com ela, porque aí era um pouco mais fácil.

E os sentimentos? Ah, os hormônios, esses fanfarrões! Tudo ganhou uma nova dimensão pra mim. Chorei muito, por qualquer motivo. Não quis muitas visitas. E essa parte foi meio complicada, porque moro com meus pais, né, e somos uma família bem unida, bem animada. Eu gosto disso, mas me vi num momento totalmente oposto. Queria fugir, queria me enfiar numa caverna. O Cleber conversou muito com meus pais, ele foi a ponte entre mim e o mundo exterior, rs. Acabou que nem tive grandes dores de cabeça quanto a isso, o pessoal entendeu que era um momento meu, delicado, e vieram aos poucos, no tempo certo (leia-se: no meu tempo). Agora que já passou eu percebo que foi até tranquilo. Mas lá de onde eu olhava tudo era diferente. A gente vira bicho mesmo, querendo proteger a cria. Eu ficava nervosa com quem vinha me dizer qualquer coisa sobre como eu cuidava dela, como se as coisas fossem muito mais graves do que realmente eram. Para mim, eram. Fiquei sensível com outras coisas também, com o meu relacionamento. Meu marido foi incrível, cuidou lindamente de mim, mas fiquei mexida, sim, não posso negar.

Em contrapartida tem um sentimento muito louco nascendo também, que é o amor materno. Cuidar do bebê, querer fazer tudo certo, aprender a decifrar o que está acontecendo com ele. Tudo ainda muito novo. Olhar aquela pessoinha tão pequena, tão dependente e que você ama tanto, desejou tanto. Se derreter com os sorrisos involuntários, com os barulhinhos, com aquele corpinho tão frágil, que você segura como se estivesse protegendo o seu bem mais valioso. E está.

É muito desconhecido pra lidar de uma vez só. Parecia que não ia passar nunca, que ia ser sempre aquele limbo, aquele stress. Em alguns momentos me sentia fora do ninho, como se não fosse certo estar passando por aquilo. Como se todo mundo estivesse vivendo num mundo lindo e colorido, com seus recém nascidos nos braços, exalando amor e leite, e eu chorando de amor e de medo por tudo que estava vivendo.

Quando a Agnes fez 15 dias foi o primeiro dia que não me senti estranha com esse tanto de sentimento misturado. Me olhei no espelho e, em algum lugar daquele olhar que eu via, consegui me ver de novo. Foi um alívio.

Essa semana ela faz 3 meses. Tudo já está mais tranquilo, já (re)conheço os sentimentos, já sei que ainda estou aqui. O furacão passou. Ficou uma bela bagunça para ser arrumada, mas não tenho pressa, não. Sei que é aos poucos que as coisas vão entrando nos eixos.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em Sem categoria

5 Respostas para “Um lugar chamado puerpério

  1. Vou te confessar um negócio aqui: 2 vezes fui acordada por terceiros porque não ouvi o Ravi chorar. Na nossa segunda noite juntos e na primeira noite em casa.
    Fiquei um tempão me sentido a mais “Menas” de todas as menas….
    Ainda bem que o puerpério passa! Ainda bem!

    Curtir

  2. Luciene Asta

    É muito louco isso tudo né ? Eu lembro que adorava amamentar na poltrona de amamentação que ficava num cantinho do quarto, cantinho que eu escolhi, marido arrumou tudo como eu pedi. E eu adorava ficar sozinha lá com ele.Marido e mais velho de 15 anos se uniram muito nessa época, viam muitos programas juntos na tv e eu no quarto com o pequeno. Pois num dia marido entra lá e estou eu chorando. Não eram poucas lágrimas, era choro de soluçar. Estava me sentindo sozinha ! E ele me olhou assustado e perguntou se eu queria ir pra outro cômodo da casa e eu (a loka !) respondi que não, que gostava de ficar ali. O que ele fez? Pegou o mais velho e acampou no quarto. Eu lembro até hoje o sentimento de vazio que senti naquele dia, de me sentir sozinha. Mas eu quis ficar ali sozinha ora bolas ! É difícil, é intenso, mas eu posso te garantir: passa. O que fica ? As lembranças. Então construa boas lembranças disso tudo. Eu tenho ótimas lembranças dessa época com os dois e quando lembro o que sinto é só saudades. Beijos na Agnes.

    Curtir

    • Lu, é uma loucura!!
      Às vezes eu sentia esse vazio também. Eu sentia tudo de forma intensa, como se fosse o fim do mundo, rsrs. E que bom que temos nossos maridos pra dar uma boa força, que entra na loucura pra nos ajudar, né.
      Agora já estou bem melhor, eeee!! haha.
      As boas lembranças ficam, que bom que bom!!

      Beijo nosso!! ;))

      Curtir

  3. Pingback: O segundo ano como mãe e a vida fora do binômio | Travessia Materna

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s