Precisamos falar sobre parto

Esses dias tenho me lembrado muito do meu parto. Uma lembrança boa, uma nostalgia do momento mais intenso da minha vida: o nascimento da minha filha. Eu olho pra ela hoje e penso no que passamos juntas naquela madrugada, em como ela se acalmou imediatamente quando eu falei com ela e a coloquei no meu colo. No vínculo que também nascia ali naquela banheira, pronto para crescer junto com a gente.

Uma vez vi a Ana Thomaz dizendo num vídeo que a gente precisa se entregar mais à vida, aos momentos. Parar de buscar – porque sim, estamos sempre buscando alguma coisa. E que ela aprendeu isso com seus partos domiciliares: parto é entrega, definitivamente não é busca. E aí uma ficha enorme caiu lá dentro da minha cabeça: eu demorei muito para me entregar. Justo eu, que vivo falando sobre isso, que entendo esse conceito etc e tal. Mas aconteceu. E quando a ficha caiu, eu chorei. Precisava lavar essa lembrança. Só aos poucos é que eu fui assimilando todos os fatos e digerindo o momento.

Quando eu penso em uma palavra sobre o meu parto, logo me vem ‘forte’ na cabeça. Um momento forte. No quesito intensidade, densidade mesmo. Foi forte. Foi lindo também, eu sei, mas de dentro do furacão eu senti primeiro a sua força. Mexeu comigo. Me desestruturou. E por alguns dias eu achei que tivesse alguma coisa errada. Ah, puerpério, seu fanfarrão! Turvou minha visão com uma sombra diante dos meus olhos. Sombra minha mesmo, aquela que tá sempre aqui, esperando os momentos mais sensíveis para vir à tona. Hoje eu li que “quanto mais perto chegamos da luz, mais haverá sombras”. Com certeza foi isso. É que algumas coisas foram muito difíceis pra mim durante o trabalho de parto. Eu suportei bem a dor, soube lidar com elas. Mas não posso dizer o mesmo de alguns sentimentos. Foi como se eu tivesse entrado num lugar em que morassem vários sentimentos e lembranças delicadas da minha vida. E eu não queria passar por aquilo, simplesmente não queria. Queria que fosse só bom, sabe como? Em algum nível, acho que tentei fugir. O que é exatamente o oposto de entrega. Fiquei eternamente esperando sair desse limbo para então entrar na coisa bonita de ‘estar em trabalho de parto’ e tudo mais (seja lá o que isso queira dizer), como se as duas sensações não pudessem coexistir. O fato das pessoas me falarem que poderia demorar muito ainda, de certa forma me fez esperar por algo diferente, tipo assim: ok pessoal, isso foi só um ensaio, vamos pra real agora (sem contar que isso brecou um pouco a minha intuição). Mas óbvio que não rolou, né. Já era a vida real. Já era trabalho de parto. Já era o MEU trabalho de parto, a minha história sendo construída, sem ensaios, sem pedir licença. Simplesmente estava acontecendo. A vida sendo vida, como dizem por aí.

E simplesmente não foi como “nos livros”. Não foi um parto de manual. Eu senti a primeira cólica/contração na madrugada de domingo. A Agnes nasceu na madrugada de terça-feira. Ok, no domingo pode ter sido apenas pródromos. A real é que eu não sei ao certo quando foi realmente que começou o TP. Na segunda pela manhã toda senti contrações. Cheguei na Casa Angela, estava com 5 pra 6 cm, colo médio. Não faço ideia de que horas comecei a dilatar. E nem ali, com mais da metade do caminho (em cm) percorridos, a coisa engrenou de vez. Tornou parar. Vinha e ia. Nunca por mais de 1 hora igual, com o mesmo intervalo. Meia noite tive uma ruptura alta de bolsa, acho que ficou mais perto uma contração da outra, mas não estava contando nada. Me falavam que podia demorar – e falavam por que? Porque eu não gritava de dor, estava tranquila, deitada, apenas “esperando”. Mas deu 3:30 e eu não quis mais ficar deitada, não dava. E 4:30 a Agnes nasceu. Foi de meia noite até às 4:30 que ficou mais intenso, mas só nessa última hora o bicho pegou de vez, sem piedade. Eu gritei no expulsivo. Vivenciei uma força animal, nunca antes vista por mim. Essa força vinha de mim – de algum lugar desconhecido, mas era minha. Era eu. Eu era forte, então? É meu esse poder de trazer uma pessoa ao mundo? Impressionante. Era um recado claro: não importava o que eu já tinha passado na vida, que lembranças eu tinha, como eu tinha me comportado até ali. Era hora de olhar pro agora. Uma nova vida estava chegando. Me deu todo tempo pra eu me preparar, mas agora era a nossa hora. Dali pra frente, seria o presente. Tempo presente. O meu presente. A Agnes estava me falando que faríamos aquilo juntas e que era hora de eu fazer a minha parte no acordo. E eu fiz. Foi tsunâmico. Foi transformador. Tranforma(dor).

Quando acabou eu estava extasiada de felicidade. Eu estava exausta. Foi muito cansativo aquela sabatina sentimental. As pessoas vinham me parabenizar, as enfermeiras ficaram encantadas em como tudo se deu. E eu pensava: vocês não sabem o que eu passei, definitivamente não sabem. Durante um tempo eu não achei tão bonito assim. Até que a poeira começou a assentar e minha doula veio me ver, trazendo as fotos do dia. Quando eu vi uma foto, eu na banheira, o Cleber me apoiando atrás, as enfermeiras me olhando, ali sentadas, eu percebi. Tinha sido lindo. Aquela foto é a própria imagem do meu plano de parto: não façam nada, apenas estejam ali para, e quando, for necessário. Quem vai parir sou eu, me deixem em paz (rs). E assim foi.

 

11.1

 

A imagem me traz uma sensação muito boa, vendo aqui de fora. De lá de dentro da banheira eu já estava na partolândia. Sabia que a Carina estava ali porque estava ao meu lado, sabia do Cleber porque segurava sua mão. E só. Em algum lugar eu imaginava que estava a Rose e a Janie, mas tudo suposto, eu não as ouvia. Não ouvi nem os clicks da câmera. Eu era pura emoção e sentimento ali dentro, encontrando a melhor posição para parir minha filha. Era como se fossemos só nós duas no mundo.

A partir do dia em que vi essa foto que as coisas foram se reajustando, que eu fui colocando tudo em seu devido lugar.
Foi forte, fortíssimo. Mas foi lindo também. Um portal que me levou pra uma outra dimensão, me fez ver as coisas por um outro prisma. Tudo aquilo que me visitou faz parte da minha história, de mim, mas agora está num lugar mais adequado. A verdade é que houve uma ruptura naquela banheira, a Agnes chegou chegando mesmo, rasgando minhas verdades em pedacinhos.
Um mundo novo passou a ser construído desde então; lá mesmo, naquela banheira. Vamos ver no que é que vai dar.

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6 Comentários

Arquivado em parto, puerpério, reflexão

6 Respostas para “Precisamos falar sobre parto

  1. putz Má! Acho que a gente devia sentar pra conversar! Rsrs como foi parecido pra mim!!!!!
    Eu sempre quis ser a protagonista de tudo e no parto não foi diferente, mas quando tava no final, eu queria “parar a brincadeira”! Demorei pra lembrar exatamente do parto, do trabalho de parto todo e fico pensando se nao “bloqueei” de alguma forma a saida do Thomas, porque tinha horas que eu cansei, que queria acabar com meu show!
    Depois, quando vi as fotos relembrei de tudo e me vi como a protagonista, como a mulher forte, como a animal parindo! Tb gritei no meu expulsivo e foi como vc descreveu: um grito animal, que matou ali a Carol 1! Virei a Carol 2, a mãe, a mulher, a fêmea que pariu com a força do corpo! E que força, né???
    Bjooooks

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    • Carol, dá aqui um abraço!! \o/
      É muito forte tudo isso, muito intenso!
      Eu também já pensei se não atrasei as coisas, mas depois fico pensando que eu precisava desse tempo – e que certamente a Agnes também precisava, lá dentro, porque quando ela quis vir, não teve quem a fizesse esperar mais 1 minuto que fosse, haha (como é até hoje, aliás, kkkk).
      Que bom que temos a oportunidade de olhar pra trás – e pras fotos – e colocar tudo em seu devido lugar.
      Obrigada pelas palavras.

      Beijo nosso!

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  2. Que forte e que importante esse post!!
    As sombras, a força, a intensidade…tudo isso é tempero (ardido, como pimenta!) pra deixar a experiência do parto tão transformadora, ne?! E acho que esse olhar pra trás, reviver e “re-olhar” é ingrediente fundamental do resultado final – a mãe!!! 😉
    Beijo

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  3. gabrielagrossi

    Lindo e intenso post, Marina! Eu tenho quase quatro anos de pós-parida, mas até hoje o parto ecoa. Demorou pra cair minha ficha, demorou para perceber que de fato eu havia parido. O processo psicologico foi muito maior que o fisiologico, rendeu muito. Hoje eu consigo estufar o peito e contarmeu feito: eu pari natralmente. Mas o caminho ate aqui foi tudo, menos facil. Beijos nas duas

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  4. Marina,
    Ler teu post me fez pensar tanto sobre o meu próprio parto, a falta de controle, o medo, as sombras, o esperar pensando “ainda não é tp”.
    Hoje Helena completa um mês e ainda não digeri. Ainda não consigo falar sobre partos ou assistir videos.
    Com teu texto conclui que quando eu pensava que faltava me entregar, eu na verdade já estava entregue.
    Beijos

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