Eu quero uma casa no campo

Esses dias eu vim aqui contar sobre a solidão que surge em alguns dias nessa travessia.
Falei que aqui nessa cidade tudo é longe. As pessoas ficam envolvidas com suas rotinas e afazeres e é difícil marcar alguma coisa de uma hora pra outra. E não estou reclamando das pessoas, cada um vai se virando como pode, eu sei. Tô reclamando é da dinâmica da cidade mesmo. Acho que estou em crise com São Paulo.

Quando eu era criança e morava em Minas, dizia que um dia viria pra cá. Nem demorou tanto assim, com 11 anos meu pai veio trabalhar aqui e voltamos novamente à terra da garoa. Para ser sincera, adorei. Não sei, mas morar em São Paulo fazia muito sentido na minha cabeça, não dava para ser de outro jeito. Eu gosto daqui. Gosto do que a cidade me oferece. Cultura, shows, livrarias lindas, a Avenida Paulista, que eu simplesmente amo, a Vila Madalena, parques… tem tanto lugar legal aqui. E aí vieram as pessoas. A melhor amiga da escola que até hoje está na minha vida, outros tantos amigos, de tantas épocas, de vários lugares, pessoas que eu admiro, pessoas em quem eu me inspiro, sem contar todas as outras pessoas interessantes que eu nunca nem troquei um oi, mas sei que estão aqui, cruzando comigo na rua, fazendo parte desse cenário doido e intenso. Além do meu marido, que conheci aqui. Além de uma parte da família, que sempre esteve aqui. São Paulo tem tudo, né. Tem escola tradicional e escola alternativa. Tem hospital particular cesarista e tem casa de parto. E tem equipes de parto domiciliar. Tem carro e (agora) tem bicicleta. Tem prédio e tem parque. Até a distância sempre me pareceu algo positivo, porque eu adoro descobrir caminhos novos por aqui (gosto que compartilho com o Cleber, aliás, só ele sabe o quanto já andamos a pé e de ônibus por essa cidade). Por mais que eu nunca tenha almejado um cargo importante numa multinacional (que aqui tem aos montes), por mais que o meu corpo sempre tenha trabalhado num ritmo um pouco menos frenético, eu me sentia bem aqui. Em casa. Talvez porque aqui caiba tantas singularidades. Abrace tantos estilos.

E você que está aí me lendo agora pode pensar que eu sou romântica demais. Que essa cidade é um caos. Que o trânsito é um inferno. Que as pessoas são mal educadas, são egoístas, só pensam em dinheiro. Que a violência está em toda parte, não dá para descuidar. Eu sei. Eu sei que pessoas ruins e egoístas estão em todo lugar, e por morar numa cidade grande, muitas delas estão mesmo aqui. De qualquer forma eu gostava e focava mais no lado bom do que no ruim. Porque é assim que eu olho pro mundo.

Só que alguma coisa mudou.
O estopim pode ter sido o nascimento da Agnes, mas não começou aí. Também não sei quando foi. O fato é que, se antes eu queria vir pra cá e amava voltar depois de cada uma das férias, pelo tamanho e o tanto de possibilidades que eu tinha aqui, de repente eu queria ir para um lugar onde tivesse menos. Menos barulho, menos pessoas, menos interferência. Talvez eu tenha mudado. Não tem me apetecido mais essa distância. Para levar minha filha para pisar numa simples grama eu preciso arrumar uma mochila com roupa de outra estação, pegar o carro ou transporte público, talvez enfrentar lentidão, ficar lá pouco tempo pra voltar antes da hora de pico. Dela e da cidade. Desanima todo esse ritual e preparação todo dia. Óbvio que eu podia pensar diferente se eu morasse ao lado do Villa Lobos, só descer o elevador e pronto. Ou numa casa com quintal legal. Não é a minha realidade. Eu não tenho nem uma pracinha perto de casa, que dirá um parque. Moro em condomínio, mas a área social é uma vergonha de tão pequena. Não tem nem balanço. Sério, como uma criança cresce sem balanço? Fora que a ideia de me contentar em viver dentro dos limites do portão do prédio passa muito longe do meu conceito de liberdade. Que é a palavra chave para uma infância mais plena e feliz. E é aqui que eu paro. Antes, quando tudo era só belezas na minha visão, eu não tinha uma pessoinha em casa. Os planos da chegada dela ainda eram distantes. Comecei a mudar de opinião quando percebi que a cidade não é amigável com as crianças. Tem quem tente, tem que arrume um jeito, quem crie suas vilas e redes de compartilhamento, mas não é tão comum.

Quando eu comecei a estudar sobre o parto humanizado, caí também nas questões da infância e tudo mais sobre esse universo. Juntando isso com a infância que eu tive, que foi das melhores que se pode imaginar em termos de liberdade, brincar na rua, contato com a natureza, etc – e que eu sempre desejei para os meus filhos também – a ficha foi caindo que não ia rolar bonito aqui em São Paulo. E realmente não está rolando. Por isso eu tô em crise. Sou hippie, quero comer orgânico, quero liberdade, quero árvore, quero segurança e tranquilidade na rua, quero muita coisa que aqui não tá tendo, não. Não pra todo mundo que quer. Muita gente tem pegado o caminho contrário e ido para outras cidades. Nossa, muita gente que eu acompanho tem feito isso nos últimos tempos. Tô doida pra fazer isso também. Mas ainda não dá, não é a nossa hora. Não temos planos concretos de nada, na verdade, só vontade.

O que eu sei é que não dá pra continuar como está. Vou começar um projeto sobre os lugares legais (que não são meus vizinhos, nem de bairro) que tem aqui na cidade para levar as crianças. Projeto é só uma forma bonita de dizer que vou me obrigar a enfrentar o lado ruim e ficar firme na proposta. Com o único objetivo de me fazer continuar gostando daqui um pouquinho. E não entrar em depressão com as coisas ruins. E me dar força para continuar até achar um lugar melhor para morar. E oferecer, por enquanto, pelo menos uma vez por semana, um pouco mais de qualidade de vida para minha pequena. Ou eu vou ter motivos para sair daqui de vez, ou vou conseguir encontrar um jeito de ressignificar minha relação com a cidade. Só sei que do jeito que está não quero continuar.

Anúncios

8 Comentários

Arquivado em acontece comigo, ajustando a vida

8 Respostas para “Eu quero uma casa no campo

  1. Oi Marina

    Sabe que eu não comentei no outro post, mas me sinto assim. E não sei se é por conta da gestação, mas vivo os dois sentimentos no mesmo dia: falta de gente perto / necessidade de ficar reclusa :-// Vai entender?!?
    Olha, sobre a casa no campo, te entendo também. E essa falta de preparo para as crianças também afetam cidades menores. Mesmo não morando em SP (apesar de trabalhar na Paulista) eu preciso enfiar meu filho no carro pra poder brincar um pouco.
    É triste ver que a sociedade não é receptiva com crianças. Como são vistas como “empecilho” para a adultos civilizados viverem de acordo com os preceitos “idéias.”
    Tem algo muito errado!

    Bjs

    Curtir

    • Maira, sabe que eu também sinto essa necessidade de reclusão algumas vezes? haha vai entender essa cabeça das mães, né.

      Sim, triste esse cenário onde os pequenos são sempre empecilhos. Pelo visto não é só aqui, né, infelizmente. Sigamos com as nossas práticas e crenças, em todo lugar, tenho fé que uma hora a coisa começa a melhorar 🙂

      Beijo!

      Curtir

  2. Luciene Asta

    Como eu entendo esse seu sentimento ! Eu já me peguei abrindo sites de ofertas de emprego em cidades do interior. Mas confesso que sou um pouco medrosa pra arrumar tudo e fugir. Não consigo imaginar criar meus filhos longe dos tios e primos, mas também ando cansada de ter que andar muito pra achar uma área verde pro Mateus brincar. Hoje vi no Instagram que voce fará essas incursões às segundas-feiras e achei o máximo ! Pra mim resta apenas o domingo e nem sempre consigo encaixar uma ida a um parque, longe sempre longe, pra ele pisar na grama. As pessoas logo dizem ‘ah mas voce mora no Rio, Cidade Maravilhosa’. E eu sempre digo ‘maravilhosa pra quem mora na zona sul’. Eu moro no subúrbio ! A 40 km do Corcovado e do Pão de Açúcar, e tudo que há por perto deles. Lagoa Rodrigo de Freitas nós só vamos 1 vez ao ano e olhe lá, porque inclui tudo isso que voce falou, roupas mochila, etc….é quase uma viagem…rs
    Estou tentando seguir essa linha que voce citou, de tentar ressignificar minha relação com o Rio.

    Curtir

    • Ai, Lu, tem isso também, verdade. Aqui a Agnes está perto dos avós e parte da família, super importante.
      Não temos planos concretos de sair daqui, como comentei no post, porque existe toda uma vida aqui já, enfim. Entendo seu lado aí no Rio também, ainda mais que fui aí esses dias mesmo, sei como são as distâncias e tudo mais.

      Sigamos juntas nas práticas e reflexões ❤

      Beijo grande!

      Curtir

  3. Nossa Marina, eu poderia ter escrito esse post – talvez não tão lindamente quanto você. Venho conversando isso com marido ha muito tempo, mas ele é muito urbano e workaholic pros meus planos hiipies… Rs. Vejamos o que o futuro nos reserva.

    Curtir

  4. Eu fiquei alguns dias ensaiando um comentário.
    Mas sou tomada pelo mesmo sentimento, de deixar a selva de pedra e arrumar um pedacinho de chão para plantar e colher, pros meninos pegarem bicho de pé e morango silvestre dos arbustos.

    Penso seriamente nisso para daqui a uns anos.
    Marido também.

    Difícil essa coisa de viver numa megalópole sem conhecer nem mesmo os moradores do meu próprio prédio, sem aquela coisinha de cidade pequena, sei lá. Estamos juntas, Marina.
    Sempre em sintonia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s