Carta do dia: do que não pode ser diferente

São Paulo, 26 de abril de 2016.

 

Filha,

Nós somos pessoas vulneráveis. Estamos sujeitos a todo tipo de acontecimento, a vida simplesmente não tem controle algum – aceitar e conviver bem com isso já é meio caminho andado para conseguir um pouco de leveza.

Ontem comecei a te escrever uma carta, mas acabei não terminando. Você dormia no meu colo, logo acordou e não continuei o que estava fazendo. A verdade é que antes de você dormir eu estava meio surtada. E nessa carta específica eu te pedia desculpas por não poder ser uma pessoa diferente em alguns momentos. Briguei contigo por um motivo muito pequeno e, reconhecendo imediatamente a besteira que fiz, peguei você no colo, larguei tudo pra trás e saímos de casa. Ir lá fora tomar um ar sempre me ajuda. Grudei em você pelo resto do dia e acho que ficamos bem. Eu não sei como consegui me acalmar, ou talvez eu até saiba, só não saiba explicar direito, não sei.

Eu ainda preciso aprender tanto, meu amor. A fazer as pazes com parte da minha história, a colocar algumas coisas no lugar. Acho que preciso aprender a me desculpar também. Eu não sou uma pessoa perfeita, então é óbvio que como mãe eu ainda vou errar muito. Mesmo que me doa, que te entristeça, que nos assuste. Os erros existem e, mais hora menos hora, aparecem para dar um oi. A gente não controla tudo, lembra? E é bom que seja assim, acredite. É bom porque pode unir pessoas, acalmar corações, trazer novas perspectivas. Eu acalmei meu coração ontem quando mudei o foco dos meus pensamentos e me permiti chorar pelo que realmente me deixou mal. Você dormia no meu colo e as lágrimas continuavam caindo, e eu apenas deixei que elas se fossem. Ainda tenho trabalho a fazer em relação a isso, mas o importante é que não vou mais jogar pra ti de agora em diante. Temos outras coisas para viver, juntas.

No fim do dia foi você que teve uma crise de choro, que ainda não sei se era cansaço (o fim de semana é sempre mais corrido) ou reflexo da manhã. Te abracei muito, dei colo, cantei e depois ficamos em silêncio, você mamando e eu só ali, sendo sua mãe. Durou um tempo bom. A casa estava vazia, éramos só nós duas nos entendendo e nos sentindo, como gostamos tanto de fazer. Depois você levantou da cama e quis ir brincar com o leão de pelúcia e com as bonecas que um dia foram minhas. Me mostrando que é preciso seguir em frente, que tudo fica bem quando a gente se dispõe a ficar bem. Pode não ser fácil, mas é bastante simples – e talvez more aí a nossa maior dificuldade, não é mesmo? Não quero esquecer esse aprendizado, filha. Obrigada por me mostrar – e por ser tão paciente comigo.

 

Com amor, mamãe.

 

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6 Comentários

Arquivado em acontece comigo, Agnes, carta, eu mãe

6 Respostas para “Carta do dia: do que não pode ser diferente

  1. Que carta linda Má =), também fico muito mal quando grito ou brigo com o Anthony, mas sempre peço desculpas e recomeçamos e lógico me policio para não repetir, mas como você disse aprendemos diariamente a ser mãe e isso claro envolve muitos erros, se permitir chorar é muito importante. A relação de vocês é muito linda e forte <3. Espero que agora você esteja melhor Má! Bjs em vcs duas!

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  2. A mãe perfeita não erra, não grita, não briga, não perde a razão, e obviamente não existe.
    Que a maternidade real, mas leve, seja constante.
    Que você e Agnes cresçam juntas.

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  3. Má, sua linda.
    Se te consola, tem dias que também saio do rumo.
    Perco a paciência, sei lá porque.
    Na verdade eu sei sim, sei que me cobro demais, sobre tudo.
    Mas assim vamos caminhando dia após dia, fazendo as pazes com nós mesmas, e principalmente com eles.

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  4. De todos os aprendizados, o mais difícil é aprender a ser mãe!
    Passei pelo o que você passou semana retrasada, e confesso que ainda estou bem mal por tudo. Chorei, rezei, pedi perdão mas criei a consciência de que sou de carne osso, como você e que errar faz parte e ajuda a nos tornarmos pessoas melhores.
    Fico feliz que vocês duas tenham se acertado e que encontraram conforto uma na presença da outra.
    Ai ai, como é difícil essa coisa de maternar, né? Difícil e deliciosa, cheia de extremos e realizações.

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  5. Você é humana. E o amor aceita as pessoas como elas são. Vale para vc em relação a sua filha e ela em relação a você.
    bjs

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  6. Quanto aprendizado: aceitar nossas imperfeições, arrumar nossos erros, pedir desculpas por eles, aceitar que eles existirão…E com tudo isso nos ombros (ou seria “com tudo isso pra trás”?) seguir em frente…

    Tem coisas nessa vida que acho que só filho mesmo pra ensinar pra gente!

    Linda carta, como sempre! ❤

    Beijo!

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