Arquivo do mês: novembro 2017

Carta do dia: sobre o tempo e sobre nós

Oi, filha

Escrevo essa carta de madrugada, enquanto você dorme ali no quarto. Faz tempo que não venho registrar sensações e pensamentos por aqui, o tempo anda muito doido – ou melhor, eu ando muito doida em relação a tudo; o tempo é sempre o mesmo, nós é que mudamos o olhar, não é? (também não sei, talvez você tenha uma resposta mais crível pra mim quando ler essas palavras).

Mas sim, uma coisa é fato: tem muita coisa acontecendo na nossa vida. 2017 tem sido um ano surpreendente, para dizer o mínimo. 

Esse tem sido um ano de coragem. Um ano de olhar pro fundo de mim, mais uma vez, e entender que a gente precisa de muita entrega na vida para seguir o coração. Um ano de aceitar que preciso de ajuda. Que já consegui superar vários desafios. E que quando penso que estou num eixo e vou seguir assim por muito tempo, puff, lá vem uma curva sinuosa pra mostrar que, sim, ainda tem muuuuita coisa que ainda preciso melhorar e aprender. Que bom.

Esse tem sido um ano bonito e desafiador do seu crescimento também, filha. De você brincar mais com outras crianças, de ficar bem sem mim ou sem o papai, de falar coisas lindas e de aprender sobre limites e espaços – penso que todos os anos da nossa existência são sobre isso, não é exclusividade de quem tem 3 anos, né? Esse foi o ano em que te colocamos na escolinha pela primeira vez, para tirar menos de dois meses depois. Porque é importante reconhecer quando uma escolha não foi lá muito boa (o papo sobre limite cabe aqui também). Você quis mais a minha presença depois disso, o que nem sempre aconteceu da forma fluida e natural que eu tanto gosto, porque os nossos ritmos estavam diferentes. Faz parte, eu acho. Com certeza você viu mais desenhos do que seria permitido pra sua idade. Comeu doce demais. Ouviu uns gritos meus. Coisas que não me trazem muito orgulho, mas aconteceram e, sinceramente, não posso prometer que não teremos nunca mais. 

Mas de qualquer forma, no fim do dia é abraçada a mim que você dorme. E agradeço imensamente pela sua paciência e pela sua companhia. Por sempre chamar de novo pra ir brincar lá fora. Por andar no seu ritmo e parar pra ver minhocas e formigas e folhas e gravetos. Por querer ver o dia quando acorda – e as vezes querer que esteja nublado e que tenha poças de água lá fora “para dar água pras plantinhas”. Obrigada por me fazer pensar em outros jeitos de lidar com a raiva ou com o tédio. Obrigada por riscar todas as paredes da casa e pintar o chão de tinta – e por querer limpar depois no maior estilo bagunçado com água e sabão – são sempre ótimos exercícios de desprendimento. Obrigada pela sinceridade e pelo carinho. Obrigada por me contar sobre o que sente (um dia você disse, depois de uma crise de choro “eu fiquei frustrada, mamãe).

Acho lindo demais você me perguntar sempre que eu chego da rua “e aí, mamãe, como foi a sua tarde/a terapia/o show/o almoço com a sua amiga?”. Você se importa, meu bem. E isso sempre muda tudo.

Sabe, filha. Se tem uma coisa que já posso dizer que aprendi esse ano foi que a gente sempre pode tentar de novo. Nada é definitivo, nem os dias incríveis e muito menos os que parecem durar uma eternidade e mais 10 minutos de sofrência. Mesmo que esteja durando três meses ou sete anos. Sempre vai chegar aquele dia em que a gente simplesmente acorda, olha ao redor e começa pegando as meias do chão, porque é tanta coisa que precisa ser feita que é melhor começar pelas meias – pelo menos a gente esquenta o pé de noite, né?

Você tem me ensinado que todo dia pode ser um dia bom pra começar o que se quer. Toda hora pode ser a hora.

Então eu nem preciso esperar virar o ano ou chegar alguma data específica pra dizer, né? Obrigada, meu amor. Muito obrigada por me mostrar que é possível, se eu quiser que seja.

Sigamos sempre juntas.

com amor,
mamãe

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Arquivado em Agnes, amor, carta