Arquivo do mês: abril 2018

Respirar fundo sempre ajuda

Agnes chorando de manhã antes de ir pra escola.
Queria dormir mais, ela diz. Cansaço pelo dia cheio de idas, vindas, encontros e brincadeiras, ontem.
Saindo de casa, mostro pra ela o céu azul quase sem nuvens. Digo que ela está cansada, mas que daqui a pouco tem soneca na escola. E que ela vai se divertir lá. Lembro que respirar fundo sempre ajuda. Que ela é uma menina forte e muito amada. Depois ela me pede pra cantar uma música e vai se acalmando.
Daqui a pouco tem mais choro de novo, eu sei. Não é sobre calar definitivamente. É sobre como a gente pode lidar com o que incomoda (dentro e fora) – principalmente antes das oito da manhã.

Faço isso pra ela.
E lembro a mim mesma também.

Respirar fundo sempre ajuda.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

Carta do dia: o difícil não é ruim

Filha,

tem rolado muita coisa no mundo. Muita revolução, muita luz entrando e mostrando, com aquela claridade desconcertante, feridas antigas, dores profundas, traumas e medos que andavam rondando a mente e as ruas e que agora parecem estar escancarados bem na nossa frente. E isso é muito difícil de lidar, mas pode ser um caminho de cura também, se assim quisermos. 

Calma, vou refazer a frase. É difícil de lidar e também um caminho de cura, porque as duas coisas são verdade, uma não anula a presença da outra. 

E por falar em difícil, preciso confessar que algumas vezes esse discurso do fácil x difícil (que eu mesma faço também, tudo é caminho e seguimos aprendendo) me irrita um pouco. É preciso entender que nem sempre difícil é ruim. Ok, as vezes é ruim mesmo e tudo bem, aceitemos. Tenho a vaga impressão de que aceitar torna o processo mais fluido. Fluido significa apenas que vamos tirar nossa mente controladora do caminho e aceitar que nem tudo é sobre a gente (oi, ego) e permitir que o nosso corpo, que a nossa vida, siga o fluxo dos acontecimentos que já estão arrombando a porta. Mas, sim, voltando. Achar que tudo que saia do fácil é ruim é uma armadilha da nossa zona de conforto, que prefere ficar reclamando sentada no sofá – mesmo que esse sofá esteja afundando em areia movediça. Vamos pensar juntas, filha. O que é fácil? Respirar é fácil e mesmo assim a gente consegue se desconectar disso – e, por vezes, fazemos até cursos, participamos de aulas e assistimos palestras sobre como respirar “certo”. Esse é um caminho, inclusive agradeço a muita gente que já me ajudou a voltar a respirar de forma mais livre e eficaz (não é engraçado usar uma palavra como eficaz, que remete a algo produtivo e quase mecânico, para falar de algo tão involuntário e natural como respirar?). Me dispor a aprender, e a praticar, tem algo de esforço, sim, porque estou saindo de um padrão estabelecido há muito tempo pela minha mente. Posso entender isso como difícil, ou como um processo que vou passar até que respirar pelo nariz e não pela boca esteja incorporado em todas as minhas células e eu não precise mais pensar sobre isso.

Percebe que fácil é tudo aquilo que fazemos sem pensar? Ou que pensar é sempre relacionado a esforço e dificuldade? A quem interessa que o mundo, a vida, seja assim? Fica a reflexão.

A transformação vem pela prática diária, pelos aprendizados, pela nossa vivência. Prática diária significa esforço, persistência, paciência, não julgamento, entre outras coisas. A isso costuma-se dar o nome de vida também (rs). Se olharmos para o que nos acontece apenas pela lente do difícil, então vai ser difícil. Se olharmos pela lente das possibilidades infinitas de autoconhecimento e oportunidades de aprendizado, assim será.

Porque, por acreditar, é.

E isso tem uma força enorme. O que não significa, de forma alguma, que não haverá dores em diferentes escalas, ou abismos. Algumas coisas são como são e fim. Como a gente escolhe atravessar esses momentos é o que fortalece, dentro de nós, os sentimentos todos. Falar em facilidade ou dificuldade, por si só, é muito raso diante de todas as camadas que compõem o ser humano e o mundão véio sem porteira em que vivemos.

Então, filha, preciso te dizer que sim. Tem rolado muita coisa no mundo. Parece retrocesso, parece loucura, parece o caos. Os monstros que antes moravam embaixo da nossa cama tem rosto, nome, sobrenome, cargo importante e estão por aí, pelas ruas, nas casas, na internet, tomando decisões de escala federal com base apenas na sujeira de seus umbigos. Mas tem rolado muito mais coisa no mundo, filha. Muito mais. As pessoas estão se unindo em escala mundial, estão abraçando sonhos, abraçando ideias e dando abraços coletivos no meio da rua. Estão reconhecendo semelhantes. Estão deixando sua voz sair. Estão aprendendo a ouvir e a ver o tamanho da força de suas intenções. Isso realmente não está na escala do fácil, filha. De aceitar. É como acender a luz do quarto mais escuro da nossa mente. Mas é que pra curar a gente precisa enxergar, precisar nomear, precisar pegar e sentir. E precisa querer também, porque parece que a cura só  acontece quando a gente procura por ela.

A história é construída todos os dias, filha. Todos os dias. 

O que está acontecendo é difícil de lidar, sim. Muito. A gente pode internalizar como algo ruim. Este é um lado da verdade e eu o reconheço. Mas reconheço também o poder enorme de transformação e de expansão que está acontecendo no exato agora. Não depois que toda dor passar. Ao mesmo tempo. 

O movimento está acontecendo e está cada vez mais claro e mais aparente. Vamos escolher resistir a ele, ou vamos tirar a bunda do sofá para aprender com ele? 

 

com amor,
mamãe

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria