Das coisas que a gente fala

“Mamãe, hoje na escola ninguém queria jogar a bola pra mim”

“É, filha? E como você se sentiu com isso?”

“Acho que eu me senti sozinha”

Nos abraçamos em silêncio. Não era só a mãe da Agnes dando um conforto pra sua filha. Era a criança que eu fui abraçando um sentimento que ela reconhece tão bem. Éramos nós duas sendo abraçadas e sentindo que ainda bem que o tempo é vivo e faz a roda girar e ficar tudo bem.

Mas independente disso, é mesmo um baita presente poder olhar pra minha filha e ver que ela consegue falar o que sente. Dentro do possível pra ela e para os seus quatro anos – e as vezes demora uns dias pra ela soltar e dizer. Mas ela fala.

Como num dia que ela virou pra mim e disse:

“Mamãe, quero conversar com você. Por que você tá brigando tanto comigo?”

“Porque a mamãe anda muito cansada, filha. E quando eu tô cansada eu acabo brigando com mais facilidade. Mas me desculpa. Já percebi e estou melhorando essa parte, não é culpa sua”.

Esse diálogo aconteceu depois da sequência de fatos: eu cansada/estressada brigando ou me irritando com facilidade sem nem perceber as consequências -> Agnes absorvendo a energia e ficando mais sensível -> Agnes chorando na escola/querendo ficar só perto de mim e nervosa com o pai -> eu irritada com isso e o ciclo todo de novo -> minha ficha caindo que ela queria mais atenção dos pais, com presença inteira -> Cleber e eu alinhando isso e passando mais tempo juntos dela -> ida só nós três no parque sexta depois da escola, com muita conversa e atenção + fim de semana de boas -> ela me dizendo a frase do começo na segunda.

Ou seja.

Ela tem o tempo dela. Nós todos temos os nossos processos. E quando ela se sente segura, num ambiente calmo, ela fala com muita tranquilidade o que quer dizer. Nós, enquanto adultos cuidadores, precisamos mesmo é dar base, suporte, amparo. E deixar que eles cresçam e digam o que tiverem de falar, e sejam o que quiserem ser.

É um puta trampo educar e criar uma pessoa. Ainda mais porque temos os nossos próprios fantasmas para lidar ao mesmo tempo em que fazemos todo o resto. Mas é lindo de ver quando alguma tentativa dá certo – e dar certo significa apenas o momento, e não a vida toda resolvida, rs.

É mesmo um trabalho de formiguinha. Mas é muito bom – e nos faz muito bem – poder construir isso, essa base, plantar essa sementinha, dentro dela.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Das coisas que a gente fala

  1. Eu acho tão, mais tão linda e gostosa a relação de vocês duas. ❤

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  2. Essas crianças amadas têm um repertório de expressão de sentimentos fantástico! E quando eles os nomeiam, comumente nos nomeiam, também. É que não tem como dar sem receber muito, muito mais, e quando menos se espera… Aí é que vem, mesmo!
    Parabéns! Paz e bem!

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