Arquivo do mês: abril 2019

1 mês de Liz

1 mês que ela chegou.

Das profundezas do mar, com todo mistério, força e entrega que essa imagem representa e é, chegou a nossa amada baleia. Com uma presença linda, cheia de amor.

Foi mais de uma vez que Cleber e eu conversamos e compartilhamos do sentimento que veio igual pra nós dois: parece que faz muito tempo que ela chegou pra nós. A gente cuida dela com uma intimidade de anos. Ela se aninha em nosso colo e dorme, e olha em nossos olhos, como quem reconhece exatamente quem somos. Olha pra Agnes e é como ver um reencontro de almas – e ela se lembra.

Que coisa linda é contemplar a chegada dessas pessoinhas neste planeta. Eu só agradeço.

Essa foto aí em cima é de uns 10 dias atrás e é incrível como ela já mudou e cresceu. Todo dia os traços, os jeitinhos e as dobrinhas vão ganhando novas formas, rs.

Ela dá aqueles sorrisos involuntários de neném desde o primeiro dia. Hoje ela acordou e sorriu grande pra mim e eu achei que nem é mais tão involuntário assim. Coisa de mãe, né!

Edição: na consulta com o pediatra, com 1 mês e 3 dias, eis as medidas da pessoa. Tamanho: 55cm. Peso: 4,970kg. É uma baleinha muito da fofa, não podemos negar! 😍

Sei que tem sido dias de alegria, cansaço e reconhecimento. Esse puerpério está beeem diferente do primeiro e eu tô gostando de viver essa experiência. Mas isso eu conto melhor num texto a parte. Por enquanto, fica aqui alguns registros desse primeiro mês.

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A chegada da Liz – relato de parto

escrevi sobre o momento exato do nosso nascimento aqui, neste link.

escrevi sobre “o antes” aqui, neste link.

*

Quinta-feira, 28 de março de 2019

Eram quase nove da noite quando a Vanessa, doula, foi embora. Eu tinha vontade de ficar quieta, descansar. Estava com um sentimento diferente no peito. Eu sabia que estava muito perto da Liz chegar, mas ainda guardava isso comigo. Não sabia se podia ser na manhã seguinte ou dali uns dois dias, mas sabia que estava perto. Fiquei sozinha em casa com a Agnes. Coloquei um filminho pra gente ver deitada na minha cama, porque era a única forma que eu conseguiria dar atenção pra ela e talvez fazê-la dormir. Assistimos um pouco, mas as cólicas começaram a me incomodar. Não eram apenas coliquinhas, mais. Eram contrações mesmo, doloridas. Fiquei com ela o tanto que deu, e ela já havia notado que “a mamãe está com a dor que vem e vai”, mas em algum momento achei melhor começar a marcar as contrações no aplicativo. Mandei mensagem pro Cleber, que estava quase saindo do trabalho, e disse que o queria aqui, que estava começando. E adivinha só, ele me disse que viria rápido, sim, mas que tinha passado a tarde toda com mal estar e estava com dor de barriga. Eita nois. Lá fomos nós viver o TP com duas pessoas sentindo dor, rs.

Quando ele chegou, eu estava tomando banho de novo. Estava, inclusive, abaixada no chão e ele chegou na hora certinha para me ajudar a levantar, rs. Nos abraçamos e sabíamos que o caminho já estava sendo percorrido. “Parece que começou mesmo, né?”, ele disse. Sim, havia começado.
Ele realmente não estava legal, fisicamente, e eu estava de boas quando a contração passava, então deitamos todos para descansar. Devia ser por volta de meia noite. Agnes dormiu abraçada com ele, no nosso meio. Os dois dormiram e eu bem que tentei também, mas se consegui ficar meia hora deitada, foi muito.

Já era 29 de março. O dia exato da DPP.

Dor de barriga. Levantei, fui ao banheiro, voltei, duas vezes. Marquei mais algumas contrações. Eu tava tão em outro lugar já, que no meu entendimento elas não tinham regularidade direito. Estou olhando o aplicativo agora, enquanto escrevo, e percebo, meio atônita, que nenhuma delas estavam vindo com mais de 5 ou 6 minutos. A “irregularidade” variava entre 4 e 2 minutos. Partolândia, que brisa enorme viver você rsrs. Aquela dor que chega, cresce como uma onda e depois vai diminuindo até acabar. Algumas mais longas, outras mais curtinhas, mas super presentes. Entrei no banho de novo, o terceiro. Sentia a dor agindo, sentia meu corpo abrindo. Pensei na força que é ser mulher, no meu caminho até ali, rezei pra dar tudo certo, para que a Liz chegasse com saúde e bem. Eu me sentia bem sozinha, gostei que estivesse sendo daquele jeito, tanto que escolhi permanecer assim, somente Liz e eu no ritmo que nossos corpos pediam e pulsavam.
Mas aí, no chuveiro, com a dor incomodando um pouco mais, tão fincada no tempo presente que não conseguia pensar ou lembrar as próximas decisões sobre o tp, lembro claramente de pensar que eu queria companhia, agora eu queria. “Sinto a força de todas as mulheres aqui comigo, eu não estou sozinha. (pausa de alguns segundos). Nem preciso passar por isso sozinha”, foi o pensamento.

Mais do que companhia, eu queria tomar suco de limão, hahaha. Liguei pra minha mãe, que mora na ala ao lado, no mesmo prédio. Por ela, eu já iria naquele momento pra Casa Angela, mas eu só queria meu suco de limão, então ela veio fazer pra mim, rs. Era 1:50. Eu estava sentada no quarto da Agnes. Tomei o suco em meio as dores. Doía e eu vocalizava um pouco, do meu jeito. Minha mãe colocava a mão na minha lombar, que era onde doía mais, e isso ajudava. Depois fui pra sala e me ajeitei no sofá, ajoelhada na almofada e apoiada no encosto, depois consegui me recostar um pouco. Liguei pra Vanessa e minha mãe que falou, eu não queria falar nada, mas aí ela passou o telefone pra mim e eu não sabia responder se queria ir logo ou ficar mais em casa. Decidi esperá-la aqui. Quando ela chegou, eu estava de volta ao quarto da Agnes, Cleber já tinha levantado e estava ao meu lado, e minha mãe também.

Na minha cabeça tudo estava indo rápido. E desde que a Van chegou até sairmos não demorou mesmo. Mas deu tempo de ouvir algumas músicas que eu tinha escolhido na playlist, de xingar um pouco pelas dores e de ainda achar que “vai que tá cedo pra ir”, haha. Fiquei em casa o máximo que consegui, realmente. Antes de irmos, abrimos meu escudo de proteção, vi cada imagem ancorada ali e foi maravilhosa a força que veio. Saí de casa 04:20, chapada de ocitocina, dizendo que estava com medo, e o mais impressionante é que eu me lembro claramente de tudo – aquela frase saiu da minha boca “tô com medo” e eu estava feliz por dizer, por não guardar e empedrar isso lá dentro, e só de falar parece que liberou um outro espaço e nem era um medo tão grande ou assustador assim. Surreal de lindo. Quando terminei de descer os 3 andares de escada já estava falando que ia nascer, fui andando bem devagar até o carro. No céu, uma lua minguante maravilhosa me iluminando. Fui meio de quatro no banco de trás com a Vanessa ao meu lado. Cleber no banco da frente e meu pai dirigindo. Eu vocalizava, cantava, pedia pro meu pai não correr demais. E nos intervalos ainda falava que estava feliz e que sentia muito, muito amor. A energia do amor mesmo, ao meu redor.

Cheguei na Casa Angela por volta das 04:45. Do caminho, pedi pra ligarem avisando que estávamos indo e para irem enchendo a banheira, que eu queria muito. Saí do carro devagar, a Gisele, parteira, me esperava ali ao lado e me incentivava com carinho. Cheguei no consultório e ela apenas mediu minha pressão e fez o toque: 9 centímetros. Levantei da maca e fui descer pra sala de parto. No fim da rampa eu já sentia a força do expulsivo chegando. Entramos na sala, vi que uma enfermeira que estava lá, a Rose, também esteve no nascimento da Agnes, fiquei feliz de reencontrá-la. Tirei a roupa, entrei na banheira, a bolsa estourou e imediatamente a força chegou, se fazendo sozinha, meu corpo era apenas portal. Duas ou três, nasceu a cabeça. Eu gritava, segurava a mão do Cleber (também mordi, ele me contou depois, rs) e sentia uma energia imensa tomando conta de mim, não dava para controlar nada e menos ainda não “fazer força” entre uma contração e outra. Sei que vieram algumas e o corpinho ainda não tinha saído, eu pedi ajuda e a Gi, com muita leveza, ajudou e o corpinho saiu. Eu olhava pra cima, só senti seu corpinho escorregado de dentro de mim, não vi que antes de sair da água ela foi desenrolada das duas voltas de cordão que estavam no pescoço e na barriga. Foi questão de segundos mesmo, ela estava aninhada em mim. Era 05:09.

Pra mim, demorou um abismo de tempo. Ela ali no meu colo, roxinha, porque é mesmo assim que os nenéns nascem, não chorou logo que saiu da água e eu só respirei quando ouvi sua respiração em mim. “Ela tá respirando”, eu disse, e um mundo de frases saíram da minha boca, pra ela e também pra mim. Palavras de amor e de saudade. Palavras que a recebiam neste mundo e que era também a minha despedida, porque houve um renascimento forte ali pra mim – e isso significa, sim, que houve uma morte também. A impermanência é mesmo uma benção. Falei palavras de gratidão e de muito amor. E ela chorou. Aí eu soube que podia calar a boca, rs. Estava tudo bem. Ela não saiu do meu colo e eu sabia que isso era o melhor sinal de todos.

Tomei a injeção de ocitocina na perna e saí da banheira. Ficamos aninhadas por uns quarenta minutos até que vieram ver a saída da placenta, que ainda estava grudada. Fizeram massagem, rebozo e depois de um tempo ela saiu – confesso que não curto muito essa parte, mas né, o parto só acaba quando a placenta nasce.

Ela mamou bastante na primeira hora de vida. Já na cama, pertinho do meu peito, ela começou a balançar a cabecinha daquele jeito lindo que os recém nascidos fazem quando querem mamar, mas ainda com a mãozinha na frente, rs. Logo “se achou” ali e não desgrudou do mamá tão cedo.

Eu estava radiante! Ia falar que “não sei o que houve, eu parecia outra pessoa, de tanta animação e gratidão que eu sentia”. Mas eu sei, sim, o que houve. A Liz havia nascido. Eu havia parido. E, céus, como eu estava feliz! Muito! Eu olhava pro Cleber ali sentado na poltrona, olhava pra Liz no meu colo e depois no colo dele, olhava pro quarto, pra banheira, lembrava das cenas e sabia. Estava tudo onde deveria estar. Tudo tinha acontecido do exato jeito que era pra ser, e tinha sido do jeitinho que eu queria – e eu só descobri como eu queria quando acabou, rs.

Não tive nada de laceração, nem grande sangramento (obrigada lua minguante, rs). Tomamos café da manhã – e ali eu voltei a tomar chá, ao que tudo indica. Mamão com granola, chá de erva cidreira, pão com manteiga na chapa. Tomei banho e quando voltei Cleber e Liz dormiam. Deitei também, mas era tanto hormônio ainda que não havia sono, fiquei deitada descansando o corpo e repassando os detalhes daquele começo de vida intenso e maravilhoso.

O dia que nasceu Liz.
29/03/2019
pesando 3,555kg.
medindo 51cm
apgar 9/10
nasceu na água, numa passagem extremamente semelhante a da irmã, mas cada uma com a sua energia, obviamente.
Minha ariana guerreira, que parece ver tudo com seus olhinhos brilhantes. Muita gratidão pela sua chegada e pela sua presença aqui em nossas vidas.

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“eu já escuto os teus sinais”

Sentíamos que a Liz estava perto de nascer. Isso desde que entrei a termo, praticamente, e claro que foi ficando mais forte no decorrer das semanas. Era a barriga baixa, o meu andar lento, uma dor chata no quadril, as cólicas aparecendo, muitas contrações de treinamento, ela que já estava encaixada. Na consulta de 37 semanas, na Casa Angela, a EO chegou a dizer para eu não esperar muito em casa, o segundo parto tende a ser mais rápido algumas vezes, etc e tal. Na consulta de 38 semanas, a mesma coisa. Além do mais, aquela era semana de lua cheia, então todos pensamos que podia ser mesmo dali a muito pouco. Não foi. Deu tempo de finalizar tudo do enxoval, chegar o carrinho e o bebê conforto que comprei pela internet. Deu tempo de ir ao cinema com o Cleber, namorar, conversar. Sair várias vezes pra “resolver” qualquer coisa, só pra sair de casa. Deixar a Agnes faltar aula só pra passar a tarde coladinha nela. Deu tempo de ter chá de bençãos. Até de normalizar a taxa do exame de sangue e sair da linha da anemia deu tempo.

A médica do posto (todo o pré natal foi pelo SUS) me disse assim, quando passei lá com 39 semanas:  “sabe, os índios dizem que é melhor pro bebê e pra mãe nascer na lua minguante. Porque minguam-se os problemas. E a cicatrização, recuperação do corpo também tende a ser mais branda”. Amei essa explicação, achei de uma sintonia incrível ela me dizer isso, porque tenho andado muito próxima a esses ensinamentos ancestrais.

Deu tempo de ir em todas as consultas coletivas da Casa Angela. E até deu tempo de escrever a última cartinha pra Liz ainda na barriga (e que só postei aqui depois que ela nasceu, rs). Aliás, a última consulta foi justamente quando escrevi a carta. Estava com 39 semanas e 5 dias. Era quarta-feira. Demorei pra voltar da consulta por desencontros com marido e com o app do uber, rs. Fiquei sentada numa mureta de um jeito zero confortável e a noite foi de cólicas e quase nenhum jeito pra andar.

No dia seguinte, minha doula, Vanessa, hermana amada, veio me ver. O desconforto do dia anterior tinha cedido quase todo, mas agora as contrações tinham uma cólica mais presente. Conversamos, comemos, ela me fez uma massagem ótima e até deixou o rebozo aqui comigo. Fui buscar a Agnes na escola e ela ficou aqui em casa conversando com a minha mãe, que tinha feito bolo de cenoura pra gente. Tive duas contrações enquanto subia as escadas pra chegar na sala da pequena, mas nem falei nada. Em casa, ainda tomei banho enquanto a Van ainda estava aqui e deu pra relaxar mais. Ela fez sopa pra eu jantar com a Agnes e foi embora. Sabíamos que estava cada vez mais perto… só não sabia que era tanto.

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O nascimento da Liz

Madrugada. Sexta-feira, 29 de março de 2019. Senti seu corpinho saindo de dentro de mim. Não sei se eu estava de olhos abertos ou fechados, mas não era aquele quarto que eu via. Estava em outro lugar. Parece que demorou até ela vir pra mim, mas foram segundos, apenas o tempo de desenrolarem o cordão do seu pescoço e da sua barriga e aí, sim, ela estava aqui, em meus braços. Abri os olhos e a vi pela primeira vez. Passou um pensamento tão rápido como uma estrela cadente. Estava tudo bem com ela. Ouvi sua respiração. Respirei também pela primeira vez. Disse muita coisas pra ela ali, simplesmente precisava dizer. Eu me sentia morrendo e nascendo ao mesmo tempo e não havia mais diferença entre as duas coisas. Estávamos juntas. Cinco e nove da manhã. O dia amanhecia em São Paulo. Era o começo da vida.

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Carta do dia:

São Paulo, 27 de março de 2019.

Liz,

são quase onze da noite de uma quarta-feira de março. A chuva começou a cair, mansa, a poucos minutos, e me lembrei que eu já queria te escrever há dias, e a vontade sempre aumenta quando chove, não sei porquê.

Sabe, hoje estou de 39 semanas e 5 dias. A mesma idade gestacional que eu estava quando a sua irmã nasceu. Mas, ao contrário daquele julho de 2014, hoje estou aqui, na sala do nosso apartamento, curtindo um tempinho tranquila enquanto a Agnes e o papai dormem ali no quarto, sentindo você se mexer dentro de mim e fazendo minha barriga ficar um pouco torta, rs.

Tem sido engraçado viver essa gestação, porque ela não tem mais o gosto do que nunca foi vivido, mas é absolutamente nova. Eu soube que você estava aqui dentro antes mesmo de qualquer atraso, mas foi um longo caminho até sentir você de fato, e não as expectativas, medos ou outras coisas assim. Foi só depois das 30 e tantas semanas que a sua energia se fez presente de uma forma muito forte – tanto que cheguei a imaginar se você nasceria antes, de tanto que te sinto perto.

Não faço ideia de como será a sua chegada e algumas vezes isso quase me assusta. A parte boa é que eu andei descamando tanto das minhas resistências que tenho conseguido navegar com alguma calma por essas águas. Isso é tão bom, tão novo e esperado também. A minha palavra para este ano é confiar e ela está ligada a sua chegada também. Que mesmo diante de tudo que não sei, mesmo estando tão próxima de tanto que já me travou em outros momentos, este agora é só este agora, e eu confio na minha capacidade de passar por isso de um outro jeito. Confio que já está dando tudo certo. E que tudo está exatamente onde deveria – e poderia – estar.

Hoje está chovendo e sinto uma vontade imensa de te ver e conversar contigo vendo seus gestos. Você está bem pertinho, eu sei. Vem quando quiser, meu amor. Vamos ter um lindo caminho aqui fora. Que bom que estaremos juntas nele.

Com amor,

mamãe

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