Carta do dia: estou aprendendo

São Paulo, 23 de maio de 2019

Agnes,

eu ainda estou aprendendo, filha. A ser mãe. Não sei se um dia vou achar que estou suficientemente preparada para falar a frase: agora eu sei, é assim que é ser mãe. Talvez não. Porque a vida é esta constante mudança e as respostas de hoje viram memórias antigas amanhã. As certezas que penso encontrar agora se tornam poeira numa velocidade surpreendente – e ainda me pergunto o motivo de querermos certezas quando o sutil fala tão bem aos nossos ouvidos. 

É preciso ouvir, filha. E quero ouvir mais o que você diz. A sua voz importa. A sua história, as suas memórias, as vontades e quereres. Os sonhos importam. As ideias, as sinapses, as conexões que só o seu cérebro é capaz de fazer, porque é o seu ponto de vista.

Eu quero te ver. Olhar pra você e enxergar os seus traços que mudam a cada dia e que revelam mais e mais da sua vida. Eu te vejo, meu amor. Vejo seus movimentos, seus pedidos feitos com os olhinhos, sua imaginação trabalhando sem parar, seu coração gigante agindo através dos seus gestos. 

Eu não quero me esquecer, por isso tenho me lembrado de priorizar o sentir. O que é sentido fica registrado em nós. Em nossas células. Memória não é só na cabeça. Memória é no corpo todo. O abraço quando acorda e quando chega da escola, os beijos na mão antes de sair, pra você ter sempre um beijinho meu por perto, os carinhos a qualquer hora, dormir junto quando você vai pra nossa cama a noite porque diz não gostar de dormir sozinha. As músicas, oração e leitura antes de dormir. Cozinhar e lavar a louça junto. O café da manhã compartilhado. Compartilhar o silêncio. E enquanto eu escrevo esta carta, você faz penteados no meu cabelo. Verdades ditas de muitas formas, percebo agora.

Gostaria muito que você se lembrasse disso. E gosto de escrever também para visualizar que estamos indo bem, construindo nosso caminho e nossos dias. Filha, sua irmã nasceu a menos de dois meses e nesses dias todos estamos aprendendo a ser quatro. Você tem ouvido mais nãos, não tem meu colo e minha presença sempre que pede. Você nos vê mais cansados, nem sempre com tanta paciência e várias vezes já dormiu mais tarde que o habitual porque ela estava em crise de choro e eu não conseguia fazer sua rotina. Por vezes me questiono como essa fase está sendo internalizada por você – coisas de uma mãe detalhista e afetiva, você sabe. Será que tá tudo bem? Seu pai e eu conversamos constantemente sobre isso e pensamos juntos em formas de cuidar mais das nossas relações. e é nessas pequenices do cotidiano, as vezes um pouco por dia, menos do que eu gostaria, que temos feito isso. Espero que esteja dando certo.

É que eu estou aprendendo ainda, filha. Aprender tem dessas coisas mesmo, muitas vezes a gente se questiona. Te agradeço, de verdade, pela paciência, pela companhia e por não desistir da gente nem um dia sequer. Isso diz muito sobre você.

Te amo infinito, meu amor.

com muito amor,
mamãe.

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Arquivado em Agnes, amor, carta, sentimento, ser mãe

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