Arquivo da categoria: aprender

Carta do dia: verdades que surgem às sete da manhã

Filha,

hoje de manhã, enquanto comia seu mingau de aveia, você começou a chorar dizendo que não queria ir pra escola.

Você passou o fim de semana sensível dizendo que não queria ir mais pra escola. Imaginei ter sido porque, na quinta e na sexta passada terem sido os primeiros dias em que você ficou todo o período, e não mais o tempo da adaptação. Isso depois de cinco dias direto em casa, por conta do carnaval. Foi uma conta que não fechou, né? Também teve o fato de que sábado eu fiquei até as seis da tarde longe, num encontro mensal que participo – e calhou do de fevereiro ser justamente nesse balaio de escola, horas longe, adaptações, etc. Entendo completamente. E no domingo, por mais que estivéssemos pertinho, foi na rua, em movimento e em bando – com toda euforia e cansaço que tudo isso traz.

Aí de madrugada você acordou com uma dor na barriga, pediu chá, e depois vomitou. Dormiu tranquila depois disso, ainda bem. Também natural, visto que é mesmo muita coisa pra digerir. E não digo só pelo fim de semana, mas pelo período que estamos passando, a saber: adaptação na escola, ou seja, uma rotina completamente nova também, já que você fica lá semi integral. Reforma completa na casa da vovó e do vovô, que é o lugar que mais vamos e que, com a reforma, você foi privada de ir; e você entrou lá algumas vezes rapidinho e viu que estava tudo completamente diferente. O Dindo aqui em casa – que é uma coisa boa, mas também nova. Mudanças internas da mamãe e do papai. A vovó que foi pra Minas de repente cuidar da mamãe dela. E até as mudanças na nossa casa coloco nessa conta. Sim, o ano mal começou e já veio um combo de alterações e desafios.

Você colocou pra fora os excessos e eu te admiro por isso.

Escolhi não te levar pra escola ontem porque, além de você ter pedido muito, e do episódio do vômito, eu senti que era mesmo pra você ficar. Pra reforçar nosso vínculo na presença física, num dia de semana normal, na nossa rotina que você estava habituada. E para não se tornar um tormento ir pra escola, aquela coisa que somos obrigados a ir de qualquer jeito e engole o choro. Podendo escolher, não te obrigo a nada, foi sempre assim; caminho do meio total, sentindo o seu tempo, indo com calma; por que ter que já entrar numa coisa fixa e rígida agora? Não faz sentido pra forma que lidamos com as coisas aqui em casa. Tudo bem ficar em casa um dia pra fortalecer o emocional e ir mais calma nos dias seguintes. Tem quem fale que isso faz você não se adaptar, mas eu não estou lidando com suposições, nem com achismos e muito menos com pitacos aqui, estou sentindo você, nossa história, nossa relação. Ontem era melhor que você ficasse e você ficou, ponto. Conversamos bastante no fim do dia sobre a ida pra escola na manhã seguinte, estive calma, te expliquei mil coisas. Enfim. Fiz o que achei que me cabia e que consegui.

Hoje de manhã te senti bem mais calma, apesar das frases de não querer ir e de algumas lágrimas, como as que rolaram depois do café da manhã.

Depois de poucos minutos, você disse:

– por que eu tenho que ficar longe de você e do papai?

(pausa pro meu coração voltar a bater, lembrar que essa é a sua história, não te projetar meus traumas infantis, não chorar também e ir direto cancelar essa merda de escola e vivermos pelados pintados de verde num eterno domingo. respirei. olhei pra agnes e pra vida da agnes)

-é por isso que você não quer ir, filha?

-siiiim (já chorando e novo)

E aí eu entendi, filha. É mesmo uma fase de adaptação. Três anos e meio, toda a sua vida, sendo cuidada por mim, pelo papai e sempre por pessoas da família e, de repente, lá vem essa coisa de escola, de tantas horas longe de todas as referências familiares (#cancerianafeelings), em meio a todas as mudanças que já andavam rolando? Putz, essa é mesmo uma pergunta muito boa. Por que ter que ficar longe das pessoas que mais amo e me passam segurança?

Eu te disse que estamos sempre juntos, que você pode sempre respirar fundo, se acalmar e lembrar da gente com carinho; e que faríamos muita farra e chamego quando estivéssemos juntos. Além de outras coisas que também disse, em outros momentos. E comecei a focar nas coisas boas que tem na escola, ao invés do fato de ser um lugar que você fica sem a gente. Porque pode mesmo ser muito legal, filha, e você vai descobrir ao longo da vida que é bem divertido ter nossas próprias experiências, rs.

Todos os dias, desde que me descobri grávida, aprendo com você, minha pequena moça. É um privilégio sem tamanho ser sua mãe. De novo e sempre eu te digo: que bom que você veio, meu amor. Que bom!

Sigamos juntas, então, crescendo, aprendendo, chamegando e esticando a borda do horizonte do que conhecíamos até ontem – dentro e fora de nós. De vez em quando dói, arde, dá vontade de viver pra sempre no quentinho do colo e do conhecido. Mas aí é só lembrar que nem existe esse lance de pra sempre e que bom mesmo é sentir a nossa força e nossa coragem pelos caminhos dessa vida.

 

com amor,
mamãe.

 

(tudo isso pra dizer que, sim, eu também tô me adaptando e acho que viver no mato sem muros nem regras segue sendo uma ideia maravilhosa que irei defender pra sempre – não péra. que irei cultivar em nós. que irei cultivar dentro. e que sigo sendo uma pessoa que não obedece todas as regras nem na fase de adaptar a pequena na escola e já tô ensinando que pode, sim, cabular. ô se pode!) (apagar essa parte quando ela for pro ensino médio) (ou relembrar isso aqui exatamente nessa época?) (fica a ideia) (não me interditem) (sou doidinha mas sou legal) (dizem) (hahahahaha).

Anúncios

1 comentário

Arquivado em acontece comigo, Agnes, amor, aprender, carta, como lidar?

A timidez, a sapequice e a criança que eu fui

Depois do post das belezas e do encantamento pelos 2 anos e meio, vieram dias de alguns paradoxos pro aqui. Ah, maternidade. Nada é, tudo está.

A pequena anda tímida. Quer dizer, pensando bem, ela nunca foi a mais sociável dos bebês, de ir em colos alheios de cara, numa boa. Só mesmo com quem ela conhece bem. Mas agora, quando chegamos em ambientes com mais gente, quando as pessoas vem falar com ela, cumprimentar, brincar, ela abaixa a cabeça e põe a mão na boca. Fica um tempo assim, caladinha, por vezes se encolhendo um pouco. Pra se soltar, só depois de algum tempo, mais do que nunca.

É fase, será? É genético? É a personalidade dela? São os astros?

Eu fui uma criança bem tímida. Ainda hoje eu sou, apesar de já saber – e conseguir – domar e agir de outras formas. Mas a criança tímida que eu fui ainda existe aqui em algum lugar, sei que sim. E podem até dizer que isso nela é um reflexo meu. Sombras, ou algo assim. Em relação a isso, eu observo mais o meu sentimento quando a vejo assim. O que reverbera aqui dentro pode ser mais exagerado, o que nasce quando a vejo colocando as mãos na boca e enterrando o rosto no meu pescoço pode fazer reviver um monstrinho que vivia comigo lá atrás. É a minha história. E aí, pra não projetar os medos todos, ou seja, para não agir com ela baseada no que eu sentia há mil anos atrás, e não pelo presente, há que se ter muita análise e algum tempo mesmo. Fico repetindo isso pra mim, prestando atenção. Somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, sentimentos diferentes. Mesmo que algumas reações sejam parecidas, não quer dizer que ela está sentindo a MESMA coisa que eu. Essas coisas básicas de uma pessoa que faz autoanálise a maior parte do tempo. Tô acostumada, rs. Acaba que pra mim é até melhor, me faz bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes, quando acontece, não sei direito o que fazer. Não a forço falar com ninguém, mas não sei se tô acolhendo o tanto que “deveria”. Sinceramente, não sei.

E aí, quando chega em casa (e na casa dos avós, que é uma extensão da nossa, só que com mais “coisas permitidas”, se é que me entendem), a pessoinha pega fogo. Sobe, desce, pula, canta, conversa. Muito. Começou esses dias a ter mais enfrentamento dos limites. A gente fala não e ela fica parada, meio olhando de lado, calada, com aquela carinha de “estou te ouvindo, mas tô fingindo que não”, sabe assim? E continua fazendo. Ou então grita. Eu desligo a televisão pra refeição ou alguma outra coisa, ela vai e liga de novo, olhando pra mim. Olha, não é fácil. Essas coisas também fazem nascer sentimentos antigos, né. Dá vontade de dá uns gritos, de fazer a pessoinha entender que não é assim, que não dá pra ser tudo no seu tempo, que é preciso respeitar. Tanta coisa. Vários conceitos a gente quer que eles entendam num olhar – como muitas vezes foi com a gente. “Minha mãe olhava pra mim e eu já sabia que tinha ido longe demais”. Muitas vezes, é com a criança que um dia fomos que nos relacionamos, não com nossos filhos.

Tenho andando cansada esses dias. Emocionalmente cansada. E com uma intuição de que preciso alterar algumas coisinhas aqui na nossa rotina. Estar mais perto, brincar mais lá fora. Ficar mais tempo só nós duas.

Nada é, tudo está, repito de novo. Daqui a pouco os dias passam, as fases mudam e essa página já estará virada. Que eu saiba o que registrar nela, então. Pelo menos na maioria das linhas.

1 comentário

Arquivado em aprender, assunto delicado, autoconhecimento, buscando solução, como lidar?, eu mãe, minha infância, reflexão, sentimento

O meu tipo de mãe

Esses dias vi algumas queridas escrevendo sobre o “tipo” de mães que elas eram e achei bem legal. Porque, né, é sempre bom recordar que não existe modelo perfeito, o ideal morre pra nascer a realidade e nem sempre a realidade é o que ouvimos ou vemos ou acreditamos ser até o dia que chega a nossa vez. Então, para me lembrar disso e incrementar essa corrente divertida, também vou brincar, vamos lá.

Eu sou a mãe que não tem rotina definida com a filha.
Que liberou a tevê sem culpa depois dos dois anos (porque antes era com um pouquinho de culpa, na verdade, rs), mas alguns desenhos seguem sem o conhecimento da pequena. Que assiste série com o marido enquanto ela brinca pela sala.
Eu sou a mãe que quer um quintal e mora num apartamento de 35 m². Que tem que sair pra respirar, porque ficar o dia inteiro aqui dentro enlouquece.
Eu sou a mãe que ainda não colocou a filha na escola, mas que também não faz mil e uma atividades lúdico-pedagógicas-sustentáveis. E tampouco sigo disponível para brincadeiras o dia inteiro, porque de vez em quando a prioridade sou eu. E que bom que existem os avós pra dividir a atenção e salvar o fim do dia.
Eu sou a mãe que leva a pequena pra brincar lá fora num pedacinho de grama e terra e aproveita pra ficar descalça também, porque é o jeito que eu me sinto bem e mais presente. Que deixa a filha pintar com guache no corpo (seu e dela), que larga tudo pra dar colo quando a coisa aperta e que tenta se lembrar de respirar fundo pra não gritar. Mas que já gritou também.
Eu sou a mãe que levou a filha de 2 anos numa pré-estreia de cinema, numa sessão que começava meia noite, porque sabia que seria melhor ficarmos juntos (pai, mãe e bebê). E foi incrível porque ela correu todo o tempo em que estávamos lá fora e dormiu assim que o filme começou. Porque eu sou a mãe que tenta conciliar as demandas da pequena com as próprias vontades. Tem sido assim e a gente até que tem encontrado algum equilíbrio e leveza pelo caminho.
Eu sou a mãe que de vez em quando cisma que tá fazendo tudo errado e tem vontade de mudar de casa, de cidade, de estado. Que chora quando ela dorme pensando que podia ter sido melhor. E que no dia seguinte se entrega um pouquinho mais, e assim descobre que a balança é muito difícil de se manter equilibrada, puta merda.
Eu sou a mãe que leu todas as teorias antes de engravidar e que guardou a maioria delas na gaveta depois que pariu, porque foi percebendo que a coisa mais eficaz é investir na relação, e isso a gente faz no cotidiano e os livros não dão conta da complexidade e imensidão que é uma vida com uma pessoinha ao lado. (e quem disse isso é a mãe que está se descobrindo escritora e tá aqui praticamente falando mal dos livros, vão vendo a loucura dessa mãe).

E tanto mais. Céus. Eu sou a mãe que descobriu que tem muitos interesses e paixões, para além do mundo infantil, que sempre fez (e faz) tanto sentido pra mim. E que ainda não sabe muito bem o que fazer com tudo isso, como encaixar tudo dentro de uma mesma vida. Mas que segue tentando. Ressignificando. Cuidando de quem é. Porque é disso que a travessia é feita. Pelo menos é o que ela acha.

E você, como se vê na maternidade?

1 comentário

Arquivado em acontece comigo, ajustando a vida, aprender, autoconhecimento, desabafo, dia a dia, escolhas, eu mãe, leveza, maternagem, minha opinião, vida real

Algo está certo

Uma das partes mais difíceis em educar um filho é quando o assunto é educação emocional.

A gente tem que lidar com muita bagagem – a nossa, a do pai, a dos avós, da sociedade, etc etc etc. E ainda conseguir amparar uma pequena pessoa em plena formação e transformação (eles mudam o tempo todo!), sem projetar, mas também sem fingir que não está vendo.

Definitivamente, não é fácil.

E haja jogo de cintura. E uma corridinha no banheiro pra chorar e respirar fundo. Ou dar risada do que ouviu.

Alguns dias eu tenho certeza que tá tudo errado. Que esse negócio de educar ainda vai dar merda.

Fecho a cara, fico na minha, não respondo gracinhas.

E aí eu ouço:

-Papai, a mamãe tá bava. Putê você tá bava, mãe? Deixa eu te dá um abaço.

E vem me dar um abraço. E um beijo.

E ainda fala “ponto”. Pronto. Do mesmo jeito que o meu beijo no machucado faz parar de doer. Assim simples.

Aí o mundo dá reset e a gente começa de novo, né. Com mais fé que alguma coisa deve estar sendo feita do jeito certo, afinal de contas. Ainda bem.

Deixe um comentário

Arquivado em acontece comigo, Agnes, amor, aprender, coisa linda, como lidar?, conversando, dia a dia, história, presença

Da calma para as curvas inesperadas

Teve uns dias aí pra trás que a Agnes não queria comer fruta no café da manhã. Fazemos essa refeição juntos, nós três, e ela queria comer pão com manteiga ou requeijão, tal qual estávamos fazendo. Agora que ela não reage mais ao leite de vaca, tenho liberado algumas coisas, como um pouquinho de requeijão. Ela adora! Enfim. Ela queria isso e era isso que ela comia. Ignorava solenemente o mamão, a banana, a ameixa ou o que quer que estivesse na mesa, só tinha olhos pro pão com requeijão.

Nessas horas, meus pensamentos voam longe. “Lógico que ela não quer fruta, os pais dela não estão comendo fruta no café da manhã! Preciso mudar minha alimentação também. Céus, ela comia tão bem de manhã, nunca mais vai querer fruta, pão não é assim tão nutritivo, sou um péssimo exemplo…” e assim seguia por tempo indeterminado. Eu realmente acredito que a minha cabeça tem uma vida própria, à parte dos afazeres do dia, só assim pra explicar esses surtos de vozes sem fim, hahaha.

Não briguei com ela, nem disse nada sobre esse comportamento. Fiz o que costumamos fazer nessas horas, em relação à alimentação: deixei que ela seguisse tendo (alguma) autonomia, mas segui oferecendo frutas todos os dias no café da manhã. Mesmo já tendo certeza que ela iria querer o bendito pão todos os dias daqui até 98 anos de idade.

E então, uns dias depois, eu ainda estava colocando a mesa e perguntei a ela: Filha, o que você quer comer? Já esperando a tal resposta. E ela disse: Mamão. Eu téo (quero) mamão, mãe. Fui pra cozinha quase descrente, mas segui firme no pedido. Cortei o mamão, coloquei no pratinho e dei a ela. Ela sentou em sua cadeira e apenas comeu todos os pedacinhos, sem nem lembrar de pão (naquele dia, rs).

E aí eu penso. Por que a gente sofre tanto, né? Como se tudo fosse assim tão definitivo, tão certo. Por que não confiar e seguir vivendo um dia de cada vez? A gente acha que nunca mais vai dormir, que eles nunca vão comer, que vão comer tudo errado. É tanta coisa que a gente pensa e já vai tendo certeza, sem se dar conta de que eles, esses pequenos danadinhos, estão experimentando o mundo, não querem saber nada de futuro ou de certezas absolutas. Só querem experimentar e viver. É claro que precisamos seguir no caminho que escolhemos e que achamos melhor, mais saudável e possível para nós e nossa família, mas quando surgir uma curva inesperada, dias difíceis e fora do que consideramos ideal, não é preciso sair correndo desesperada em busca de solução. Não assim no primeiro segundo, pelo menos.

Tenho visto, na prática, que é muito mais proveitoso esperar um bocadinho, não sair falando aquelas “profecias auto-realizadoras” (meu filho não come! ela é terrível! fulana odeia dormir!) e apenas observar o que realmente nossos pequenos estão fazendo. Principalmente porque eles mudam muito, o tempo todo. Não dá mesmo pra ser muito definitivo nessa fase da vida. Além do mais, pode ser que sejam só uns dias fora da rotina. As vezes a gente precisa mesmo variar, não é?

Deixe um comentário

Arquivado em acontece comigo, Agnes, aprender, como lidar?, dia a dia, escolhas, estive pensando, eu mãe, leveza

Carta do dia: se cuida!

Filha,

hoje eu levantei mais cedo para escrever. Nesta altura da sua vida, enquanto me lê, você já sabe, com certeza, que escrever é algo que me faz muito bem, para dizer o mínimo.
Acordei cedo, porque de manhã é quando me sinto melhor para fazer isso, e porque seria um tempo em silêncio, já que você e seu pai seguem dormindo ali no quarto. Muitas vezes eu preciso ficar sozinha e curtir o silêncio, filha. Isso não tem nada a ver com você, seu pai, as pessoas, o ambiente. É algo meu mesmo. Algo necessário para colocar os pensamentos no lugar e seguir calma pela loucura do dia. Ou pelo menos tentar. Faz dias que não consigo isso, levantamos sempre todos juntos e você tem ido dormir tarde, nos acompanhando até não aguentar mais. Não tem sobrado muito tempo pra mim, e antes que eu começasse a reclamar disso e fazer dos outros um problema, decidi levantar mais cedo e resolver de vez a questão. Fiquei com medo que você acordasse em seguida, como acontece de vez em quando, mas já se passaram quase 2 horas e vocês ainda estão dormindo. Estou feliz. É muito bom quando a gente faz algo que nos faça bem, apesar do medo. E dá certo. E a gente percebe que o simples continua sendo resposta para as questões que nos afligem. Hoje eu cuidei de mim e queria te falar sobre isso, por isso escrevi.

É muito importante cuidar de si mesma, filha. Não esquece disso, tá?

Pode ser correndo todo dia por quantos quilômetros você quiser. Pode ser dançando. Pode ser saindo com amigos. Indo ao cinema sozinha numa segunda-feira. Viajando. Andando na rua prestando atenção aos detalhes. Parando prum café num dia corrido. Conversando com quem te acalma. Ouvindo música. Indo a shows. Pode até ser levantando mais cedo para curtir o silêncio da casa. 

É sempre possível, mesmo quado parece que não. Principalmente quando parece que não, pare um pouquinho e veja que você precisa ser cuidada também. E que dá certo, sim, não interessa o que todos estão dizendo ao seu redor. Não se deixe de lado, meu amor. Estarei aqui para te lembrar e fazer companhia quando quiser. 

 

com amor,
mamãe.

Deixe um comentário

Arquivado em Agnes, aprender, autoconhecimento, carta

O que eu aprendi ao não postar todos os dias em agosto

Eu queria ter conseguido postar aqui no blog todos os dias durante o mês de agosto. Queria fazer parte dessa brincadeira (BEDA), porque gosto muito de acompanhar também. Mas a verdade é que não rolou do jeito que eu pensei que fosse rolar.

E eu nem vou culpar a maternidade ou a falta de tempo. Tem tudo isso e mais, claro, mas não foi isso que percebi nesses dias que fiquei sem postar. O que eu percebi, ou melhor, confirmei, foi que a palavra escrita pra mim tem muita força. Eu escrevo para além de um passatempo, sabe? É uma espécie de caminho que eu escolhi trilhar. Então, mesmo tendo assuntos e sugestões e ideias (que eu tenho aqui anotado e ainda virarão texto, podem esperar), algumas vezes faltava uma espécie de vontade mesmo. Vontade para desenvolver aquele assunto, para falar da minha experiência, para falar com as pessoas sobre aquela coisa. E então eu não aparecia. Não quis preencher as lacunas com assuntos que não me interessavam no dia, ou que estivessem aqui só para dizer que postei. Eu quis ser leal ao que estava sentindo, entender mais, saber o que aquilo dizia a meu respeito.

Quer dizer, existe uma verdade no meio criativo/literário/algo do gênero, que diz que a gente não pode ficar esperando a inspiração chegar, que o hábito é o que realmente importa. Precisamos trabalhar todo dia, faça chuva ou faça sol, e é só então que a coisa flui com vontade e as coisas acontecem. Eu sei. Inclusive já comprovei isso outras vezes (muitas vezes). Mas, como eu disse ali em cima, a minha relação com a escrita é além de um trabalho. Por mais que exista o exercício e tudo mais, também existe um outro lado, o lado mais abstrato, que não obedece muitas regras. Que precisa transgredir algumas verdades para continuar respirando com tranquilidade. E tudo bem. Eu aprendi a aceitar essa dualidade, estou aprendendo.

Eu quero vir aqui compartilhar minhas histórias e ideias quando eu realmente tiver algo pra contar, e não para preencher um espaço com mais do mesmo. Precisa me fazer bem. Precisa fazer sentido do lugar de onde eu olho.

A vida acontece em várias frentes ao mesmo tempo e eu tenho tentado atender a tudo que consigo, mas um de cada vez. Tentando praticar mais o mindfulness e estar presente na vida. No fim das contas, meu computador queimou o HD, perdi absolutamente todas as minhas fotos, arquivos, programas e etc. Entendi que era preciso dar uma pausa mesmo. Que existiam outras prioridades. Hoje estou aqui escrevendo nele de novo, já reformado (e zerado), e é isso. Um passo de cada vez, vamos lá.

Estaremos juntas no caminho e eu prometo aparecer sempre. Sempre que tiver alguma coisa bem legal pra contar, pode deixar.

Deixe um comentário

Arquivado em acontece comigo, ajustando a vida, aprender, estive pensando, presença, um dia de cada vez

Seja você o limite do seu filho

Uma coisa que eu aprendi quando a Agnes tinha 1 ano, numa consulta de rotina com uma pediatra que, infelizmente, só vimos essa única vez, mas que me ajudou muito. Não sei se já falei disso aqui, mas acho que sempre vale o reforço, né.

Por volta de 1 ano começa aquela fase em que o bebê está mais do que disposto a explorar tudo, mexer em tudo, destruir tudo. Pode começar antes, verdade, desde que vão aprendendo a se locomver sozinhos, mas com 1 ano digamos que eles já ganharam um pouco mais confiança. E, quando a gente vê, está falando “não” o dia inteiro. Não pode mexer no lixo! Não pode ir pra escada! Não pode sentar na mesa! Não pode colocar o dedo na tomada! Não pode comer farelo do chão! Entre tantos outros exemplos inspirados em casos reais.

Se você é como eu, que lê muita coisa pela internet afora, certamente sabe que falar “não” o tempo todo não só não adianta como faz com que o feitiço se volte contra você num futuro breve, porque uma vez que eles aprendem a falar o não, tudo é negado nesta vida, até o que estão querendo, hahaha. Existem muitos textos que falam para não usarmos essa palavra, para usar outras que tem melhores efeitos e etc e tal. A bem da verdade, eu até concordo, mas não segui muito, quando via já estava soltando alguns nãos pelo caminho, simplesmente acontecia. Mesmo que eu tentasse usar outras formas de falar, não me sentia muito eficiente em passar a mensagem, digamos assim.

E então chegou a consulta de 1 ano e fomos lá conhecer essa pediatra bem legal. Em determinado momento, Agnes desce do meu colo e começa explorar o ambiente, que é o jeito bacana de dizer que ela começou a mexer nas coisas tudo. Inclusive abriu uma porta de armário que tinha vários frascos de remédio bem ali, a dois dedinhos de distância. Eu, mais do que depressa, falei que não podia mexer. Fiz o não com o dedo, ela repetiu o gesto, riu e continuou. Foi aí que a médica disse que, nesta idade, o cérebro da criança ainda não processa a palavra falada da mesma forma que a gente, que somos muito mais eficazes quando mostramos com o nosso corpo o que pode e o que não pode. Até 3 anos, mais ou menos, eles entendem pelos gestos, pelo contato. A pequena seguiu abrindo o armário e ela me mostrou um outro jeito de lidar com a situação:

Ela, que estava atrás da pequena, se inclinou na direção da Agnes, colocou o braço na frente do seu corpinho e impediu que ela prosseguisse com o que estava fazendo. Ela não disse nada, nem foi rude, nada. Ela apenas colocou o seu braço a frente do seu corpinho (de um jeito mais “vertical”, do ombrinho pra cintura, e não só pela barriga. Deu pra visualizar?). Ela disse que esses limites físicos são muito importantes para a formação deles como indivíduos, por dois motivos. Primeiro para ela entender que existe uma ordem a ser seguida no ambiente, que ela precisa respeitar aquele espaço. E segundo, se fosse uma coisa que ela quisesse muito fazer, ela poderia tentar mais, descobrir outros jeitos, o que incentiva a perseverança e também a ultrapassar esses limites, quando é possível (isso, do ponto de vista de tudo que ela ainda passará na vida, é um aprendizado e tanto, né).

Cara, isso foi um divisor de águas na minha vida.
Ela fez umas duas vezes pra me mostrar e aí a Agnes ficou brava com aquele impedimento, óbvio. Abaixou no chão, chorou, deu uns gritos. A médica disse que era isso mesmo que aconteceria. Que eu poderia então me abaixar e acolher o choro dela. E é o que eu tenho feito desde então. E vou falar uma coisa pra vocês: é muito eficiente esse método. Claro que eles seguem testando os limites e fazendo coisas que não podem, até porque são muito bebês ainda, né, é o esperado para a idade e para o desenvolvimento deles enquanto pessoas mesmo, mas as famigeradas birras diminuem exponencialmente quando a gente age assim.

Sem contar que assim a gente age com mais presença também, realmente entra em contato com eles, e não apenas solta umas ordens no meio da ação esperando que eles nos entendam e parem imediatamente o que estão fazendo. Somos nós que estamos auxiliando o crescimento deles, e não eles que têm que fazer o que queremos nesses momentos-chave. Gosto de pensar nisso quando a coisa aperta por aqui, rs.

Bom, acho que é isso. Me contem se testarem e gostarem.
E por aí, como foi esse momento?

2 Comentários

Arquivado em acontece comigo, Agnes, aprender, buscando solução, como lidar?, desenvolvimento, presença, ser mãe, vida real

Carta para a Marina de 17

Querida Marina,

hoje você faz 17 anos. Você ainda não sabe, mas esse vai ser um ano um tanto quanto conturbado. Desculpe falar assim logo de cara, mas é verdade – e nós gostamos de trabalhar com muita verdade, você sabe.

Você vai mudar de escola, vai se apaixonar, vai quebrar a cara, vai chorar uma quantidade de lágrimas suficientes para suprir uma vila inteira. Vai ser foda. Você vai ter vontade de fugir, de ficar, de fazer com que tudo que está acontecendo seja de uma forma diferente. Vai fazer um monte de coisas que tem certeza que é porque você quer, mas depois vai perceber que não é bem assim. Mas eu não vim aqui hoje para dizer que tudo está perdido, ou o quanto você errou. Eu vim aqui para dizer que está tudo bem.

Sim, está tudo bem.

Não porque eu seja uma espécie de masoquista que gosta de sofrer e te ver assim, mas porque eu sei que você está inteira em tudo que está vivendo. Você é intensa, querida, muito intensa, e não faz nada pela metade. Você se entrega ao que quer que seja que esteja vivendo. E daqui a pouco vai perceber que se é para ficar pela metade num lugar ou com alguém, prefere ir embora logo – isso vai render muito pano pra manga ainda, mas siga firme no caminho, porque esta é você, afinal de contas.

Para não parecer que vai ser um fiasco de ano, deixa eu amenizar um pouco. Aos 17 você vai decidir voltar pra sua antiga escola, encerrar o Ensino Médio onde foi recebida na quinta série. Vai ter muitas risadas – muitas, muitas muitas mesmo, acredite. Vai ter amigas, códigos secretos, companhia para loucuras, para conversas infinitas depois da escola, para planos e tudo mais que a mente de vocês imaginarem. Vai ser foda!

Sabe, eu tenho muito orgulho da gente. Tudo isso que ainda vai acontecer nos seus 17 anos vai te marcar muito. Não exatamente pelos acontecimentos em si, mas pela forma com que você lidou com tudo, apesar de ainda nem pensar claramente sobre isso. E por como o caminho foi se desenhando depois. Independente de qualquer drama, os novos dias continuaram a chegar e você foi. Mesmo quando achava que aquilo nunca ia passar. Essa coisa de não fazer o que queriam que você fizesse foi ótimo, afirmou muitas coisas aí dentro, pode acreditar.

Hoje você completa 27 anos. Dez anos nos separam. Se eu te contar que você acordou ao lado do seu marido e da sua filha de 2 anos vai dar pra acreditar? E que agora você mora num apartamento que te traz calma e que tem um monte de coisa boa acontecendo? Não vou contar tudo, não quero estragar a surpresa. Ainda tem um bocado de histórias entre nós duas pra rolar, muita água mesmo. Aconteceu uma vida em dez anos. A sua vida. Só vem, querida. Continue caminhando que daqui a 2 anos você vai encontrar um cara muito legal e daí pra frente vai ser só sucesso, mesmo que tenha que dar novos significados a essa palavra. Dica: dar sentido ao que vive vai se tornar quase um passatempo, você vai gostar.

Pronto, chega de falar. Receba o meu abraço inteiro e demorado, acolha tudo que vier, já está dando tudo certo. Estou aqui para comprovar isso.

um beijo,

Marina.

Deixe um comentário

Arquivado em acontece comigo, aprender, autoconhecimento, carta, sobre mim

O segundo ano como mãe e a vida fora do binômio

Ainda no clima dos registros desse segundo ano de vida que está quase chegando, hoje quero falar um pouco sobre uma situação que, sinceramente, eu não havia me preparado muito. O fim do puerpério.

Veja bem, muito se fala sobre o pós parto. É uma fase delicada, em que o bebê está conhecendo o mundo, a mãe está conhecendo sua nova condição e ambos estão tão ligados um ao outro que é quase como se cordão ainda estivesse ali. Comigo foi assim, pelo menos. Tive um puerpério meio tenso do ponto de vista dos meus fantasmas e neuras. Do ponto de vista da fusão com a Agnes, entretanto, foi um período realmente intenso, mas que curti muito. Eu sabia que ia ser assim, eu realmente queria que fosse assim. Não senti muita vontade de ir a lugares sem ela, fazer as coisas de antes, nada disso. Eu estava tão mergulhada ali no nosso oceano que não concebia a ideia de fazer qualquer coisa sem a presença dela, simples assim. Com isso eu não sofri. Se havia vontade de sair, ver gente, eu ia com ela. Estava tudo muito bem resolvido na minha cabeça, estávamos felizes assim.

Aí o puerpério acabou. Mais ou menos quando ela fez 1 ano eu senti que estava acabando. E acho que todo esse segundo ano foi uma despedida disso. Sabe quando a gente vai na beira da piscina e fica só molhando os pés, sentindo a água aos pouquinhos, ainda decidindo se pula de vez ou se entra devagar? Essa fui eu nesse segundo ano. Não foi assim tão simples quanto eu achei que seria.

Eu nunca tinha ouvido falar de mãe que não sabe lidar com isso. O que eu vejo bastante é a vontade de voltar a ter tempo pra si, a trabalhar, a sair com amigos, namorar, viajar. Tudo em torno de um distanciamento muito esperado por aquela mulher, que muitas vezes se sente sufocada ou até mesmo presa na condição de puérpera. A minha maior dificuldade estava em justamente conseguir ter essas vontades. Porque eu fazia tudo que queria, só que com ela do meu lado. Unha, cabelo, cinema, encontros com amigos, show, viagem. Onde quer que eu fosse, lá estava minha pequena moça a tira colo. Só que aí o cenário foi mudando, as demandas foram diminuindo de um lado e aumentando do outro… Eu me via sozinha (quando ela estava com os avós ou só com o pai), por minutos que fossem, e a cabeça ainda estava nela. Demorou pra virar a chavinha aqui dentro e me permitir pensar só em mim, pra variar, rs.

Em janeiro comecei a fazer sessões de coaching e, além de todos os ganhos e descobertas que tive, foi incrível perceber o quanto aquelas duas horinhas semanais só pra falar de mim estavam me fazendo bem. O quanto eu estava precisando disso. Foi quando eu realmente relaxei e abracei essa nova fase. Hoje eu já estou mais adaptada a essa vida fora da fusão. Esses dias até fui numa sessão de cinema só com a minha prima, vejam só que avanço, rs.

Ah sim, com essa nova realidade surgem novos desafios, porque  nem sempre é tranquilo conseguir conciliar as minhas vontades com as demandas dela – mas com certeza já avançamos muito (não que haja um lugar a se chegar, mas né, deu pra entender o raciocínio, haha).

Estamos crescendo, filha, estamos sim. 

1 comentário

Arquivado em acontece comigo, aprender, autoconhecimento, eu mãe, puerpério, reflexão