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A timidez, a sapequice e a criança que eu fui

Depois do post das belezas e do encantamento pelos 2 anos e meio, vieram dias de alguns paradoxos pro aqui. Ah, maternidade. Nada é, tudo está.

A pequena anda tímida. Quer dizer, pensando bem, ela nunca foi a mais sociável dos bebês, de ir em colos alheios de cara, numa boa. Só mesmo com quem ela conhece bem. Mas agora, quando chegamos em ambientes com mais gente, quando as pessoas vem falar com ela, cumprimentar, brincar, ela abaixa a cabeça e põe a mão na boca. Fica um tempo assim, caladinha, por vezes se encolhendo um pouco. Pra se soltar, só depois de algum tempo, mais do que nunca.

É fase, será? É genético? É a personalidade dela? São os astros?

Eu fui uma criança bem tímida. Ainda hoje eu sou, apesar de já saber – e conseguir – domar e agir de outras formas. Mas a criança tímida que eu fui ainda existe aqui em algum lugar, sei que sim. E podem até dizer que isso nela é um reflexo meu. Sombras, ou algo assim. Em relação a isso, eu observo mais o meu sentimento quando a vejo assim. O que reverbera aqui dentro pode ser mais exagerado, o que nasce quando a vejo colocando as mãos na boca e enterrando o rosto no meu pescoço pode fazer reviver um monstrinho que vivia comigo lá atrás. É a minha história. E aí, pra não projetar os medos todos, ou seja, para não agir com ela baseada no que eu sentia há mil anos atrás, e não pelo presente, há que se ter muita análise e algum tempo mesmo. Fico repetindo isso pra mim, prestando atenção. Somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, sentimentos diferentes. Mesmo que algumas reações sejam parecidas, não quer dizer que ela está sentindo a MESMA coisa que eu. Essas coisas básicas de uma pessoa que faz autoanálise a maior parte do tempo. Tô acostumada, rs. Acaba que pra mim é até melhor, me faz bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes, quando acontece, não sei direito o que fazer. Não a forço falar com ninguém, mas não sei se tô acolhendo o tanto que “deveria”. Sinceramente, não sei.

E aí, quando chega em casa (e na casa dos avós, que é uma extensão da nossa, só que com mais “coisas permitidas”, se é que me entendem), a pessoinha pega fogo. Sobe, desce, pula, canta, conversa. Muito. Começou esses dias a ter mais enfrentamento dos limites. A gente fala não e ela fica parada, meio olhando de lado, calada, com aquela carinha de “estou te ouvindo, mas tô fingindo que não”, sabe assim? E continua fazendo. Ou então grita. Eu desligo a televisão pra refeição ou alguma outra coisa, ela vai e liga de novo, olhando pra mim. Olha, não é fácil. Essas coisas também fazem nascer sentimentos antigos, né. Dá vontade de dá uns gritos, de fazer a pessoinha entender que não é assim, que não dá pra ser tudo no seu tempo, que é preciso respeitar. Tanta coisa. Vários conceitos a gente quer que eles entendam num olhar – como muitas vezes foi com a gente. “Minha mãe olhava pra mim e eu já sabia que tinha ido longe demais”. Muitas vezes, é com a criança que um dia fomos que nos relacionamos, não com nossos filhos.

Tenho andando cansada esses dias. Emocionalmente cansada. E com uma intuição de que preciso alterar algumas coisinhas aqui na nossa rotina. Estar mais perto, brincar mais lá fora. Ficar mais tempo só nós duas.

Nada é, tudo está, repito de novo. Daqui a pouco os dias passam, as fases mudam e essa página já estará virada. Que eu saiba o que registrar nela, então. Pelo menos na maioria das linhas.

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Sobre o que eu preciso falar

Hoje eu tirei o dia pra desabafar.

Quando eu comecei a escrever no blog, eu tinha o único intuito de ter um lugar para desaguar meus pensamentos sobre maternidade – um tema que eu já amava mesmo ainda nem sendo tentante. Eu queria poder escrever as coisas que eu acreditava, que eu queria, que eu ansiava. Enfim, é pra isso que as pessoas fazem blogs pessoais, não é?

E, bem, eu sou uma pessoa que acredita, sabe. De verdade, eu acredito. Eu acredito nas pessoas, eu acredito em Deus, eu acredito no amor. Eu acredito. Acredito, inclusive, que a gente pode ver a vida de um jeito mais suave, mesmo nas pancadas e nos terremotos. Na verdade, eu passei a acreditar nisso com mais verdade depois que perdi meu bebê, em 2013. Eu passei a escrever aqui no blog como uma espécie de tábua de salvação, desabafava todas as minhas dores e aprendizados. Era a minha tentativa de não me afundar naquela tempestade. E deu certo.

Depois disso veio a gravidez da Agnes e a vida aconteceu da maneira que tinha que ser. Tudo foi dando certo – a gravidez foi bem, pari, amamentei, me mudei. Também cresci. E no meio disso tudo, ainda lá na gestação, eu fui entrando em grupos, fui lendo muitos relatos, fui acompanhando militâncias absolutamente necessárias, mas que acabaram me podando um pouquinho. Pois é, esse é um assunto delicado. Eu, que gosto de ver um lado bom em tudo, que preciso disso inclusive para organizar meus pensamentos, pensei que talvez eu estivesse romantizando a parada toda, coisa que a gente bem sabe que não faz muito bem, nem enquanto pessoas, menos ainda enquanto coletivo. Será que eu estava fazendo isso, meu Deus? Será que estava contribuindo para a propagação de uma coisa que, ao mesmo tempo, eu não concordava? No meio disso, comecei a perceber que as vezes algumas pessoas esperavam que eu falasse das dificuldades, do peso, dos problemas, mas quando eu via, estava dizendo que ela até que dormia bem prum bebê de 3 meses, que estava tudo bem na amamentação e que o pai dela adorava dar os seus banhos. E por que e falava isso? Porque era assim que eu estava vendo. Eu li tanto que as noites iam ser em claro, que quando percebi que nos ajustamos num ritmo de sono que dava certo pra nós duas, achei que estava sendo um sucesso. Eu respondia que ela dormia bem porque pra mim era o que era. Só depois de muitos meses me dei conta de que, na verdade, ela ainda acordava 3 vezes em várias noites, mas pra mim ela dormia bem. Mas o que as pessoas ouviam era: ela dorme a noite inteira, descanso 8 horas seguidas, sou foda, minha filha é um prodígio. Por que eu podia falar do que aprendi de bom com uma perda gestacional, mas não era entendida quando falava do que estava dando certo na maternidade real (real no sentido de que estava acontecendo mesmo, comigo, agora)?

Era como se eu não pudesse falar das belezas enquanto tinha tanta gente no meio da lama, sabe como? Eu comecei a me calar, porque não queria que me entendessem mal, porque queria também ouvir, porque não queria tirar o lugar de fala de quem está em outra vibe. Tentei, inclusive, me “adequar” e falar mais do que geralmente é escondido, mas me sentia mal. E olha, do alo dos meus 27 anos, vou falar uma das poucas certezas que eu tenho na vida: todas as vezes em que tentei me adequar, me ferrei totalmente. Na verdade, quanto mais eu falava do meu cansaço, mais cansada eu ficava, literalmente. Cheguei a conversar com o Cleber sobre isso. Amor, qual é o limite entre o desabafo e uma reclamação sem fim? Pensei muito sobre isso, depois volto pra falar desse assunto. E aí eu me calei. Nem sabia mais qual era a minha voz, ou o meu lugar, ou a minha turma. Puerpério é fogo, eu já disse. E pra mim também pegou nesse sentido.

Demorou pra eu perceber que, muitas vezes, a reação de quem está fora não tem a ver comigo, mas com a própria pessoa. Que a gente é espelho. Se você vê, está em você, é o que dizem. E isso também serve pra mim, para o que eu via. Mas este também é assunto pra outra hora. Demorou pra eu perceber que a minha forma de falar não estava anulando as outras, era só mais um jeito, que mesmo que eu concordasse com elas, não saberia falar da mesma forma, apenas porque não é a minha voz, não porque acho errado. E que tem lugar pra todo mundo nesse mundão.

Hoje eu acho que já me desvencilhei um pouco dessas amarras todas. Acho que tem lugar pra todo mundo e que cada um tem que fazer o que se sente bem. Essa sou eu, afinal. Estou tentando recuperar o meu ritmo de escrita e a forma como compartilho o que sinto. E queria muito falar disso aqui, porque a escrita tem poderes curativos em mim, então, é isso. Só queria mesmo dizer, pra mim mesma, que eu estou voltando pra mim, tentando achar o meu lugar aqui de novo. E que, dessa vez, é pra ficar.

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Pra gente se desprender

Eu preciso escrever um post sobre o livro O Poder do Discurso Materno, da Laura Gutman, me lembrem. Mas antes vou falar de outra coisa. Que é pra deixar registrado e seguir adiante, do jeito que tem que ser.

Logo que eu me descobri grávida, senti muita vontade de não contar pra ninguém, como disse aqui. Não era exatamente um casulo, vontade de ficar isolada. Só de me manter em silêncio sobre isso, guardar esse segredo pra mim. Como se eu sentisse que o bebê precisasse desse tempo sem muitas energias voltadas pra ele. Mas, aos poucos, comecei a perceber que eu também estava com medo (o que não anula o outro sentimento que acabei de comentar, eles coexistiam, apenas). Medo de dar errado. Medo de me jogar e quebrar a cabeça no asfalto. Medo de me entregar. Eu estava curtindo os sintomas e as mudanças todas, mas ainda não era uma coisa total, confesso. Os enjoos iam se intensificando – porque sim, muitas vezes o enjoo tem fundo emocional. Foi o jeito do meu corpo me dizer que estava sendo diferente dessa vez (pelo menos agora no começo, eu ainda não ouso dizer que vai ser tudo lindo), que estava tudo bem lá dentro. Coincidentemente, depois da minha consulta com a Cátia, os enjoos diminuíram 90%, acho que agora é só sintoma normal mesmo, rs.

Mas enfim. Como comentei no post sobre as primeiras semanas, estava meio chorona. Daí comecei a achar que tanto choro só podia ser por isso também, mais uma face do medo. Nem era tanto, eu realmente estou mais sensível, mas normal, eu choro fácil mesmo. Mas enfim, coloquei na cabeça que estava demais, me incomodei. Como eu sempre disse: não queria transferir para esta gestação os receios da outra.

Certo dia, no banho, minha ficha caiu. Eu ainda pensava constantemente na bolota. (Aliás, lembram desse post? Eu já sabia que estava grávida nesse dia). Eu ainda me prendia a ela. E sabe o que eu fiz? Comecei a conversar com ela (acho que nunca contei aqui com todas as letras, mas apesar de não termos ficado sabendo o sexo do bebê, tínhamos uma clara sensação de ser uma menina). Falei que a amo muito, e sempre vai ser assim. Que o lugar que ela ocupa em mim, aqui dentro do peito, não vai ser de mais ninguém, é um quarto na casa só dela. Que eu estava com um pouquinho de medo, mas que eu precisava me libertar para viver essa nova etapa da minha vida – e ela a dela, seja lá onde estiver. Que ela podia ir, porque eu também estava indo. Era a hora. E que não ficasse com medo também, pois daria tudo certo. Seremos sempre uma da outra, mas agora de uma forma diferente, como diz a música num outro nível de vínculo. E tudo bem ser diferente. Que tinha uma outra vida dentro de mim, e que eu amo as duas, mas que eu precisava me dedicar um pouquinho à essa, agora. Essa vida que está crescendo aqui, irmx dela, precisa do meu amor tanto quanto ela precisou, até falei que não precisava de ciúmes, rs – e é bem estranho, mas eu sinto que são pessoas completamente diferentes, ou seja, são amores diferentes, exclusivos.
Conversei, expliquei, chorei. E aos poucos foi mesmo passando. Como se eu tivesse nos libertado do que quer que estivesse nos prendendo uma à outra. Ficou o amor, mas se foi uma espécie de peso que ainda existia.

E aí segui em frente. Acho que já faz uns 15 ou 20 dias, mais ou menos.
Ainda um dia de cada vez, mas realmente o que eu sentia antes, no comecinho, não sinto mais.

E ontem, escutando o novo disco do Jeneci, prestei atenção na letra de uma música. Eu estava pensando em outra coisa, então a princípio nem me liguei com nada. Mas a música me pegou, a melodia é divina. Ouvi de novo. E comecei a chorar. É muito o que aconteceu e que eu acabei de contar aqui. Então resolvi escrever esse post, pra registrar tudo, deixar a letra e a música pra vocês também e dizer, de novo, que a gente se desprendeu (Pra gente se desprender, é o nome da música). Acho que foi quando eu percebi que realmente tinha acontecido. Já ouvi a música de novo, mas não me fez mal, foi só um insight daquele momento. Quem tiver um tempinho, ouça a linda voz da Laura Lavieri cantando, faz diferença. Mas vou deixar a letra também.

Eu sinto o tempo pairando em outro tempo
Correndo bem lento nas asas de um beija-flor
Que espera a flor acordar enquanto o dia não vem
Geleiras vão desabar mudando a cor do mar
Imenso que leva abraços e esperas
Minutos são eras a cada passo pro fim
Se o universo girar pra gente se desprender
Te encontro em outro lugar em paz
Ou não ou nunca mais

Agora é hora da gente se esquecer
Que o tempo e o vento não vão parar de bater
E a cada ponto final a história vai repetir
A gente é mais que um plural e a vida é muito mais
Que a gente espera temendo a toda queda
Deixa a geleira cair e o beija-flor descansar
Um novo agora virá
Escute o som do mar

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um segredo

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu não gosto quando os adultos tratam as crianças como se elas não soubessem e não entendessem nada do que se passa ao seu redor. Não gosto quando falam mentiras pra elas. Não suporto quando riem com sarcasmo (e não porque acharam bonitinho ou algo assim) de suas frases ou atitudes. Não gosto quando as pessoas projetam nas crianças o que elas não foram. Não gosto quando decidem que tipo de futuro a criança vai ter, como se só houvesse uma única escolha. Não gosto quando as pessoas definem que sabem o que a criança está sentindo a partir dos seus achismos de que todas são iguais, e não por suas particularidades. Não gosto mesmo, de jeito nenhum. Não gosto que insistam em padronizá-las. Simplesmente não suporto quando falam que as crianças, desde bebês, têm que passar por coisas ruins e difíceis para aprender que o mundo não é bom. Poderia repetir essa última frase mais quinhentas vezes, apenas para frisar o quanto eu não a suporto. Não gosto quando enganam os pequenos, como se eles não percebessem o ato. Não gosto de gente que acha que criança é manipuladora. Não gosto de gente que acha que criança é bobo da corte pros adultos. Não gosto quando mentem pra elas. Sim, sei que já escrevi isso, mas estou repetindo, porque simplesmente não gosto quando mentem pra elas. Não gosto que batam nelas. Não gosto que ignorem seus sentimentos. Não gosto quando não dão ouvidos ao que dizem, porque acham que “é coisa de criança/ não entendem nada/ logo vai passar”. Não gosto quando acham que as crianças não sentem tristeza ou mágoa ou raiva ou qualquer sentimento inerente ao ser humano. Não gosto quando percebem que elas estão tristes, mas acham que é algum tipo de frescura ou manha. Não gosto quando diminuem seu sentimento. Mais uma vez, não gosto de gente que não acredita no que as crianças dizem só porque acham que “elas não sabem o que falam”.

Não gosto é só pra ilustrar. Eu tenho vontade de chorar quando vejo essas cenas se repetirem, dia após dia, para quase todos os lados que eu olho. Às vezes eu choro.
É difícil sentir uma coisa muito específica e dizerem que não, você está errado, não tá sentindo isso, é coisa da sua cabeça.
É muito difícil aprender desde cedo que não adianta falar certas coisas, porque não vão acreditar em você.
É muito difícil passar por situações que você não se sente preparado, mas determinaram que você está – e ainda ouvindo que é para o seu bem. E você não consegue entender como que “bem” pode vir de algo que te apavora sobremaneira.
É muito difícil chorar pensando em todas as coisas que você gostaria de falar, mas não consegue.
É difícil crescer sentindo medo.
É ainda mais difícil crescer acreditando que o que você sente é errado.
Alguma hora vai passar, dizem, você vai aprender. Mas não passa.

Você tem amor, você tem brinquedos, você tem uma família que te ama, e que você também ama, e alguns poucos amigos.
Mas ainda falta algo. Uma confiança, talvez. Você não sabe, ainda não descobriu o que é confiança.
Quando descobrir, vai perceber que mesmo dentro daquela casa grande, e tendo um quarto só seu, e tendo tido uma infância também feliz e com boas memórias, existe um sentimento que não orna com tudo aquilo. Um sentimento que só a pouco tempo você soube nomear, mas não tem coragem nem de falar, porque sabe que vão dizer, ainda hoje, você adulta, que não foi nada disso, você entendeu tudo errado. Talvez seja mesmo só coisa da sua cabeça. Mas talvez não.

E é ainda mais difícil, muito mais difícil, lembrar de tudo isso, ainda hoje, muitos anos depois, quando o seu inconsciente já deveria ter trabalhado para varrer tudo pra debaixo do tapete e te fazer esquecer. Talvez ficasse uma ou duas sequelas, sintomas e sinais de que ali aconteceu alguma coisa, mas você não se lembraria, e daria um jeito de conviver com tudo aquilo de alguma maneira, e estaria tudo bem.
É assim que acham que vai acontecer com todas as crianças. Que elas esquecem, não entendem, jamais vão se lembrar daquilo um dia. Realmente acontece com algumas, claro, não posso jamais dizer que não.
Mas chega aqui pertinho, deixa eu contar uma coisa pra vocês: o inconsciente de algumas crianças simplesmente esquecem de cumprir o seu papel com excelência, e essas pessoas crescem com uma consciência absurda de tudo que sentiram desde, sei lá, dois ou três anos de idade.
Chega mais pertinho, pra ninguém ouvir: muito prazer, eu sou essa criança.

imagem daqui

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Sobre espaços e vazios

De certo ponto de vista, eu já superei o luto.
Por outro lado, parece que sempre tem alguma coisa pra eu falar sobre o que aconteceu, sobre o tempo em que eu estava grávida, ou qualquer coisa assim. E acaba que sempre menciono o assunto em algum texto ou conversando com alguém.
Eu não fico o dia inteiro falando ou pensando nisso, mas às vezes é inevitável.
Eu me esforço pensando em outros assuntos pra postar, mas nem sempre dá certo. 
Ontem foi um dia difícil – não o dia todo, teve momentos em que realmente estava bem, recebi boas notícias, vi coisas bonitas. Mas a dor de cabeça não se limitou a ser apenas aviso de início de ciclo e resolveu ficar por mais uns dias. Foi difícil. À noite, eu estava bem sensível e ainda dei de cara (na internet) com uma amiga do Cleber perguntando sobre o sexo do bebê. Pois é, parece que nem todo mundo sabe ainda. E eu chorei. Ele chegou em casa e me encontrou aqui no quarto sozinha, eu não queria contato com o mundo. 
Mas enfim, ele me abraçou, me distraiu, comi brigadeiro de panela às 22:00 e tudo certo.
Depois, já bem, fiquei pensando e até disse pra ele: parece que foi tudo um sonho, que não aconteceu de verdade.
Mas aconteceu, né? Eu passei por tudo isso. Eu tenho essa carga agora, que insisto em enxergar por um ótica diferente, pra ver se fica mais leve. Mas a verdade é que não é nada leve. Sempre vai existir o espaço que a bolota ocupou no meu corpo, na minha vida. Era tudo muito forte. E em alguns aspectos eu me sinto mesmo diferente. 
Sim, já é um capítulo passado agora. Não fico me lamentando, pensando que podia ter sido de outro jeito. Foi do jeito que tinha que ser, já entendi. A dor não vem mais como vinha antes. Essa é a parte que está “superada”.
Mas existe um vazio. E não, ele não vai ser preenchido por ninguém. As lembranças já moram nele, ele já é preenchido. É o espaço do que passou, é onde eu guardo os sentimentos que eram da bolota (olhando desse ponto de vista, nem é tão vazio assim, visto que são muitos sentimentos, mas enfim); porque tem que existir esse lugar mesmo. Durante a gestação a gente vai estabelecendo uma relação com aquele serzinho, destinando sentimentos, criando vínculo e, de repente, da noite pro dia, não existe mais a relação, agora é só você de novo, pra onde vai tanto sentimento, joga fora? Não dá pra esquecer, também não dá pra vivê-los, então eu guardei nesse lugar.
Só que pela primeira vez eu “entendi” aquela frase: “calma, daqui a pouco vem outro bebê”. Claro que nenhum filho vem para suprir o perdido, isso não existe; não existe voltar lá no passado e fazer uma troca. Em um nível bem diferente do real, eu já me sinto meio mãe. Mas me peguei pensando que terei, com o próximo, a construção de novas memórias, de novas coisas pra contar, de novos sentimentos pra sentir. E a grandeza de um filho aqui do lado de fora da barriga é infinitamente maior, no quesito experiência e intensidade de sentimentos, eu imagino. Vai ser mesmo real. Entendem? Ainda vai ter saudade, mas ela não estará mais sozinha, reinando absoluta na minha vida. Novos espaços serão construídos e preenchidos por seus devidos donos. 
Pode ser que seja isso, ou pode ser que eu esteja tentando enxergar as coisas por um lado mais suave de novo. Não sei, só o tempo poderá dizer. 
Até lá eu vou distribuindo essa carga em letras e outras coisas mais, e tentando pensar em novos assuntos para conversamos aqui.
não sei quem é o autor desta linda imagem; se alguém souber, me avisa que coloco aqui os créditos.

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O lado bom

Tá limpo, não tem mais nada mesmo (…)

Essa foi a primeira frase da médica ultrassonografista, ao ver a imagem do meu útero na tela ontem, quando finalmente fui fazer o ultrassom para me certificar que estava mesmo tudo bem comigo, fisicamente. A mesma médica, inclusive, que me deu a notícia que eu nunca quis ouvir, há 25 dias. Ela usou o mesmo tom de voz baixo, calmo e, dessa vez, até admirado, pelo que via.
E agora eu posso escrever sobre como eu estou impressionada com o poder de funcionamento do corpo feminino. Aliás, este é – se não o maior – um dos maiores aprendizados de toda essa história, e eu quero dividir alguns pensamentos com vocês.

Pode parecer contraditório, mas ter acontecido tudo do jeitinho que foi  – fisiologicamente falando – me deu muita força.
Explico: o “único” medo que eu tinha em relação ao parto, era que o TP (trabalho de parto) não progredisse e eu precisasse de alguma intervenção; porque foi exatamente por isso – medo de intervenções, soro, acessos na veia, sem que haja real necessidade (e não por rotina hospitalar e formação inadequada dos profissionais, pra dizer o mínimo), sem que ninguém ao menos escute o que eu digo – que eu comecei a minha busca por um atendimento mais humanizado durante a gestação e o parto, muito antes de decidir quando viraria tentante. Na época, eu só queria um profissional que entendesse e respeitasse a minha sensibilidade, eu só queria saber se existia uma alternativa ou se eu seria obrigada a sofrer por horas a fio em um dos momentos mais importantes da minha vida. Mas aí eu me apaixonei pelo tema e hoje sou uma amante-(quase)-ativista da humanização do parto e nascimento, apoiadora convicta de que as mulheres se empoderem de todas as formas que couberem em suas vidas (e que eventualmente permitam-se ultrapassar seus próprios limites também). Tanto me envolvi com o assunto e tanto me senti segura pelas informações que obtive, que em dado momento esqueci da minha sensibilidade – eu já pensava na coisa toda em níveis sociais, não só nessa minha particularidade.

Bom, claro que me “lembrei” da minha sensibilidade no momento em que precisei fazer os primeiros exames do pré-natal, como vocês podem imaginar, porque é uma furação que não acaba mais (ok, é só uma vez, mas são muitos exames, então demora. 1 vez ou 10, a tortura pra mim é a mesma). Não bastando que eu me lembrasse desse “detalhe”, comecei a ouvir algumas vezes, quando eu dizia que teria parto natural: “mas você tem que aceitar que você pode precisar de intervenções”, “você tá com essa ideia fixa na cabeça, e se você precisar?”, “não dá para controlar tudo, bla-bla-bla” e todo leque de variações dessa especulação. Sem contar que quem dizia isso geralmente não se referia às mesmas necessidades que eu, quando sentia medo de ter que passar por isso de qualquer jeito; eu me referia a situações reais extremas, em que o uso de alguma intervenção intravenosa resguardasse a minha saúde e a saúde do meu bebê em primeiro lugar. Só mesmo se eu precisasse de um antibiótico, ou alguma situação em que a ocitocina sintética fosse inevitável – cesárea nem entrava nessa lista, porque nesse caso não haverá o que questionar: vão me abrir pra salvar meu filho e fim de papo (mas sim, claro que tenho medo de ter que passar por uma cirurgia, mas essa é outra história). As outras pessoas se referiam a qualquer outro motivo (como acelerar o processo pra acabar logo, ou sei lá o que). E ouvir isso, vindo assim de certas pessoas, não me ajudava em nada a encontrar um meio de lidar com o medo, só me irritava e me fazia pensar ainda mais no que eu temia, e eu sabia que só temer não adiantava, porque se eu me travasse, podia ser pior.
Eu tinha medo de sentir medo. Porque se eu sentisse medo, podia travar o processo do parto e eu teria que encarar uma intervenção que eu não aguentava nem pensar – e então me apavorava: como eu ia conseguir ser protagonista ativa na hora do meu parto, se quando estou com algo na veia fico com o braço literalmente paralisado, suando frio e tenho que me manter quieta? E então sentia mais medo. E era um ciclo sem fim. Eu precisava encontrar uma forma de saber lidar com isso e, definitivamente, ouvir aquelas frases, vinda de qualquer pessoa que fosse, não estava no pacote.
Aliás, por isso escrevi aquele texto, pra ver se encontrava um jeito de lidar com eles, caso eu não tivesse mesmo pra onde fugir (inclusive, na última consulta que tive na Casa Angela, tirei todas as dúvidas que eu tinha).

Percebam, o meu medo mesmo era do desconhecido. Não tinha como alguém me assegurar que eu não ia precisar de nenhuma intervenção no parto – isso não existe! E por ter aversão a algumas coisas, eu ficava com muito medo de ter que lidar com elas, sem ter pra onde fugir. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que dizem ter medo da dor ou de qualquer outra coisa no parto. Ninguém pode nos dar certeza de nada.

Pois bem, e o que me aconteceu? No mesmo dia em que eu tirei todas as minhas dúvidas sobre possíveis intervenções com a EO, mil baldes de água gelada caíram na minha cabeça. Quando a médica do ultrassom disse que eu deveria ir pro hospital dar prosseguimento e “acabar logo com aquilo” (nas palavras dela), minha cabeça ficou metade paralisada, metade desesperada. Na dúvida, desabei a chorar e inundei qualquer vestígio de consciência que me restou. Não sei se ficou claro no meu relato, mas eu realmente passei a acreditar que eu precisaria de alguma intervenção. Comecei a tentar me preparar, tentar ficar forte, porque eu precisaria ficar no hospital, iam me furar e eu não tinha como me livrar disso. Eu me sentia tão anestesiada, tão sem forças, que eu queria muito que alguém fizesse aquilo por mim; em algum momento devo ter desejado dormir e que tudo estivesse acabado quando eu abrisse os olhos novamente. Imagina, como eu iria encarar um monte de sangue sem desmaiar? O que eu tinha que fazer? O que iria acontecer em sequência? E se eu fizesse algo errado, e se desse tudo errado? Será que não dava para alguém fazer isso pra mim? E tudo isso eu pensava e sentia num curto espaço de tempo, entre o laboratório em que fiz o exame e o consultório da Betina, minha GO.
Eu não me sentia capaz de lidar com aquilo – essa é a grande verdade e só agora consigo elaborar dessa maneira. Eu não me sentia pronta para lidar com aquele desconhecido que se apresentava, sem cerimônia, bem à minha frente. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que querem logo de cara uma cesárea eletiva. Não ver era tudo que eu queria. (e antes que as mulheres que escolheram cesárea eletiva digam, não estou afirmando aqui que todas vocês optaram pela cirurgia pelos mesmos medos que eu senti, nem estou comparando a minha perda com o nascimento dos seus filhos, por favor!, cada uma sabe da sua história – o que eu disse é que eu consegui, por um momento, entender o medo que, porventura, alguma de vocês possa ter sentido, justo eu, que nunca entendi isso. Empatia, e não ataque). O fato é que, no meu caso, não existia “escolha”: induzido ou natural, ia acontecer pela mesma via de nascimento.

Mas tinha sido também por isso que eu havia me cercado dos profissionais mais humanizados, de todos os lados. Para os momentos de medo, para quando eu me esquecesse que sim, eu acredito que a natureza sabe trabalhar se a deixarmos fazer isso. Eu realmente acredito nisso, e super defendo esta ideia, mas passar por uma situação que te tira do eixo faz com que você esqueça até do seu nome. Sentei de frente pra Betina e, à medida que fomos conversando, fui recobrando alguma consciência. Ela me disse que eu podia confiar, que o meu corpo ia agir, mas que se fosse afetivamente muito pesado pra mim, podíamos ir pro hospital induzir. Disse que a escolha era minha e que eu não precisava decidir nada naquele momento, podia pensar um pouco antes, em casa, e tudo bem. Acho que nesse momento o empoderamento que eu tinha conquistado começou a se mexer em algum canto da minha mente. A situação era comigo. O corpo era meu. A escolha não poderia ser de mais ninguém. Por mais medo que eu sentisse – e eu sentia! – do que estava por vir, eu peguei a minha crença na natureza e fui embora pra casa.

Aqui cabe dizer que a minha mãe era uma das pessoas que mais dizia aquelas frases que eu tanto detestava, que eu podia precisar de intervenção, etc. Eu ficava doida de irritação quando a ouvia dizer aquilo. E no consultório ela perguntou pra Betina o que ela indicava (natural ou induzido), ao que ela responde “natural” sem nem pestanejar. Minha mãe acatou aquilo e não tocou mais no assunto. Mais tarde, quando chegamos em casa, ela só me disse: “eu sei que a escolha é sua e você quer natural, mas se quiser, posso fazer um chá que ajuda” – e essa foi a única intervenção que ela me ofereceu: um chá.

Eu comecei a sentir as dores, resolvi encarar tudo como um trabalho de parto e simplesmente senti. Senti as dores. Senti medo. Senti tudo. Acho que isso é se entregar, no fim das contas. Quando eu comecei a me sentir travada, com medo de ver o feto e passar mal, comecei a rezar com muita fé, pedindo a Deus que me desse força para o que viesse. Eu não queria me sentir travada, porque sabia que podia parar o processo e piorar tudo. As dores vinham cada vez mais fortes e eu fazia de tudo para que elas fossem embora rápido. Eu não sabia quanto tempo duraria. Eu não sabia o que ia acontecer. Não tinham regras, nem métodos, nada. Naquela madrugada eu estive o mais perto que já cheguei do abismo do desconhecido, literalmente. Então, me preparei mentalmente para o caso de demorar (eu sempre cresço as coisas, para me sentir mais preparada), ainda mais que eu sabia que podia demorar dias até o meu corpo expelir, nem me dei conta de que, se eu estava com as dores naquela intensidade, não teria como demorar muito mesmo. Tanto que ele expeliu e eu nem percebi que era aquilo. Foi tão rápido que eu nem tive tempo de travar. Minha pressão começou a cair, eu fui me deitar, acabei dormindo por quase duas horas e, só quando acordei, conversando com o Cleber e minha mãe, nos demos conta de que já tinha acontecido mesmo.
Esperamos, então, que eu tivesse um sangramento enorme, ou coisa assim, porque a Betina tinha dito que seria mais do que uma menstruação, por exemplo. Mais uma vez, cresci aquela informação na minha cabeça e esperei “o pior”. Não aconteceu. Não do jeito que eu esperei, pelo menos. Sangrei por uns 10 dias seguidos – depois ficou mais alguns escapes no meio do caminho, mas não foi a abundância que eu achei que seria. Usei aqueles absorventes noturnos e nem chegou a vazar, ou precisar trocar a cada hora. Senti umas cólicas também, mas tudo dentro do esperado. Mantive repouso por duas semanas inteiras, sendo que nos dias úteis eu não coloquei o pé fora de casa, levei a sério mesmo.

E a cada dia que passava, e para cada pessoa que eu contava, eu sentia algo dentro de mim, algo bom, quando eu focava que o meu corpo tinha feito todo o trabalho sozinho. Eu me apeguei muito a isso. Eu esperei, eu confiei, eu me entreguei  – e o meu corpo agiu! Senti medo? Muito! Mas eu aprendi, na prática, que se não tem mesmo onde se esconder, não há nada que possamos fazer, a não ser encarar o que vier. Eu me sentia numa estrada completamente escura, não sabia onde seria meu próximo passo nem o que encontraria adiante. Mas eu sabia que ficar parada não me faria chegar. A minha vontade de ver a luz novamente foi maior que o medo. E no caminho escuro e incerto que tive que passar, o único feixe de luz (ou consciência) que eu dispunha era a minha fé e as pessoas que eu amo – naquela noite, especificamente, a minha mãe.

E ontem (sábado), quando a médica me confirmou que estava tudo bem comigo, concluí, definitivamente, o meu maior aprendizado: o nosso corpo é perfeito. O meu útero está do tamanho normal já, a médica mal acreditou quando viu. Está limpo também, sem mais nada dentro.
A minha vontade é de contar essa descoberta para todo mundo. Eu sei que o que eu passei foi muito triste (e ontem chorei de novo, vendo o ultrassom do bebê – claro que ainda dói) e realmente não desejo isso para ninguém, nunca. Mas foi também a minha bolota que me trouxe essa consciência toda do poder que eu tenho guardado no meu corpo – e eu enxergo isso como o lado bom do que parece ser inteiro ruim.

– Se antes eu tinha medo de travar e dar tudo errado – hoje eu não tenho mais.
O meu corpo me deu um presente e tanto, me mostrou o que é seguir um comando seu (porque sim, quando você está imersa naquele momento, tudo que seu corpo pedir, você fará. Eu sentia tanto calor que só me restou tirar toda a roupa – e foi depois disso que aconteceu) e que ele funciona perfeitamente bem, apesar de qualquer medo que eu sinta.
– Se antes eu ficava brava com os medos da minha mãe (ou de qualquer outra pessoa) – hoje eu não fico mais. Meus pais foram incríveis! Respeitaram as minhas escolhas o tempo todo e ainda me deram todo suporte necessário para passar por isso.

– Se antes eu era super a favor do atendimento humanizado – hoje eu não quero outra coisa na vida! Reafirmou a minha certeza. Quero que todas as mulheres tenham a oportunidade de saber o que é ter a sua calma devolvida por uma médica, o que é receber um abraço apertado de um profissional num momento ruim, ou ter realmente a oportunidade de escolher o que quer que seja que será feito com o seu corpo, com todas as dúvidas realmente esclarecidas e segura de que será amparada no que decidir.
– Se antes eu admirava o meu marido – hoje eu quero me casar com ele de novo, a cada dia. Porque apesar de não o ter citado muito aqui, ele está presente em cada linha desse texto, segurando minha mão, me abraçando e, quando eu só pensava se daria conta de tudo, ele perguntou pra Betina quando é que podíamos tentar de novo – foi ali que eu me lembrei (ainda vagamente naquele instante), também, que aconteça o que acontecer, vai passar, e a vida continua.

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7 dias, um de cada vez…

Uma semana de dor, de ausência, de saudade.
Se ontem eu estava achando que estava lidando com isso até que bem (na medida do possível), hoje não tenho certeza de nada.
Uma tristeza…

Choro pensando nos sinais que não percebi – dor de cabeça, insônia: isso já indicava, no meu contexto, no meu ritmo de vida, que algo não ia bem.
No sinal que percebi, mas não dei bola – a mesma sensação física que senti no corpo, perto do estômago/coração quando ela estava chegando, senti nas costas, no mesmo lugar, quando estava indo – não posso dizer que não fui avisada, apesar de não ter entendido nada quando senti isso certa noite.
No que eu nunca vou entender.

Pelo ultrassom que fiz, já fazia três semanas que algo estava errado, que o desenvolvimento vinha caindo, parando. Mas eu ainda a sentia aqui, ainda conversava com ela, fazia massagem…
Hoje eu olho minha barriga, reta, e percebo que ela estava grandinha, sim, quando eu achava que não estava (e percebo que eu também tinha alguma razão em implicar com ela, que se recusava a ficar mais durinha). Meus seios também já mudaram. Mas o meu amor, não.
A pele pálida e as olheiras ainda estão aqui, apesar de mais discretas do que há uma semana.

Uma semana. Parece que foi ontem. Parece que foi há meses.
Coisa esquisita esse negócio de tempo, né?

Ao mesmo tempo em que venho tentando (re)significar o que aconteceu e olhar tudo por um prisma diferente, com um significado maior – e preciso dizer que é nisso que acredito e me apego a cada instante, como um bote salva-vidas – também sou tomada, às vezes, por pensamentos tristes, de vazio. Como hoje…

… que faz um dia frio em São Paulo, e eu não me importo com isso, até gosto. O que me faz pensar que era mesmo ela que não era muito fã dos dias cinzas. E eu aproveito a garoa e a chuva pra chorar, como um disfarce.

Faz dias que não consigo ouvir música. Era um momento nosso, ainda não consigo encarar certas melodias. Mas nesse contexto de hoje, me peguei pensando numa música, que eu não vou dar play, pra não inundar tudo de vez, mas vou colocar aqui.

“A chuva é a vontade do céu de tocar o mar
E a gente chove assim também quando perde alguém
Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer
Assim se purifica o ar depois de chover”
A Chuva, Marcelo Jeneci

A música só tem uma estrofe e não está registrada em estúdio.
Ele (o Jeneci) diz que é uma letra inacabada, mas que gostou dela assim, e a canta em alguns shows.
Como um mantra. É sempre emocionante ouvir (e nesse show do link eu estava presente).
Então fico por aqui, repetindo meu mantra.
Porque como diz outra música dele: “quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar”.
E eu espero que ele volte logo; e que a felicidade volte a ser “só questão de ser”.

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Carta à minha fonte de luz

Meu amado bebê,
você não mora mais aqui na minha barriga, mas queria te dizer umas coisas, mais uma vez.
Muito obrigado por ter me escolhido como sua casinha neste tempo que precisava aqui na Terra. Mesmo que tenha sido por pouco tempo, você me ensinou coisas das quais eu nunca vou me esquecer, jamais. Poder ter amado você nos fez um bem enorme, saiba disso. Seu pai e eu dedicamos um espaço enorme em nosso coração pra você morar, desde que soubemos da sua presença. E é um espaço só seu, sempre será.
Quero acreditar que foi uma ajuda mútua.
Você nos ajudou. Nós te ajudamos.
Se você precisava de mais amor, se precisava sentir todo o nosso bem querer e bons pensamentos, fico feliz em saber que cumprimos isso. 
O bem que você nos trouxe quase não dá para mensurar, de tão grande. De tão intenso.
Hoje eu sou uma pessoa muito melhor do que antes, e preciso te dar os créditos por isso. Estou até organizando um texto inteiro dedicado à tudo que aprendi com você, porque é muita coisa mesmo.
Me desculpe por não ter tido forças para ver o seu corpo físico. E muito obrigado por ter escolhido sair de mim de forma tão suave e até discreta – do mesmo jeito que chegou, não foi? Talvez fosse para ser assim mesmo, talvez fosse um acordo nosso: eu esperaria o seu tempo e você sairia de cena sem grandes despedidas. Um ajuda mútua, já disse que acredito nisso?
Tem uma parte minha que queria muito que você estivesse aqui ainda. Sinto muita saudade de você, muita. Mas preciso me lembrar constantemente que não posso ser egoísta, você cumpriu a sua missão e teve que partir – você era fonte de luz, virou a nossa bolota, e agora é fonte de luz de novo – uma luz forte, que nunca vai se apagar. O Papai do Céu nunca erra nas contas, meu bem, Ele é mesmo bom nisso, é o Senhor do Tempo (tem até uma música sobre isso) – então, se você voltou a ser luz é porque, no relógio da Vida, os ponteiros assim determinaram. 
E eu tenho me apegado tanto à ideia de que você só veio mesmo para nos ensinar, que nem ao menos soubemos se você seria ele ou ela.  Não te chamamos por um nome, nem criamos expectativas sobre a sua vidinha aqui fora. Das pessoas da família que tentavam adivinhar isso (e eles sempre acertam essas coisas), ninguém nunca conseguia dizer, e você se foi antes que soubéssemos. Hoje eu entendo o porquê de você não ter deixado que soubessem – você não era o futuro, você foi o nosso presente. Tempo presente. Presente para toda a vida.

Finalizo essa carta com a certeza que você terá acesso à ela, porque cada palavra veio exatamente de onde você está em mim agora. 
Sinto que você cuida dos nossos corações – meu e de seu pai – e começo a vislumbrar, enfim, que era mesmo aí que você tinha de estar.


Todo o nosso amor,
mamãe e papai.


A primeira vez que eu postei essa foto, disse que era você disfarçada de luz do sol.
Hoje não é mais disfarce.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – a noite

Segunda – e longa – parte do post sobre a minha perda (a primeira aqui), e que também foi revisado entre lágrimas. Mais uma vez, é favor perdoar erros ou repetições.
Este é um relato sincero e com detalhes de como aconteceu, comigo, a parte fisiológica do processo.
Sinta-se à vontade para não ler, por qualquer que seja o seu motivo. 

À noite – acredito que já era umas 22:00 (ou foi antes?) – minha mãe fez um chá de canela pra mim. Eu odeio chá, não tomo de jeito nenhum. Mas naquela circunstância eu encarei como remédio, como uma forma de fazer com que o processo fosse o mais natural possível. Ela fez meio forte, só consegui tomar uns dois ou três goles pequenos, deixei o resto da caneca de lado. As cólicas iam e vinham, sem muita frequência, e eram perfeitamente suportáveis, como se eu tivesse pra ficar menstruada mesmo.
Comecei a pensar no meu último encontro com a doula, em que conversamos sobre as fases do parto. “Pródromos: continue sua vida normalmente. Fase latente: a coisa vai começar a engrenar. Fase de transição: um dor atrás da outra, quando já está no fim da dilatação, é quando mais doi. Expulsivo: não doi”. Juro que me lembrei da Isa me falando isso. A Betina tinha dito que eu ia entrar em trabalho de parto – e foi assim que eu resolvi encarar as dores. Emocionalmente, não gosto de pensar (nem de falar) que foi um parto – pela idade gestacional, porque não foi cheio de ansiedade e alegria para ver o meu bebê, porque não tem bebê aqui agora. Mas fisiologicamente foi um parto – guardadas as devidas proporções, obviamente. E eu não usei em momento algum a palavra aborto – aqui nesse texto é a primeira vez – e nem pretendo usar, porque dá um peso muito maior pro que já é bem difícil.
Eu queria ir dormir, mas o Cleber estava vendo um filme (tentando preencher a mente) e eu não queria sair do lado dele, então fiquei no sofá também. Me aninhei no peito dele e cochilei.

09 de agosto de 2013.
Depois que o filme acabou fomos pra cama, já era pouco mais de meia noite, e as dores estavam começando a ficar mais fortes, bem incômodas mesmo, mas passavam. Eu estava com medo de sair o feto enquanto eu estava deitada e ter que olhar – tinha muito medo mesmo. Perguntei isso pra Betina, e ela disse que provavelmente sairia dentro da bolsa, então eu não veria nada, mas tinha uma pequena chance de estourar e eu ter que ver. Entendam, eu não estava desprezando o meu bebê, de forma alguma, mas na minha cabeça realmente não era mais a Bolota ali, ela tinha ido embora dali pra sempre. E eu não me sentia preparada o suficiente pra lidar com mais aquilo. Fora que eu tinha medo da quantidade de sangue, por causa da minha sensibilidade. Conversei com Deus, entreguei meu medo. Rezei para ter forças para aguentar o que viesse, do jeito que viesse; peguei no sono.

Acordei com uma dor forte e fui ao banheiro, achando que tinha começado. Nada. Mas meu intestino começou a funcionar. Voltei pra cama, para tentar dormir – era 1:30 da manhã. Cochilei, me revirei na cama quando a dor vinha forte. Fui ao banheiro de novo. 2:30 da manhã, vi no celular. E uma hora depois, a mesma coisa, banheiro. Voltei pra cama, devia ser algo depois das 3:30 e antes de 4:00. Não tinha sangue ainda, só um tipo de corrimento marrom, fraco, sei lá. Eu queria ficar o máximo na cama, perto do Cleber, dormir, esquecer. Mas a dor estava aumentando e eu começava a me perguntar se aquela não iria embora, parecia não ter fim. Levantei. Andei pela casa. De tanto ler relato de parto, cismei que queria tomar banho, porque a água quente ajuda a aliviar a dor. Era muita dor – na parte de baixo da barriga e um pouco na lombar. Fui no quarto da minha mãe, mas ela dormia e eu não quis insistir em chamá-la (acordar o Cleber nem passou pela minha cabeça, eu queria que ele estivesse descansado de manhã – vai saber o que ia nos esperar). Voltei pra sala, fiquei de cócoras, tentei mexer os quadris, ficar apoiada na mesa. Nada fazia a merda da dor passar, estava demais. Comecei a sentir calor. Acordei minha mãe, não dava mais pra ficar sozinha. Eu disse que queria tomar banho, e quando ela foi responder, virei as costas e entrei no banheiro, queria vomitar. Sentei no vaso, tirei a roupa inteira (nossa, que calor que eu sentia), senti uma dor profunda… e vomitei. Foi muito intenso. O corpo realmente sabe o que fazer, hoje eu vejo. Minha mãe entrou no banheiro pra ficar comigo. Enquanto estava com a cabeça pra frente – por causa do vômito – olhei entre minhas pernas e vi que tava descendo uma coisa que eu suponho que fosse o tampão, mas não tenho certeza. Era uma coisa como uma “liga”, ou uma “gosma” (desculpem as palavras, não sei como dizer isso usando termos mais leves); só sei que desceu e ficou lá, meio parado, como se tivesse empacado. Como que eu ia me limpar e tomar banho daquele jeito? “Mãe, tá descendo uma coisa”. Ela disse pra eu ficar lá sentada, então. Minha barriga já era outra, bem diferente do que um ou dois dias atrás. A gente tentava conversar alguma coisa, qualquer coisa, mas não dava. Ela ficou lá em pé, do meu lado, e eu sentada, sem a mínima coragem de levantar. A dor era perfurante. Me lembro de dizer, em algum momento: “parabéns pra mim”, ainda esboçamos um sorriso. Ela disse parabéns e eu disse que era um renascimento – precisava acreditar nisso. Nessa conversa – que eu ainda disse que “nem havia nascido ainda”, porque era umas 04:30 da manhã, e eu nasci 06:20 – a dor passou. Ficou uma espécie de peso, mas a dor cessou. Aí, quando eu não esperava nada, senti uma coisa assim: ploft!, literalmente. De dentro de mim, pra fora. Senti “uma coisa” (que eu ainda não sabia o que podia ser) passando pelo canal. Foi rápido e não doeu. Fiquei surpresa com aquilo e avisei minha mãe. Olhei rapidinho e vi, de novo, aquela gosminha, mas dessa vez com um pouco de sangue. Eu ainda queria tomar banho, achava que tava só começando, não tinha muita noção das coisas – mas sim, já era o “expulsivo”, e pelo tamanho que senti passando, era mesmo o feto indo embora, junto com a bolsa, mas não pensei mesmo nisso na hora. Pedi água e minha mãe foi buscar. Não sabia mais se sentia calor ou frio. Pedi uma bolachinha de água e sal, porque comecei a perceber que minha pressão dava sinais que estava caindo. Comi um pedacinho só. Eu precisava deitar, não estava nos planos desmaiar no banheiro, ainda mais naquelas circunstâncias. Minha mãe trouxe uma blusa de um pijama dela e eu disse que precisava mesmo sair dali. Decidi que não queria nem me limpar, pra não ter contato com nada, e nem olhar pro vaso quando levantasse (minha mãe disse que olhou, mas como a água estava escura, não conseguiu ver o tamanho, nem nada). Coloquei a calcinha (com absorvente) e fomos pra sala. Foi o tempo exato de eu não desmaiar (depois ela contou que eu fiquei bem branca). Deitei e coloquei as pernas pra cima, pra circulação voltar. Ela trouxe uma cobertinha pra me embrulhar – estava com frio e a dor tava começando a voltar – e eu coloquei uma parte dela embaixo de mim, pra proteger a capa do sofá de algum acidente. Fui me esquentando e relaxando. Depois de um tempinho, foi me dando sono – talvez pelo cansaço, ou por não ter dormido nada, não sei. Já devia ser algo em torno das 05 e pouco da manhã. Dormi no sofá. Minha mãe sentou e coloquei as pernas no colo dela, e ela também dormiu.

Acordei quase 07:00, eu acho. Fiquei deitada mais um tempo, meio dormindo, meio acordada. Mas me deu fome. E vontade de fazer xixi. Meu pai já tinha acordado e veio me dar um abraço pelo meu aniversário. Levantei devagarzinho e fui ao banheiro. Achei que estivesse bem suja de sangue, mas não estava. Tinha um sangramento, claro, mas algo dentro do normal, digamos assim. O Cleber levantou, super preocupado comigo. Me deu um longo abraço – pelo aniversário e por todo o resto – depois fomos tomar café da manhã. Disso eu lembro, pois eu queria especificamente pão “na chapa” e café com leite, e assim foi.

Passei o dia todo em casa. O sangramento não aumentou demais, mas ficou constante. Eu estava muito triste, mas não chorei o tempo todo. Fui andar lá embaixo um pouco com o Cleber, mas voltamos logo porque não estava tão bem assim. Não quis falar com ninguém no telefone, porque estava muito sensível mesmo, então todas as ligações que recebi pelo meu dia – de pessoas que sabiam, ou não, do ocorrido – foram atendidas pela minha mãe. À tarde, enquanto ela falava com a minha vó (mãe dela), que sabe um monte de receitas de chás, pra tudo (depois eu conto disso), chegou a encomenda que eu tinha feito de um gorrinho lindo de coruja, pra ajudar no parto do Raul. Ainda veio uns tsurus lindos, e uma cartinha escrita à mão (obrigado, Débora!). Minha mãe começou a chorar quando viu, teve que desligar o telefone. A abracei e disse que não precisava ficar assim – mas ela ainda não havia chorado nada, então deixei. Depois eu também chorei.
A Isa ia vir aqui em casa, mas teve que atender um parto de última hora. Me ligou perguntando se por mim tudo bem ela ir, se eu estava bem (fisicamente), e como eu disse que sim, ela foi. E ficou de vir no sábado.
À noite, minha tia, minha prima, com o marido (irmão do Cleber) e o filhinho deles, que fazia dois anos naquele dia, junto comigo, vieram pra cá. Foi difícil. Não pela presença deles, ou por ver um bebê-quase-criança. Mas era uma alegria que eu não sentia. Chorei no quarto, com o Cleber, pra que ninguém visse.

No sábado, dia 10, a Isa veio aqui me ver e foi ótimo. Conversamos, rimos um pouco. Ela almoçou aqui, ouviu alguns causos da família. Me fez super bem mesmo. Eu ainda estava com medo da coisa desandar, fisiologicamente. Não tinha mais dor, só umas cólicas leves de vez em quando, e o sangramento ora ficava pouco, ora aumentava. Eu tinha medo de ir no hospital e eles me internarem. Resolvi, então, ir na Casa Angela, assim eu aproveitava pra contar o ocorrido. A Isa teve que ir embora, e fomos todos – meus pais, Cleber e eu – na Casa. A Fran, mesma EO da última consulta, estava lá. Mediram minha pressão, ok. Temperatura, ok. Ela ficou muito triste por nós. Disse que eu podia sentir a minha dor, sim, e que na hora certa viria outro bebê, mas que um não iria substituir o outro, e outras coisas mais. Daí foi examinar meu sangramento, e disse que estava dentro do esperado mesmo. Disse até que podia vir mais, mas que meu corpo estava sendo perfeito. Me deu uma guia pra fazer um ultra quando o sangramento acabar.

E foi isso.
Muito triste. Muito intenso. Muito dolorido.
E não posso deixar de achar que foi até rápido também.

À noite, ainda fomos num restaurante, tentar espairecer – essa está sendo a meta de vida do Cleber, não me deixar cair. Senti uma tristeza lá, quase chorei mesmo, mas segurei. Foi coisa rápida a saída.
No domingo à tarde dei uma caída, sangrou um pouco mais, e fiquei um bom tempo deitada. Chorei mais um pouco.
À noite, entrei em parafuso, achando que eu era uma merda e que não tinha me despedido direito da Bolota, que eu tinha agido errado. O Cleber conversou comigo, disse que eu tinha feito tudo que podíamos, que eu tinha rezado por ela, e até me lembrou que eu esperei o tempo dela, pois não fui ao hospital induzir, que tudo aconteceu no tempo de Deus, no tempo da natureza. Chorei mais.

Ontem a rotina voltou ao normal. E nem chorei muito, só um pouquinho quando fui tentar escrever uma carta pra ela, mas não consegui terminar.
Hoje passei o dia escrevendo esse relato – tendo que parar pra secar as lágrimas, comer e espairecer um pouco com outras coisas. Acho que a palidez tá passando aos poucos.
Parece que tá tudo meio distante, meio vago, meio turvo.
E estamos indo assim, um passinho de cada vez, porque ainda não consigo olhar pro futuro.
Mas um dia eu hei de conseguir.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia – essas coisas todas de consulta – e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse “esse sonar é antigo, então faz um chiado”. E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou… e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar – mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto – e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): “eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado” (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse “tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você”. No caminho, eu disse pra ele: “a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa”.

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: “você tá vendo alguma coisa?”, e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar – literalmente – o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico – devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: “olha, o seu bebê parou de se desenvolver”. Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei “e agora?”, e ela disse pra eu ir no hospital. “Agora?”, “é, acabar logo com isso, né?”, foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar – o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: “mãe, não tem mais bebê”, e ela ficou totalmente abalada – devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde – ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo – que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do “tenho que agir agora” e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: “ela acha melhor esperar. Né?” “É, na minha opinião é melhor esperar”. Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua…)

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