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29 semanas, a ficha que cai… e outras coisinhas mais

Hoje é dia 04 de maio. Ou seja, temos o mês de maio todo pra viver. Depois todo o mês de junho.

Quando julho chegar, a pequena Agnes vai chegar também. Em qualquer dia do mês, no tempo dela.

2 meses para entrar “a termo”. DOIS meses.
O que eu falei nos últimos posts mesmo? Que o tempo tem voado, passado muito rápido, escorrido entre os dedos, como areia. Agora ninguém pode falar que eu estou exagerando.
Céus! O frio na barriga tá começando a aparecer por aqui. A ficha de que um bebê ~de verdade~ vai chegar demorou quase 30 semanas pra cair. Sim, lerdeza gravídica, eu sei, mas precisava de tanto? 
Estou mais introspectiva esses dias. Claro, ainda tem coisas a serem feitas, mas estou preferindo ficar mais na minha sempre que possível, curtindo a barriga e querendo guardar todas as sensações num potinho. É uma delícia estar grávida, estou amando, de verdade! Muito feliz em estar vivendo essa fase, do jeito que está sendo. A pequena mexendo, a barriga crescendo num ritmo tão perfeito, que é como se ela sempre estivesse aqui – tanto que até me assusto quando me vejo no espelho ou em fotos, rs. 
Hoje fui ao açougue com marido, caminhando. Coisa simples, mas não é do ladinho de casa, não, dá uns 15 minutos na ida e mais 15 na volta. Aí percebi que, por mais que eu ache que a barriga não esteja pesada, ela tá, sim. No meio do caminho comecei a sentir a diferença. Um leve incômodo na lombar, um pesinho no pé da barriga. Mas aguentei ir e voltar, normal, só decidimos que vamos sair logo pra comprar o que estiver faltando, coisas que eu estava deixando mais pro fim, mas como não quero forçar nada nem ir as compras me sentindo pesada, então que se resolva logo tudo. 
Também tenho sentido muito menos vontade de ir pros exercícios de gestante. Algo a ver com querer estar mais focada em mim e na Agnes, e não em “fazer social”, cara de alface e sorrir pros papos que rolam lá, duas vezes por semana, se é que me entendem. Tô pensando em comprar uma bola de pilates e seguir fazendo alguns exercícios e alongamentos aqui mesmo, além de caminhadas leves no condomínio. Coisa meio instintiva mesmo, sem grandes explicações de livros ou manuais, só mesmo intuição de mãe.
Só comecei a sentir as contrações de treinamento há poucas semanas. Ou sentia e não percebia, não sei. Só sei que agora elas aparecem por aqui, umas 2 ou 3 vezes por dia, dependendo do esforço que faço. Não consigo medir o tempo direito, acho que porque estão leves ainda, mas é curioso sentir isso, né?! A barriga endurece mas não dói nadinha de nada, rs. 
Ah, percebi que a Agnes tem mexido bem menos, hoje mesmo foi bem sutil, de vez em quando. Já tinha lido que seria normal a partir de agora, mas não deixei de me assustar. Fiquei meio encucada, mas acho que o espaço tá começando a ficar pequeno pra tanta animação que ela tinha.
A parte chatinha é que apareceu umas micro bolinhas na minha barriga, que coçam muito! Pensei que fosse sinal de que as estrias estivessem chegando, mas até agora nada. Depois percebi que tem no seio também, tipo umas manchas vermelhas (na barriga também fica vermelho), então tô achando que pode ser alergia de alguma coisa. Não comi nada de diferente esses dias e por via das dúvidas suspendi um creme anti-estrias que usava vez ou outra. No mais, tudo normal na rotina. Ainda não passou e de noite parece que coça mais, é péssimo. Mas tenho consulta com a Catia na próxima terça, daí vou ver com ela direitinho o que pode ser. Mas torcendo para não ser nada demais. 
Na prática, falta pouca coisa pra poder dizer que está tudo pronto pra chegada da pequena. Alguns poucos itens de enxoval dela e algumas coisas pra mim, que também tô nesse jogo né não?! Quase esqueci que também estava na lista, haha. Já compramos o bercinho estilo co-sleeper, mas ainda não chegou. Já comecei a fazer o enfeite de porta pra ela (aquele da nuvem com chuva colorida ❤ ). E estávamos prestes a sair pra comprar a cômoda, mas decidimos que vamos reformar, nós mesmos, uma que já temos em casa. Pais possuídos pelo espírito DYI, a gente vê por aqui, hahaha \o/. Nada muito elaborado, porque nunca fizemos isso, mas assim que ficar pronto eu mostro, com certeza. No mínimo, vai ser divertido, rs. 
Esse mês vai rolar um ensaio da pancinha, eeeee \o/ Se tudo der certo vai ser dia 17, tomara que esteja um dia bem bonito 🙂
E entrei em maio mudando o visual, cortei o cabelo curto de novo. Ele cresceu rápido e, como tenho bastante cabelo, estava pesado, sem corte. Resolvi isso ontem e agora me sinto bem melhor – adoro cortar a juba, hehe.
                               

E adivinhem com quem eu estive esse fim de semana? Sim, a Louca do Bebê mais querida da blogosfera! \o/ Eu já fui na Bahia, agora foi a vez dela vir em Sampa me ver, hahaha. Brincadeira, foi um encontro bem rápido dessa vez, mas valeu super pra matar a saudade, conversar e dar abraço barriga com barriga, rs. 
Adoro esses abraços, já rola sempre com a Dani, amiga amada, mas ainda não temos registros – vamos resolver isso em breve, né, Dani? – E agora foi com a Nana. Muito legal essa energia gravídica junta ❤
À propósito, ela está linda e Landinha está crescendo e aparecendo lindamente. 
Nana, amei te ver de novo, sempre muito bom conversar contigo. Certeza que no próximo encontro vamos slingar juntas, haha”
Barrigando em São Paulo
E é isso, meu povo. 
Essa semana tem doula, tem consulta, tem encontro com minha parceira de devaneios, conversas, equipe pré-natal e tudo mais, e com certeza deve ter mais alguma coisa que não estou lembrando, rs.
Passo aqui pra atualizar em breve.
Beijo e uma semana linda pra todo mundo o//
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A beleza do corpo feminino

Eu estava mesmo querendo falar sobre isso aqui, mas acabava deixando pra depois, ou esquecendo. Aí li esse texto lá no Vila Mamífera e simplesmente adorei. Então vai ser agora.

Esse assunto sempre chama a minha atenção. Corpo feminino. Beleza real x capas de revista photoshopadas – e a busca incessante de algumas mulheres por medidas e resultados que, ou chegam as custas de muito “sofrimento”, ou nunca chegarão. E o que chama a minha atenção é justamente isso: por que não gostamos do nosso corpo como ele é? Por que é tão difícil romper a barreira do que é dito ideal e nos orgulharmos com o que vemos no espelho? A resposta é complexa, eu sei, não estou banalizando a coisa toda. Sei que, se por um lado algumas mulheres realmente só fazem certas coisas para serem (ou tentarem ser) as mais magras da turma, por outro, outras tantas tem suas próprias questões na cabeça e lutam para não sucumbirem diante de tanta demanda. A sociedade ainda é muito machista, ainda temos revistas e sites divulgando fotos, aos quatro cantos, que beleza é corpo magro, mas nem tanto, tem que ter curvas, sem celulite, sem estria, em cima de um salto 15, com a depilação em dias e o cabelo todo trabalhado no esticamento. Mulher acima do peso é desleixada; deixar a unha por fazer, então, nem se fala. (nota da autora: não estou falando de saúde, que isso não se discute; estou falando sobre gente achar que só é bonita quem é ‘quinem’ a moça da revista).

O que eu tenho a dizer sobre isso: não tenho um pingo de paciência! 
Deve existir, em algum lugar, mulheres que realmente são assim “de nascença”, que se sentem ótimas sendo quem são. Mas não é a esmagadora maioria. Ou seja: pra mim, isso não é padrão de porra coisa nenhuma.

“O que é, afinal, um corpo bonito? Quem define o belo? Quem traça a linha entre a beleza e a feiúra?

Beleza verdadeira é beleza de gente de verdade. Gente que chora, ri, tropeça, se machuca e se recompõe. Gente que vê passar os dias, que luta, que se delicia. Gente que ama, que goza, que cresce e amadurece, que se olha no espelho e gosta de perceber em si cada marca deixada por tudo aquilo que se viveu.”

É isso que nos diz Renata Penna, no texto que linkei acima. E sim, eu concordo com ela.

Falando de mim, agora.
Até onde eu me lembro, sempre gostei do meu corpo. Sempre fui magra, apesar de hoje não ser mais tanto, rs. Mas não, não estou querendo dizer que só me gosto por ser magra. Estou dizendo que sempre fui mais ou menos do mesmo jeito, apesar de comer um monte de besteiras e ser meio sedentária . É genética, eu acho. Quer dizer, antes eu era muito magra e só comia besteiras e era sedentária. Hoje eu tenho um corpo com mais curvas, me alimento bem melhor e faço algum exercício, ainda sem muita regularidade. Não é uma relação direta, aqui nesse meu caso, e só tô explicando pra ficar tudo esclarecido entre nós. Quase fui modelo, mas não segui carreira porque não tinha saco pra essa coisa de emagrecer pra viver, rs. Segui anônima, sem dinheiro, mas do meu jeito. Fui crescendo e meu corpo foi mudando. Em algum momento, há uns 4 anos atrás, mais ou menos, eu dei uma engordadinha básica – e acredito que era inchaço, causado por um anticoncepcional que eu tomava, porque foi só trocar que emagreci. O fato é que eu já não tenho o corpo de antes, o metabolismo vai mudando mesmo, mas eu o adoro assim como é. O que não quer dizer que eu não enxergue defeitos. Tenho um monte de celulites (na minha visão são milhões delas, por todos os lados, e é sempre com isso que fico encucada quando vou a praia, haha), algumas estrias e tem dias que me acho péssima. Todo mundo tem seus dias ruins, não é? Apesar disso, me sinto muito confortável dentro do meu corpo.

Tanto que já até registrei.
Ano passado eu voei até a Cidade Maravilhosa para participar do projeto do fotógrafo Jorge Bispo, o Apartamento 302. Ele fotografou mais de 100 mulheres anônimas, reais, do jeito que são, sem nenhum photoshop, nuas. Foi uma das melhores experiências que eu já tive, se querem saber. E é uma maravilha ver todas as fotos. Mulheres de todos os tipos, de todas as cores, de todos os tamanhos. Todas belas. Todas possíveis (e sim, estamos em processo de edição e o livro desse projeto chega no mês que vem!).

Assim como este projeto que participei, existem alguns que são dedicados às mães. Porque o nosso corpo muda muito depois de gerar outra pessoa, e algumas vezes é difícil aceitarmos que nada será como antes, inclusive o nosso corpo.
Mesmo tendo gestado por apenas 4 meses, senti na pele que uma gravidez nos transforma. No meu caso, não ficou impresso do lado de fora, aos olhos alheios, o tanto de coisa que mudou – mas de certo ficou impresso lá dentro. O fato é que eu me sinto diferente, como se estivesse maior. Não sei explicar muito bem. Fico pensando como é depois dos 9 meses. Com certeza vou querer participar de um projeto para mães também.
Entendo que para algumas é difícil ver beleza, assim de imediato. Porque volta naquilo que eu disse lá em cima: não é isso que vemos por aí, né?

O que eu quero saber, de verdade, é: por que buscamos, lá fora, um olhar que deveria vir de dentro? Por que não fazemos as pazes com a nossa autoestima e não valorizamos o que nos faz bem?

Acho que me sinto “maior” porque tenho mais histórias vividas. Eu me surpreendi muito positivamente com o poder do meu corpo e da natureza depois de tudo que passei. Não tem como eu não me gostar ainda mais depois disso – mesmo que, a princípio, venha um certo estranhamento.
E também faz parte do autoconhecimento. Eu sei de cada detalhe do meu corpo. Das marcas que carrego e do espaço que ainda há para novas histórias. Não quero me envergonhar de quem sou, ou desejar ser outra pessoa.

O bonito é o que nos diferencia, é o que temos de particular. Que graça tem parecer uma Barbie, de plastico, sem opções? Ruim seria se ainda tivéssemos a mesma cara desde os 13 anos, mas com a maturidade, o pensamento e o conhecimento que temos hoje. Já pensou nisso? Mudam os caminhos, as oportunidades, as ideias. Mudamos por dentro. Por que permanecer igual por fora?
Acho que eu se eu fosse fotógrafa, com certeza iria voltar o meu olhar para as mulheres, todas elas, jovens, velhas, solteiras, mães. Todas.
Por experiência própria, é muito gostoso se deixar fotografar de forma natural – com ou sem roupa, não estamos nesse tema ainda, rs. Gosto de ter esse ponto de vista sobre mim mesma, é muito bom. Quem sabe alguma hora dessas as coisas não mudam pra mim e eu me arrisque, não é? Não faço ideia. Mas enquanto isso, te faço o convite: permita-se amar você inteira. Por dentro e por fora. Se puder, registre. Busque aí dentro o que faz seus olhos brilharem. E depois me conta o que achou.

Eu, no Apartamento 302. Arquivo pessoal.

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Arquivado em atitudes, autoconhecimento, beleza, corpo, minha opinião

Habemus ciclo

É isso, minha gente.

Não tem mesmo como fugir: somos feitos de ciclos.

Eu não fazia a mínima ideia de quando as coisas voltariam ao seu devido lugar.
11 dias de sangramento ininterrupto e mais 4 de escapes – foi assim no mês passado. Mas isso não é ciclo, né. Era o meu corpo trabalhando, fazendo uma limpeza poderosa.
E claro que depois desses dias todos, eu não queria nem pensar nesse assunto; tudo que eu queria era um pouco de paz e tranquilidade. Fiquei bem desencanada mesmo. Até porque ainda estávamos com a ideia de só tentar lá no final do ano.

Depois comecei a pensar “será que vai demorar quantos dias pra descer de novo?”
Não tinha como saber. Porque pra saber eu precisaria começar a contar de algum ponto, e estava tudo muito turvo ainda. Na minha cabeça que inventa as próprias verdades, pra mim tudo “começou” de novo quando findou de vez os sangramentos. Uma espécie de “ciclo ao contrário” – porque a gente sempre conta a partir do 1° dia da última menstruação, e em algum momento eu decidi que contaria a partir de quando estivesse limpa (nota da autora: essas contas se deram só semana passada, quando peguei o calendário pra dar uma conferida nos dias mesmo). Pra mim, aquilo fazia parte do passado, não dava pra contar aqueles dias todos como parte de um próximo ciclo – ainda era parte do que eu estava elaborando, de outro capítulo da minha vida, que começou em abril e terminou em agosto. Fim. Acabou sangramento? Ok, agora vamos começar a vida nova, renovada, mas ainda sem contas, porque essa ideia é coisa da minha cabeça e eu não posso me basear inteiramente nisso, era só pra colocar as coisas em perspectiva mesmo.

Mas os dias foram passando e eu fui notando umas mudanças.
Nas duas últimas semanas eu tive a maior tpm (de tamanho, quero dizer) da minha vida.
Fiquei mais irritadiça, um pouquinho inchada e minha pele – que se rebelou contra mim depois de tudo que passei e resolveu que essa era uma boa hora para ficar oleosa (raiva, raiva, raiva!), ficou ainda mais horrível. Já disse que fiquei com raiva dessa parte? Daí já comecei a pensar: estou de tpm. Não sei quando vai vir, não sei quanto vai durar, mas é oficial: estou de tpm.
Semana passada comecei a me sentir muito feia. Feia, inchada e chata. Nem eu me aguentava mais.
Eu sabia que estava perto, tem um sinal específico do meu corpo que sempre me avisa quando está pra vir – só faltava saber quando.
Nesse sábado, fiquei imprestável. Acordei me sentindo mal, pesada, com vontade de me enfiar debaixo das cobertas e só sair na semana que vem. Minha cabeça doía e parecia que eu usava roupas muito pesadas (mas era só pijama), porque eu me sentia limitada mesmo, sem contar a vontade de chorar a cada minuto. A ficha foi caindo aos poucos, fui me lembrando de um tempo longínquo, em que as coisas eram exatamente assim, difíceis. Fui dormir sabendo que podia ser a qualquer minuto. E domingo acordei com a novidade.

Exatamente no 33° dia, contando a partir do primeiro dia sem sangramento.
E vai parecer mentira, mas 33 dias é a média de duração dos meus ciclos sem anticoncepcional (quando eu usava eram 28 dias cravados). Foi exatamente isso que durou o que precedeu o positivo, inclusive (acabei de conferir). Ainda estou meio chocada com essa constatação, apesar de todas as provas que já tive sobre ser tudo muito perfeito e tal.

Percebo que coisas boas e horríveis podem acontecer, que uma tempestade de gelo pode cair no seu telhado, mas quando ela passa e você consegue respirar de novo, é bom sentir que certas coisas ainda estão no lugar onde você tinha deixado, com a diferença que agora você tem um novo olhar pra tudo isso.

E esse é o momento em que eu me rendo, jogo a toalha e declaro: natureza, você é foda!

Arquivo pessoal.

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Arquivado em ciclo, conversando, corpo

O lado bom

Tá limpo, não tem mais nada mesmo (…)

Essa foi a primeira frase da médica ultrassonografista, ao ver a imagem do meu útero na tela ontem, quando finalmente fui fazer o ultrassom para me certificar que estava mesmo tudo bem comigo, fisicamente. A mesma médica, inclusive, que me deu a notícia que eu nunca quis ouvir, há 25 dias. Ela usou o mesmo tom de voz baixo, calmo e, dessa vez, até admirado, pelo que via.
E agora eu posso escrever sobre como eu estou impressionada com o poder de funcionamento do corpo feminino. Aliás, este é – se não o maior – um dos maiores aprendizados de toda essa história, e eu quero dividir alguns pensamentos com vocês.

Pode parecer contraditório, mas ter acontecido tudo do jeitinho que foi  – fisiologicamente falando – me deu muita força.
Explico: o “único” medo que eu tinha em relação ao parto, era que o TP (trabalho de parto) não progredisse e eu precisasse de alguma intervenção; porque foi exatamente por isso – medo de intervenções, soro, acessos na veia, sem que haja real necessidade (e não por rotina hospitalar e formação inadequada dos profissionais, pra dizer o mínimo), sem que ninguém ao menos escute o que eu digo – que eu comecei a minha busca por um atendimento mais humanizado durante a gestação e o parto, muito antes de decidir quando viraria tentante. Na época, eu só queria um profissional que entendesse e respeitasse a minha sensibilidade, eu só queria saber se existia uma alternativa ou se eu seria obrigada a sofrer por horas a fio em um dos momentos mais importantes da minha vida. Mas aí eu me apaixonei pelo tema e hoje sou uma amante-(quase)-ativista da humanização do parto e nascimento, apoiadora convicta de que as mulheres se empoderem de todas as formas que couberem em suas vidas (e que eventualmente permitam-se ultrapassar seus próprios limites também). Tanto me envolvi com o assunto e tanto me senti segura pelas informações que obtive, que em dado momento esqueci da minha sensibilidade – eu já pensava na coisa toda em níveis sociais, não só nessa minha particularidade.

Bom, claro que me “lembrei” da minha sensibilidade no momento em que precisei fazer os primeiros exames do pré-natal, como vocês podem imaginar, porque é uma furação que não acaba mais (ok, é só uma vez, mas são muitos exames, então demora. 1 vez ou 10, a tortura pra mim é a mesma). Não bastando que eu me lembrasse desse “detalhe”, comecei a ouvir algumas vezes, quando eu dizia que teria parto natural: “mas você tem que aceitar que você pode precisar de intervenções”, “você tá com essa ideia fixa na cabeça, e se você precisar?”, “não dá para controlar tudo, bla-bla-bla” e todo leque de variações dessa especulação. Sem contar que quem dizia isso geralmente não se referia às mesmas necessidades que eu, quando sentia medo de ter que passar por isso de qualquer jeito; eu me referia a situações reais extremas, em que o uso de alguma intervenção intravenosa resguardasse a minha saúde e a saúde do meu bebê em primeiro lugar. Só mesmo se eu precisasse de um antibiótico, ou alguma situação em que a ocitocina sintética fosse inevitável – cesárea nem entrava nessa lista, porque nesse caso não haverá o que questionar: vão me abrir pra salvar meu filho e fim de papo (mas sim, claro que tenho medo de ter que passar por uma cirurgia, mas essa é outra história). As outras pessoas se referiam a qualquer outro motivo (como acelerar o processo pra acabar logo, ou sei lá o que). E ouvir isso, vindo assim de certas pessoas, não me ajudava em nada a encontrar um meio de lidar com o medo, só me irritava e me fazia pensar ainda mais no que eu temia, e eu sabia que só temer não adiantava, porque se eu me travasse, podia ser pior.
Eu tinha medo de sentir medo. Porque se eu sentisse medo, podia travar o processo do parto e eu teria que encarar uma intervenção que eu não aguentava nem pensar – e então me apavorava: como eu ia conseguir ser protagonista ativa na hora do meu parto, se quando estou com algo na veia fico com o braço literalmente paralisado, suando frio e tenho que me manter quieta? E então sentia mais medo. E era um ciclo sem fim. Eu precisava encontrar uma forma de saber lidar com isso e, definitivamente, ouvir aquelas frases, vinda de qualquer pessoa que fosse, não estava no pacote.
Aliás, por isso escrevi aquele texto, pra ver se encontrava um jeito de lidar com eles, caso eu não tivesse mesmo pra onde fugir (inclusive, na última consulta que tive na Casa Angela, tirei todas as dúvidas que eu tinha).

Percebam, o meu medo mesmo era do desconhecido. Não tinha como alguém me assegurar que eu não ia precisar de nenhuma intervenção no parto – isso não existe! E por ter aversão a algumas coisas, eu ficava com muito medo de ter que lidar com elas, sem ter pra onde fugir. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que dizem ter medo da dor ou de qualquer outra coisa no parto. Ninguém pode nos dar certeza de nada.

Pois bem, e o que me aconteceu? No mesmo dia em que eu tirei todas as minhas dúvidas sobre possíveis intervenções com a EO, mil baldes de água gelada caíram na minha cabeça. Quando a médica do ultrassom disse que eu deveria ir pro hospital dar prosseguimento e “acabar logo com aquilo” (nas palavras dela), minha cabeça ficou metade paralisada, metade desesperada. Na dúvida, desabei a chorar e inundei qualquer vestígio de consciência que me restou. Não sei se ficou claro no meu relato, mas eu realmente passei a acreditar que eu precisaria de alguma intervenção. Comecei a tentar me preparar, tentar ficar forte, porque eu precisaria ficar no hospital, iam me furar e eu não tinha como me livrar disso. Eu me sentia tão anestesiada, tão sem forças, que eu queria muito que alguém fizesse aquilo por mim; em algum momento devo ter desejado dormir e que tudo estivesse acabado quando eu abrisse os olhos novamente. Imagina, como eu iria encarar um monte de sangue sem desmaiar? O que eu tinha que fazer? O que iria acontecer em sequência? E se eu fizesse algo errado, e se desse tudo errado? Será que não dava para alguém fazer isso pra mim? E tudo isso eu pensava e sentia num curto espaço de tempo, entre o laboratório em que fiz o exame e o consultório da Betina, minha GO.
Eu não me sentia capaz de lidar com aquilo – essa é a grande verdade e só agora consigo elaborar dessa maneira. Eu não me sentia pronta para lidar com aquele desconhecido que se apresentava, sem cerimônia, bem à minha frente. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que querem logo de cara uma cesárea eletiva. Não ver era tudo que eu queria. (e antes que as mulheres que escolheram cesárea eletiva digam, não estou afirmando aqui que todas vocês optaram pela cirurgia pelos mesmos medos que eu senti, nem estou comparando a minha perda com o nascimento dos seus filhos, por favor!, cada uma sabe da sua história – o que eu disse é que eu consegui, por um momento, entender o medo que, porventura, alguma de vocês possa ter sentido, justo eu, que nunca entendi isso. Empatia, e não ataque). O fato é que, no meu caso, não existia “escolha”: induzido ou natural, ia acontecer pela mesma via de nascimento.

Mas tinha sido também por isso que eu havia me cercado dos profissionais mais humanizados, de todos os lados. Para os momentos de medo, para quando eu me esquecesse que sim, eu acredito que a natureza sabe trabalhar se a deixarmos fazer isso. Eu realmente acredito nisso, e super defendo esta ideia, mas passar por uma situação que te tira do eixo faz com que você esqueça até do seu nome. Sentei de frente pra Betina e, à medida que fomos conversando, fui recobrando alguma consciência. Ela me disse que eu podia confiar, que o meu corpo ia agir, mas que se fosse afetivamente muito pesado pra mim, podíamos ir pro hospital induzir. Disse que a escolha era minha e que eu não precisava decidir nada naquele momento, podia pensar um pouco antes, em casa, e tudo bem. Acho que nesse momento o empoderamento que eu tinha conquistado começou a se mexer em algum canto da minha mente. A situação era comigo. O corpo era meu. A escolha não poderia ser de mais ninguém. Por mais medo que eu sentisse – e eu sentia! – do que estava por vir, eu peguei a minha crença na natureza e fui embora pra casa.

Aqui cabe dizer que a minha mãe era uma das pessoas que mais dizia aquelas frases que eu tanto detestava, que eu podia precisar de intervenção, etc. Eu ficava doida de irritação quando a ouvia dizer aquilo. E no consultório ela perguntou pra Betina o que ela indicava (natural ou induzido), ao que ela responde “natural” sem nem pestanejar. Minha mãe acatou aquilo e não tocou mais no assunto. Mais tarde, quando chegamos em casa, ela só me disse: “eu sei que a escolha é sua e você quer natural, mas se quiser, posso fazer um chá que ajuda” – e essa foi a única intervenção que ela me ofereceu: um chá.

Eu comecei a sentir as dores, resolvi encarar tudo como um trabalho de parto e simplesmente senti. Senti as dores. Senti medo. Senti tudo. Acho que isso é se entregar, no fim das contas. Quando eu comecei a me sentir travada, com medo de ver o feto e passar mal, comecei a rezar com muita fé, pedindo a Deus que me desse força para o que viesse. Eu não queria me sentir travada, porque sabia que podia parar o processo e piorar tudo. As dores vinham cada vez mais fortes e eu fazia de tudo para que elas fossem embora rápido. Eu não sabia quanto tempo duraria. Eu não sabia o que ia acontecer. Não tinham regras, nem métodos, nada. Naquela madrugada eu estive o mais perto que já cheguei do abismo do desconhecido, literalmente. Então, me preparei mentalmente para o caso de demorar (eu sempre cresço as coisas, para me sentir mais preparada), ainda mais que eu sabia que podia demorar dias até o meu corpo expelir, nem me dei conta de que, se eu estava com as dores naquela intensidade, não teria como demorar muito mesmo. Tanto que ele expeliu e eu nem percebi que era aquilo. Foi tão rápido que eu nem tive tempo de travar. Minha pressão começou a cair, eu fui me deitar, acabei dormindo por quase duas horas e, só quando acordei, conversando com o Cleber e minha mãe, nos demos conta de que já tinha acontecido mesmo.
Esperamos, então, que eu tivesse um sangramento enorme, ou coisa assim, porque a Betina tinha dito que seria mais do que uma menstruação, por exemplo. Mais uma vez, cresci aquela informação na minha cabeça e esperei “o pior”. Não aconteceu. Não do jeito que eu esperei, pelo menos. Sangrei por uns 10 dias seguidos – depois ficou mais alguns escapes no meio do caminho, mas não foi a abundância que eu achei que seria. Usei aqueles absorventes noturnos e nem chegou a vazar, ou precisar trocar a cada hora. Senti umas cólicas também, mas tudo dentro do esperado. Mantive repouso por duas semanas inteiras, sendo que nos dias úteis eu não coloquei o pé fora de casa, levei a sério mesmo.

E a cada dia que passava, e para cada pessoa que eu contava, eu sentia algo dentro de mim, algo bom, quando eu focava que o meu corpo tinha feito todo o trabalho sozinho. Eu me apeguei muito a isso. Eu esperei, eu confiei, eu me entreguei  – e o meu corpo agiu! Senti medo? Muito! Mas eu aprendi, na prática, que se não tem mesmo onde se esconder, não há nada que possamos fazer, a não ser encarar o que vier. Eu me sentia numa estrada completamente escura, não sabia onde seria meu próximo passo nem o que encontraria adiante. Mas eu sabia que ficar parada não me faria chegar. A minha vontade de ver a luz novamente foi maior que o medo. E no caminho escuro e incerto que tive que passar, o único feixe de luz (ou consciência) que eu dispunha era a minha fé e as pessoas que eu amo – naquela noite, especificamente, a minha mãe.

E ontem (sábado), quando a médica me confirmou que estava tudo bem comigo, concluí, definitivamente, o meu maior aprendizado: o nosso corpo é perfeito. O meu útero está do tamanho normal já, a médica mal acreditou quando viu. Está limpo também, sem mais nada dentro.
A minha vontade é de contar essa descoberta para todo mundo. Eu sei que o que eu passei foi muito triste (e ontem chorei de novo, vendo o ultrassom do bebê – claro que ainda dói) e realmente não desejo isso para ninguém, nunca. Mas foi também a minha bolota que me trouxe essa consciência toda do poder que eu tenho guardado no meu corpo – e eu enxergo isso como o lado bom do que parece ser inteiro ruim.

– Se antes eu tinha medo de travar e dar tudo errado – hoje eu não tenho mais.
O meu corpo me deu um presente e tanto, me mostrou o que é seguir um comando seu (porque sim, quando você está imersa naquele momento, tudo que seu corpo pedir, você fará. Eu sentia tanto calor que só me restou tirar toda a roupa – e foi depois disso que aconteceu) e que ele funciona perfeitamente bem, apesar de qualquer medo que eu sinta.
– Se antes eu ficava brava com os medos da minha mãe (ou de qualquer outra pessoa) – hoje eu não fico mais. Meus pais foram incríveis! Respeitaram as minhas escolhas o tempo todo e ainda me deram todo suporte necessário para passar por isso.

– Se antes eu era super a favor do atendimento humanizado – hoje eu não quero outra coisa na vida! Reafirmou a minha certeza. Quero que todas as mulheres tenham a oportunidade de saber o que é ter a sua calma devolvida por uma médica, o que é receber um abraço apertado de um profissional num momento ruim, ou ter realmente a oportunidade de escolher o que quer que seja que será feito com o seu corpo, com todas as dúvidas realmente esclarecidas e segura de que será amparada no que decidir.
– Se antes eu admirava o meu marido – hoje eu quero me casar com ele de novo, a cada dia. Porque apesar de não o ter citado muito aqui, ele está presente em cada linha desse texto, segurando minha mão, me abraçando e, quando eu só pensava se daria conta de tudo, ele perguntou pra Betina quando é que podíamos tentar de novo – foi ali que eu me lembrei (ainda vagamente naquele instante), também, que aconteça o que acontecer, vai passar, e a vida continua.

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Das coisas que aprendi

Ontem eu escrevi um textono meu outro blog, sobre uma “teoria de vida” que eu tenho: tudo em nossas vidas acontece por uma razão. Eu acredito nisso e me apeguei ainda mais a essa ideia agora, nessa tempestade que passei.
Claro que eu não posso afirmar com categoria “esse bebê veio pra isso, isso e aquilo outro”. Assim eu estaria, no mínimo, sendo prepotente. Além de estar diminuindo a grande missão daquela alma. Algumas coisas, com certeza, estão além do que supõe a minha vã filosofia – e eu também reverencio e admiro esse mistério divino. Mas eu acredito, também, que muita coisa que aprendi e vivi nesse tempinho se deu por sua presença aqui em mim. Disso eu posso falar. Porque eu percebo que algumas peças mudaram de lugar no meu tabuleiro, que algumas dúvidas e neuras que eu tinha, hoje ou não existem mais, ou estão em processo ativo de ser resolvido. E eu não posso simplesmente guardar isso, eu preciso registrar, porque além de ser ferramenta da memória, a escrita é minha aliada em muitas outras coisas. E eu vou fazer isso já, antes que eu me esqueça de alguns pormenores. Algumas coisas eu percebi durante a gestação e, por incrível que pareça, outras constatações vieram com a perda. Pois é, esta sou eu querendo encontrar algo positivo em meio a tanta dor.

Das coisas que me aconteceram durante a gestação:
Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que antes. Já até citei isso aqui no blog quando percebi. E sim, isso me surpreende, porque antes de engravidar eu era uma pessoa muito (muito!!) ansiosa, afobada, que fazia coisas por impulso e que sofria por antecipação. [Pra falar a verdade, isso era mil vezes mais frequente em mim antes de conhecer o Cleber – todo o processo de “sossega, Marina” (nome que eu acabei de inventar, rs) começou quando o conheci, não posso deixar de dar os créditos também a ele – mas desde que me descobri grávida passei a me sentir ainda mais calma pra lidar com algumas coisas do que antes]. Sendo sincera, não sei porque isso aconteceu, talvez tenha sido um amadurecimento mesmo, ou a minha forma de encarar certas coisas tenha mudado. Hoje eu consigo focar mais no que me faz bem e isso deve ajudar também. Só sei que até o meu irmão, que mora há mais 2.000 km de distância, disse que percebeu que eu mudei, que até o meu jeito de falar mudou – e ele disse isso alguns dias depois da perda- e isso só me mostra que o negócio pegou mesmo em mim, já que consegui permanecer assim, dentro do possível, até para encarar tudo que aconteceu de um jeito diferente.

Eu falei naquela blogagem coletiva que passei a confiar de verdade no meu corpo e em seus sinais, isso também foi algo que mudou. Aliás, acabei de ler o post de novo e me lembrei que eu tinha um medo real de algo dar errado. Naquela época, meus medos giravam em torno de uma gravidez anembrionária, ou de perder o bebê no comecinho – nunca nem pensei em algo dar errado com 17 semanas, mas enfim, aconteceu e agora estou aqui tentando colar os caquinhos. Mas o que quero dizer, além de tudo que citei lá no outro texto, é que ainda confio no meu corpo, sim. Eu poderia pensar que tem algo errado em mim (ou no marido, sei lá), mas esta nunca foi uma opção. Eu não sei o momento exato em que a vida do bebê se encerrou, só sei que eu tinha uma pulga atrás da orelha e isso me diz que sim, o meu feeling ainda funciona – e espero que continue assim por muito tempo – e o meu corpo trabalhou perfeitamente bem desde sempre, não há como negar. Também não me arrependo do fato de ter optado por fazer menos ultrassons (eu poderia ter feito um na semana anterior para tentar descobrir o sexo, mas não fiz), porque o fato de eu descobrir algo antes não ia mudar o desfecho da história – tudo acontece quando tem que acontecer, é o mantra que ecoo sempre, para me lembrar disso.

Sobre o tempo, eu poderia deixar para falar no post que vou fazer sobre as coisas que aprendi com a perda, mas aconteceu também durante, então vou citar nos dois. O que aconteceu foi que o meu ritmo diminuiu muito no tempo em que estive grávida. Eu fiquei mais introspectiva, não fui em shows, tive zero vontade de me exercitar. E eu respeitei isso, não tentei ir contra, não. Simplesmente porque acho que as coisas têm que ser vividas em sua totalidade (na medida do possível, claro). Foi um tempo fundamental para outra coisa que veio junto: a minha conexão comigo mesma (e, obviamente, com o bebê). Peguei mais leve fisicamente, mas emocional e psicologicamente foi intenso. Foi um tempo meu, em que me permiti viajar um pouco e que também veio à tona muitas respostas (com a ajuda do meu marido lindo, tenho que dizer, rs).

Não sei, tenho a impressão de que essas são só algumas coisas. É como se eu tivesse esquecido algo, ou talvez elas estejam relacionadas ao que citei aqui. Pode ser que algumas eu só descubra com o passar do tempo, quem sabe. Só sei que tenho uma sensação forte de que a minha fonte de luz me fez muito bem e que, entre outras coisas, ela veio para me ensinar mais sobre mim, sobre nós, sobre a vida.

Imagem: We Heart It

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Envergo, mas não quebro

Então a pessoa vem aqui, chora, reclama das inconstâncias da vida… e some. Aí é ruim, né gente?!
Daí que eu quero escrever montes e montes de coisas, mas eu sempre perco o fio da meada diante de tanto assunto. Ou seja, vamos começar aos poucos.

– Ainda estou de repouso. As coisas foram muito bem semana passada, no fim de semana comecei a acreditar que ia chegar ao fim, mas hoje tive uma (ingrata) surpresa e o sangramento (meio forte) voltou de novo. Pode durar até 3 semanas, então tá dentro do esperado. Mas como sou sensível pra essas coisas, preciso colocar o pé no freio, porque fico mais molinha mesmo.

–  Emocionalmente, estou indo bem. Senti aquela tristeza na quinta, já na sexta estava praticamente uma bipolar: ora queria uma gravidez pra ontem, já!, outra hora ainda chorava e nem queria pensar no assunto.
Agora estou firme, eu acho. Digamos que está tudo indo pros seus devidos lugares, mas ainda no esquema “um dia de cada vez” – meu lema de vida, rs.

– Por falar em fim de semana, sábado foi aniversário da minha mãe (beijo, mãe!) e fomos ao shopping rapidinho, já que eu me sentia bem e estava há uma semana de molho. Andamos, compramos, tomamos um café básico pra esquentar, e depois voltamos, porque me cansei rápido. Mas foi ótimo!

 um capuccino e uns docinhos pra aquecer 

Sábado. Ele nunca olha pra foto. E eu já consigo sorrir!
(alguma olheira ainda e disfarçando qualquer vestígio de palidez com filtros do instagram – mas estamos assim)

– Decidi que vou criar calos nos dedos, se preciso for, mas vou botar tudo isso que tá aqui dentro na tela (ou no papel). Tenho vontade de fazer isso já há algum tempo e nunca soube muito bem por onde começar (ainda não sei, mas né? isso é só um detalhe), mas, diante do que aconteceu e dos (novos) pensamentos que isso me trouxe, preciso mesmo fazer alguma coisa.

– Ou seja. Provavelmente, ainda surgirão alguns textos “reflexivos – oi, autoconhecimento” sobre o que passou. Não tenho um plano traçado – e os rascunhos estão quase todos na minha cabeça ainda – mas à medida que pintar inspiração para outros assuntos, vou postando também.

– Ainda não sei quando vamos – marido e eu  – voltar às tentativas. Agosto já está quase chegando ao fim (céus! já?) e, pelo menos o pensamento de hoje, é “descansar” em setembro. Ou seja, antes de outubro não rola. Tudo vai acontecer no tempo certo e eu vou atualizando vocês, na medida do possível.

– Já consigo ouvir música normalmente, amém! Não sei se todas, porque também não vou ficar escolhendo justo as que mais mexem comigo, né? Mas se já ouço os mesmos artistas sem chorar, já é um avanço e tanto! Tanto que o nome do post é uma música do Lenine. Um pedacinho dela aqui:

” (…)
Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mais volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibrio e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambú-taquara
Eu envergo mas não quebro
(…)”

– Ontem estava aqui de bobeira e resolvi dar uma mexida no layout do blog (já que moedas pra contratar um profissional eu não tenho). Achei que esse céu tem tudo a ver com o nome do blog, hahaha #aloca. E desvinculei total do Google + (que eu nem tinha escolhido, veio automático quando criei), agora só perfil Blogguer mesmo e tá de bom tamanho.

E chega, né? Escrevi demais!
E vocês, como estão?
Beijo pra todo mundo e que tenhamos todos uma boa semana 🙂

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O relato que eu não queria fazer, nunca – a noite

Segunda – e longa – parte do post sobre a minha perda (a primeira aqui), e que também foi revisado entre lágrimas. Mais uma vez, é favor perdoar erros ou repetições.
Este é um relato sincero e com detalhes de como aconteceu, comigo, a parte fisiológica do processo.
Sinta-se à vontade para não ler, por qualquer que seja o seu motivo. 

À noite – acredito que já era umas 22:00 (ou foi antes?) – minha mãe fez um chá de canela pra mim. Eu odeio chá, não tomo de jeito nenhum. Mas naquela circunstância eu encarei como remédio, como uma forma de fazer com que o processo fosse o mais natural possível. Ela fez meio forte, só consegui tomar uns dois ou três goles pequenos, deixei o resto da caneca de lado. As cólicas iam e vinham, sem muita frequência, e eram perfeitamente suportáveis, como se eu tivesse pra ficar menstruada mesmo.
Comecei a pensar no meu último encontro com a doula, em que conversamos sobre as fases do parto. “Pródromos: continue sua vida normalmente. Fase latente: a coisa vai começar a engrenar. Fase de transição: um dor atrás da outra, quando já está no fim da dilatação, é quando mais doi. Expulsivo: não doi”. Juro que me lembrei da Isa me falando isso. A Betina tinha dito que eu ia entrar em trabalho de parto – e foi assim que eu resolvi encarar as dores. Emocionalmente, não gosto de pensar (nem de falar) que foi um parto – pela idade gestacional, porque não foi cheio de ansiedade e alegria para ver o meu bebê, porque não tem bebê aqui agora. Mas fisiologicamente foi um parto – guardadas as devidas proporções, obviamente. E eu não usei em momento algum a palavra aborto – aqui nesse texto é a primeira vez – e nem pretendo usar, porque dá um peso muito maior pro que já é bem difícil.
Eu queria ir dormir, mas o Cleber estava vendo um filme (tentando preencher a mente) e eu não queria sair do lado dele, então fiquei no sofá também. Me aninhei no peito dele e cochilei.

09 de agosto de 2013.
Depois que o filme acabou fomos pra cama, já era pouco mais de meia noite, e as dores estavam começando a ficar mais fortes, bem incômodas mesmo, mas passavam. Eu estava com medo de sair o feto enquanto eu estava deitada e ter que olhar – tinha muito medo mesmo. Perguntei isso pra Betina, e ela disse que provavelmente sairia dentro da bolsa, então eu não veria nada, mas tinha uma pequena chance de estourar e eu ter que ver. Entendam, eu não estava desprezando o meu bebê, de forma alguma, mas na minha cabeça realmente não era mais a Bolota ali, ela tinha ido embora dali pra sempre. E eu não me sentia preparada o suficiente pra lidar com mais aquilo. Fora que eu tinha medo da quantidade de sangue, por causa da minha sensibilidade. Conversei com Deus, entreguei meu medo. Rezei para ter forças para aguentar o que viesse, do jeito que viesse; peguei no sono.

Acordei com uma dor forte e fui ao banheiro, achando que tinha começado. Nada. Mas meu intestino começou a funcionar. Voltei pra cama, para tentar dormir – era 1:30 da manhã. Cochilei, me revirei na cama quando a dor vinha forte. Fui ao banheiro de novo. 2:30 da manhã, vi no celular. E uma hora depois, a mesma coisa, banheiro. Voltei pra cama, devia ser algo depois das 3:30 e antes de 4:00. Não tinha sangue ainda, só um tipo de corrimento marrom, fraco, sei lá. Eu queria ficar o máximo na cama, perto do Cleber, dormir, esquecer. Mas a dor estava aumentando e eu começava a me perguntar se aquela não iria embora, parecia não ter fim. Levantei. Andei pela casa. De tanto ler relato de parto, cismei que queria tomar banho, porque a água quente ajuda a aliviar a dor. Era muita dor – na parte de baixo da barriga e um pouco na lombar. Fui no quarto da minha mãe, mas ela dormia e eu não quis insistir em chamá-la (acordar o Cleber nem passou pela minha cabeça, eu queria que ele estivesse descansado de manhã – vai saber o que ia nos esperar). Voltei pra sala, fiquei de cócoras, tentei mexer os quadris, ficar apoiada na mesa. Nada fazia a merda da dor passar, estava demais. Comecei a sentir calor. Acordei minha mãe, não dava mais pra ficar sozinha. Eu disse que queria tomar banho, e quando ela foi responder, virei as costas e entrei no banheiro, queria vomitar. Sentei no vaso, tirei a roupa inteira (nossa, que calor que eu sentia), senti uma dor profunda… e vomitei. Foi muito intenso. O corpo realmente sabe o que fazer, hoje eu vejo. Minha mãe entrou no banheiro pra ficar comigo. Enquanto estava com a cabeça pra frente – por causa do vômito – olhei entre minhas pernas e vi que tava descendo uma coisa que eu suponho que fosse o tampão, mas não tenho certeza. Era uma coisa como uma “liga”, ou uma “gosma” (desculpem as palavras, não sei como dizer isso usando termos mais leves); só sei que desceu e ficou lá, meio parado, como se tivesse empacado. Como que eu ia me limpar e tomar banho daquele jeito? “Mãe, tá descendo uma coisa”. Ela disse pra eu ficar lá sentada, então. Minha barriga já era outra, bem diferente do que um ou dois dias atrás. A gente tentava conversar alguma coisa, qualquer coisa, mas não dava. Ela ficou lá em pé, do meu lado, e eu sentada, sem a mínima coragem de levantar. A dor era perfurante. Me lembro de dizer, em algum momento: “parabéns pra mim”, ainda esboçamos um sorriso. Ela disse parabéns e eu disse que era um renascimento – precisava acreditar nisso. Nessa conversa – que eu ainda disse que “nem havia nascido ainda”, porque era umas 04:30 da manhã, e eu nasci 06:20 – a dor passou. Ficou uma espécie de peso, mas a dor cessou. Aí, quando eu não esperava nada, senti uma coisa assim: ploft!, literalmente. De dentro de mim, pra fora. Senti “uma coisa” (que eu ainda não sabia o que podia ser) passando pelo canal. Foi rápido e não doeu. Fiquei surpresa com aquilo e avisei minha mãe. Olhei rapidinho e vi, de novo, aquela gosminha, mas dessa vez com um pouco de sangue. Eu ainda queria tomar banho, achava que tava só começando, não tinha muita noção das coisas – mas sim, já era o “expulsivo”, e pelo tamanho que senti passando, era mesmo o feto indo embora, junto com a bolsa, mas não pensei mesmo nisso na hora. Pedi água e minha mãe foi buscar. Não sabia mais se sentia calor ou frio. Pedi uma bolachinha de água e sal, porque comecei a perceber que minha pressão dava sinais que estava caindo. Comi um pedacinho só. Eu precisava deitar, não estava nos planos desmaiar no banheiro, ainda mais naquelas circunstâncias. Minha mãe trouxe uma blusa de um pijama dela e eu disse que precisava mesmo sair dali. Decidi que não queria nem me limpar, pra não ter contato com nada, e nem olhar pro vaso quando levantasse (minha mãe disse que olhou, mas como a água estava escura, não conseguiu ver o tamanho, nem nada). Coloquei a calcinha (com absorvente) e fomos pra sala. Foi o tempo exato de eu não desmaiar (depois ela contou que eu fiquei bem branca). Deitei e coloquei as pernas pra cima, pra circulação voltar. Ela trouxe uma cobertinha pra me embrulhar – estava com frio e a dor tava começando a voltar – e eu coloquei uma parte dela embaixo de mim, pra proteger a capa do sofá de algum acidente. Fui me esquentando e relaxando. Depois de um tempinho, foi me dando sono – talvez pelo cansaço, ou por não ter dormido nada, não sei. Já devia ser algo em torno das 05 e pouco da manhã. Dormi no sofá. Minha mãe sentou e coloquei as pernas no colo dela, e ela também dormiu.

Acordei quase 07:00, eu acho. Fiquei deitada mais um tempo, meio dormindo, meio acordada. Mas me deu fome. E vontade de fazer xixi. Meu pai já tinha acordado e veio me dar um abraço pelo meu aniversário. Levantei devagarzinho e fui ao banheiro. Achei que estivesse bem suja de sangue, mas não estava. Tinha um sangramento, claro, mas algo dentro do normal, digamos assim. O Cleber levantou, super preocupado comigo. Me deu um longo abraço – pelo aniversário e por todo o resto – depois fomos tomar café da manhã. Disso eu lembro, pois eu queria especificamente pão “na chapa” e café com leite, e assim foi.

Passei o dia todo em casa. O sangramento não aumentou demais, mas ficou constante. Eu estava muito triste, mas não chorei o tempo todo. Fui andar lá embaixo um pouco com o Cleber, mas voltamos logo porque não estava tão bem assim. Não quis falar com ninguém no telefone, porque estava muito sensível mesmo, então todas as ligações que recebi pelo meu dia – de pessoas que sabiam, ou não, do ocorrido – foram atendidas pela minha mãe. À tarde, enquanto ela falava com a minha vó (mãe dela), que sabe um monte de receitas de chás, pra tudo (depois eu conto disso), chegou a encomenda que eu tinha feito de um gorrinho lindo de coruja, pra ajudar no parto do Raul. Ainda veio uns tsurus lindos, e uma cartinha escrita à mão (obrigado, Débora!). Minha mãe começou a chorar quando viu, teve que desligar o telefone. A abracei e disse que não precisava ficar assim – mas ela ainda não havia chorado nada, então deixei. Depois eu também chorei.
A Isa ia vir aqui em casa, mas teve que atender um parto de última hora. Me ligou perguntando se por mim tudo bem ela ir, se eu estava bem (fisicamente), e como eu disse que sim, ela foi. E ficou de vir no sábado.
À noite, minha tia, minha prima, com o marido (irmão do Cleber) e o filhinho deles, que fazia dois anos naquele dia, junto comigo, vieram pra cá. Foi difícil. Não pela presença deles, ou por ver um bebê-quase-criança. Mas era uma alegria que eu não sentia. Chorei no quarto, com o Cleber, pra que ninguém visse.

No sábado, dia 10, a Isa veio aqui me ver e foi ótimo. Conversamos, rimos um pouco. Ela almoçou aqui, ouviu alguns causos da família. Me fez super bem mesmo. Eu ainda estava com medo da coisa desandar, fisiologicamente. Não tinha mais dor, só umas cólicas leves de vez em quando, e o sangramento ora ficava pouco, ora aumentava. Eu tinha medo de ir no hospital e eles me internarem. Resolvi, então, ir na Casa Angela, assim eu aproveitava pra contar o ocorrido. A Isa teve que ir embora, e fomos todos – meus pais, Cleber e eu – na Casa. A Fran, mesma EO da última consulta, estava lá. Mediram minha pressão, ok. Temperatura, ok. Ela ficou muito triste por nós. Disse que eu podia sentir a minha dor, sim, e que na hora certa viria outro bebê, mas que um não iria substituir o outro, e outras coisas mais. Daí foi examinar meu sangramento, e disse que estava dentro do esperado mesmo. Disse até que podia vir mais, mas que meu corpo estava sendo perfeito. Me deu uma guia pra fazer um ultra quando o sangramento acabar.

E foi isso.
Muito triste. Muito intenso. Muito dolorido.
E não posso deixar de achar que foi até rápido também.

À noite, ainda fomos num restaurante, tentar espairecer – essa está sendo a meta de vida do Cleber, não me deixar cair. Senti uma tristeza lá, quase chorei mesmo, mas segurei. Foi coisa rápida a saída.
No domingo à tarde dei uma caída, sangrou um pouco mais, e fiquei um bom tempo deitada. Chorei mais um pouco.
À noite, entrei em parafuso, achando que eu era uma merda e que não tinha me despedido direito da Bolota, que eu tinha agido errado. O Cleber conversou comigo, disse que eu tinha feito tudo que podíamos, que eu tinha rezado por ela, e até me lembrou que eu esperei o tempo dela, pois não fui ao hospital induzir, que tudo aconteceu no tempo de Deus, no tempo da natureza. Chorei mais.

Ontem a rotina voltou ao normal. E nem chorei muito, só um pouquinho quando fui tentar escrever uma carta pra ela, mas não consegui terminar.
Hoje passei o dia escrevendo esse relato – tendo que parar pra secar as lágrimas, comer e espairecer um pouco com outras coisas. Acho que a palidez tá passando aos poucos.
Parece que tá tudo meio distante, meio vago, meio turvo.
E estamos indo assim, um passinho de cada vez, porque ainda não consigo olhar pro futuro.
Mas um dia eu hei de conseguir.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia – essas coisas todas de consulta – e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse “esse sonar é antigo, então faz um chiado”. E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou… e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar – mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto – e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): “eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado” (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse “tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você”. No caminho, eu disse pra ele: “a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa”.

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: “você tá vendo alguma coisa?”, e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar – literalmente – o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico – devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: “olha, o seu bebê parou de se desenvolver”. Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei “e agora?”, e ela disse pra eu ir no hospital. “Agora?”, “é, acabar logo com isso, né?”, foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar – o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: “mãe, não tem mais bebê”, e ela ficou totalmente abalada – devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde – ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo – que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do “tenho que agir agora” e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: “ela acha melhor esperar. Né?” “É, na minha opinião é melhor esperar”. Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua…)

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BC: "O que a gravidez já mudou na minha vida?"

Dia de blogagem coletiva é sempre legal!
E eu preciso registrar que está sendo muito bom mesmo participar disso. Porque nem sempre eu sei as respostas dos temas assim na ponta da língua, ou melhor, dos dedos. Daí eu paro pra pensar um tiquinho e acaba sendo um bom exercício (também de memória, porque né?!, grávida esquece tudo, haha).

Do alto das minhas 14 semanas e tanto, acho que o que a gravidez já mudou na minha vida foi a questão de ouvir mais meu próprio corpo. Tanto no sentido mais literal, descansando quando ele pede, comendo e tomando água quando ele avisa, indo mais rápido quando vejo que dá (ai como eu sou obediente, rs), quanto no sentido mais subjetivo, de confiar mesmo.
No comecinho, antes de fazer qualquer exame ou sequer ir à primeira consulta pré-natal, eu tinha algum medo. Medo de perder o bebê, medo de ser ovo cego, medo – veja só – de nem estar grávida. Apesar de já ter contado logo de cara pra todo mundo (a família estava em êxtase!), parece que eu não queria fazer festa a todo momento, com medo de acordar de um sonho, sabem? Eu tinha medo de dar “tudo errado” (e era um medo mesmo, não um receio leve) #dramamodeon
Fiz o primeiro ultrassom e, ao invés de confirmar que eu estaria de 6 semanas (de acordo com a DUM),   constatou-se que eu estava na semana 4! Não entendi lhufas (não da parte de ter ovulado mais tarde, só uma confusão momentânea mesmo) e até fiquei meio chateada, confusa. A confirmação que eu queria, ouvir o som do coraçãozinho batendo forte, não veio, na tela eu só vi o saco gestacional (e aí eu passei a chamar o bebê de Bolota, own!). Foi uma sensação estranha, de voltar no tempo e ter que viver tudo de novo: mais duas longas semanas pra chegar onde eu achava que já estava. O médico que fez o exame disse pra eu voltar dali duas semanas, pra ver a evolução e tal.

Depois de aceitar que tinha voltado duas casas no jogo, me atentei para uma coisa linda, acompanhem só: eu descobri a gravidez num domingo à noite, certo? E fiz o primeiro ultrassom na quinta-feira da semana seguinte, não da mesma em que descobri a novidade; ou seja, quase duas semanas de espera. Se no dia do ultrassom eu estava de 4 semanas, então descobri o positivo com 3 semanas (com alguns dias percentuais, para mais, ou para menos)!! Super cedo, na opinião geral do povo aqui de casa. Isso não é lindo demais da conta, uai?
E se levarmos em conta que eu já tinha uns “sintomas” e um pressentimento forte ainda antes disso, praticamente podemos dizer que meu corpo já me mandava sinais de que tinha um morador novo aqui desde que Bolota fez sua primeira multiplicação celular, haha. E se não é pra confiar com uma dessas, então não sei quando vai ser…

Com isso, passei a acreditar mesmo no meu corpo, no meu feeling, no poder natural mesmo que possuímos.
Depois, quando aconteceu aquele pouquinho de sangramento, eu queria muito, sim, ir ao médico. Mas confesso que, no fundo, estava até tranquila (em termos). Eu queria saber o porquê daquilo, claro, mas parece que já sentia que estava tudo bem com a minha Bolota, que ela é forte e bem saudável, e que está no lugar mais seguro que há. E que esse lugar sou eu, ou seja, algum poder o meu corpo possui pra dar conta do recado, né?! 😉 Eita, natureza linda, essa em que estamos inseridas.
Tanto que, depois que fiz o ultrassom que me confirmou 10 semanas (e foi ótimo, porque ainda não tinha ouvido o coraçãozinho, não quis voltar pra refazer o ultra com 6 semanas, estava deixando rolar, já no pensamento de acreditar mais em mim), tive sangramentos bem pequenos mais umas 2 ou 3 vezes, mas realmente não me preocupei em nada com eles. Eu apenas sabia que devia ter passado da conta no stress e cuidava mais de nós.

Agora, meu próximo encontro com baby pela telinha será só no finzinho de agosto, no morfológico do 2º trimestre. Dá uma saudadezinha de ver tudo ali em tempo real? Sim, claro! Mas eu sei que está tudo bem, aprendemos a nos conectar de outra maneira agora. Meu corpo vai me avisando sobre o que tem que ser feito e eu escolhi acreditar piamente nele.

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