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Crônica de uma gestação anunciada

Foi dia 06 de outubro  (08DC) que senti algo diferente pela primeira vez. Sonhei com um bebê lindo, com os olhos mais lindos ainda. Depois senti medo de estar totalmente iludida, mas ainda era bom. Nos dois dias seguintes tive uma sensação bem real no meu corpo, uma coisa bem nova. Os dias foram passando e continuei sentindo coisinhas esporádicas, aqui e ali.

Eu tinha um pressentimento forte que ficaria grávida em breve. Na verdade, algumas vezes eu sentia como se já estivesse, mesmo que ainda não tivesse ovulado. Até perguntei no grupo das Tentantes Empoderadas se existe ovulação precoce (e a minha sempre foi tardia), porque eu tinha quase uma certeza mesmo.
Desde o dia 15 (17DC) eu já sentia meus seios diferentes. Doíam, estavam um pouco maiores. Deve ter sido por essa data a ovulação, mas pra mim já era a dor do resultado dela, rs. Uns dias depois doía tanto que parecia queimar, de tão intenso.

Dia 17 eu acordei com a certeza de que estava grávida. Era uma coisa muito doida. Fiquei toda feliz, de verdade. Tomei banho, cuidei da casa, escrevi, fiz todos os afazeres… feliz. Eu nunca tinha sentido isso antes, da outra vez não foi assim, essa certeza toda. Achava que isso era lenda urbana, rs. Tanto é que mais tarde eu voltei pra Terra e fiquei achando que estava surtada, que não podia ser real, que tudo isso ia acabar em um ciclo menor.

Depois ainda teve o dia em que passei mal na rua, voltei pra casa e dormi a tarde toda. Meus pés resolveram que era ok inchar depois de uma caminhadinha. Uma lerdeza sem fim. E a queimação, de vez em quando, nos seios.

Dia 21 eu senti uma cólica e fiquei arrasada. Achei que já tava chegando o dia, que o ciclo ia acabar justamente quando eu estivesse na Bahia, porque essas cólicas só vêm quando está mesmo pra descer. Dois dias depois fui com o Cleber comprar um biquíni e me senti péssima. Eu estava muito inchada, me sentindo feia, e ainda as benditas cólicas. Só que, quando eu cheguei em casa e fui experimentar minhas comprinhas de novo, senti uma baita diferença na minha barriga. Não dá pra explicar. Não que estivesse diferente de horas atrás, quando estava no provador do shopping, eu é que não tinha reparado mesmo, pensando demais nos outros sintomas.

Dia 25 (27DC) chegou e era o dia de ir pra Bahia. Mesma coisa dos outros dias, minha barriga estava mesmo diferente. Ainda por cima, ao acordar, me lembrei que sonhei com a minha mãe dizendo que eu estava grávida, sim, já até podia fazer o teste. Motivo de sobra pra eu ter mais uma pontinha de esperança. Lanchamos no aeroporto, porque eu estava com muita fome. No voo, não foi tão tranquilo. Eu tenho um pouco de medo de voar, minha pressão deve ter baixado, me senti fraca. Foi bem ruim. 
Lá não teve grandes mudanças. Não teve grandes mudanças se eu não mencionar que estava a Dona Redonda, toda inchada, literalmente da cabeça (rosto) aos pés. No domingo eu não almocei direito porque o peixe não desceu bem e, mais tarde, quando estávamos no Museu Náutico, senti uma baita tontura e fui lá pra fora tomar um ar. A Nana até comentou:

– Ih, dona Má, esses enjoos, essa tontura, sei não hein! Ai ai… – Nem me fale… ai ai!

Não sei como consegui subir (e principalmente descer!!) aquela escada até chegar lá em cima no Farol, rs. 
Na volta pra casa, quando o avião decolou, eu simplesmente comecei a chorar. Assim, sem mais nem menos. Chorei por uns 10 minutos, pensando zilhões de coisas ao mesmo tempo. Marido foi um lindo e me acolheu, mesmo sem entender direito o que se passava.

A semana transcorreu mais ou menos do mesmo jeito. No dia 02/11 (teoricamente o 35DC) fiz um teste, mas não com a primeira urina do dia, e a segunda linha apareceu, mas tão tão tão fraca que eu não consegui pular de alegria. Marido também viu e não quis comemorar. Mostrei pra Nana e ela achou que era positivo, sim. Mostrei pra Dani, a mesma coisa. Ficaram muito animadas! Por mais que tivesse sentido um mês inteiro que algo iria acontecer, eu não conseguia comemorar. Esperei o dia seguinte e fiz outro teste, dessa vez com a primeira urina do dia. A mesma coisa. Tão clara que parecia alucinação. Uma alucinação coletiva, porque todo mundo viu de novo, inclusive a Ju, super entendida de linhas claras, haha. Acabou minha paciência e fomos ao pronto socorro fazer um beta. Chegando ao hospital, quem eu encontro? A Isa, minha doula!! “Nada acontece por acaso”, foi o que o Cleber disse. Não senti uma vertigem sequer de tirar sangue (mas fiz todos os meus procedimentos de segurança). Nessa hora eu já estava acreditando mesmo no positivo, porque só não passei mal com isso na outra gravidez. Duas eternas horas depois, o resultado saiu. Super baixinho, mas já era positivo! Fiquei tão feliz!! Nos abraçamos (depois de sair do hospital), a Dani me ligou para comemorarmos, me disse umas coisas lindas, foi uma festa só.
Chegando em casa, contei pros meus pais e pedi segredo (o que meu pai cumpriu até o último feriado, um marco pra ele, que não esconde nada das irmãs, rs). Meu irmão só soube essa semana. Os pais do Cleber nem devem saber ainda, eu acho, mas contaremos em breve. Poucas amigas sabem. E agora aqui no blog. As coisas estão acontecendo cada uma no seu tempo. E tá sendo muito gostoso. Ainda tento viver um dia de cada vez, ainda bate um medinho, mas vamos sempre em frente, que é onde as coisas acontecem.

Já tinha uma micro pessoa passeando em Salvador. Ou, as bochechas gigantes da mamãe.
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9 de setembro

Há vinte quatro anos e 1 mês atrás, eu nasci. 

Há exatamente cinco anos atrás, eu beijava o meu marido pela primeira vez. 

Há dois anos e 1 mês atrás, ganhei um primo-sobrinho para dividir o dia de aniversário.
Há um mês atrás, eu renasci.
É, parece que o dia 9 de setembro gosta mesmo de mim. E eu adoro setembro, preciso dizer.
Um mês de renascimento. Quanta coisa aconteceu, quanta coisa eu senti. 
Seria muito óbvio se eu dissesse que muita coisa mudou nesse período. Mudanças que já vêm acontecendo há um tempo e só agora se consolidaram de fato. Ou não. O que sei é que elas estão acontecendo.
Se alguém me dissesse, há um mês atrás, que hoje eu estaria assim, com o coração muito mais leve do que naquele dia, eu mandaria a pessoa pra putaquepariu; mas ninguém disse, ainda bem – está sendo muito melhor descobrir isso assim, aos pouquinhos, enquanto vai acontecendo. 
Há uma semana fui completamente liberada do repouso e estou mesmo muito bem. Até dancei e pulei num show com amigos, no sábado (e também chorei, quando ouvi uma música muito marcante dos dias do passado, mas faz parte). Já podemos voltar às tentativas, inclusive, mas ainda não aconteceu. Ainda falta uma parte do ciclo, particular nossa, para ser vivida e encerrada.
Enquanto escrevo, me sinto realmente renascida. 
Talvez seja efeito do fim de semana, que foi lindo. Sábado e domingo felizes como há muito eu não tinha. Fundamental. Hoje o dia também foi ótimo. Para amanhã, tenho bons planos (e é meu aniversário de casamento!). Mas talvez não. Talvez seja realmente a sensação de que as coisas estão se transformando, de que a pausa, muito necessária, pela qual passei nos últimos tempos está finalmente se encerrando e novas coisas, cores e sabores chegarão aqui, muito em breve.
Ainda sinto uma saudadinha, um apertinho no coração quando me lembro, por um segundo, como eu poderia estar hoje (barrigamente falando). São pensamentos rápidos e não me atenho à eles. Minha bolota (<3) foi tão demais de incrível que, em algum lugar da minha consciência, eu já entendo que tinha mesmo que ser assim. A bagagem de aprendizado que ela me trouxe é imensa e estou vestindo cada um deles com muito carinho e com muito cuidado, pois são peças realmente muito importantes e muito raras – e quero que durem por muitos, muitos anos.
arquivo pessoal

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O Renascimento do Parto – O filme

A Folha de São Paulo organizou uma pré-estreia do filme O Renascimento do Parto, juntamente com o Espaço Itau de Cinema – Frei Caneca, ontem, dia 05 de agosto.
Eu havia visto esta notícia na internet, mas nem planejava ir. Como a estreia para o público está marcada para o dia 09, que é o dia do meu aniversário, e como eu não contribuí com o valor que dava direito à ingressos da pré-estreia para benfeitores e convidados (que é hoje, dia 06), já havia decidido que era nesse dia que eu iria, como um presente. Mas aí a minha prima viu a notícia também e me chamou para ir com ela. Claro que topei, na hora! Adoro uma mudança de planos. Ela nem sabia ao certo como seria, não conseguiu ver o trailer, mas eu contei pra ela como era, falei que eu tinha contribuído para ajudar o filme a chegar nas telas de cinema, e então nos animamos ainda  mais. Combinei também com o Cleber – que trabalha lá perto – e fomos.
O evento – com um debate logo após a exibição do filme, com a presença do diretor do filme Eduardo Chauvet, da produtora e roteirista Erica de Paula, da pediatra e neonatologista Ana Paula Caldas e da ginecologista e obstetra Carla Andreucci Polido – foi gratuito. Os ingressos seriam distribuídos a partir das 19:00, por ordem de chegada. Sabendo disso, e sabendo que provavelmente iria estar bem cheio, combinamos de chegar cedo, para garantir um lugar na fila.
Pois bem, chegamos, minha prima e eu, às 18:00. Ainda não tinha ninguém esperando, então descemos para comer alguma coisa.Quando voltamos, meia hora depois, já tinha uma ou duas pessoas, mas de forma meio aleatória ali pelo lugar. Perguntamos para atendente onde seria a fila e a iniciamos. Sim, fomos exatamente as primeiríssimas da fila! Ingresso garantido nós teríamos. Algumas pessoas foram se juntando e, alguns poucos minutos depois, já tinha muita gente. Parece que combinaram de chegar todos juntos. O Cleber chegou um pouco depois e se juntou a nós. A fila foi crescendo, o tempo foi passando e já era possível sentir um misto de animação e ansiedade no ar – ou seria em mim?
Com ingressos em mãos, esperamos mais uma horinha e finalmente havia chegado a hora de assistir, na íntegra, aquele filme que eu havia esperado tanto para ver.

Não vou fazer spoiler (pelo menos vou tentar). Até porque eu sei que muitos aqui verão o filme na pré-estreia de suas cidades, ou na estreia, ou em qualquer outro dia. O que eu preciso dizer é: o filme é sensacional! É forte, é intenso, é lindo, é emocionante. Muitos sentimentos juntos. Intensidade. Sinestesia.
Comprei um pacote grande de pipoca e suco de maracujá, e foi ótimo, rs.
Para as pessoas mais sensíveis com cenas de cirurgia e intervenções, como eu, é imprescindível que não se vá sozinha. Eu fui com duas pessoas mesmo porque sabia que seria complicado nessas partes. E eu vi muito pouco disso, porque fechava o olho e comia pipoca quando a coisa ficava mais difícil pra mim – tanto que algumas legendas eu nem li. Eu via algumas cenas e, instintivamente, colocava a mão na barriga, querendo proteger o meu bebê de toda e qualquer coisa que possa nos fazer mal, que nos afaste do processo natural de nascer.
O mais impressionante foi que eu não chorei.
Sempre chorava, pelo menos um pouquinho, quando via o vídeo promocional. Fui preparada para sair com os olhos vermelhos e o rosto inchado. Mas não aconteceu. O que não significa que eu não tenha me emocionado, muito pelo contrário. Fiquei estarrecida em muitos momentos. Chocada com algumas cenas, muito comovida com várias falas das pessoas que deram seus depoimentos. Sem contar os profissionais brilhantes que falam muitas verdades também. Mas as lágrimas não chegaram a cair. Foi tão intenso pra mim que, quando acabou, eu mal consegui me mexer na cadeira, minha cabeça pulsava de vontade de ver logo uma mudança, e ao longo do filme eu fui sentindo um calor enorme. Ainda bem que teve o debate depois, assim não precisei levantar.

Para mim, que estou envolvida até o pescoço com assuntos de humanização e respeito ao parto e nascimento, não foi exatamente uma surpresa. Claro que a gente já sabe muita coisa que foi dita ali. Mas ver um panorama bem amplo da situação, todos os fatos juntos, bem grande numa tela inteira de cinema, é muito forte. É inevitável o pensamento de que é preciso mudar, urgentemente, o cenário obstétrico brasileiro atual. Nunca vou deixar de me chocar com alguns casos. Não dá para lutar, por qualquer causa que seja, com indiferença. É por achar que muita coisa é normal e aceitável que chegamos onde chegamos. E partindo do pressuposto de que todas as pessoas nascem, este é, sim, um assunto de toda a sociedade.
Não é um problema com uma causa só. Como bem disse a parteira Ana Cristina Duarte, não existe um lobo mau da história, o problema é multifatorial. Ou seja, é preciso trabalhar em várias frentes para conseguirmos um bom resultado a longo prazo – porque nada vai mudar da noite pro dia, não sejamos ingênuos.

Sobre o debate, foi rápido, cerca de 40 minutos, mediado pela repórter especial da Folha, Claudia Collucci. Ela fez perguntas para a mesa, e depois abriu para a público também. Na minha opinião, foi bem rico, apesar do pouco tempo. A obstetra Carla Andreucci é muito esclarecedora (e adora falar, rs). A Ana Paula Cladas também; me senti privilegiada por estar ali, participando daquilo tudo.
Além delas, estavam na sala, também, o doutor Jorge Kuhn, a Ana Cris Duarte e mais um monte de gente linda do movimento da humanização. Agora imaginem, quando eu vi o doutor Jorge na fila, foi quase como se eu tivesse visto um artista, fiquei muito feliz, rs. Porque eu sei da importância de cada um deles dentro do movimento, respeito muito tudo que eles dizem, confio muito, admiro demais.
Algumas pessoas falaram, e foi bem legal também ver as dúvidas serem respondidas ali na hora. Um médico obstetra (que faz parto há 40 anos, como ele disse) também falou, falando o lado dele, mas também que é um caso complexo, etc. A Ana Cris falou lindamente depois, a respeito do que ele falou, e nossa, todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de ouvir essa mulher, ela é muito clara e muito direta. Foi aplaudida no final. E aí acabou o tempo.
Infelizmente estávamos de ônibus, e já estava tarde, então tivemos que ir embora rápido, nem deu tempo de dar um abraço nela e cumprimentar as outras pessoas.

Foi uma experiência muito enriquecedora. Uma aula mesmo.
E ainda pretendo ver o filme mais uma vez, com a minha mãe.

E se eu puder dizer apenas uma coisa às gestantes, eu diria: informe-se! Você tem direitos e eles devem ser respeitados em qualquer lugar, seja no SUS, ou na rede particular. Leia, frequente grupos, cerque-se de pessoas com informação de qualidade. Empodere-se. O corpo é seu. O parto é seu.

E não deixem de ver o filme – que foi selecionado para o 6º Los Angeles Brazilian Film Festival também já foi confirmado a ser exibido DocBrazil Festival – China 2013. Ele vai abrir muitas portas, acredite.

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Ajudando a parir a mudança que quero ver no mundo

Acabei de fazer minha contribuição para que o filme O Renascimento do Parto chegue logo às telas de cinema. Não foi um valor muito alto, e na verdade até pensei em não doar, porque as coisas aqui estão um tanto quanto apertadas. Mas o motivo é maior. Eu acredito no alcance que esse filme terá na vida das pessoas. Eu quero que cada vez mais e mais gente perceba que os valores foram invertidos no nosso país e que as consequências desse ato podem ser bem piores do que supõe a nossa vã filosofia. De pouco em pouco nós já alcançamos muita gente. E vamos alcançar cada vez mais, eu tenho certeza disso. Por isso eu doei.

Estou bem sensível essa semana, meu sinal clássico de tpm. E tenho pensado muito sobre o nascimento do meu futuro baby. A realidade é que eu não sei se terei toda a condição financeira para pagar a equipe que eu já chamo de minha. Claro também que já tenho uma segunda opção igualmente humanizada e mais acessível para o caso de eu precisar, que é a Casa de Parto. Mas sabe quando bate um medinho?
Vou ser especialmente sincera com vocês: não existe, hoje, algo que eu queira mais do que ter o meu filho. E não quero adiar ainda mais a sua chegada por conta da minha pobreza  angústia em ter em mãos, antes de qualquer coisa, toda a quantia necessária  para que as coisas saiam da forma como eu gostaria que saísse. Ele é quem sabe a melhor hora de vir, mas eu já o espero e quero muito.
Não, eu não estou depositando “toda a minha felicidade” no ombros ainda inexistentes dele. Eu sou muito feliz agora. Sou muito feliz com o meu marido (eu diria muito feliz, nesse caso, rs), e sou bem feliz comigo mesma. Nunca consegui esperar tal ou qual acontecimento para viver a felicidade. Esse é um sentimento que me acompanha no caminho, e não na chegada. Dizendo em outras palavras, eu me sinto bem na minha própria pele; sofro um bocado, choooro pra caramba, mas sou feliz. E também não acho que “só falta o bebê para minha família ficar completa”. Meu marido e eu não completamos um ao outro, nós somamos. Somos duas pessoas inteiras que fazem a escolha diária de viver juntas, uma parceria-amor que só nos faz bem. Então não é com o nosso filho que vamos pensar em “complemento”. Ele vem somar ainda mais às nossas vidas. Mas eu o espero muito. Nós o esperamos muito, isso é um fato. Eu já tenho sentimentos e vontades dentro de mim que sei que são destinados à ele (para eles, porque queremos mais de um filho, rs). Essa é a parte difícil, porque por vezes esses sentimentos se afloram de uma tal forma e eu não tenho algo externo para canalizá-los. Não sei o que fazer com tudo isso ainda, então eu apenas os sinto aqui dentro e os guardo de novo, ou escrevo para amenizar essa espécie de saudade do que ainda não veio.
Eu não consigo explicar de uma forma sólida, desculpem, mas eu sinto de uma forma muito forte que ele (só para ilustrar, gente, não faço a mínima ideia de se é menino ou menina, rs) está perto. Pode ser que não esteja perto de vir morar na minha barriga, isso eu não tenho como saber com certeza, mas tomara que seja logo. Eu o sinto perto de nós mesmo, quase como uma presença. Mas também não é que eu ache que ele está aqui no meio de nós, por exemplo, como uma alma visitante ou perdida. Também não é isso. Mas eu o sinto. É um tipo de pressentimento que de vai acontecer. E eu digo que ele pode vir quando quiser, estamos nos preparando constantemente para a sua chegada e faremos de tudo para que sua vida aqui conosco seja a mais linda e respeitosa possível, cheia de amor e de carinho.
E então eu penso no parto. Que é sua primeira transição nessa vida, e eu acredito completamente que essa passagem deva acontecer da maneira mais natural possível, dentro do tempo que a natureza entender como certo e suficiente. Amor nós garantimos que não irá faltar. Mas a dúvida iminente que insiste em se instalar na minha cabeça, sobre condição financeira suficiente para proporcionar o melhor na hora de seu nascimento, me dá um certo medo, confesso. Porque depois nós podemos arrumar nossas malas e ir morar na roça, se for o caso, desde que estejamos juntos e felizes. Mas eu não aceito nada menos que o melhor para todos nós durante todas as horas em que estivermos nos preparando e para o parto propriamente dito.

Para isso eu luto e estudo e converso com a minha família há bem mais de um ano. E se eu puder, vou falar para quem mais quiser ouvir também. Porque, sinceramente, eu não aguento mais ouvir que sorinho é natural, que cesárea é normal. Natural é o que for mais confortável para o bem-estar da mulher e do bebê, quando vão entender isso? Se ela quiser analgesia, que assim seja, esse é um direito adquirido e deve ser respeitado. Mas que seja também respeitado o direito de parir em casa, por exemplo, se assim for o desejo dela. Eu não aguento mais esse descaso com o recém-nascido e com a mulher, e também com o homem.
É preciso mais amor, mais empatia, mais alma.

E é também por isso que eu doei para que o filme chegue logo. Precisamos conscientizar as pessoas, precisamos de políticas públicas que atendam toda a demanda de nascimentos no país da forma como tem que ser: com a mulher como protagonista. Precisamos de pessoas, e não de números. Precisamos de ocitocina natural, e não sintética. É preciso renascer. E eu quero ajudar parir essa mudança.

Adoro Arnaldo Antunes, e ainda mais essa música dele, que já é a minha música do parto. 

(acabou virando um baita texto, mas eu não planejei, apenas abri a página e fui escrevendo conforme fui sentindo. Então não sei se está na melhor ordem, ou totalmente coerente, mas é o que eu precisava exteriorizar nesse momento).

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Relato de um dia ruim e uma nova esperança

continuação do post anterior, também está no meu outro blog, mas com uma ou outra alteração. aqui está mais completo. 
Era final de janeiro de 2012. Tudo para ser um dia de semana qualquer, mas já começou diferente. Eu sempre me levanto primeiro que o Cleber para adiantar o café da manhã e preparar as coisas. As crises de epilepsia dele se dão principalmente por cansaço mental, privação de sono, e o levantar brusco pela manhã. Pressa matutina você não encontra nesta casa, mesmo que estejamos muito atrasados.
Pois bem, naquela manhã, não me levantei, me lembro de que estava com muito sono. Ele foi tomar banho, voltou e eu mal o vi, confesso. Sei que, de repente, meu pai saindo do banho me chama e diz “Mara, o Cleber tá tendo uma crise, você não viu? Ouvi do banheiro”. Levantei num pulo só, tropeçando no edredom, tentando acordar e quando chego na sala o vejo tendo a crise deitado no sofá. Claro que me senti culpada por não ter visto nem ouvido nada. E ainda bem que ele percebeu que não estava bem e sentou no sofá, senão podia ter sido pior. Esperamos passar, ele recobrar a consciência e descansar um pouco e fomos ao hospital (já percebemos que no hospital eles exageram muito na medicação e preferimos não ir algumas vezes, confesso, mas era dia de semana e ele precisava de um atestado médico).
O hospital, particular, o mais perto de casa que atende nosso convênio, estava muito cheio. Fiquei com ele no quarto do soro, ele deitado e eu sentada ao seu lado. Era um quarto separado por biombos, não víamos os outros três ou quatro pacientes que também estavam ali. Ele dormia e eu lia. Muito calor no dia, e lá dentro também. E o hospital cheio. Um burburinho o tempo todo, pacientes gritando, enfermeiros entrando e saindo. Estávamos no primeiro leito, bem de frente pra porta, e a cortina não ficava fechada o tempo todo, então não tínhamos privacidade. Ele descansava e eu tentava não ouvir o que falavam pelos corredores para evitar que eu ficasse ruim. Percebi que chegaram uns estagiários novos, e alguém estava apresentando o hospital a eles, como uma visita monitorada. Não gostei. As horas passando, e eu sem comer nada. Mal tinha tomado café da manhã e já tinha passado bastante da hora do almoço. Pois bem, o soro dele acabou e ninguém vinha retirar, e eu comecei a ficar muito incomodada com aquilo, com a demora e com o que eu estava vendo voltar pela mangueirinha também. Levantei e fui atrás de alguém que pudesse nos atender. Levantei e tive uma tontura. Para todo lugar que eu olhava, só via agulhas, fios, soros, rostos sofrendo… e enfermeiros rindo, conversando entre si como que alheios ao que se passava em volta. Minha pressão começou a baixar, eu tinha certeza. Falei pro enfermeiro que estava ali “a medicação do meu marido acabou e ninguém vai lá tirar. Chama alguém, por favor”. Deixei-o lá e fui até a lanchonete do hospital tomar um ar e comprar uma água, nem avisei o Cleber. Não deu muito certo. Pra chegar lá era preciso passar por mais pessoas, e pela recepção cheia e quente. Quando peguei a água e tentei abrir, não consegui. Só me lembro que eu falei “não tô conseguindo abrir a água” e a lembrança seguinte já é a de me colocarem numa cadeira de rodas. Desfaleci por alguns breves minutos. E a cena seguinte foi até engraçada: eu entrando no hospital de cadeira de rodas e meu marido saindo, tinha acabado de receber alta.
Entrei na sala do médico e ele já falou: “você tá muito pálida, vai tomar soro e fazer um exame pra ver se tem anemia, tô preocupado”.
Parêntese: óbvio que eu estava pálida, tinha acabado de desmaiar, né!!!  Fecha parêntese.
Tentei explicar meu caso pra ele, que eu sempre fico sensível e passo mal em situações assim blábláblá. Mas ele nem me olhava, só falou “tá, mas você tá pálida, vai tomar soro pra hidratar e fazer exame”. “Mas, doutor, eu fico pior com o soro, porque sofro muito na hora que vão colocar”. Acho que falei mesmo para as paredes, porque a enfermeira me levou da sala.
Enfim, fato é que me levaram pro mesmo quarto em que eu estava como acompanhante.
Precisavam me colocar no soro e recolher material pra o exame. Eu não queria.
Aqui cabe dizer que quando acontece isso comigo, eu só preciso de repouso. Não preciso de mais situações que piorem o meu estado. Mas eu estava muito fraca e qualquer coisa que eu falasse, nem respondiam. 
Meu marido estava na sala do médico, pegando o atestado e finalizando as coisas dele, e também estava um fraco, obviamente, quando chegou para ficar comigo. 
Eu estava ficando mais nervosa, acho que só não desmaiei de novo porque já estava deitada. Não conseguiam achar minha veia. Eu falava “moça, não fala nada, eu não posso ouvir, só faz que eu não vou olhar”. Ela falava. E eu chorava. Para piorar um pouquinho mais, chegou uma outra enfermeira para conversar com ela sobre o que iam fazer depois do expediente, no fim de semana. Conversar!!!! Ela se distraiu e errou a mão (não posso escrever o que houve, porque não tá dando certo, mas em outras palavras ela arrebentou meu braço). Ela terminou o que foi fazer e eu continuei chorando. Não tinha coragem de mexer o braço, nem de olhar para qualquer outro lugar que não fosse o teto.
Minha sogra chegou para ficar comigo enquanto o Cleber ia almoçar (já eram umas 16:00, eu acho). Ela chegou, me acalmou um pouco, e viu que meu braço não estava muito bonito (acreditem, eu não tinha olhado pra ele de jeito algum). Foi lá e pediu pra enfermeira um algodão com água e limpou tudo direitinho., porque nem isso elas fizeram, me deixaram suja mesmo. Me deu água, e ficamos conversando um pouco. Eu dizia: “como vai ser quando eu tiver um filho, Edi? Vou desmaiar na hora do parto?”, e ela “Não, Má, fica calma, na hora a gente ganha uma força que não sabe de onde veio” e me acalmava, conversava outras coisas pra eu melhorar logo.
Saí de lá no finalzinho da tarde, com um grande hematoma no braço esquerdo, exames comprovando que a minha saúde estava ótima e um peso imenso no peito. Durante alguns dias ainda fiquei muito triste por ter sido tratada daquela maneira, sem o mínimo de respeito. E a pergunta que rondava minha cabeça nos últimos meses se tornou uma certeza: eu não poderia contar com a sorte e esperar que profissionais que, até então, eu nunca havia visto me atendessem quando chegasse o momento de colocar uma vida nesse mundo. Iria ser com uma equipe que eu confiasse plenamente, que tratariam o parto – que é um ato fisiológico, e não médico – de forma respeitosa e humana.
Naquela época, eu ainda sabia pouco sobre o assunto, mas já havia visto o vídeo lindo da Sabrina. Foi o primeiro vídeo que eu vi sem tampar os olhos em nenhum momento e achei um bom sinal. Fiquei feliz com o que vi. Havia, em algum lugar não tão longe de mim, pessoas capacitadas que entendiam que as vontades das mulheres devem ser respeitadas. Pessoas que entendem que a natureza é perfeita, e se podemos gestar, com certeza podemos parir também. O nosso corpo sabe o que fazer. Intervenções acontecem em alguns casos somente, e não “por rotina”, pra ir mais rápido; e mesmo se precisar intervir, o respeito vai existir em todo processo. Pessoas que sabem que a mãe é a protagonista, e não os médicos. Senti uma esperança de ser ouvida, finalmente.
Então eu comecei a pesquisar mais, ler mais, aprender mais. Algumas palavras, que antes não me eram familiares, hoje eu já entendo melhor. Parto natural, parto humanizado, doulas, intervenções de rotina (ocitocina sintética, episiotomia, etc, etc), parto domiciliar, cesárea eletiva. Como funciona ou não funciona com os convênios médicos, com os grandes hospitais particulares, no SUS. Medicina baseada em evidências. Taxas de cesáreas no Brasil. Mulheres empoderadas. E muito mais coisas. As peças foram se encaixando lentamente na minha cabeça e até hoje eu leio muito, claro, nunca vou parar de ler. Porque eu entendi que, para ter o meu maior desejo realizado, além de vencer essa minha sensibilidade, terei que lutar contra um sistema inteiro que domina o nosso país. Um sistema que está mais interessado em manter as agendas dos médicos livres aos fins de semana e feriados, e seus bolsos com mais dinheiro (fazendo os índices de cesárea chegar a mais de 90% em alguns hospitais particulares, quando a OMS recomenda até 15%), do que respeitar a fisiologia do parto, a ordem e o tempo natural de cada uma. Um sistema que já tomou muitas decisões por mim – e eu não posso permitir que a minha voz seja abafada dessa maneira.
Acho que aqui cabe dizer que eu não tenho medo da dor. Entendo-a como parte do processo de trazer a esse mundo um amor que ainda desconheço, mas sei que é incondicional. Sei que há modos de lidar com ela, e que quando eu as estiver sentindo e não me lembrar que escrevi isto, terei ao meu lado quem me lembre e não me faça desistir. 
Além do medo de cair nas mãos de um médico cesarista, eu tenho medo da violência obstétrica, que existe, que acontece com muitas mulheres. Infelizmente, é um quadro real no nosso país. Eu tenho medo disso porque eu já sofri violência psicológica em hospitais também, e doeu. Nem preciso de muita imaginação para saber que, se eu sofro isso hoje, grávida então a coisa vai piorar, porque ficamos mais sensíveis e tudo mais. Tenho medo de pessoas passando por cima de valores básicos, inutilizando aquela mãe – que só precisa ser ouvida, acalmada, encorajada, respeitada – como se seu corpo fosse objeto de estudo naquele momento.
Quer dizer, eu tinha medo. Não tenho mais.
Agora, um ano depois do que relatei ali no início, depois de tanta busca – interna e externa – me sinto mais segura. Sei também que terei que fazer alguns esforços financeiros para que eu tenha ao meu lado os profissionais que escolhi, mas todo esforço será recompensado, se Deus quiser. A minha sensibilidade vai ser superada também. Porque as pessoas que estarão comigo durante todo o tempo serão escolhidas a dedo. Pessoas de bem, que acreditarão na minha força e na perfeição da natureza. Porque hoje acredito mais em mim.
Não tenho mais medo, porque percebi que não estou sozinha nessa. Sou grata a Deus por ter descoberto tudo isso ainda antes de ter um filho. Muitas mulheres só se dão conta depois que tudo passa. E a força que todas temos, juntas, para superar e mudar esse quadro, é imensa.
Ainda há muito a aprender, e a maioria desses aprendizados virão mesmo com alguma prática.
Esta história está apenas começando…

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