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Da calma para as curvas inesperadas

Teve uns dias aí pra trás que a Agnes não queria comer fruta no café da manhã. Fazemos essa refeição juntos, nós três, e ela queria comer pão com manteiga ou requeijão, tal qual estávamos fazendo. Agora que ela não reage mais ao leite de vaca, tenho liberado algumas coisas, como um pouquinho de requeijão. Ela adora! Enfim. Ela queria isso e era isso que ela comia. Ignorava solenemente o mamão, a banana, a ameixa ou o que quer que estivesse na mesa, só tinha olhos pro pão com requeijão.

Nessas horas, meus pensamentos voam longe. “Lógico que ela não quer fruta, os pais dela não estão comendo fruta no café da manhã! Preciso mudar minha alimentação também. Céus, ela comia tão bem de manhã, nunca mais vai querer fruta, pão não é assim tão nutritivo, sou um péssimo exemplo…” e assim seguia por tempo indeterminado. Eu realmente acredito que a minha cabeça tem uma vida própria, à parte dos afazeres do dia, só assim pra explicar esses surtos de vozes sem fim, hahaha.

Não briguei com ela, nem disse nada sobre esse comportamento. Fiz o que costumamos fazer nessas horas, em relação à alimentação: deixei que ela seguisse tendo (alguma) autonomia, mas segui oferecendo frutas todos os dias no café da manhã. Mesmo já tendo certeza que ela iria querer o bendito pão todos os dias daqui até 98 anos de idade.

E então, uns dias depois, eu ainda estava colocando a mesa e perguntei a ela: Filha, o que você quer comer? Já esperando a tal resposta. E ela disse: Mamão. Eu téo (quero) mamão, mãe. Fui pra cozinha quase descrente, mas segui firme no pedido. Cortei o mamão, coloquei no pratinho e dei a ela. Ela sentou em sua cadeira e apenas comeu todos os pedacinhos, sem nem lembrar de pão (naquele dia, rs).

E aí eu penso. Por que a gente sofre tanto, né? Como se tudo fosse assim tão definitivo, tão certo. Por que não confiar e seguir vivendo um dia de cada vez? A gente acha que nunca mais vai dormir, que eles nunca vão comer, que vão comer tudo errado. É tanta coisa que a gente pensa e já vai tendo certeza, sem se dar conta de que eles, esses pequenos danadinhos, estão experimentando o mundo, não querem saber nada de futuro ou de certezas absolutas. Só querem experimentar e viver. É claro que precisamos seguir no caminho que escolhemos e que achamos melhor, mais saudável e possível para nós e nossa família, mas quando surgir uma curva inesperada, dias difíceis e fora do que consideramos ideal, não é preciso sair correndo desesperada em busca de solução. Não assim no primeiro segundo, pelo menos.

Tenho visto, na prática, que é muito mais proveitoso esperar um bocadinho, não sair falando aquelas “profecias auto-realizadoras” (meu filho não come! ela é terrível! fulana odeia dormir!) e apenas observar o que realmente nossos pequenos estão fazendo. Principalmente porque eles mudam muito, o tempo todo. Não dá mesmo pra ser muito definitivo nessa fase da vida. Além do mais, pode ser que sejam só uns dias fora da rotina. As vezes a gente precisa mesmo variar, não é?

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O que eu aprendi ao não postar todos os dias em agosto

Eu queria ter conseguido postar aqui no blog todos os dias durante o mês de agosto. Queria fazer parte dessa brincadeira (BEDA), porque gosto muito de acompanhar também. Mas a verdade é que não rolou do jeito que eu pensei que fosse rolar.

E eu nem vou culpar a maternidade ou a falta de tempo. Tem tudo isso e mais, claro, mas não foi isso que percebi nesses dias que fiquei sem postar. O que eu percebi, ou melhor, confirmei, foi que a palavra escrita pra mim tem muita força. Eu escrevo para além de um passatempo, sabe? É uma espécie de caminho que eu escolhi trilhar. Então, mesmo tendo assuntos e sugestões e ideias (que eu tenho aqui anotado e ainda virarão texto, podem esperar), algumas vezes faltava uma espécie de vontade mesmo. Vontade para desenvolver aquele assunto, para falar da minha experiência, para falar com as pessoas sobre aquela coisa. E então eu não aparecia. Não quis preencher as lacunas com assuntos que não me interessavam no dia, ou que estivessem aqui só para dizer que postei. Eu quis ser leal ao que estava sentindo, entender mais, saber o que aquilo dizia a meu respeito.

Quer dizer, existe uma verdade no meio criativo/literário/algo do gênero, que diz que a gente não pode ficar esperando a inspiração chegar, que o hábito é o que realmente importa. Precisamos trabalhar todo dia, faça chuva ou faça sol, e é só então que a coisa flui com vontade e as coisas acontecem. Eu sei. Inclusive já comprovei isso outras vezes (muitas vezes). Mas, como eu disse ali em cima, a minha relação com a escrita é além de um trabalho. Por mais que exista o exercício e tudo mais, também existe um outro lado, o lado mais abstrato, que não obedece muitas regras. Que precisa transgredir algumas verdades para continuar respirando com tranquilidade. E tudo bem. Eu aprendi a aceitar essa dualidade, estou aprendendo.

Eu quero vir aqui compartilhar minhas histórias e ideias quando eu realmente tiver algo pra contar, e não para preencher um espaço com mais do mesmo. Precisa me fazer bem. Precisa fazer sentido do lugar de onde eu olho.

A vida acontece em várias frentes ao mesmo tempo e eu tenho tentado atender a tudo que consigo, mas um de cada vez. Tentando praticar mais o mindfulness e estar presente na vida. No fim das contas, meu computador queimou o HD, perdi absolutamente todas as minhas fotos, arquivos, programas e etc. Entendi que era preciso dar uma pausa mesmo. Que existiam outras prioridades. Hoje estou aqui escrevendo nele de novo, já reformado (e zerado), e é isso. Um passo de cada vez, vamos lá.

Estaremos juntas no caminho e eu prometo aparecer sempre. Sempre que tiver alguma coisa bem legal pra contar, pode deixar.

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Sobre o que eu preciso falar

Hoje eu tirei o dia pra desabafar.

Quando eu comecei a escrever no blog, eu tinha o único intuito de ter um lugar para desaguar meus pensamentos sobre maternidade – um tema que eu já amava mesmo ainda nem sendo tentante. Eu queria poder escrever as coisas que eu acreditava, que eu queria, que eu ansiava. Enfim, é pra isso que as pessoas fazem blogs pessoais, não é?

E, bem, eu sou uma pessoa que acredita, sabe. De verdade, eu acredito. Eu acredito nas pessoas, eu acredito em Deus, eu acredito no amor. Eu acredito. Acredito, inclusive, que a gente pode ver a vida de um jeito mais suave, mesmo nas pancadas e nos terremotos. Na verdade, eu passei a acreditar nisso com mais verdade depois que perdi meu bebê, em 2013. Eu passei a escrever aqui no blog como uma espécie de tábua de salvação, desabafava todas as minhas dores e aprendizados. Era a minha tentativa de não me afundar naquela tempestade. E deu certo.

Depois disso veio a gravidez da Agnes e a vida aconteceu da maneira que tinha que ser. Tudo foi dando certo – a gravidez foi bem, pari, amamentei, me mudei. Também cresci. E no meio disso tudo, ainda lá na gestação, eu fui entrando em grupos, fui lendo muitos relatos, fui acompanhando militâncias absolutamente necessárias, mas que acabaram me podando um pouquinho. Pois é, esse é um assunto delicado. Eu, que gosto de ver um lado bom em tudo, que preciso disso inclusive para organizar meus pensamentos, pensei que talvez eu estivesse romantizando a parada toda, coisa que a gente bem sabe que não faz muito bem, nem enquanto pessoas, menos ainda enquanto coletivo. Será que eu estava fazendo isso, meu Deus? Será que estava contribuindo para a propagação de uma coisa que, ao mesmo tempo, eu não concordava? No meio disso, comecei a perceber que as vezes algumas pessoas esperavam que eu falasse das dificuldades, do peso, dos problemas, mas quando eu via, estava dizendo que ela até que dormia bem prum bebê de 3 meses, que estava tudo bem na amamentação e que o pai dela adorava dar os seus banhos. E por que e falava isso? Porque era assim que eu estava vendo. Eu li tanto que as noites iam ser em claro, que quando percebi que nos ajustamos num ritmo de sono que dava certo pra nós duas, achei que estava sendo um sucesso. Eu respondia que ela dormia bem porque pra mim era o que era. Só depois de muitos meses me dei conta de que, na verdade, ela ainda acordava 3 vezes em várias noites, mas pra mim ela dormia bem. Mas o que as pessoas ouviam era: ela dorme a noite inteira, descanso 8 horas seguidas, sou foda, minha filha é um prodígio. Por que eu podia falar do que aprendi de bom com uma perda gestacional, mas não era entendida quando falava do que estava dando certo na maternidade real (real no sentido de que estava acontecendo mesmo, comigo, agora)?

Era como se eu não pudesse falar das belezas enquanto tinha tanta gente no meio da lama, sabe como? Eu comecei a me calar, porque não queria que me entendessem mal, porque queria também ouvir, porque não queria tirar o lugar de fala de quem está em outra vibe. Tentei, inclusive, me “adequar” e falar mais do que geralmente é escondido, mas me sentia mal. E olha, do alo dos meus 27 anos, vou falar uma das poucas certezas que eu tenho na vida: todas as vezes em que tentei me adequar, me ferrei totalmente. Na verdade, quanto mais eu falava do meu cansaço, mais cansada eu ficava, literalmente. Cheguei a conversar com o Cleber sobre isso. Amor, qual é o limite entre o desabafo e uma reclamação sem fim? Pensei muito sobre isso, depois volto pra falar desse assunto. E aí eu me calei. Nem sabia mais qual era a minha voz, ou o meu lugar, ou a minha turma. Puerpério é fogo, eu já disse. E pra mim também pegou nesse sentido.

Demorou pra eu perceber que, muitas vezes, a reação de quem está fora não tem a ver comigo, mas com a própria pessoa. Que a gente é espelho. Se você vê, está em você, é o que dizem. E isso também serve pra mim, para o que eu via. Mas este também é assunto pra outra hora. Demorou pra eu perceber que a minha forma de falar não estava anulando as outras, era só mais um jeito, que mesmo que eu concordasse com elas, não saberia falar da mesma forma, apenas porque não é a minha voz, não porque acho errado. E que tem lugar pra todo mundo nesse mundão.

Hoje eu acho que já me desvencilhei um pouco dessas amarras todas. Acho que tem lugar pra todo mundo e que cada um tem que fazer o que se sente bem. Essa sou eu, afinal. Estou tentando recuperar o meu ritmo de escrita e a forma como compartilho o que sinto. E queria muito falar disso aqui, porque a escrita tem poderes curativos em mim, então, é isso. Só queria mesmo dizer, pra mim mesma, que eu estou voltando pra mim, tentando achar o meu lugar aqui de novo. E que, dessa vez, é pra ficar.

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O poder da relação

Como a maternidade sempre foi uma vontade muito grande, e como descobri o universo dos blogs bem antes de tentar engravidar, embarquei em muitas leituras e, consequentemente, em muitas teorias – todo tipo, desde as que englobam a gestação até as que falam da primeira infância. Algumas realmente fizeram muito sentido pra mim e as apliquei na nossa vida tão logo engravidei. Mas foi só a Agnes nascer que as coisas mudaram de ordem na minha cabeça e eu só fazia enxergar aquele pacotinho que se aninhava no meu colo e cabia direitinho no meu braço. Era o começo da nossa relação.

Essa coisa que é inteira prática, vivência, movimento. É a vida acontecendo, a despeito de qualquer coisa, sem qualquer tipo de ensaio. E foi aí, parando pra pensar sobre isso, e também depois de assistir ao documentário “O começo da vida” que caiu a ficha de uma vez por todas: as regras não existem. Não desse jeito engessado que muitas vezes a gente quer enxergar.

No documentário, uma mulher da periferia trabalha de babá e deixa a filha aos cuidados de outra pessoa o dia inteiro. Eu não preciso reproduzir aqui todas as frases de julgamento que cabem nesse exemplo, mas sabemos que elas existem e não são poucas. E aí tem a cena dela voltando pra casa com a filha no colo, conversando, perguntando como foi o dia, se comeu tudo na escola e tudo mais. Isso é relação. É esse encontro, essa conversa, esse ouvir, essa troca. Tô falando que a vida delas é linda, maravilhosa, perfeita, podem ficar assim pra sempre? Não. Tô falando que ela nunca briga com a filha, nem tem vontade de fugir pras colinas de vez em quando? Também não. Estou falando que ali, no meio da rotina insana de todo dia, existe uma relação sendo construída. Passando por cima de absolutamente todos os fatores que poderiam ser diferentes, ela está sendo construída. Isso acontece com aquela mulher, acontece comigo e com a Agnes, com você e seus filhos,  também foi assim com a gente e nossos pais. Simplesmente acontece.

Existem muitos filmes que trazem exemplos de como é importante, principalmente para a criança, o fortalecimento da relação e do vínculo. (Adoro Diário de uma babá, rs). Aqueles filmes que as crianças vão passar uma temporada, ou ficam sob a responsabilidade de um adulto que não faz muita ideia de como é cuidar de uma criança, ou que não as queriam ali. E aí eles vão convivendo, se estranhando, fazendo coisas bem erradas, de arrepiar os pelos da nunca de muita mãe e pai que gosta de uma segurança e um controle. E as coisas vão acontecendo e vai dando tudo certo, no fim das contas. Podem ser romanceados, mas ainda foco na questão do vínculo.

Isso me faz pensar tanto, em tanta coisa.
Como estamos construindo nossa relação com os nossos filhos? Estamos com o pensamento só no amanhã, tomando decisões visando somente um futuro brilhante, saudável e incrível, o que é ótimo também, mas a pergunta de um milhão de dólares é: como vocês estão hoje? Está valendo a pena? Tem vontade de jogar alguns padrões e teorias pro alto, pelo menos de vez em quando? Está conseguindo conversar com seu filho, escutar o que ele tem a dizer (sem terminar suas frases)?

A questão não é se estão brincando ao ar livre ou com monitoras, se estão comendo orgânico ou na lanchonete da esquina, se está na escola ou viajando o mundo. Não é sobre dicotomias que excluem todo o resto. É sobre vocês dois, sabe. Sobre a família toda. Sobre se olharem nos olhos, se abraçarem, se saberem seguros para expressarem quaisquer sentimentos que surgirem.

Não estou escrevendo este texto para apontar dedos ou para ser “mais uma coisa obrigatória no pacote da maternidade ideal”. É o contrário disso. É só para lembrar que tá tudo bem ser quem a gente é. Que tá tudo muito bem em ser quem podemos ser hoje. A gente sempre pode ajustar o olhar e mudar algumas pequenas cenas cotidianas quando algo incomoda ou pesa nos ombros ou na consciência, claro que pode. Mas tá tudo bem. Me senti muito mais leve quando deixei algumas expectativas pelo caminho. Venho seguindo com mais calma, ainda precisando de uns lembretes de vez em quando, mas bem mais tranquila com a vida que está acontecendo aqui pra nós.

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Carta do dia: preste atenção

São Paulo, 31 de maio de 2016.

Filha, 

preste atenção ao que a sua intuição diz.

Intuição, filha, é uma voz que tem bem lá dentro da nossa cabeça. Ela fala baixo, a gente tem que estar atento para entender. É a nossa voz nos dizendo verdades sobre o caminho que escolhemos trilhar, as pessoas que passam por ele e os detalhes que vão passando ao nosso lado enquanto vamos. É bem verdade que muitas vezes ela fala e a gente não entende o que ela está querendo nos dizer. Parece que não faz sentido, será que estou ficando louca?, você pode se perguntar. Não tem problema. Mesmo quando a gente não entende o que ela está dizendo, é importante que saibamos ouvir. Lembrando que ouvir não é concordar ou reproduzir discursos, nem tampouco se desesperar por não estar conseguindo ser fluente em “intuinês”. Ouvir é saber que a voz existe e se calar para escutar. Algum dia as letras se vão se organizar de uma forma que você entenda exatamente o que está escrito, acredite em mim. 

Não tem problema não entender logo de cara o que a sua intuição diz, porque nem sempre é uma coisa que precisa necessariamente ser feita. Talvez você saiba, filha, que a gente pode até dizer o contrário, mas o ser humano gosta um bocado de um guia, de alguém que nos fale por onde ir, o que fazer, comer, vestir. Enfim. Nem sempre precisa ser assim. Tudo bem não saber, não querer, não entender. Mas mesmo nesses momentos, se a sua intuição disser alguma coisa, qualquer coisa, preste atenção. Pode ser que seja um textão, pode ser que seja só um respiro de cansaço, ou quem sabe aquele frio na barriga, de medo ou de excitação. Preste atenção. Reflita sobre o que sentiu, pense a respeito, deixe o sentimento cozinhando em banho-maria até quando for a hora. Em algum momento vai caber na sua caminhada e você vai gostar de saber que fez a sua parte para que essa voz, que no começo parecia um sussurro estranho e quase inaudível, agora está mais para uma voz calorosa e reconfortante de uma amiga. 

Porque é o que ela é.

Ouvir é o primeiro passo para a compreensão, comece por você.

com amor,
mamãe.

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Eu mãe

Dia das Mães e a gente se pega pensando nessa coisa doida-linda que é a maternidade.
Eu, que sempre quis ser mãe. Que sempre ansiei por viver o que estou vivendo hoje. Que nunca cogitei ter outra vida, mesmo quando ainda não sabia o tanto de percalços, entraves e batalhas que é preciso travar todos os dias.

Mesmo com os desafios, com os choros, os medos, as angústias, as apreensões e tudo aquilo que tira o fôlego e faz a vontade de parar no meio do caminho bater na porta.

A verdade é que gosto.

Ser mãe é o que eu sou. É parte do que eu sou. Uma parte fundamental, que existe desde muito antes da presença física da minha filha.

Eu me reconheço como mãe. É um pertencimento. Como se a maternidade fosse um lugar. Me sinto em casa.

Em tantos momentos eu quero ficar sozinha, eu quero um tempo pra mim, só ficar sentada no sofá sem fazer nada. E mesmo assim ainda penso no quanto gosto dessa vida. Não trocaria por nada, com certeza. Não é nem questão de romantizar. Estou divagando na madrugada aqui mais pra mim mesma. Eu sei que não é só bonito, e como sei. Sei das sombras, dos fantasmas, dos bichos papões. É que ser mãe é algo tão importante e inato em mim que eu acabo sempre voltando meu olhar para o quanto isso me acrescenta e me faz bem.

Eu tenho muito a agradecer às minhas filhas. À bolota, que fez nascer em mim esse sentimento; me fez forte. À Agnes, pela prática diária e por tudo que tento exercer nos nossos dias. A presença. A leveza que me lembra de usar quando estou a ponto de surtar. A paciência, a escuta, o acolhimento, a praticidade, a compreensão, a simplicidade. E também a força, aquela que eu só descobri que tinha quando ela nasceu. A força de brigar pelo que acredito e defender a verdade que estamos descobrindo juntas.

Eu repito pra mim mesma que sou mãe e aceito de bom grado às felicitações que recebo. Não porque precisamos de um dia x blablablá. Só pra confirmar que é mesmo real essa vida que ando levando. Eu sou mãe! E não há quem me faça deixar de ser.

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Estudo psicológico sobre as redes sociais

 

Pode ser que eu acorde um dia me sentindo péssima, com duas espinhas no rosto, cabelo teimando em permanecer pra cima e pés de galinha no canto dos olhos. Eu posso, então, lavar o rosto com água fria pra acordar, passar um BBcream, prender o cabelo e seguir meu dia normalmente, inclusive saindo de casa e mostrando a minha cara arrumada pra sociedade. Eu posso rir disso no fim do dia. Eu posso decidir passar no salão para fazer as unhas e me sentir um pouco melhor comigo mesma. Eu posso só ir vivendo mesmo e aceitar como um dia normal, que vai chegar ao fim. Porque afinal é só um dia comum, na minha vida comum. E tudo bem.

No meio disso tudo, lá no salão, eu resolvo tirar uma foto dos meus pés de unhas coloridas, porque eu adoro minhas unhas dos pés coloridas e porque, nossa, realmente faz tempo que não faço algo por mim, preciso registrar isso. E posto em alguma rede social.

A pessoa lá do outro lado, deslizando fotos no instagram ou no facebook, se depara com os meus pés coloridos e vai ter certeza que eu sou um sucesso de pessoa. Que eu sou organizada o suficiente para conseguir uma brecha no meu dia e ir fazer as unhas. Que minha casa está limpa e minhas roupas engomadas. Que alguém está cuidando da minha filha enquanto isso, e que eu tenho muita sorte por isso. Que eu só consigo esse horário porque não trabalho, assim fica tudo mais fácil. Eu sou um sucesso de pessoa. Ou, pode ser que me ache uma fútil, que paga manicure, mas não paga a feira orgânica. Que terceiriza a filha para fofocar no salão. Que posto foto colorida, quando o mundo anda tão cinza. Que é tudo mentira. Ilusão. Justo eu, que quero ser hippie, isso é tudo falácia mesmo, não dá mais para acreditar em ninguém hoje em dia nessa internet. Ou, numa terceira hipótese, a pessoa passa direto pela foto porque não chamou sua atenção e ela não perde tempo lendo legendas que não lhe interessam.

Para cada reação, posso quase garantir que o que vai prevalecer para essas reações não é o filtro que eu escolher pra foto ou a legenda. É o que a pessoa está sentindo no momento. É o dia que ela está tendo. É a bagagem que ela carrega.

Do ponto onde me encontro, é apenas uma foto de um momento que finalmente deu certo na minha semana. E o texto poderia acabar aqui, ou com alguma reflexão sobre como uma mesma coisa pode render muitos pontos de vista. A vida, essa maravilhosa. Mas eu ando meio angustiada com uma coisa. Ainda usando o exemplo acima, digamos que a pessoa não só projetou algo da vida dela nos meus pés coloridos, ela fez um post sobre essa projeção. Que gerou ainda mais projeções, que gerou revolta, e a história não tem fim. Como se, usando os defeitos ou erros de outra pessoa, eu conseguisse promover as minhas qualidades, ou anulasse os meus pecados. Sororidade, definitivamente, não é isso.

Agora eu paro pra pensar: que tipo de realidade as pessoas querem nas redes sociais? Porque assim, falando de verdade, não tem como a gente compartilhar tudo cem por cento 24 horas por dia. Que bom, né! Eu fico pensando em algumas pessoas que acham que o que se vê ali na timeline é o retrato fiel e a prova irrefutável do que quer que seja que ela pense sobre a vida do outro. Gente, isso não existe. Assim como não dá para julgar a pessoa por uma conversa que ouvimos no ônibus. Ou apontar o dedo pra birra que vemos no corredor do shopping. Eu sei que o julgamento existe, o que quero dizer é: tamo fazendo tudo errado!

Penso também no seguinte ponto: essa coisa fidedigna que tanto queremos, porque ela anda causando tanto alvoroço? Para além da discussão do mundo romantizado, quero dizer. Digo, eu sei que #precisamosfalar sobre um punhado de assuntos. E precisamos mesmo! Enquanto sociedade, a discussão precisa ser feita em muitos níveis, sobre tudo. Estamos quebrando muitos paradigmas assim, e é só o começo. Porém, o meu ponto é: para além disso, o que mais te incomoda? O quanto já mentiram pra você na sua vida toda? O quanto ser enganado já tirou a sua fé? Por que é tão importante se manter forte, quando tudo o que você precisa é de um abraço e um pedaço de bolo? Quando você deita a noite e relaxa dos assuntos mundanos, o que sente? Que dor é essa que ainda persiste e parece nunca ter fim? Como foi sua infância?

Não sei. Talvez fosse legal a gente ter aulas de autoconhecimento na escola. Eu sempre quero entender porque cada um sente o que sente. Pessoas são mundos inteiros, cheias de possibilidades e de respostas e de perguntas. Seria muito bom aprender sobre todas essas coisas desde cedo. Aprender a olhar para quem somos de forma inteira, não enviesada. Olhar para dentro, não para os estereótipos. Aprender a lidar com o que não é belo, e apreciar o que é. Entender que há muita coisa dentro de mim e que, veja só que surpresa, deve ter muita coisa dentro do outro também. É muito mais produtivo lidar com os próprios fantasmas, ao invés de jogar no colo alheio. Muitas vezes, a gente consegue isso justamente se relacionando com outras pessoas. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Aprender a nomear também é importante. Quando a gente aprender a ser gentil com quem somos, e a ter coragem para nos olharmos, talvez a gente consiga ter uma escuta mais atenta pro outro também. Porque no fim das contas, em uma infinidade de vezes, nós vemos as coisas mais como nós somos do que como elas são. E isso muda tudo.

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Ela

Esses dias estive pensando na Agnes e o quanto ela representa nas nossas vidas, na minha vida.

Ela tem um entendimento das coisas, de pequenas coisas, que me faz acreditar em Deus com muita força. É muito forte o que eu sinto por ela, o que eu sinto com ela. Sabe uma sensação de pertencimento? Uma sensação de que estou em casa, de que estou segura, de que estou bem? Sou eu com ela.

Já aconteceu dela me ver chorar. E sabem o que ela fez? Me abraçou. A Agnes olhou bem nos meus olhos e me abraçou apertado, com aqueles bracinhos no meu pescoço, a sensação mais gostosa da minha vida. Eu esperei a vida inteira por esse abraço, e ele veio. Eu esperei a vida inteira por alguém que me olhasse com carinho quando eu não consigo dizer nada, só chorar, e então receber esse abraço, que é a verdadeira promessa de que tudo ficará bem daqui a pouco.

Durante um tempo eu pensei que não era bom assumir isso, nem pra mim mesma direito, que dirá escrever sobre o assunto. Tinha medo de ser uma projeção, de acabar esperando que ela se comportasse de uma determinada forma, que atingisse expectativas que não existem. Nunca quis esse peso para a minha filha, por isso nunca o dei, sou bem consciente nesse aspecto, penso muito a respeito. Acontece que não é uma projeção, percebi dia após dia na nossa convivência, é um sentimento. Um sentimento real, forte, que nos une desde antes dela vir morar na minha barriga.

Na primeira gestação, quando ainda discutíamos os possíveis nomes, um dia o Cleber chegou do trabalho falando em Agnes. Achei que não era um nome que combinasse com aquele bebê na minha barriga, mas não descartamos totalmente. A vida aconteceu e não era mesmo para ter sido. Assim que a Bolota se foi, achei que não conseguiria pensar em bebês tão cedo, já contei isso muitas vezes, aliás. Só que 1 mês depois da perda, logo no primeiro ciclo, eu já pensava que não devíamos evitar nada, porque eu sentia que tinha de ser daquele jeito. “Eu não quero planejar e tentar, mas também não quero fechar as portas”, foi o que disse. Eu simplesmente não conseguia me imaginar evitando uma gravidez naquele momento. E não evitamos. E ela veio. Com uma presença marcante desde o início. E agora, escrevendo esse texto e pensando em quando estava grávida, li essa carta que escrevi pra ela depois de um sonho lindo, e pude perceber o quanto todas aquelas palavras fizeram sentido e se encaixaram perfeitamente no que estava por vir. O parto foi transformador, daquelas experiências que nos dividem em antes e depois. Não foi rápido e fácil, foi como tinha de ser, para nós duas. E desde então, em cada vivência nossa, em cada passo que damos juntas nessa relação, eu sinto que fica mais forte, não sei como. Somos muito nossos – nós três aqui em casa.

Ela confia tanto em nós, é tão lindo de ver a sua entrega ao que dizemos e ao que fazemos com ela. Tenho repetido ultimamente que não quero perder isso. Quero estar atenta sempre, para que esse vínculo só nos leve além, nunca nos prenda, nem se desgaste. Sinto que ainda tem muita história para acontecer, muita vida para viver. Ela veio mesmo para mexer com a gente, nos pegar pela mão e sair andando por aí enquanto explora possibilidades e descobre novos caminhos e olhares. Que sorte a nossa. “Que bom que você veio, filha. Sou muito feliz com a sua presença. Obrigada por tudo.”

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Só pensando

Mal eu disse que a nuvem de tempestade que cobria meu puerpério foi embora, finalmente, deixando as coisas mais leves e frescas, já estou aqui pensando quando o baby 2 dará as caras nesse mundo.

Hahahahahahahahaha!!!!!

Veja bem, eu nunca pensei em ter um filho só.
Mas confesso que quando a Agnes nasceu cheguei a dizer que já tava bom, já, obrigada, passar pelas chatices de novo eu dispenso. Sério, eu sou uma velha ranzinza, a quem eu quero enganar? Só que joguei essa rabugice debaixo do tapete e voltei a pensar numa família maior, eeeeee!!

Não. Não faço a mínima ideia de quando vou engravidar de novo. Como eu já comentei aqui outras vezes, não sei seguir nem o cardápio semanal, imagina plano de médio e longo prazo? Sem chance. Sei que não dá pra engravidar agora, já, hoje, 2015. Apenas porque estamos numa fase da vida que olha, vou nem comentar, crise é apelido. Quero pelo menos dar uma amenizada na coisa antes de trazer mais gente pro mundo.

Às vezes acho que minha relação com a Agnes ainda é muito simbiótica, que não dou conta de outra disposição e entrega emocional assim. Tô confiando nas amigas que já passaram por isso e disseram que tudo vai se ajeitando. Sei que amor tem de sobra pra todo mundo, mas essa coisa de estar disponível 100% nos primeiros meses já vai ser diferente, né. Penso em como lidar com essas novas demandas etc e tal. São questões. Nada que o tempo e mais algum amadurecimento (meu e da pequena) não resolvam. assim espero

Porém, nada disso não me impede de pensar, né não?
No parto domiciliar que eu quero. Nas quiança brincando junto. Eu e a Agnes pintando a barriga (oiin!). Roupinhas pequetitas. A gente sendo uma família de 4 integrantes. Só lindezas ❤

A dúvida da diferença das idades já desencanei de responder, apenas porque descobri que não existe resposta ideal mesmo. Sempre haverá prós e contras, de todos os lados. Eu só não queria que tivesse acontecido de engravidar antes dela fazer 1 ano, por toda bagagem emocional mesmo, como acabei de dizer, e como não aconteceu, tudo bem. Se fosse para escolher realmente, talvez eu escolhesse quando ela já tivesse desfraldado e desmamado, bem aquela coisa de “deixar de ser bebê”, mas nunca cheguei a fechar como uma certeza aqui dentro. Só pensando.

Esse texto é todo um pensamento geral, na realidade.
Não existe data, não existe plano, sequer existe tentativas. Apenas uma nova ideia para matutar. Coisa que adoro fazer, inclusive. O baby 2 sabe bem a hora de vir, eles sempre sabem. A nós cabe apenas ouvir, e deixar vir.

Beijo especial para minha querida Romana Naruna, que está grávida do bebe2 e escreveu um texto que me emocionou muito. Vida longa e farta a vocês, amiga. Que bom que, diante de tanta coisa que desaba, vocês escolheram construir e ser amor. 

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Sobre a arte de ser mãe e acolher também a criança que eu fui

Uma das coisas mais difíceis na prática da maternidade, na minha opinião, é lidar comigo mesma. É entender que muitas vezes, diante de uma situação rotineira, como um almoço ou a hora da soneca, quando o caldo entorna e as lágrimas surgem, o que eu enxergo (em mim) é a criança que eu fui. E mais, que a minha filha é um espelho que apenas reflete aquilo que vê. E nem todos os dias, em todos os momentos, ela vê beleza e harmonia. Há muita bagunça no mundo, e dentro de mim não é diferente.

Eu não estou aqui para me culpar. Nem para discorrer sobre a formação da psique da minha pequena – se ela vai interiorizar isso de tal ou qual maneira (já faço isso em outros momentos de insanidade, me deixem). Só quero dizer que nem sempre é fácil manter o equilíbrio. O equilíbrio vem do constante movimento, aquela coisa sobre andar de bicicleta, mas e quando bate o cansaço, como prosseguir? Também não quero fazer o discurso da mãe que sofre e coisa e tal, pois este nunca me apeteceu. Talvez eu até pudesse começar esse texto de outro jeito.

Uma das coisas mais difíceis na prática da vida, na minha opinião, é lidar comigo mesma. É entender que, muitas vezes, numa situação rotineira, o que me incomoda é o quanto de mim eu reconheço no outro. Perceber que a minha ação agora é uma resposta a uma atitude que já pereceu tempos atrás. Reagir conforme o passado nem sempre é uma boa ideia. Talvez nunca seja uma boa ideia. Mas quando os sentimentos afloram, raramente conseguimos pensar nisso a tempo.

Na minha relação com a minha filha não é diferente. Muitas vezes eu me vejo nela. Muitas vezes, eu vejo outras pessoas fazendo com ela o mesmo que já fizeram comigo e que me fez tão mal. Não tem como evitar reviver tudo de novo. Dá vontade de brigar, de voltar atrás, de fugir pro mato. Dá vontade de protege-la da dor que eu senti. É surreal, eu sei. E é por saber disso que tento fazer diferente.

Todos os dias eu repito o mantra de que a minha história é minha. Que sim, posso aprender com os erros e os acertos de outras pessoas, mas dificilmente o quadro se repetirá do mesmo jeito, sempre igual. E que bom que é assim. Estou construindo uma história nova, com uma pessoa nova, que vai achar seus próprios jeitos de lidar e interpretar tudo isso. Ou melhor, ela está construindo, não diz muito respeito a mim, em certo nível. Ao invés de querer protegê-la de um passado que ela não viveu, de uma história que ela não faz a mínima ideia que rolou, o que eu preciso fazer é acolher a criança que eu fui. Eu faço isso na minha autoterapia há uns bons anos já, mas tem sido mais efetivo desde que me tornei mãe. É libertador. O espaço que me sobra libertando esses fantasmas é bem grande. E o peso que eu tiro das costinhas da minha filha também não é pequeno.

Porque é isso, né. Se eu não quero projetar nela desejos meus, se não quero que ela atenda incansavelmente todas as minhas expectativas, é no mínimo incoerente projetar meus traumas e desventuras em sua vidinha ainda tão curta. Ela é uma pessoa inteira, nova, começando a formar sua linda e vasta bagagem, pronta para viver um sem número de histórias, incluindo algumas lágrimas e questões porque faz parte do processo. A mim cabe amparar, conduzir enquanto não há toda autonomia, acompanhar, acolher, ensinar e aprender. Projetar não é verbo que cabe nessa relação. Não cabe em nenhuma, mas com criança é ainda mais sério. Meu desejo é que eu saiba colocar a Marina criança no colo quando for necessário, para que a sua parte adulta esteja presente e inteira para ver a filha crescer saudável. Amém.

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