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Carta do dia: intuição e experiência

Filha,

mamãe tá indo pra Salvador hoje, sozinha. 
Vai ser rapidinho, veja só, hoje é quarta-feira e na sexta estarei de volta pra dormir com você. Mesmo assim já estou com saudade. Você disse isso pra mim também, que vai ficar com saudade quando eu estiver “lá no Salvador”. Você me perguntou porque eu estou indo, e porque estou indo sozinha. 

Sabe, filha. A mamãe está descobrindo como é importante a gente valorizar, ouvir e receber com muito amor a voz que vem do nosso coração. A respeitar as nossas vontades. A conhecer a nossa essência. A nos conectarmos com a verdade que guia o nosso caminho. Tenho feito isso com mais presença nos últimos meses. Vezes mais, vezes menos, porque é um aprendizado – e algumas vezes a gente ainda cai em erros antigos para aprender que aquela é uma questão a ser iluminada e trabalhada. Mas o fato é que tenho feito, sim. Tenho procurado ouvir mais as minhas intuições, acreditar nelas – e tem sido um caminho bem bonito, muito bom de trilhar e desvendar. 

Pois bem. Uma dessas minhas intuições me disse que eu devia seguir em frente e ir pra Bahia sozinha, mesmo que fosse por dois dias (e não cinco ou sete, no Carnaval, como era o plano original, rs). Que Salvador é terra de energia forte, e que eu ando precisando beber um pouco dessa fonte e conversar de perto com aquele azul profundo que é o mar que só tem lá. Que ir sozinha, a passeio, é bancar uma Marina que ainda é meio nova pra mim, mesmo que eu sinta que ela sempre esteve aqui esperando para ser vivida. Que isso também é o meu trabalho, porque eu preciso viajar e me movimentar para me entregar à escrita como sei que posso fazer. Que isso também é a minha espiritualidade, porque minha alma reconhece aquele lugar de uma forma muito gostosa, e pela primeira vez estarei presente numa festividade ao dia de Iemanjá. Que isso é a força da amizade, porque sem a presença e o apoio de Dai eu estaria ainda mais perdida do que o normal, rs. E provavelmente tem mais mil coisas que fazem essa viagem ser imprescindível, mesmo que eu não saiba responder com palavras. Coisas que ainda vão fazer sentido daqui alguns dias ou mesmo em décadas. Coisas que ainda nem sei que são pontos a serem considerados, mas que estão compondo esse cenário. E tudo bem. 

Eu espero que isso seja uma mensagem pra você também, filha. Que você pode, sim. Que você é livre. Que sempre pode conseguir o que quiser, basta continuar tentando, indo, sentindo o caminho e o seu coração. Que algumas coisas não tem explicação racional, graças a Deus. Ao ver os meus movimentos, espero que você entenda, que sinta forte aí dentro do peito, desde já, que fique gravado em você, que é cuidando da nossa verdade e do nosso sentir que a gente se fortalece e floresce. Cresce. Para seguir em frente, para cuidar do outro, para ofertar ao mundo o que de mais bonito vier desse cultivo. E também pela experiência em si, por nós mesmas, pelo tempo presente que é tudo o que temos – então que seja de significado e sentido.

O nosso caminho é construído todos os dias, meu bem. E enquanto estivermos aqui no planetinha azul é tempo de aproveitar, de ir, de viver. Eu espero que você entenda que estou seguindo uma intuição, e que isso é uma escolha possível e natural – uma das milhões de escolhas possíveis na sua vida, você terá milhares delas, acredite. 

Não estou buscando respostas definitivas, nem te escrevendo agora, nem nessa viagem. Estou interessada na experiência. No tempo presente que ainda está por vir. E em te abraçar no aeroporto na noite de sexta, com certeza. 

 

com muito amor,
mamãe.

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Estudo psicológico sobre as redes sociais

 

Pode ser que eu acorde um dia me sentindo péssima, com duas espinhas no rosto, cabelo teimando em permanecer pra cima e pés de galinha no canto dos olhos. Eu posso, então, lavar o rosto com água fria pra acordar, passar um BBcream, prender o cabelo e seguir meu dia normalmente, inclusive saindo de casa e mostrando a minha cara arrumada pra sociedade. Eu posso rir disso no fim do dia. Eu posso decidir passar no salão para fazer as unhas e me sentir um pouco melhor comigo mesma. Eu posso só ir vivendo mesmo e aceitar como um dia normal, que vai chegar ao fim. Porque afinal é só um dia comum, na minha vida comum. E tudo bem.

No meio disso tudo, lá no salão, eu resolvo tirar uma foto dos meus pés de unhas coloridas, porque eu adoro minhas unhas dos pés coloridas e porque, nossa, realmente faz tempo que não faço algo por mim, preciso registrar isso. E posto em alguma rede social.

A pessoa lá do outro lado, deslizando fotos no instagram ou no facebook, se depara com os meus pés coloridos e vai ter certeza que eu sou um sucesso de pessoa. Que eu sou organizada o suficiente para conseguir uma brecha no meu dia e ir fazer as unhas. Que minha casa está limpa e minhas roupas engomadas. Que alguém está cuidando da minha filha enquanto isso, e que eu tenho muita sorte por isso. Que eu só consigo esse horário porque não trabalho, assim fica tudo mais fácil. Eu sou um sucesso de pessoa. Ou, pode ser que me ache uma fútil, que paga manicure, mas não paga a feira orgânica. Que terceiriza a filha para fofocar no salão. Que posto foto colorida, quando o mundo anda tão cinza. Que é tudo mentira. Ilusão. Justo eu, que quero ser hippie, isso é tudo falácia mesmo, não dá mais para acreditar em ninguém hoje em dia nessa internet. Ou, numa terceira hipótese, a pessoa passa direto pela foto porque não chamou sua atenção e ela não perde tempo lendo legendas que não lhe interessam.

Para cada reação, posso quase garantir que o que vai prevalecer para essas reações não é o filtro que eu escolher pra foto ou a legenda. É o que a pessoa está sentindo no momento. É o dia que ela está tendo. É a bagagem que ela carrega.

Do ponto onde me encontro, é apenas uma foto de um momento que finalmente deu certo na minha semana. E o texto poderia acabar aqui, ou com alguma reflexão sobre como uma mesma coisa pode render muitos pontos de vista. A vida, essa maravilhosa. Mas eu ando meio angustiada com uma coisa. Ainda usando o exemplo acima, digamos que a pessoa não só projetou algo da vida dela nos meus pés coloridos, ela fez um post sobre essa projeção. Que gerou ainda mais projeções, que gerou revolta, e a história não tem fim. Como se, usando os defeitos ou erros de outra pessoa, eu conseguisse promover as minhas qualidades, ou anulasse os meus pecados. Sororidade, definitivamente, não é isso.

Agora eu paro pra pensar: que tipo de realidade as pessoas querem nas redes sociais? Porque assim, falando de verdade, não tem como a gente compartilhar tudo cem por cento 24 horas por dia. Que bom, né! Eu fico pensando em algumas pessoas que acham que o que se vê ali na timeline é o retrato fiel e a prova irrefutável do que quer que seja que ela pense sobre a vida do outro. Gente, isso não existe. Assim como não dá para julgar a pessoa por uma conversa que ouvimos no ônibus. Ou apontar o dedo pra birra que vemos no corredor do shopping. Eu sei que o julgamento existe, o que quero dizer é: tamo fazendo tudo errado!

Penso também no seguinte ponto: essa coisa fidedigna que tanto queremos, porque ela anda causando tanto alvoroço? Para além da discussão do mundo romantizado, quero dizer. Digo, eu sei que #precisamosfalar sobre um punhado de assuntos. E precisamos mesmo! Enquanto sociedade, a discussão precisa ser feita em muitos níveis, sobre tudo. Estamos quebrando muitos paradigmas assim, e é só o começo. Porém, o meu ponto é: para além disso, o que mais te incomoda? O quanto já mentiram pra você na sua vida toda? O quanto ser enganado já tirou a sua fé? Por que é tão importante se manter forte, quando tudo o que você precisa é de um abraço e um pedaço de bolo? Quando você deita a noite e relaxa dos assuntos mundanos, o que sente? Que dor é essa que ainda persiste e parece nunca ter fim? Como foi sua infância?

Não sei. Talvez fosse legal a gente ter aulas de autoconhecimento na escola. Eu sempre quero entender porque cada um sente o que sente. Pessoas são mundos inteiros, cheias de possibilidades e de respostas e de perguntas. Seria muito bom aprender sobre todas essas coisas desde cedo. Aprender a olhar para quem somos de forma inteira, não enviesada. Olhar para dentro, não para os estereótipos. Aprender a lidar com o que não é belo, e apreciar o que é. Entender que há muita coisa dentro de mim e que, veja só que surpresa, deve ter muita coisa dentro do outro também. É muito mais produtivo lidar com os próprios fantasmas, ao invés de jogar no colo alheio. Muitas vezes, a gente consegue isso justamente se relacionando com outras pessoas. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Aprender a nomear também é importante. Quando a gente aprender a ser gentil com quem somos, e a ter coragem para nos olharmos, talvez a gente consiga ter uma escuta mais atenta pro outro também. Porque no fim das contas, em uma infinidade de vezes, nós vemos as coisas mais como nós somos do que como elas são. E isso muda tudo.

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Ela

Esses dias estive pensando na Agnes e o quanto ela representa nas nossas vidas, na minha vida.

Ela tem um entendimento das coisas, de pequenas coisas, que me faz acreditar em Deus com muita força. É muito forte o que eu sinto por ela, o que eu sinto com ela. Sabe uma sensação de pertencimento? Uma sensação de que estou em casa, de que estou segura, de que estou bem? Sou eu com ela.

Já aconteceu dela me ver chorar. E sabem o que ela fez? Me abraçou. A Agnes olhou bem nos meus olhos e me abraçou apertado, com aqueles bracinhos no meu pescoço, a sensação mais gostosa da minha vida. Eu esperei a vida inteira por esse abraço, e ele veio. Eu esperei a vida inteira por alguém que me olhasse com carinho quando eu não consigo dizer nada, só chorar, e então receber esse abraço, que é a verdadeira promessa de que tudo ficará bem daqui a pouco.

Durante um tempo eu pensei que não era bom assumir isso, nem pra mim mesma direito, que dirá escrever sobre o assunto. Tinha medo de ser uma projeção, de acabar esperando que ela se comportasse de uma determinada forma, que atingisse expectativas que não existem. Nunca quis esse peso para a minha filha, por isso nunca o dei, sou bem consciente nesse aspecto, penso muito a respeito. Acontece que não é uma projeção, percebi dia após dia na nossa convivência, é um sentimento. Um sentimento real, forte, que nos une desde antes dela vir morar na minha barriga.

Na primeira gestação, quando ainda discutíamos os possíveis nomes, um dia o Cleber chegou do trabalho falando em Agnes. Achei que não era um nome que combinasse com aquele bebê na minha barriga, mas não descartamos totalmente. A vida aconteceu e não era mesmo para ter sido. Assim que a Bolota se foi, achei que não conseguiria pensar em bebês tão cedo, já contei isso muitas vezes, aliás. Só que 1 mês depois da perda, logo no primeiro ciclo, eu já pensava que não devíamos evitar nada, porque eu sentia que tinha de ser daquele jeito. “Eu não quero planejar e tentar, mas também não quero fechar as portas”, foi o que disse. Eu simplesmente não conseguia me imaginar evitando uma gravidez naquele momento. E não evitamos. E ela veio. Com uma presença marcante desde o início. E agora, escrevendo esse texto e pensando em quando estava grávida, li essa carta que escrevi pra ela depois de um sonho lindo, e pude perceber o quanto todas aquelas palavras fizeram sentido e se encaixaram perfeitamente no que estava por vir. O parto foi transformador, daquelas experiências que nos dividem em antes e depois. Não foi rápido e fácil, foi como tinha de ser, para nós duas. E desde então, em cada vivência nossa, em cada passo que damos juntas nessa relação, eu sinto que fica mais forte, não sei como. Somos muito nossos – nós três aqui em casa.

Ela confia tanto em nós, é tão lindo de ver a sua entrega ao que dizemos e ao que fazemos com ela. Tenho repetido ultimamente que não quero perder isso. Quero estar atenta sempre, para que esse vínculo só nos leve além, nunca nos prenda, nem se desgaste. Sinto que ainda tem muita história para acontecer, muita vida para viver. Ela veio mesmo para mexer com a gente, nos pegar pela mão e sair andando por aí enquanto explora possibilidades e descobre novos caminhos e olhares. Que sorte a nossa. “Que bom que você veio, filha. Sou muito feliz com a sua presença. Obrigada por tudo.”

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Carta do dia: sobre sua irmã, você e os mistérios que cada uma carrega

Filha,
hoje a mamãe vai te contar duas histórias. Uma que já aconteceu e uma que está acontecendo. 

Antes de você vir morar aqui na minha barriga, outra pessoa veio. Era a sua irmã. Seu pai e eu tínhamos uma clara sensação de que era uma menina, e a ela daríamos o nome de Valentina. Era um nome lindo, forte e soava muito bem aos nossos ouvidos. Nós estávamos muito felizes e só esperando a data certa de saber se era mesmo ela quem estava aqui. Sua avó materna também amava o nome, disse até que ia sugerir esse, caso não tivéssemos falado antes.
Mas aí aconteceu uma coisa estranha. Não gostaram do nome que escolhemos. Em nossa empolgação inicial, não conseguíamos (eu) segurar a língua dentro da boca e falávamos até para quem não tinha perguntado que, se fosse menina, seria a Valentina. Era aí que acontecia: as pessoas ficavam meio estranhas quando ouviam esse nome, filha. Alguns detestaram, na verdade. Nos chamaram de corajosos (como se fosse ruim ser corajoso, veja só o mundo doido em que vivemos), loucos, e mais tanta coisa que nem vale a pena repetir aqui. A mamãe ficou muito nervosa quando isso aconteceu. Triste. Ao invés de ficarem felizes com a chegada dela, usavam suas energias para (tentarem, em vão) me fazer mudar de ideia. Para tentar me mostrar algo que não existia, que criaram em suas próprias cabeças. Declararam o fracasso dela na escola, de tanto que sofreria por carregar tal nome. Temiam que fosse uma menina “valentona”, “respondona”, “agressiva”. E a culpa seria nossa, minha e do seu pai, por termos escolhido esse nome pra ela.
Nós fomos irredutíveis, filha, não mudamos de ideia nem por um segundo sequer. Fiquei nervosa, fiquei chateada com a insistência das pessoas que me falaram isso, mas não mudamos. 
Primeiro, porque era esse o nome dela mesmo, a gente sabia. 
Segundo, porque – você vai ver – seu pai e eu temos uma forma só nossa de levar a vida, e não costumamos mudar de ideia por causa de terceiros. 
Terceiro, e muito importante: ser valente era também o que a gente desejava pra ela, assim como desejamos muito para você. Estou te contando essa história para registrar, filha: é preciso ser valente. Enfrentar as dificuldades, mesmo as que venham em forma de alguma rejeição dos mais próximos. Lutar para que nossos sonhos passem pro plano da realização. Assumir verdadeiramente suas escolhas, seus amores e seu caminho com consciência e peito aberto, mesmo que sejam coisas completamente fora dos padrões (ainda bem que existe o fora do padrão, você vai aprender isso mais adiante). Isso é para os valentes, meu bem. Ser valente é ser corajoso, acima de tudo. Sua irmã me ensinou um pouco sobre isso, e sinto que você vai me ensinar um tanto mais também. 

Sua irmã não veio. E sabe o que mais? Não chegamos a saber se era mesmo ela. Nunca saberemos, na verdade. Dia desses me dei conta que poderia muito bem ser um menino. Pode ter sido, pode não ter, simples assim. O mistério vai ficar no ar e na nossa história, e por mim tudo bem. Assim como permanece mistério a causa que a fez ir embora, como saiu tão rápido de mim sem ninguém ver, entre tantos outros.

Mistério. A vida da gente é cheia de mistérios, filha. Isso é uma das coisas mais lindas e incríveis que existe. A natureza é fascinante e carrega esses mistérios com todo cuidado que lhe cabe, para que assim permaneçam, a despeito de tudo que a mente humana seja capaz de produzir para tentar desvendá-los. Como parte da natureza que somos, também guardamos os nossos – e muitas vezes queremos trazê-los à luz da razão, mesmo que não seja esse o intuito da coisa toda: somos parte disso tudo, não uma peça a parte do quebra-cabeça. 

Com você não é diferente, filha. Você já tem seus próprios mistérios. Me traz experiências que ainda não tenho como explicar, e sentimentos igualmente singulares. Por exemplo, nunca tive pressentimento algum sobre o seu gênero. Não que seja uma coisa decisiva, mas como aconteceu da outra vez e como eu sou toda cheia de pressentimentos, me surpreendi quando me dei conta que dessa vez ele simplesmente não existia. Muitas pessoas disseram que era um menino, poucas que seria uma menina. Com 17 semanas e 3 dias, seu pai e eu entramos numa salinha escura e o médico nos disse que era uma menina que morava aqui na minha barriga: você, filha! Pouco tempo depois fiz outro exame, em outro laboratório, e a médica disse a mesma coisa: menina! Depois ainda teve o morfológico, que é um exame necessário mesmo, e na primeira imagem que surgiu na tela, a médica disse que era uma menina, sem que a gente precisasse perguntar nada. Três exames de imagem, feitos por médicos diferentes, em locais completamente diferentes. 
Mas não seria mistério se a história não continuasse. Existe, ainda, as pessoas que insinuam que essas imagens não condizem com a realidade, que você é um menino. Chegam até mim histórias de gente que pensava estar esperando um sexo, e veio outro. De gente que passou por isso, que é uma probabilidade real de acontecer. A primeira pessoa que me disse isso não é íntima da minha vida e falou de um jeito que eu não gostei, fiquei muito brava. Mas parece que tem mais gente jogando nesse time, então eu resolvi refletir: e se for mesmo um menino? E se não for, por que essas pessoas, que tem uma super sensibilidade a mais, disseram tal coisa? Se for um menino, vai ser completamente impressionante o fato de três exames modernos de imagem não terem visto o que era pra ver, considerando que não foram exames precoces. Vai ser uma história e tanto, fico até imaginando. Se realmente for menina, não sei o que essas tais pessoas me dirão. Por que sentiram ser menino? Qual a resposta dessa charada? Por que isso está acontecendo comigo?

Mistérios.

E sabe o que mais, filha? Por mais que as chances sejam de 50% para ambos os lados, quem carrega essa resposta e também o porquê desse mistério, é só você. O que eu sinto é que você traz consigo essa coisa só sua, de não entregar tudo assim de mão beijada, meio que não ligando muito para o que os outros esperam ou dizem, meio que brincando com isso, até porque não é tudo que podemos controlar, afinal de contas. Nem cientificamente, nem mediunicamente. Em julho – ou melhor, quando você quiser – saberemos parte da resposta com alguma certeza. Te chamamos de Agnes, de nossa pequena, nossa menina, pequena moça. Porque foi assim que você se mostrou até agora, então estou entendendo que é assim que você quer e que tem que ser. Se em algum momento daqui por diante, seja em um próximo exame, seja no seu nascimento, ou em qualquer momento da vida, você se mostrar uma pessoa do gênero masculino, por mim tudo certo – e pro seu pai também. 
É muito importante pra mim deixar isso claro e é esse o segundo e relevante motivo de registrar todas essas palavras: eu aceito os mistérios que cercam a minha vida, não luto contra. Tento aprender com cada um deles. E aceito os que você me traz também, sempre, porque vindo de você, não tem como não ser enriquecedor.

Enquanto o mundo corre lá fora, você tem o seu próprio ritmo aqui dentro, minha querida. Um ritmo que eu descubro um tantinho a cada dia, e que sempre me surpreende. E a forma como ele funciona é tão importante pra você, que está me mostrando desde já. Então não se apresse, não. As coisas são como devem ser, não precisamos complicar nada, muito menos lutar contra uma essência que é tão nossa. 

Você e a sua irmã são os meus mistérios particulares, que eu amo ter e que não param de me ensinar. A ser mais valente, a respeitar os tempos da vida, a aceitar o que não controlamos, a lidar com o que sempre tive dificuldade; e ainda entender que, sim, tudo bem as coisas estarem acontecendo desse jeitinho, algum motivo – ou mistério – sempre há de ter, e é muito bom (e dá um certo friozinho na barriga) fazer parte disso tudo. Obrigada, filha. Muito obrigada mesmo.


um beijinho e um chamego,
mamãe.

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A base que construiremos juntos

Escrevi um texto sobre algumas escolhas que fiz e os motivos que me levaram a não realizar um chá de bebê. Na verdade, aquele era um texto mais sobre o chá de bebê, sobre um recorte do meu mundo, sobre o fato de eu conhecer os meus convidados e, por isso, optar por não fazer essa festinha, e menos – bem menos – sobre o meu poder de decisão de certas coisas na maternidade.
Simplesmente porque não podemos prever tudo. Ou quase nada.

Eu quero muito amamentar. Acho importantíssimo, em vários aspectos, e quero que faça parte da minha nova rotina logo após o nascimento da pequena. Quero me dedicar, me esforçar e me entregar, pois sei que não é fácil no começo. Por esse motivo, não quero estar aberta a ter estoques de substitutos ao meu seio na minha casa, desde já. Pode acontecer alguma coisa séria – fisiológica ou psicológica – que mude meus planos e me faça recorrer às fórmulas? Com certeza pode. Pode acontecer de um tudo. (Claro que vou chorar ou ficar chateada por precisar recorrer a algo que eu não queria, mas saberei que fiz e fui até onde pude). Diante disso, e depois de orientação dos profissionais competentes, faço as compras necessárias e adapto meus planos à nova realidade. Mas agora, não. Agora eu estou lendo muito, tanto a teoria quanto os mais diferentes relatos, exatamente pra ver que em cada casa – ou melhor, com cada filho – é diferente, e (tentar) preparar minha mente pra isso. Agora eu estou indo atrás de informações de onde tem bancos de leite próximos a mim e também pessoas capacitadas para me orientar diante de alguma dificuldade. E muito em breve passarei pro papel uma lista com alguns telefones, ou e-mails, de pessoas que sei que me darão real apoio (e não pitacos), que são a favor da amamentação e que me darão forças para seguir em frente. Agora estou me preparando ao máximo para bancar a minha escolha.

E esse foi só um exemplo. O mesmo pode-se aplicar para o não uso do berço, para as fraldas de pano e assim por diante. São escolhas iniciais, que eu fiz porque tenho valores semelhantes aos propostos, que tomei depois de um certo tempo pesquisando, pensando e conversando, e também por achar que vai facilitar meu dia-dia como mãe, por que não? 😉
Mas tudo isso ainda está no plano das ideias, eu só vou saber o que acontecerá de verdade em julho (ou agosto) e nos meses seguintes, depois que a Agnes nascer e eu ver como vai ficar a nossa rotina juntas. São apenas um norte, para que eu não me sinta perdida – e porque algumas decisões práticas, como o caso das fraldas, tem que ser resolvidas (compradas) desde já.
(obs: isso também não quer dizer que mudarei de ideia e de prática a cada manhã, vamos com calma. É só que eu entendo que existem surpresas no caminho, coisas que não esperávamos (não falo de algo específico, realmente não sei a que me refiro; é isso que caracteriza a surpresa), e que podem mudar um pouquinho os passos da dança).

Eu não sei como será minha vida depois que ela chegar. Nunca fui mãe, estou diante do desconhecido mesmo. Por mais que eu tenha alguma experiência prática com bebês, sei que é muito mais. Pressinto que vai me transformar numa pessoa nova – é o que dizem por aí. Imagino que não será muito fácil, mas que será absolutamente importante para todos nós; que será lindo, claro, dentre outras tantas coisas que ainda não parei pra pensar.

Estou muito aberta a aprender com tudo que vier. Viver a maternagem integralmente é uma espécie de sonho de consumo que estou realizando. Viver a maternagem integralmente, e não projetar um tipo desenhado de sucesso em cima dos pequeninos ombros da minha filha, que fique claro – disso eu quero passar longe.
Na minha visão é um ato valiosíssimo: gerar, gestar, parir, alimentar, amar, ensinar valores, cuidar, acalentar, mostrar limites, apresentar o mundo… aprender ou reaprender a voltar o nosso olhar para o belo, enxergar o mundo de uma maneira diferente, perceber novas nuances e emoções também está no pacote, porque toda relação é via de mão dupla e esses pequenos tem um tipo de saber que é só deles. E estou aqui, inteira, para viver cada um desses dias.

Hoje o Pedro Fonseca escreveu uma carta pro seu filho, sempre linda, que me fez pensar. Nisso e em outras coisas também.

Eu estou seguindo o meu coração e completamente ciente de que essa pessoa que hoje depende de mim para crescer e sobreviver, daqui a pouco vai estar aqui no mundão, no meu colo e segurando minha mão, até que possa dar seus próprios passos e trilhar seu próprio caminho. Um de cada vez, que é pra gente ir se acostumando. Uma conquista e uma escolha por vez, porque nada é pra já. Até lá, me esforçarei ao máximo para preservar sua essência e respeitar suas particularidades, fazendo as melhores escolhas que eu puder fazer por nós, mantendo o que nos é fundamental, como família e como pessoas, porque uma boa base é essencial para se construir o que quer que queiramos construir.
Então saiba, filha, que construiremos juntos a sua base. O caminho trilhado a partir daí será seu. Só seu.

Uma pessoa completamente nova – e paradoxalmente já pronta – entrará na minha vida em breve.
Para que eu possa cuidar e também para me ensinar. Para que eu possa levar, mas pronta para me mostrar a melhor direção.
Para fazer parte do meu caminho, para construir e trilhar o dela. Do jeito que melhor lhe parecer.
Não tem como não ser especial.
Não tem como ser muito planejado. Amém.

Mais uma vez, Steve Hanks ilustrando minhas palavras, só porque eu acho uma lindeza só.

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a divagação que levou à decisão

Já faz uns dias que ando pensando numa coisa. Pensando não, me incomodando. Mas eu não sabia que era um incômodo propriamente dito, só percebi, como sempre, depois de uma conversa com marido.
O fato é que eu já consigo me imaginar grávida novamente. Até aí, ótimo, tudo lindo, divino e maravilhoso. Todos se abraçam felizes, por eu já ter superado o medo, festejam e fazem um brinde. Mas, de repente, todos os olhares se voltam para mim e surge aquela perguntinha básica: quando voltarão a tentar? É uma pergunta natural, eu sei. E acredite, eu também me fazia a mesma indagação, sempre que me via desejando um bebê logo. Mas antes de eu começar minhas divagações filosóficas (cof, cof), vamos recapitular algumas coisas.
Há algumas semanas atrás, quando eu ainda estava no meu processo de recolhimento, chegamos – marido e eu – ao consenso de que seria melhor esperar uns meses para começar a tentar de novo. Porque eu não conseguia muito pensar no assunto, porque estava (está) muito recente, porque foi tudo muito intenso, porque eu não queria transferir os sentimentos, medos e possíveis angústias da última gestação para a próxima, queria elaborar tudo o que eu pudesse antes de decidir partir pra próxima. Como bem disse o Cleber “precisamos fechar esse ciclo”.
E também tem uma questão prática: eu fiz um plano de saúde pra mim depois do que ocorreu. Eu não tinha um e nem pretendia ter, porque eu sou rebelde não vou fazer pré-natal e nem parto com ele, mas depois do susto que levei, com a possibilidade de ter que ficar internada batendo na porta, senti falta dessa segurança. Se eu tivesse tido que ficar internada, não sei como seria; provavelmente eu faria de tudo pra ficar no hospital que a minha GO atende, pela segurança que ela me passa e tal, mas é mega caro e seria um sacrifício enorme pro nosso bolso. Então, pensando mesmo nessa parte, logo em seguida fizemos um plano de saúde que cobre esse hospital e me dá algum reembolso das consultas particulares e também da equipe médica do parto. Pois bem, convênio novo significa carências. 300 dias para partos a termo, ou seja: não era uma boa ideia começar as tentativas já, levando em consideração que uma gestação tem, em média, 280 dias (sim, os convênios são filhosdaputa e te ferram por míseros 20 dias, mas esse é outro papo, pra outro dia).
Com esse detalhe prático e o pensamento de que era bom nos darmos esse tempo tanto para elaborar o que ficou, quanto para fazer outras coisas só pra nós dois, ficou meio acertado que voltaríamos à ativa em dezembro. E se déssemos sorte de ser de primeira, como foi em abril, o bebê ainda podia nascer em setembro, que é o nosso mês, ai que lindo!
Fim da recapitulação, chegamos ao tempo presente.
Aos pouquinhos, o céu foi ficando mais limpo e mais azul, fui me sentindo mais leve e a vontade, que antes era quase zero, começou a aparecer para me fazer companhia nas tardes de fim de inverno. Ela chegava e ficava, cada dia um pouquinho mais. Senti vontade de antecipar a data. Ainda pensava que não era agora, mas também não era dezembro. “Amor, e se a gente voltar a tentar em outubro?”. Vezes ele concordava, vezes ele achava que dezembro ainda era uma boa pedida. Comecei a achar dezembro longe, por outro lado tinha consciência de que talvez ele estivesse precisando de mais um tempinho. Eu não queria passar por cima dos sentimentos dele. 
Os dias foram passando e eu sentindo tudo que me acontecia. Porque eu sou uma pessoa chegada nas sensações, já repararam, né? Sou meio espiritualizada mesmo – é assim que funciona pra mim, é assim pela minha história de vida e, muito provavelmente, pela minha essência. Pois bem. Eu senti e pressenti muita coisa nas últimas semanas, só que agora não é hora de falar sobre isso, preciso de mais um tempo. 
Mas se tem uma coisa que eu sinto é que haverá, sim, uma próxima vez, e que não está muito longe, não. Sinto uma alegriazinha de expectativa quando penso nisso. E sinto que o bebê 2 é bem diferente da bolota. Mas mesmo sentindo essas coisas, e essa expectativa, e essa vontade, alguma coisa me incomodava. “Quando voltaremos a tentar?”. A frase ecoava com alguma insistência na minha cabeça. 
Sábado eu e marido conversamos bastante, sobre um monte de coisas, e inevitavelmente chegamos no tópico mês de retorno das tentativas. Eu não me sentia bem falando nenhuma data, tava ficando estranho. 
“Qual mês seria melhor?”. Era isso que me incomodava – não a vontade de começar logo, e sim ter que decidir um mês ideal para isso. E não que eu tivesse ou quisesse decidir e bater o martelo de forma definitiva, tudo pode mudar a qualquer momento, eu sou a mestra em mudar os planos, mas o incômodo existia e eu não sabia o porquê. Eu não estava me sentindo bem com esses pensamentos.
Depois de um tempo, nós já calados, as peças foram se encaixando. E o insight maior foi: eu não quero começar a tentar.

Todas as vezes em que eu pensava em qual mês seria, ou não, bom para um possível começo, eu estava pensando somente na minha vida. Qual mês eu teria menos dívidas, qual mês eu teria mais chances do bebê nascer na data tal, depois de qual mês eu já teria feito isso ou aquilo. Eu, eu, eu. E o bebê? Eu pensei nele em algum momento? Não diretamente, mas esse incômodo me fazia lembrar que a equação não era tão simples assim. Eu sou uma pessoa de muita fé, então penso sempre por esse lado. E, sim, eu pensei: e se eu voltar a tentar em outubro, mas por ansiedade? E se fosse pra ser só em dezembro? Não que o positivo seja garantido de primeira, me referia às tentativas em si, e não ao resultado. E se esse bebê quiser chegar só daqui um ano? E se ele quiser chegar exatamente agora? Por que estou pensando nas minhas variáveis e não estou levando em consideração que não estou sozinha nessa? 
Talvez já seja a minha relação com esse serzinho que eu não faço a mínima ideia de quando pintará por aqui, mas sei que certamente virá. É respeito pelo seu tempo, mesmo que agora ele seja somente um desejo. 
Talvez seja uma parte nova da passagem de bolota na minha vida se revelando. Depois dela eu fiquei mais leve, mais ligada a detalhes que eu nem sabia que existiam antes. 
Eu não estava me sentindo nada bem em marcar um dia para dizer “pronto, a partir de hoje você pode chegar”. Não é justo. Não me sinto apta para determinar um dia, um mês, um momento para que a porta seja aberta. Não é assim que vai funcionar. É uma relação, via de mão dupla.
Consegui elaborar tudo isso depois de uns minutos calada, e foi um pouco difícil até pra falar, mas marido entendeu o que eu estava querendo dizer, me ajudou a verbalizar alguns pontos e chegamos, finalmente, num consenso. 
E então é isso. Eu já me imagino grávida novamente, mas não vou determinar nada, pelo menos até segunda ordem. Não sei se me fiz entender, se consegui passar a complexidade do que senti, mas não me prolongarei mais, porque vai ficar repetitivo. Eu sinto que dessa vez tem que ser  suave, o momento pede por isso. Não haverá tentativas, por isso não haverá posts especificamente sobre os meus ciclos. A engrenagem da vida tá rodando, naturalmente, e no momento exato – nem um minuto a mais, nem a menos – vai acontecer. Eu não faço ideia de quando vai ser. Mas é mesmo para ser assim.
Arquivo pessoal

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De repente…

E então você vive o luto e, aos poucos, a nuvem densa que pairava sobre a sua cabeça vai se dissipando.
Setembro chega e, com ele, você começa a viver dias mais felizes. Mais leves. Com mais sorrisos. Presença dos seus amigos. Piquenique. Cafés e sorvetes. Cinema. Namorando muito. Escrevendo alguns rascunhos. Saindo mais de casa. Até comprou umas roupas novas, coisa que não fazia há tempos. Até resolveu ficar por uns tempos sem comer carne, e está se sentindo muito mais leve assim. Feliz. 
Você começa a perceber que alguma coisa mudou em você. Se antes – antes mesmo, desde o ano passado – você preferia ficar em casa, numa imersão total, agora parece que aquele ciclo finalmente está se encerrando. Naturalmente, a vontade de sair, de viver novas coisas, chegou. E é isso que você tem procurado fazer, dia após dia. E mesmo quando fica em casa, está diferente. A energia mudou. Novos planos. Novas atitudes. Mais contato com a natureza. Viagem programada para breve. Pensando em detalhes das festas de fim de ano. Interagindo muito mais com aqueles que lhe fazem bem. Inventando um projeto novo. Muita coisa. Ao mesmo tempo. Apesar de agitada e em constante movimento, sua cabeça está leve.
Você ainda está se acostumando a esse ritmo novo, que chegou meio sem avisar. Percebe que é preciso – que você realmente quer – fazer certas coisas antes da próxima gestação. Já está fazendo, aliás. É tempo de ação, não mais de recolhimento. Você desenha uma nova rotina, com alguma flexibilidade. Finalmente, vislumbra algo que parece um caminho. Ou ao menos um atalho. Sensação de estar adentrando um novo terreno, em que a terra lhe parece muito favorável ao que você quer plantar. 
E então resolveu, junto com seu marido, que as tentativas só começariam em alguns meses…
Aí, numa segunda-feira, você acorda e, entre uma tarefa e outra, sente uma vontade absurda de ter um filho. Dentro de você. Fora de você. Consigo. Já. É  uma vontade tão real que é quase palpável. A pauta do texto que você começou a escrever horas antes fica sem sentido e você mal sabe o que fazer com esse sentimento. E resolve, então, escrever um outro texto.
E de repente, não mais que de repente, você se dá conta. 
Não importa o quanto você tenha mudado e quais são seus planos e ações. A sua essência sempre vai te lembrar os motivos que fazem seu coração bater mais forte e querer ir além. A maternidade é uma caixinha de surpresas, linda e intensa, e um filho nunca segue o que você determina como ideal. E, sim, eles te mostram isso a partir do momento em que se tornam desejados. 
Que bom que você está agora num caminho novo, com a cabeça mais leve e o coração mais tranquilo. Terra nova, e fértil, será mesmo necessária pra tanta novidade que está por vir. Quanto aos planos… ah, você já está acostumada a mudá-los a todo momento mesmo. Não vai ser novidade se fizerem isso dessa vez.
Arquivo pessoal. Foto de Lilian Higa, minha amiga e fotógrafa incrível

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A presença que eu sinto

Tenho me sentido muito próxima à Bolota. Mais do que nunca, eu acho.
É que eu ando sentindo muita coisa. Eu já sinto há muito tempo, na verdade, mas agora tá diferente. Passei a vida toda querendo decifrar umas coisas minhas, que me aconteceram bem lá atrás e que determinam muito quem eu sou hoje, de uma forma muito forte. Sempre tentei, mas nunca conseguia chegar aonde eu sabia que estava a resposta. Era como andar constantemente, mudar as rotas, refazer caminhos, quase chegar. Mas em algum momento eu me cansava ou me distraía, e parava. Depois tinha que recomeçar, e assim por diante. Até que eu engravidei. Foi como se, junto com o bebê, eu ganhasse uma percepção nova sobre coisas antigas. Eu sabia que mudaria, só não sabia que seria tanto, nem tão rápido.
Estou indo fundo em mim.
Eu achava que já estava começando esse caminho quando iniciei minhas leituras sobre maternidade ativa – e realmente estava, não posso negar -, mas só agora estou conseguindo acessar os lugares que eu não conseguia chegar antes. E eu preciso falar: tá sendo foda (não achei uma palavra equivalente, desculpem). Tanto no sentido de muito bom, quanto no sentido de muito difícil. Eu estou diante de uma porta e preciso abri-la. Estou tentando, mas ainda não consegui. Acho que sei como fazer, mas já entendi que algumas vezes é preciso mais do que saber o que fazer. Mas vou conseguir, e depois conto como foi.

O fato é que, se eu estou indo fundo em mim, no caminho eu cruzo sempre com a minha Bolotita. Neste momento, ela faz parte de um processo muito importante na minha vida. Não que eu esteja depositando num mini bebê a responsabilidade ou uma carga que ele não é capaz de carregar. Nada disso. É da certeza de um amor que eu estou falando. Se ela está em mim, literalmente, não tem como eu me conectar comigo e não me conectar com ela também. É inevitável.

E aí são duas coisas diferentes, mas igualmente intensas. Eu me descubro cada dia um pouquinho mais, e a sinto cada dia mais, também.
Temos tido momentos só nossos. Seja no banho, quando conversamos muito; ou quando coloco uma (sempre mais de uma, na verdade) música especialmente pra nós. Aliás, isso tem se tornado uma rotina muito agradável.
Sempre a incluo no que estou fazendo. Quando acordo mais cedo, com fome, viro pro marido e falo “amor, vamos levantar, a Bolota tá com fome”. Ou ao contrário, se quero dormir mais, digo que ela ainda não acordou. Reparei que não como mais chocolate nem muito doce como antes, acho o gosto mais doce do que eu posso suportar, e gosto de dizer que parece que a Bolota está puxando o pai, que não come chocolate quase nunca. Entre outras tantas coisas que gosto de inclui-la. É muito espontâneo, e tem sido bem divertido também.
E uma coisa muito louca no meio disso tudo que anda acontecendo: eu a sinto mesmo, aqui comigo. De uma forma bem mais ampla do que só sentir que tem alguém dentro da minha barriga. Acho que vocês entendem. Tenho sempre a sensação de tê-la no meu colo, ou perto de mim. Sempre. Já me peguei pensando – e acho que pra vocês posso dizer que até vejo a cena – várias vezes no pequeno bebê que estará aqui do lado de fora, em breve. Eu fecho os olhos e vejo. Uma pessoinha tão pequena a princípio, mas que eu respeito tanto, quero tanto, amo tanto. E aí é que eu chego a sentir o peso do seu corpinho no meu colo, de verdade. É tão real que até me arrepio quando penso nisso. Uma intensidade que eu ainda não havia experimentado. E como mãe é bicho bobo que só, sempre me emociono muito também. Várias vezes isso acontece, e em todas eu me surpreendo com a força desse sentimento. E sempre preciso agradecer a Deus por me permitir sentir tanto.

É… eu disse que estava indo fundo.
E daqui a pouco mudo o nome do blog pra “Travessia Materna”, porque é a palavra que chega mais perto do que ando vivendo.

Eu tô indo…
Foto: Arquivo pessoal
clicada pelo meu marido, em janeiro, lá em Aracaju.

ps: esse post faz parte da minha tentativa de abrir a porta que está prostrada na minha frente. 
Talvez surjam mais posts assim, ainda não sei. Só o que sei é que eu preciso escrever – e está sendo aqui porque me sinto muito à vontade com vocês. 

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Meu novo olhar

Imagem daqui



Uma vez por semana recebo um e-mail com uns dizeres mais ou menos assim: “O rosto do bebê está mudando. Os olhos, que antes ficavam nas laterais da cabeça, estão mais juntos um do outro, e as orelhas estão praticamente na posição definitiva. Nesta fase, os tecidos e os órgãos que já se formaram crescem e amadurecem rápido.”. Daí também chega um outro e-mail, com algumas informações a mais: “O comprimento do feto neste período é de aproximadamente 61mm e seu peso estará em torno de 13g. A face do bebê já tem aspecto humano. Os dedos das mãos e dos pés estão separados e as unhas continuam crescendo.” 

É claro que eu acho incrível, sensacional e lindo demais da conta saber (aproximadamente) o que acontece com o bebê em cada semana de sua pequena vidinha. E é fácil achar tudo isso, porque já temos uma ideia pré-pronta na mente de como será essa pessoa quando sair da barriga: oras, todo mundo sabe como é um bebê! Mas na realidade, é tudo muito abstrato. Não são todos esses detalhes que vemos claramente no ultrassom. Essas palavras são teoria. 
Quando recebo esses e-mails eu penso: como pode caber tanta coisa num espaço tão pequeno? Pensar que, num tamanho mais ou menos equivalente ao meu polegar cabem cérebro, olhos, boca, coração, fígado, unhas, dedos, braços, pernas, etc. Um organismo (quase) completo. Não pronto, óbvio. Mas existe! Penso em mim, no meu tamanho e em tudo que tem dentro da minha pele: quase tudo isso também cabe dentro de 6 centímetros (!!) 

E antes que me perguntem que droga é essa que eu tô usando, me deixando numa vibe toda doida, falando de uma coisa tão normal, explico. É que agora eu enxergo tudo de um jeito diferente. Aconteceu mais ou menos assim…
Entramos, marido e eu, naquela sala pequena e com uma meia-luz. A médica indicou onde ele deveria sentar e pediu que eu me deitasse. Colocou um gel gelado na minha barriga e começou a mexer aquele aparelho em mim. Apertou um pouco e… lá estava: o nosso bebê. Uma imagem em preto e branco, como uma tevê antiga e mal sintonizada. Para mim, nem a água nascendo na fonte era mais clara. Qualquer medo que, porventura, estivesse sentindo de algo ter dado errado, foi-se embora sem que eu nem percebesse, pois estava ocupada demais admirando, por uma tela, o que acontecia naquele exato instante dentro de mim.
Acostumada a ver nas telas somente o que vem de fora (ou do passado, se for uma foto), não contive a surpresa ao constatar que sim, aquela era uma imagem vinda de dentro. De dentro de mim. Em tempo real. Aquele bebezinho estava mesmo, todo esse tempo e ainda por mais algum, aqui comigo, em mim. Surreal.
Me transportei lá pra dentro e vi perfeitamente: uma pessoa crescendo no meu útero. Literalmente.
Conseguem entender a grandiosidade da coisa?
Foi mais que aquela sensação de ficha caindo. Foi uma mudança completa de perspectiva. E acho que me permitir enxergar tudo com os olhos da criança que ainda mora em mim, como se visse o mundo, maravilhada, pela primeira vez, deixa tudo ainda mais lindo.

Porque uma coisa é a teoria, um número ou uma afirmação; outra, bem diferente, é pensar literalmente no que aquilo representa. A maioria das pessoas não tem o hábito de trazer para si o que aprendem de mais abstrato, por mais que esteja acontecendo exatamente aquilo conosco, o tempo todo. Comigo isso mudou um pouquinho na faculdade, quando eu tive a oportunidade de ver no laboratório muitos dos nossos órgãos e ossos. Ali eu percebi a lacuna entre a teoria e a realidade e pensei: ainda bem que não somos transparentes putz!, é coisa pra dedéu! Nenhum livro dá conta de explicar com exatidão isso, não; nesses casos, a experiência de visualizar nos traz um novo entendimento.
Dá pra entender mais ou menos o meu raciocínio? Claro que a racionalidade não te deixa perceber essa lacuna, mas parando pra pensar melhor, é mais ou menos isso que acontece, sim. E é claro que eu já sabia de um monte dessas coisas que os e-mails dizem, que óbvio que o bebê está crescendo dentro da barriga, mas o fato é que agora eu sou parte integrante e fundamental do processo. E ver tudo isso como protagonista, e não como espectadora, muda tudo. Muito.

Quando marido e eu saímos na rua, com as imagens em mãos, ainda estávamos maravilhados pelo que vimos juntos naquela sala escura. E foi aí que eu disse: você não acha incrível que tudo isso (mostrando a extensão do nosso corpo) também cabe num serzinho tão pequenininho assim (mostrando o indicador e o polegar bem pertinho)? E ele ficou em silêncio pensando um pouco e consentiu, meio embasbacado: sim, é incrível!

E eu vou falar: todo esse acontecimento, chamado fabricação intensa de vida, mais conhecido como gestação, ganhou um novo sentido pra mim, muito mais amplo, muito mais profundo. É como uma nova consciência, eu diria. Complexa e apaixonante.
Não sei se me fiz entender como gostaria, mas vou afirmar de novo: essa é a coisa mais fascinante do mundo todinho. Um outro corpo, um outro organismo, completo, independente do meu (mas ainda dependente de mim) crescendo à todo vapor, bem aqui. Tão perto que nem posso mensurar. Está em mim, mas não sou eu.

Acho mais fácil pensar e visualizar isso no fim da gravidez, quando a pessoinha já é um bebê de fato, já tem o jeitinho e a carinha que vai dar oi pro mundão. Mas pensar nisso desde agora, onde tudo se transforma e evolui numa velocidade absurda, é realmente incrível. Tem sido incrível.
Desde o momento da fecundação coisas incríveis acontecem, sem uma pausa de um milésimo de segundo sequer. Em silêncio, duas vidas formam um outro ser. Um corpo passa a ser casa de outro.
Dois corpos ocupando o mesmo lugar no espaço  #chupanewton.

Isso me faz pensar no poder do corpo feminino. No quanto somos capazes de fazer, sem nem ao menos percebermos. E no quanto temos que acreditar mais em nós mesmas, sempre. Confiar na nossa capacidade, que é inata.
Porque a natureza é de uma beleza perfeita e muito sábia.
Existem mistérios que nunca serão revelados. E saber que, mais do que nunca, eu faço parte disso, me traz uma espécie de empoderamento novo.  
Me faz pensar que a gestação nos faz perceber o mundo de uma forma completamente nova, limpa, sem amarras, e que muita gente não entende, não vê sentido.
Mas não é mesmo pra fazer sentido. É apenas para sentir.

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