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não precisa esperar nascer

No fim do dia
sinto o bebê mexendo
dentro do meu ventre
pela primeira vez por vários minutos
vezes seguidas
sinto
leves movimentos
a vida brincando dentro de mim
crescendo
reconhecendo espaços
mandando sinais
me fazendo lembrar do agora
do que importa ser
cultivado
nutrido
cuidado
e então eu paro
celebro
sorrio e consinto
a força é tão grande
potente
que a gente sente
mesmo antes de ver

e hoje
no limiar
entre o fim da tarde e o princípio do luar
lá estava a vida
ativa
a avisar
que já existe agora
e que não é preciso esperar nascer
para sentir
nascer
para dizer
nascer
para viver
abrir caminhos por dentro não só é possível
é o princípio
da vida
do sim
e da revolução de ser.

Marina Matos
em 11 de outubro de 2018.

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Arquivado em amor, autoconhecimento, coisa linda, insight, leveza, nova gestação, presença, sentimento

carta do dia: a natureza é mãe

Filha, tô te escrevendo porque eu também não quero esquecer.

Foi hoje cedo.

Depois de um tempo chorando – cansaço, sono, vontades, sentimentos – você no meu colo. nós duas juntas pra tentar acalmar os ânimos, lembrei de uma coisa e te falei:

-filha, você consegue, meu amor. isso não é seu. deixa ir. solta. deixa o vento levar isso embora, pra longe, pra libertar. a natureza sempre ajuda a gente, meu amor. é só você lembrar. o vento vai levar embora esse choro, deixa ele ir, tá?

-é, mamãe?

-sim, meu bem.

-tá bom!

e acabou o choro.

a natureza é mãe, filha. ela vai sempre dar colo e nos ajudar quando a gente pedir.

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Arquivado em Agnes, carta, como lidar?, insight, sentimento

De quando eu me vi nela

Ela pedia pra mamar, mas eu não queria naquele momento.
Na verdade, estava pedindo muito, toda hora. Mamou muito durante a noite (mas também deve ser pelo calor que fez, eu sei).
O fato é que estávamos em momentos diferentes ali naquela tarde.
Ela queria. Pedia. Chorava. Ôta mamá! Ôta mamá! É como ela fala.
Eu queria um tempo pra mim, um tempo sem ninguém me tocando. Eu precisava de espaço.
Falei que não podia atender àquele seu desejo, mas que podia ficar junto, acolher de outras formas.
Ela se distraia um pouquinho, mas logo voltava.
Nem as brincadeiras com o pai deram jeito. Nem o almoço.
E então, depois de um tempo, aquela angústia aqui dentro, tantas dúvidas, tanta neblina, eu percebi.
Ela também estava sentindo.
Toda vez que eu preciso de espaço por não estar bem, ela cola em mim. Parece que tem uma anteninha que detecta meus medos. Deve ter mesmo, não duvido, não.
E aquela minha vontade de dizer não aos seus pedidos, será que era só isso mesmo? Ou eu também queria validar um desejo meu? Ou eu também precisava dessa autoafirmação, de que eu tenho vontades, tenho direitos, tenho meus tempos. E que exijo respeito. E colo, se possível for.
E quando eu me enxerguei fazendo isso, não foi somente a minha filha que eu vi aqui puxando minha blusa pedindo pra mamar. Foi um reflexo.
Eu me vi.
Estávamos fazendo a mesma coisa, ao mesmo tempo.
Duas pessoas precisando de atenção e colo. Duas pessoas que queriam ser validadas, amparadas, aceitas como são e com o que precisam.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Atendi seu pedido.
Não precisa ser uma guerra, afinal. Isso aqui não é disputa de quem pode mais ou manda mais.
Relação a gente constroi todo dia, nas pequenas escolhas.
E que bom que a gente pode escolher de novo, quando percebe que aquela outra não está mais cabendo.
Que bom que ela é tão generosa e paciente com os nossos  processos diários.
Que eu também não desista de mim.

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Pra gente se desprender

Eu preciso escrever um post sobre o livro O Poder do Discurso Materno, da Laura Gutman, me lembrem. Mas antes vou falar de outra coisa. Que é pra deixar registrado e seguir adiante, do jeito que tem que ser.

Logo que eu me descobri grávida, senti muita vontade de não contar pra ninguém, como disse aqui. Não era exatamente um casulo, vontade de ficar isolada. Só de me manter em silêncio sobre isso, guardar esse segredo pra mim. Como se eu sentisse que o bebê precisasse desse tempo sem muitas energias voltadas pra ele. Mas, aos poucos, comecei a perceber que eu também estava com medo (o que não anula o outro sentimento que acabei de comentar, eles coexistiam, apenas). Medo de dar errado. Medo de me jogar e quebrar a cabeça no asfalto. Medo de me entregar. Eu estava curtindo os sintomas e as mudanças todas, mas ainda não era uma coisa total, confesso. Os enjoos iam se intensificando – porque sim, muitas vezes o enjoo tem fundo emocional. Foi o jeito do meu corpo me dizer que estava sendo diferente dessa vez (pelo menos agora no começo, eu ainda não ouso dizer que vai ser tudo lindo), que estava tudo bem lá dentro. Coincidentemente, depois da minha consulta com a Cátia, os enjoos diminuíram 90%, acho que agora é só sintoma normal mesmo, rs.

Mas enfim. Como comentei no post sobre as primeiras semanas, estava meio chorona. Daí comecei a achar que tanto choro só podia ser por isso também, mais uma face do medo. Nem era tanto, eu realmente estou mais sensível, mas normal, eu choro fácil mesmo. Mas enfim, coloquei na cabeça que estava demais, me incomodei. Como eu sempre disse: não queria transferir para esta gestação os receios da outra.

Certo dia, no banho, minha ficha caiu. Eu ainda pensava constantemente na bolota. (Aliás, lembram desse post? Eu já sabia que estava grávida nesse dia). Eu ainda me prendia a ela. E sabe o que eu fiz? Comecei a conversar com ela (acho que nunca contei aqui com todas as letras, mas apesar de não termos ficado sabendo o sexo do bebê, tínhamos uma clara sensação de ser uma menina). Falei que a amo muito, e sempre vai ser assim. Que o lugar que ela ocupa em mim, aqui dentro do peito, não vai ser de mais ninguém, é um quarto na casa só dela. Que eu estava com um pouquinho de medo, mas que eu precisava me libertar para viver essa nova etapa da minha vida – e ela a dela, seja lá onde estiver. Que ela podia ir, porque eu também estava indo. Era a hora. E que não ficasse com medo também, pois daria tudo certo. Seremos sempre uma da outra, mas agora de uma forma diferente, como diz a música num outro nível de vínculo. E tudo bem ser diferente. Que tinha uma outra vida dentro de mim, e que eu amo as duas, mas que eu precisava me dedicar um pouquinho à essa, agora. Essa vida que está crescendo aqui, irmx dela, precisa do meu amor tanto quanto ela precisou, até falei que não precisava de ciúmes, rs – e é bem estranho, mas eu sinto que são pessoas completamente diferentes, ou seja, são amores diferentes, exclusivos.
Conversei, expliquei, chorei. E aos poucos foi mesmo passando. Como se eu tivesse nos libertado do que quer que estivesse nos prendendo uma à outra. Ficou o amor, mas se foi uma espécie de peso que ainda existia.

E aí segui em frente. Acho que já faz uns 15 ou 20 dias, mais ou menos.
Ainda um dia de cada vez, mas realmente o que eu sentia antes, no comecinho, não sinto mais.

E ontem, escutando o novo disco do Jeneci, prestei atenção na letra de uma música. Eu estava pensando em outra coisa, então a princípio nem me liguei com nada. Mas a música me pegou, a melodia é divina. Ouvi de novo. E comecei a chorar. É muito o que aconteceu e que eu acabei de contar aqui. Então resolvi escrever esse post, pra registrar tudo, deixar a letra e a música pra vocês também e dizer, de novo, que a gente se desprendeu (Pra gente se desprender, é o nome da música). Acho que foi quando eu percebi que realmente tinha acontecido. Já ouvi a música de novo, mas não me fez mal, foi só um insight daquele momento. Quem tiver um tempinho, ouça a linda voz da Laura Lavieri cantando, faz diferença. Mas vou deixar a letra também.

Eu sinto o tempo pairando em outro tempo
Correndo bem lento nas asas de um beija-flor
Que espera a flor acordar enquanto o dia não vem
Geleiras vão desabar mudando a cor do mar
Imenso que leva abraços e esperas
Minutos são eras a cada passo pro fim
Se o universo girar pra gente se desprender
Te encontro em outro lugar em paz
Ou não ou nunca mais

Agora é hora da gente se esquecer
Que o tempo e o vento não vão parar de bater
E a cada ponto final a história vai repetir
A gente é mais que um plural e a vida é muito mais
Que a gente espera temendo a toda queda
Deixa a geleira cair e o beija-flor descansar
Um novo agora virá
Escute o som do mar

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Arquivado em acontece comigo, assunto delicado, bolota, conflito, insight, instinto, medo, mudanças, o fim, sentimento, silêncio, um dia de cada vez

Talvez, talvez…

Atenção: post altamente abstrato. Estou tentando organizar as ideias e acho que não tem coisa com coisa, mas tô postando assim mesmo, rs. Agradeço a compreensão de todxs. 

Eu acho que sempre fui uma pessoa que confia. Confio nas pessoas, confio em Deus, confio em mim. Quer dizer, essa confiança toda foi e está sendo construída ao longo dessa minha estrada, mas de uma forma geral podemos dizer que sou confiante.

História para ilustrar: 
Em 2010, fomos todos (família unida, lembram? rs) ao shopping e meu pai aproveitou para comprar umas roupas, pois estava precisando. Ele é a pessoa que mais economiza, sempre quer tudo o mais barato possível. Nesse dia, ele se permitiu entrar numa loja em que nunca tinha comprado nada e gastar umas centenas de dinheiros. Estava clima pré-copa do mundo e o shopping, juntamente com o cartão Visa (isso não é um publipost, hahaha), fizeram uma promoção: a cada tantos reais em compras, você ganhava um cupom para concorrer a uma viagem à África do Sul para assistir um jogo do Brasil, com acompanhante. Meu pai, que adora um sorteio, foi lá e depositou seus cupons, olhou pra minha mãe e falou “nós vamos pra África!”; rimos todos daquela remota e longínqua possibilidade e a vida seguiu. Uns dias depois (não me lembro se uma semana ou duas) meu pai foi viajar, lá pra nossa roça, em Minas, onde mal tem sinal de televisão, quanto mais de celular, e deixou seu aparelho em casa. Uma tarde qualquer, eu estava aqui em casa, bem gripada, meio zonza até, o celular dele toca. Atendi. A moça do outro lado da linha diz: “(…) é sobre o sorteio da viagem, do shopping Eldorado, ele ganhou!!! (…)”. Gente, vocês não têm ideia. Eu pulava na sala, toda feliz, toda serelepe. Disse que ele estava viajando e ela pediu pra ele voltar logo, pois tinham que acertar tudo. Liguei pra minha mãe, que estava trabalhando, dei a notícia, ao que ela solta “mas será que é verdade? Será que não é golpe?”. Várias pessoas pensaram isso. Me senti meio ingênua, mas tinha certeza que era verdade. Esperei uns minutos, entrei no site do shopping e lá estava: o nome completo do meu pai como ganhador. Ele realmente voltou mais cedo para acertar tudo (nem passaporte eles tinham ainda) e quando ele foi assinar os papeis na administração do shopping, a mulher (a mesma que ligou) falou que eu fui a única pessoa que acreditou de primeira e comemorou, todas as outras acharam que era trote ou pegadinha. Resumindo: meus pais foram pra África do Sul, ficaram uma semana por lá. Assistiram ao jogo do Brasil (o último que ganhamos, ainda bem, rs), visitaram vinícolas, o Cabo da Boa Esperança, vários passeios, jantares, hotel legal, com absolutamente tudo pago. 
E algumas pessoas se espantam mais com o fato de eu ter acreditado de primeira do que na viagem que eles fizeram, hahaha
Enfim. Tudo isso pra falar que estou insegura comigo mesma.
pausa pra vocês rirem da minha cara, por ter enrolado tanto para dizer isso, super me sentindo demais pelos meus dotes confiancísticos e depois falar isso assim na cara dura.
despausa. 
prosseguimos. 
Talvez aquela crise que eu disse uns posts atrás não tenha ido embora totalmente. Talvez tenha ido embora a parte profissional e no lugar esteja a parte gestacional. Talvez eu seja a própria crise em carne e osso e ela nunca me abandonará #dramamodeon
Esse ciclo está sendo diferente. Eu disse que não queria voltar a tentar (nem evitar), porque foi isso que senti que deveria fazer naquele momento, a vontade realmente estava gritando aqui dentro, mas pode ser que isso mude daqui um ou dois ciclos e tudo bem, nada é muito definitivo na (minha) vida. 
Tá, mas não é sobre isso também que eu quero falar agora. Sinceramente, já faz uns três dias que estou diante da tela em branco esperando um melhor jeito de elaborar, e nada.
Tive várias sensações (referentes a um futura gestação, no caso) desde o início do ciclo. Várias. Fortes, fracas, felizes, de medo. Anotei quase todas para não esquecer e fazer um “estudo detalhado” depois. Tem sido um processo bem solitário, na verdade, ninguém sabe disso. Geralmente o Cleber sabe essas coisas, mas não contei dessa vez (o que não significa que ele não possa ter reparado em algo). Sei lá, é uma coisa minha, não quero muita interferência de fora agora.
Mas agora nesse final tá meio puxado. 
Talvez eu não tenha cumprido ao pé da letra a parte do “sem interferências de fora” e li mais do que deveria (o que não significa que informação me atrapalha, tenho aprendido realmente muuita coisa ótima e válida, que vale post depois; estou falando da minha autoconfiança mesmo). 
O fato é que comecei a “duvidar” das coisas todas que senti, é isso. Pode ser que eu esteja precipitada e tenha entendido tudo errado. Pode ser que seja tudo coisa da minha cabeça. Pode ser que eu seja mesmo muito ingênua e acredite até em Papai Noel. E sim, duvidar do que eu sinto, pra mim, é uma coisa grave.
Na verdade, o fato de ter perdido um bebê me deixou com o pé atrás nesse lance de gestação. 
(É isso! Insights assim só me chegam quando estou escrevendo. Enfim.)
Fico pensando como vai ser na próxima vez. Quero tanto um filho, que acho que nem consigo mensurar direito. Em contrapartida, acredito que tudo tem a hora certa para acontecer, mas que temos que fazer nossa parte, porque né?! nada cai do céu. 
Tenho medo de ter outra perda? Sim, um baita medo. 
Só que maior do que esse é o medo de não entender mais o que eu sinto. Medo de me iludir. 
Na verdade, eu não contei pra ninguém tudo que vem acontecendo também para evitar que me mandem relaxar e pra eu parar de ser ansiosa. Sabe, o que eu sinto agora pode até ser uma certa ansiedade, mas não é essa minha questão. Ansiosa eu sempre fui, só que hoje a uso mais a meu favor, não deixo que ela se transforme num stress (pelo menos tento). E, independente do que aconteça, maternidade sempre estará no meu topo de interesses.
Meus pensamentos estão bagunçados. Talvez ainda demore muito pro meu bebê chegar. Talvez eu me sinta culpada por não estar exatamente aonde eu achei que deveria estar (seja lá o que isso signifique). Talvez eu ainda tenha que aprender muita coisa, comer muito arroz com feijão para que as coisas aconteçam. Talvez eu deva fazer mais. Pensar menos. E veja bem, isso pode até não ser de todo ruim, e não deve ser mesmo. Só que eu ainda estou muito perto pra saber. Talvez daqui um tempo eu veja isso como só uma fase da espera pela espera. 
Só sei que agora, neste instante, tudo que eu queria era ter um pouco mais tranquilidade de novo. E encontrar algum sentido nessa minha bagunça.
Até lá, só me resta ir – quem sabe eu não (re)encontre a minha confiança pelo caminho e a pegue de volta pra mim?

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A presença que eu sinto

Tenho me sentido muito próxima à Bolota. Mais do que nunca, eu acho.
É que eu ando sentindo muita coisa. Eu já sinto há muito tempo, na verdade, mas agora tá diferente. Passei a vida toda querendo decifrar umas coisas minhas, que me aconteceram bem lá atrás e que determinam muito quem eu sou hoje, de uma forma muito forte. Sempre tentei, mas nunca conseguia chegar aonde eu sabia que estava a resposta. Era como andar constantemente, mudar as rotas, refazer caminhos, quase chegar. Mas em algum momento eu me cansava ou me distraía, e parava. Depois tinha que recomeçar, e assim por diante. Até que eu engravidei. Foi como se, junto com o bebê, eu ganhasse uma percepção nova sobre coisas antigas. Eu sabia que mudaria, só não sabia que seria tanto, nem tão rápido.
Estou indo fundo em mim.
Eu achava que já estava começando esse caminho quando iniciei minhas leituras sobre maternidade ativa – e realmente estava, não posso negar -, mas só agora estou conseguindo acessar os lugares que eu não conseguia chegar antes. E eu preciso falar: tá sendo foda (não achei uma palavra equivalente, desculpem). Tanto no sentido de muito bom, quanto no sentido de muito difícil. Eu estou diante de uma porta e preciso abri-la. Estou tentando, mas ainda não consegui. Acho que sei como fazer, mas já entendi que algumas vezes é preciso mais do que saber o que fazer. Mas vou conseguir, e depois conto como foi.

O fato é que, se eu estou indo fundo em mim, no caminho eu cruzo sempre com a minha Bolotita. Neste momento, ela faz parte de um processo muito importante na minha vida. Não que eu esteja depositando num mini bebê a responsabilidade ou uma carga que ele não é capaz de carregar. Nada disso. É da certeza de um amor que eu estou falando. Se ela está em mim, literalmente, não tem como eu me conectar comigo e não me conectar com ela também. É inevitável.

E aí são duas coisas diferentes, mas igualmente intensas. Eu me descubro cada dia um pouquinho mais, e a sinto cada dia mais, também.
Temos tido momentos só nossos. Seja no banho, quando conversamos muito; ou quando coloco uma (sempre mais de uma, na verdade) música especialmente pra nós. Aliás, isso tem se tornado uma rotina muito agradável.
Sempre a incluo no que estou fazendo. Quando acordo mais cedo, com fome, viro pro marido e falo “amor, vamos levantar, a Bolota tá com fome”. Ou ao contrário, se quero dormir mais, digo que ela ainda não acordou. Reparei que não como mais chocolate nem muito doce como antes, acho o gosto mais doce do que eu posso suportar, e gosto de dizer que parece que a Bolota está puxando o pai, que não come chocolate quase nunca. Entre outras tantas coisas que gosto de inclui-la. É muito espontâneo, e tem sido bem divertido também.
E uma coisa muito louca no meio disso tudo que anda acontecendo: eu a sinto mesmo, aqui comigo. De uma forma bem mais ampla do que só sentir que tem alguém dentro da minha barriga. Acho que vocês entendem. Tenho sempre a sensação de tê-la no meu colo, ou perto de mim. Sempre. Já me peguei pensando – e acho que pra vocês posso dizer que até vejo a cena – várias vezes no pequeno bebê que estará aqui do lado de fora, em breve. Eu fecho os olhos e vejo. Uma pessoinha tão pequena a princípio, mas que eu respeito tanto, quero tanto, amo tanto. E aí é que eu chego a sentir o peso do seu corpinho no meu colo, de verdade. É tão real que até me arrepio quando penso nisso. Uma intensidade que eu ainda não havia experimentado. E como mãe é bicho bobo que só, sempre me emociono muito também. Várias vezes isso acontece, e em todas eu me surpreendo com a força desse sentimento. E sempre preciso agradecer a Deus por me permitir sentir tanto.

É… eu disse que estava indo fundo.
E daqui a pouco mudo o nome do blog pra “Travessia Materna”, porque é a palavra que chega mais perto do que ando vivendo.

Eu tô indo…
Foto: Arquivo pessoal
clicada pelo meu marido, em janeiro, lá em Aracaju.

ps: esse post faz parte da minha tentativa de abrir a porta que está prostrada na minha frente. 
Talvez surjam mais posts assim, ainda não sei. Só o que sei é que eu preciso escrever – e está sendo aqui porque me sinto muito à vontade com vocês. 

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Meu novo olhar

Imagem daqui



Uma vez por semana recebo um e-mail com uns dizeres mais ou menos assim: “O rosto do bebê está mudando. Os olhos, que antes ficavam nas laterais da cabeça, estão mais juntos um do outro, e as orelhas estão praticamente na posição definitiva. Nesta fase, os tecidos e os órgãos que já se formaram crescem e amadurecem rápido.”. Daí também chega um outro e-mail, com algumas informações a mais: “O comprimento do feto neste período é de aproximadamente 61mm e seu peso estará em torno de 13g. A face do bebê já tem aspecto humano. Os dedos das mãos e dos pés estão separados e as unhas continuam crescendo.” 

É claro que eu acho incrível, sensacional e lindo demais da conta saber (aproximadamente) o que acontece com o bebê em cada semana de sua pequena vidinha. E é fácil achar tudo isso, porque já temos uma ideia pré-pronta na mente de como será essa pessoa quando sair da barriga: oras, todo mundo sabe como é um bebê! Mas na realidade, é tudo muito abstrato. Não são todos esses detalhes que vemos claramente no ultrassom. Essas palavras são teoria. 
Quando recebo esses e-mails eu penso: como pode caber tanta coisa num espaço tão pequeno? Pensar que, num tamanho mais ou menos equivalente ao meu polegar cabem cérebro, olhos, boca, coração, fígado, unhas, dedos, braços, pernas, etc. Um organismo (quase) completo. Não pronto, óbvio. Mas existe! Penso em mim, no meu tamanho e em tudo que tem dentro da minha pele: quase tudo isso também cabe dentro de 6 centímetros (!!) 

E antes que me perguntem que droga é essa que eu tô usando, me deixando numa vibe toda doida, falando de uma coisa tão normal, explico. É que agora eu enxergo tudo de um jeito diferente. Aconteceu mais ou menos assim…
Entramos, marido e eu, naquela sala pequena e com uma meia-luz. A médica indicou onde ele deveria sentar e pediu que eu me deitasse. Colocou um gel gelado na minha barriga e começou a mexer aquele aparelho em mim. Apertou um pouco e… lá estava: o nosso bebê. Uma imagem em preto e branco, como uma tevê antiga e mal sintonizada. Para mim, nem a água nascendo na fonte era mais clara. Qualquer medo que, porventura, estivesse sentindo de algo ter dado errado, foi-se embora sem que eu nem percebesse, pois estava ocupada demais admirando, por uma tela, o que acontecia naquele exato instante dentro de mim.
Acostumada a ver nas telas somente o que vem de fora (ou do passado, se for uma foto), não contive a surpresa ao constatar que sim, aquela era uma imagem vinda de dentro. De dentro de mim. Em tempo real. Aquele bebezinho estava mesmo, todo esse tempo e ainda por mais algum, aqui comigo, em mim. Surreal.
Me transportei lá pra dentro e vi perfeitamente: uma pessoa crescendo no meu útero. Literalmente.
Conseguem entender a grandiosidade da coisa?
Foi mais que aquela sensação de ficha caindo. Foi uma mudança completa de perspectiva. E acho que me permitir enxergar tudo com os olhos da criança que ainda mora em mim, como se visse o mundo, maravilhada, pela primeira vez, deixa tudo ainda mais lindo.

Porque uma coisa é a teoria, um número ou uma afirmação; outra, bem diferente, é pensar literalmente no que aquilo representa. A maioria das pessoas não tem o hábito de trazer para si o que aprendem de mais abstrato, por mais que esteja acontecendo exatamente aquilo conosco, o tempo todo. Comigo isso mudou um pouquinho na faculdade, quando eu tive a oportunidade de ver no laboratório muitos dos nossos órgãos e ossos. Ali eu percebi a lacuna entre a teoria e a realidade e pensei: ainda bem que não somos transparentes putz!, é coisa pra dedéu! Nenhum livro dá conta de explicar com exatidão isso, não; nesses casos, a experiência de visualizar nos traz um novo entendimento.
Dá pra entender mais ou menos o meu raciocínio? Claro que a racionalidade não te deixa perceber essa lacuna, mas parando pra pensar melhor, é mais ou menos isso que acontece, sim. E é claro que eu já sabia de um monte dessas coisas que os e-mails dizem, que óbvio que o bebê está crescendo dentro da barriga, mas o fato é que agora eu sou parte integrante e fundamental do processo. E ver tudo isso como protagonista, e não como espectadora, muda tudo. Muito.

Quando marido e eu saímos na rua, com as imagens em mãos, ainda estávamos maravilhados pelo que vimos juntos naquela sala escura. E foi aí que eu disse: você não acha incrível que tudo isso (mostrando a extensão do nosso corpo) também cabe num serzinho tão pequenininho assim (mostrando o indicador e o polegar bem pertinho)? E ele ficou em silêncio pensando um pouco e consentiu, meio embasbacado: sim, é incrível!

E eu vou falar: todo esse acontecimento, chamado fabricação intensa de vida, mais conhecido como gestação, ganhou um novo sentido pra mim, muito mais amplo, muito mais profundo. É como uma nova consciência, eu diria. Complexa e apaixonante.
Não sei se me fiz entender como gostaria, mas vou afirmar de novo: essa é a coisa mais fascinante do mundo todinho. Um outro corpo, um outro organismo, completo, independente do meu (mas ainda dependente de mim) crescendo à todo vapor, bem aqui. Tão perto que nem posso mensurar. Está em mim, mas não sou eu.

Acho mais fácil pensar e visualizar isso no fim da gravidez, quando a pessoinha já é um bebê de fato, já tem o jeitinho e a carinha que vai dar oi pro mundão. Mas pensar nisso desde agora, onde tudo se transforma e evolui numa velocidade absurda, é realmente incrível. Tem sido incrível.
Desde o momento da fecundação coisas incríveis acontecem, sem uma pausa de um milésimo de segundo sequer. Em silêncio, duas vidas formam um outro ser. Um corpo passa a ser casa de outro.
Dois corpos ocupando o mesmo lugar no espaço  #chupanewton.

Isso me faz pensar no poder do corpo feminino. No quanto somos capazes de fazer, sem nem ao menos percebermos. E no quanto temos que acreditar mais em nós mesmas, sempre. Confiar na nossa capacidade, que é inata.
Porque a natureza é de uma beleza perfeita e muito sábia.
Existem mistérios que nunca serão revelados. E saber que, mais do que nunca, eu faço parte disso, me traz uma espécie de empoderamento novo.  
Me faz pensar que a gestação nos faz perceber o mundo de uma forma completamente nova, limpa, sem amarras, e que muita gente não entende, não vê sentido.
Mas não é mesmo pra fazer sentido. É apenas para sentir.

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Medos e insights

Esse negócio de gravidez mexe mesmo com a gente, né?!
É muito sentimento junto e misturado.

Acho que nem preciso dizer que eu quero ser mãe desde sempre, que é um desejo bem antigo e real e todas essas coisas.
Além dessa vontade toda, me apeguei à blogosfera materna há muito tempo, de forma que já li tantas experiências sobre dificuldade com amamentação, noites sem dormir, desfralde, escolarização, vínculo, criação com apego, e tantas outras coisas que, de alguma forma, eu não temo muito isso na minha vida. Veja bem, não estou falando que tenho a ilusão ou a pretensão de me sair perfeitamente bem em todas essas tarefas, ou que não terei medo de nada, nunca. Aliás, realmente acredito que vou querer fugir para as montanhas em vários momentos, sem saber o que fazer. Mas o fato de saber que o lado B existe em todos os lares parece que me dá uma espécie de “acalmada”, não sei. E acho mais, acho que não tenho medo disso ainda. 

Porque, agora, estou ocupada tendo outros medos.
Medos que eu desconhecia, que não me lembro de ter lido aos montes nos blogs por aí.

O primeiro é: tenho medo de não estar grávida! Escrevendo agora até parece engraçado, mas não riam, meninas, a coisa é séria. Eu fico pensando: e se der tudo errado agora no comecinho? Contei pra todo mundo e vou ter que descontar depois, vai que eu nem tô grávida. Como se a ausência da monstra, a vontade de comer toda hora, o cansaço, os seios maiores e dois testes positivos não fossem motivos reais e suficientes para me deixar sossegada. Vai entender.

Tem também a variação desse medo (não basta ter um medo, ele tem que aparecer com várias caras), que eu tenho até receio de falar, mas vamos lá: tenho medo de acontecer alguma coisa que me faça perder o bebê. É muito ruim sentir isso, mas tem acontecido, sim.
E acho que isso se dá pelo fato de que eu ainda não fiz nenhum exame, não fui examinada, nada. E se depois de amanhã (primeira consulta) descobrir que aconteceu algo ruim?

E aí bagunça tudo: se eu sinto uma dorzinha na barriga, acho que alguma coisa ruim pode acontecer. Se eu não sinto nada, acho que já aconteceu. Alguém me interna pelamordedeus que a insanidade aqui tá demais da conta!

cara de quem é estranhamente doida não tá entendendo nada. 

E o segundo medo está relacionado à Casa de Parto, porque eles frisaram tanto a parte de que a qualquer sinal de complicação transferem a parturiente para o hospital, que agora tô com medo de acontecer isso comigo. Porque não basta ser baixo risco, tudo ainda tem que correr perfeitamente dentro do contorno pra ter meu parto lá. Acho que é medo do que não posso controlar, né?! Fiquei insegura esses dias, já até chorei pensando nisso, porque sinceramente: pra que hospital vão me levar? Não lutei e me informei tanto para, na hora H, me ver num hospital qualquer, sendo atendida por quem eu nunca vi. Ok, ok, eu sei que sou eu que escolherei o hospital, que tudo já estará acertado, mas gente, posso falar? Que hospital eu escolho? Como eu vou saber que serei bem assistida lá? Tempo pra resolver isso e sanar minhas dúvidas eu tenho, e vou ter uma doula comigo, com certeza. Também fico pensando que se pensar nisso demais pode acabar atrapalhando e tal, mas sei lá, tenho medo.

É normal? Sou uma pessoa muito estranha? não respondam.

Parece que estou mudando de assunto, mas acompanhem, por favor: escrever é a atividade que mais me faz bem, acho que agora posso afirmar isso! É quando eu coloco tudo em perspectiva, penso no que estou escrevendo, no que estou vivendo e, muitas e muitas vezes, tenho insights maravilhosos exatamente enquanto escrevo, coisas que eu ainda não havia pensado, coisas que ainda não tinha visto por tal ou qual prisma. E acabou de acontecer. Explico.

Devo confessar que, sobre os primeiros medos, eu achava que o meu temor em não estar grávida se devia ao fato de que eu ainda não tinha um vínculo com essa pessoa que já mora aqui dentro. Me senti mal quando pensei isso. Poxa, desejei essa gravidez por tanto tempo e, quando acontece, eu não me apego? Cheguei a sentir certa culpa (oi, sentimento materno, precisava chegar tão cedo?). Mas escrevendo agora, me dei conta de que, não só o vínculo existe, mas eu já amo essa pessoa mais que tudo. Amo a ponto de temer muito que algo aconteça à sua tão pequena vida. E que eu sou capaz de qualquer sacrifício para garantir o seu bem-estar, se preciso for. Claro que posso estreitar ainda mais esse laço: tenho usado o momento do banho e a hora de passar óleo ou creme no corpo para ir me conectando mais com o bebê, passar uma segurança e, porque não, me sentir mais segura também.

Sobre o segundo medo, me dei conta agorinha mesmo (juro, gente, é incrível isso) de que eu vou ter tempo para me empoderar ainda mais, né?!, e isso de alguma forma fez sentido aqui dentro. Percebi que eu, que sempre fui toda coração (mesmo!), me vi só pensando com a razão, querendo calcular tudo. Acabei de confirmar que realmente esse não é o meu caminho, não é assim que funciona para mim. Eu sempre fui instinto, sempre agi pelas vontades que vêm diretamente do coração. Não posso ser diferente agora.
Porque também não adianta me cercar de todos os lados e achar que, por isso, estou “salva”.O que tiver que acontecer, vai acontecer. É preciso saber se entregar; e eu espero não me esquecer disso.

Nota mental: NUNCA me esquecer de seguir o meu caminho e não me deixar “encucar” por coisas externas, que não posso controlar.

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