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Agnes e os livros

Eu sou uma leitora convicta e apaixonada desde bem pequena. Desde sempre pegava livrinhos na escola, adorava ganhá-los de presente e cuidava muito bem deles. A paixão foi crescendo junto comigo. Acho livro um presente que sempre vai cair bem, inclusive. Apesar de não ler muitos livros durante o ano, porque gosto de ler devagar e apenas um por vez, gosto de ter um sempre por perto. Ano passado eu não li quase nada e não gostei da experiência. Esse ano estou conseguindo manter um fluxo razoável, considerando que não tenho mais tanto tempo disponível assim.

Curiosidade: escrevendo esse post me lembrei que a primeira coisa que comprei pra Agnes foi um livro! Mesmo ainda não sabendo que estava grávida, Nana e eu compramos um livro do Jorge Amado ilustrado, para quando tivéssemos nossos rebentos. E elas chegaram pouco depois. Viu como dá sorte?

E bem, não posso dizer muito ainda, porque né, ela só tem dois 2 anos, esse é só o começo da sua longa e incrível vida. Mas, pelo menos por enquanto, posso dizer que ela gosta muito dos seus livrinhos.

Não me lembro exatamente quando foi que começamos a ler pra ela, só sei que desde o começo ela demonstra muito interesse e gosta muito de ouvir a gente ler. Fica prestando atenção, ajuda a virar as páginas, coisa mais linda. Depois ela foi “decorando” as histórias e falava algumas coisas junto com a gente, hahah. Ah, e não posso esquecer o principal: nunca uma história é lida apenas uma vez. No mínimo, duas.

Seus livros preferidos até hoje são, coincidentemente, 3 que vieram da coleção do Itaú.

Papai!, do Philippe Corentin.

E o dente ainda doía, da Ana Terra.

Tatu Balão, da Sonia Barros.

Ela adora esses livros! E devo confessar que eu também gosto muito. Teve uma época que só o Cleber podia ler pra ela o do Papai, por motivos óbvios, haha. E tinha vezes que líamos nós dois, fazendo quase um teatro completo, rs.

Os livros ajudam também nas viagens de carro, ou quando quero que ela desacelere um pouco. É uma ótima forma de me conectar com ela quando está muito agitada. Ela tem aqueles de texturas e figuras também, a gente brinca junto, mas na verdade começamos já com as histórias, depois que vieram os outros. E sempre que vou na livraria já vou direto pra sessão das crianças – de 5 a 8 anos, haha. Sou dessas!

É muito gostoso ter esse momento com ela – mesmo que as vezes ela chore porque não quero ler depois da sexta vez seguida. Espero que sigamos assim por um bom tempo.

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O Poder do Discurso Materno

Faz tempo que terminei de ler “O Poder do Discurso Materno”, da Laura Gutman, e ainda não havia conseguido parar para escrever sobre ele. Descoberta da gravidez, lerdeza, enjoos, pensamentos em outro lugar, viagem; enfim, vários fatores. Mas hoje resolvi que queria falar sobre isso.

“As lembranças se organizam na consciência por meio de palavras, que quase sempre foram proferidas por nossa mãe. Assim, organizamos as lembranças do ponto de vista do discurso materno – que em geral está distante da nossa real experiência infantil – e acabamos por vestir certos personagens, atuando sempre da mesma forma na esperança de obter amor  e aceitação. Quantas de nossas dificuldades afetivas, profissionais e familiares advêm daí?

Nesta obra, Laura Gutman explica o funcionamento de sua metodologia de construção da biografia humana, processo de autoconhecimento que permite às pessoas entrar em contato com experiências esquecidas no inconsciente e, com base em um novo ponto de vista, libertar-se do passado opressor, criando novas maneiras de estar no mundo.”

Já vi muita gente dizendo que começou a ler esse livro com o olhar de mãe, mas no decorrer da leitura foi o olhar de filha que prevaleceu. Comigo não foi exatamente assim.
Quando soube do que se tratava, quis um na mesma hora. Fiquei muito curiosa pra saber como era esse método de construção da biografia humana, como ela iria abordar esse tema, etc e tal.
Claro que toda essa minha curiosidade não veio do nada. Eu tinha um pequeno motivo para querer logo esse livro em minhas mãos. Mesmo sem saber exatamente como seria, me identifiquei com essa sinopse. Então, sim, comprei o livro pensando em mim.

E me surpreendi.
Basicamente, o que ela fala ali, sobre o método da construção da biografia humana, é o que eu faço, sozinha, com a minha história. Eu não fiquei surpresa com a abordagem utilizada ou em como aquilo funciona para os “pacientes” dela (e da equipe). Fiquei surpresa de saber que o que eu faço há uns bons anos é uma linha de terapia. Até porque, até onde eu me lembre, nunca tinha conhecido alguém que fazia ou achava esse um método válido, digamos assim. Me lembro uma vez, numa aula da facul de psicologia, toquei por alto nesse assunto e ninguém nem pensava nisso de uma forma parecida com a minha.
Óbvio que o fato de ser uma terapia, uma coisa com muito estudo e pesquisa por trás, é mais abrangente do que aquilo que eu faço, ainda mais porque não tenho ninguém que me conduza e que me ajude a ver alguns fatos de fora. É tudo na base do instinto mesmo, tateando no escuro. Mas o objetivo é o mesmo. Aliás, também fiquei surpresa de saber que estou chegando nesse objetivo (conduzindo a coisa toda) de uma forma parecida com a retratada ali.

Na maioria dos casos que o livro mostra, as pessoas não se lembram na quase nada da sua infância, praticamente nenhum evento ou sentimento havia sido nomeado para que pudesse ser “armazenado”. Nesse ponto eu não me identifiquei muito, porque me lembro de muita coisa da minha infância. Muita coisa. Sempre tive uma consciência, digamos, diferente com relação as coisas que me acontecem. Quando eu era criança e me ressentia por algum motivo e ninguém me entendia, ou se eu não conseguia expor o que se passava comigo, eu sabia que aquilo não era “normal” (usando os termos que tenho hoje, na minha cabeça da época era tudo mais rudimentar, rs). Eu não conseguia mudar alguns jeitos, mas sabia que um dia poderia vir a entender tudo aquilo. E o fato de eu acreditar que muita coisa que nos acontece hoje vem da infância, é justamente pela minha experiência.

Então, em algum momento que já não me lembro mais especificamente qual foi, comecei a fazer isso com uma certa frequência. Provavelmente quando eu estava passando por alguma dificuldade, daquelas que a gente não sabe de onde veio. Eu consegui associar um evento do presente a um acontecimento do passado. E um novo mundo se abriu pra mim. Aos poucos, muito lentamente, fui ressignificando a minha relação com muito do que me aconteceu. É claro que não posso mudar a forma com que tudo se deu, fazer com que pessoas que me deixaram triste lá atrás se arrependam e venham me pedir perdão de joelhos. Esse é um processo meu. A minha forma de lidar com tudo aquilo vai mudando e, consequentemente, vou me livrando de amarras que, de outra forma, talvez eu nem saberia que tinha.

Sem contar que eu também acredito que quanto mais a gente se entende e se descobre, mais a gente pode praticar a empatia e entender o outro. Não é concordar ou aceitar tudo que o outro faz. Mas saber que aquelas ações não estão acontecendo por acaso, que todo mundo tem uma história de vida diferente e, portanto, vai ter uma reação diferente frente a algum obstáculo.

Também me ajuda muito a entender a minha irritação diante de algumas coisas. Nessas semanas com a minha sobrinha aqui, por exemplo, andei ficando irritada com alguns de seus comportamentos. Não vou expor aqui porque nem é minha filha, e pra dizer eu precisaria expor outras pessoas, mas depois de um tempo refletindo vi que alguns detalhes estavam em mim, na minha história. Talvez por eu ter passado por coisas semelhantes mas ter internalizado e me expressado de forma diferente. Talvez por ainda serem coisas que mexem comigo. Talvez, muito provavelmente, por serem coisas que ainda precisam ser revistas. Foi bom pra eu entender, na prática, que alguns sentimentos contraditórios que as crianças nos despertam vêm de nós mesmos, e não delas. Não podemos obrigá-las a se comportar como achamos “certo” (por já termos passado por isso), como se o fato de “protegê-las” as salvassem do que nós mesmas vivemos. É bem complexo – e sim, vou ter que comer muito arroz com feijão pra chegar pelo menos perto do que acho legal, mas a gente tem que começar de algum lugar, não é mesmo?

É um trabalho de formiguinha, aos pouquinhos é que vou conseguindo avançar nessa minha autoterapia, indo em busca de mais autoconhecimento e, por que não, me dando um pouco mais de bagagem para lidar com o pequeno ser que hoje me habita.

Ler todas aquelas histórias, as teorias, os resultados, tudo isso foi me dando mais ânimo pra continuar o que faço, aprendi muita coisa nova também. Porque não é fácil, minha gente. A gente precisa estar disposto a encarar certas coisas, e nem sempre o que vemos é bonitinho. Às vezes eu dou um tempo disso tudo, porque preciso respirar outros ares para espairecer. Mas já percebi que isso tem me ajudado muito, em muitos aspectos, e vou seguir em frente assim. O próximo passo é passar tudo pro papel. Mas isso já é assunto pra outra conversa.

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