Arquivo da categoria: minha infância

A timidez, a sapequice e a criança que eu fui

Depois do post das belezas e do encantamento pelos 2 anos e meio, vieram dias de alguns paradoxos pro aqui. Ah, maternidade. Nada é, tudo está.

A pequena anda tímida. Quer dizer, pensando bem, ela nunca foi a mais sociável dos bebês, de ir em colos alheios de cara, numa boa. Só mesmo com quem ela conhece bem. Mas agora, quando chegamos em ambientes com mais gente, quando as pessoas vem falar com ela, cumprimentar, brincar, ela abaixa a cabeça e põe a mão na boca. Fica um tempo assim, caladinha, por vezes se encolhendo um pouco. Pra se soltar, só depois de algum tempo, mais do que nunca.

É fase, será? É genético? É a personalidade dela? São os astros?

Eu fui uma criança bem tímida. Ainda hoje eu sou, apesar de já saber – e conseguir – domar e agir de outras formas. Mas a criança tímida que eu fui ainda existe aqui em algum lugar, sei que sim. E podem até dizer que isso nela é um reflexo meu. Sombras, ou algo assim. Em relação a isso, eu observo mais o meu sentimento quando a vejo assim. O que reverbera aqui dentro pode ser mais exagerado, o que nasce quando a vejo colocando as mãos na boca e enterrando o rosto no meu pescoço pode fazer reviver um monstrinho que vivia comigo lá atrás. É a minha história. E aí, pra não projetar os medos todos, ou seja, para não agir com ela baseada no que eu sentia há mil anos atrás, e não pelo presente, há que se ter muita análise e algum tempo mesmo. Fico repetindo isso pra mim, prestando atenção. Somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, sentimentos diferentes. Mesmo que algumas reações sejam parecidas, não quer dizer que ela está sentindo a MESMA coisa que eu. Essas coisas básicas de uma pessoa que faz autoanálise a maior parte do tempo. Tô acostumada, rs. Acaba que pra mim é até melhor, me faz bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes, quando acontece, não sei direito o que fazer. Não a forço falar com ninguém, mas não sei se tô acolhendo o tanto que “deveria”. Sinceramente, não sei.

E aí, quando chega em casa (e na casa dos avós, que é uma extensão da nossa, só que com mais “coisas permitidas”, se é que me entendem), a pessoinha pega fogo. Sobe, desce, pula, canta, conversa. Muito. Começou esses dias a ter mais enfrentamento dos limites. A gente fala não e ela fica parada, meio olhando de lado, calada, com aquela carinha de “estou te ouvindo, mas tô fingindo que não”, sabe assim? E continua fazendo. Ou então grita. Eu desligo a televisão pra refeição ou alguma outra coisa, ela vai e liga de novo, olhando pra mim. Olha, não é fácil. Essas coisas também fazem nascer sentimentos antigos, né. Dá vontade de dá uns gritos, de fazer a pessoinha entender que não é assim, que não dá pra ser tudo no seu tempo, que é preciso respeitar. Tanta coisa. Vários conceitos a gente quer que eles entendam num olhar – como muitas vezes foi com a gente. “Minha mãe olhava pra mim e eu já sabia que tinha ido longe demais”. Muitas vezes, é com a criança que um dia fomos que nos relacionamos, não com nossos filhos.

Tenho andando cansada esses dias. Emocionalmente cansada. E com uma intuição de que preciso alterar algumas coisinhas aqui na nossa rotina. Estar mais perto, brincar mais lá fora. Ficar mais tempo só nós duas.

Nada é, tudo está, repito de novo. Daqui a pouco os dias passam, as fases mudam e essa página já estará virada. Que eu saiba o que registrar nela, então. Pelo menos na maioria das linhas.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em aprender, assunto delicado, autoconhecimento, buscando solução, como lidar?, eu mãe, minha infância, reflexão, sentimento

O presente repetindo o passado

Estou na cozinha lavando a louça. Agnes na sala, brincando com umas xícaras e outros potinhos pequenos (todos de de verdade, coisas que ainda não tinha guardado depois da mudança) e com a boneca. Ela vai brincando e conversando comigo.

-Vô fazê um cházinho pá ela, mamãe.

-Tô tomando café tum leite, mamãe.

E assim por diante. Ela ia falando o que estava fazendo, eu ia respondendo, aumentando a brincadeira.

E de repente fui transportada para um lugar que eu bem conhecia.

Eu estava na área, arrumando todos os meus brinquedos, fazendo a minha casinha. Minha mãe cozinhava na cozinha ali ao lado, a dois passos de mim.

A gente brincava muito assim. Eu na minha casinha, pegava minha neném e ia visitar a minha “comadre” ali do lado. Ela seguia fazendo seus afazeres enquanto brincava comigo.

E de repente, não mais que de repente, a cena se repete sem que eu tenha consciência do que estou fazendo, sem planejar ou montar aquela cena. Ela simplesmente aconteceu. A roda girou, o tempo passou e ali estava eu, reproduzindo uma cena que me era tão familiar – e talvez por isso tenha sido tão instintivo. E tudo entrou em foco e me senti exatamente onde deveria estar. Construindo memórias com a minha pequena moça.

Sorri sozinha na cozinha, e seguimos assim, em meio a lembranças e brincadeiras.

1 comentário

Arquivado em acontece comigo, coisa linda, instinto, minha infância

Dia dos avós

Hoje, 26 de julho, comemora-se o dia dos avós.
Eu tive a sorte de conhecer e conviver com os meus 4 avós. Não morávamos na mesma cidade, mas sempre nos víamos quando eu morava em Minas. Os pais do meu pai moravam na roça – a gente não consegue usar outra palavra, nem sítio, nem fazenda: é roça mesmo -, a mesma casa onde meu pai nasceu, diga-se de passagem, rs, e os pais da minha mãe numa cidadezinha há uns 180 km, mais ou menos (e também perto da roça). Então vários fins de semana da minha infância foram com eles, vários mesmo – e mais as férias escolares, óbvio. Sem contar quando ficavam uns dias lá em casa também. Foi uma delícia conviver com eles sempre por perto; aquelas coisas que só eles faziam: arriar o cavalo pra eu andar (ai que saudade de andar à cavalo!), bolo, biscoitos em variadas formas (minha avó fazia em formas de bichos só pra mim, rs), fogão de lenha, as histórias do meu avô materno. São muitas lembranças, uma memória afetiva muito forte.
Em 2006, sofri minha primeira grande perda: meu avô paterno foi morar em outro plano. Foi bem difícil mesmo, pra todo mundo, ele era uma pessoa realmente incrível! Minha avó, então, veio morar aqui em Sampa, na casa da minha tia, e hoje alterna entre idas e vindas, da roça pra cá, de cá pra roça, dependendo das demandas que surgirem por lá. E também é ótimo tê-la aqui pertinho, a 30 minutos de distância, de carro. Meus avós maternos continuam na mesma casinha, na mesma cidade, e hoje eu os vejo bem menos, uma vez por ano. Meu avô perdeu a visão há uns anos, mas tem uma saúde ótima, e minha avó bambeia de vez em quando, mas a véia é dura na queda (e está boa o suficiente para inventar uns nomes bem ~diferentes~ para Bolota, haha).

E por falar em avós, eu não poderia deixar de falar dos avós de Bolota, meus pais.
(Quer dizer, também tem os pais do Cleber, que são ótimos também, claro. Eles são avós há quase dois anos e Bolota será o segundinh@. Mas hoje eu quero falar dos meus pais mesmo).

Meus pais também serão avós pela segunda vez. A primeira aconteceu há exatamente 5 anos atrás. Exatamente, minha afilhada nasceu no dia dos avós, olha que coisa mais legal, rs! Hoje ela comemora mais um ano de vida – e parece que foi semana passada que estávamos lá em Aracaju pro nascimento dela – e, só pra começar a ilustrar o quanto meus pais babam por um neto, meu pai pegou um avião ontem à noite, “só” para passar o aniversário com ela, e também porque todo ano tem uma festinha na escola em homenagem ao dia dos avós e, como eles nunca estão presentes, ela estava triste e disse que não ia participar. Pode isso? Derreteu o coração de todos nós do vovô (minha mãe só não foi por causa do trabalho) e hoje ele já ligou duas vezes só pra contar como andam as comemorações por lá ^^

Eles são o tipo de avós que… fazem tudo que a neta quer. Hahaha. Óbvio! Minha mãe diz que é ótimo, porque ela já criou dois, e agora pode mimar os netos à vontade. Mas assim, eu preciso dizer que minha mãe é uma das melhores pessoas que eu conheço para lidar com crianças. Ela tem uma super paciência (mega mesmo), senta no chão, brinca, canta, conta histórias. Sabe lidar com os pequenos como ninguém. Então assim, eles podem até fazer a maior parte das vontades das crianças, mas elas também fazem as vontades dos avós, entendem? Se estão correndo sem rumo, aprontando demais, ou entediados, logo minha mãe inventa uma brincadeira ou outra atividade para canalizar aquela energia toda para uma coisa legal. E eu não sei exatamente como ela faz isso, mas, como por um milagre, as crianças ficam bem calmas, mesmo os mais agitados. Acho isso incrível! (e preciso aprender, haha)
Meu pai já é de “mimar” mais, não gosta de ver chorando, logo quer saber o que pode fazer, dá várias guloseimas, deixa brincar com o celular e com a impressora (e acha lindo, haha), leva pra passear… essas coisas de avô, rs.

Eu fico muito feliz por saber que Bolota vai crescer perto deles. Logo teremos uma casa só nossa, se Deus quiser, mas meus pais serão muito presentes do mesmo jeito, tenho certeza.
E claro que eu já sei que alguns contratempos vão surgir, porque nós temos algumas diferenças nas questões de criação, mas já falo algumas coisas aqui em casa, para não os pegar desprevenidos, digamos assim, rs (mas esse também nem é o assunto agora, vamos focar na parte boa, rs). E eles são os avós, né?, já fizeram a parte difícil do processo, agora querem curtir, rs.

Minha mãe e Helena (foto de dezembro de 2012)

Meu pai com a netinha – o sorriso ~natural~ deve ser de família, rs.
(foto também de dezembro)

E vocês, têm boas lembranças dos seus avós?

8 Comentários

Arquivado em amor, avós, família, minha infância

Mais empatia com os pequenos

Uma verdade sobre mim: eu fui apaixonada pela minha infância.

Nasci aqui em São Paulo, mas com apenas 3 meses minha família se mudou pruma cidade lá do norte de Minas. Fui criada livre, brincando na rua, descalça, ralando o joelho, andando de bicicleta. Assistia tevê o mínimo do meu tempo, eu era muito ocupada, rs. Além de estudar, eu dançava, pulava corda e amarelinha. Brincava de boneca, montando uma casa inteira pra mim, às vezes. Também tinha meu próprio restaurante, com “bifes” de folha, pedras e cascas de banana no menu; adorava quando minha mãe me dava punhadinhos pequenos de arroz, feijão, macarrão, pó de café e maizena (pra misturar com água e virar leite) e eu podia incrementar a brincadeira. Escolinha também estava na lista, assim como banco (meu pai trabalhava em um, rs) e várias outras infinitas brincadeiras que eu literalmente inventava, sozinha ou acompanhada. Brinquei até hoje os 12 anos, quando algumas meninas já não faziam isso por se autodenominarem “mocinhas”, rs 
Não que eu não tenha sofrido nenhuma dor ou trauma. Mas eu aproveitei muito aqueles anos, e como aproveitei. 
Depois que cresci continuei encantada pelo universo infantil. E, mais ainda, pela mente das crianças. Porque eu me lembro como foi a minha. Porque eu me lembro como eram algumas coisas. E não tinha coisa mais chata do que eu estar sentindo alguma coisa e um adulto achar que eu estava sentindo outra coisa, totalmente diferente. Existia momentos em que eu não sabia transmitir o que me apetecia, tinha dúvidas que não eram respondidas de forma esclarecedora. Confesso que não é pela fala que eu melhor me expresso, por isso também a paixão pela escrita. 
A insistência em tentar entender meus sentimentos e reações frente a alguma situação é uma característica minha, que trago desde essa época. E se eu sinto, pode ser que aconteça com mais alguém também, né?!
Então, quando eu estou lidando com uma criança, eu me pergunto: eu passei por algo parecido na minha infância? Como eu me senti? O tratamento que recebi me fez bem, ou fiquei com a sensação de que não entenderam nada? Não que todas as pessoas passem pelas mesmas coisas, mas essa prática pode, pelo menos, apontar uma luz para nortear as minhas ações e, assim, eu ajo com mais cuidado, pois diante de mim tem uma pessoinha que pode estar tão perdido quanto eu.

                            
Para ilustrar o post e ficar fofo, uma foto minha com a minha afilhada, há 4 anos atrás. E uma do Cleber, com o nosso sobrinho, há 1 mês atrás.
A verdade é que muitos adultos tem uma espécie de mania de achar que as crianças fazem determinadas coisas apenas para irrita-los, testar sua paciência, ou algo do tipo. Não que isso não ocorra em alguma situação específica da infância, claro. Mas francamente? Achar que todas as vezes o motivo é mais você do que seu filho é um tanto egoísta, eu acho. 
Se até nós, adultos, com uma mente perfeitamente capaz de entender coisas subjetivas e abstratas, muitas vezes sentimos algo que não sabemos explicar, porque exigir isso de uma mente ainda em formação, né?!  Algumas vezes, tudo que precisamos, adultos e crianças, é só de um pouco de empatia.

6 Comentários

Arquivado em crianças, minha infância, minha opinião