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Carta do dia: venha no seu tempo, mas venha

Filha,
há alguns dias tenho sentido meu corpo me enviando uns sinais. Pequenas cólicas, contrações ainda sem dor, mas já mais fortes. Pequenas ondas no pé da barriga que me lembram que você está perto.
Ainda não está nada ritmado, nem nada perto disso. Ainda não é trabalho de parto. Mas a sua chegada já começou a ser anunciada. O seu tempo é mesmo muito precioso, não é meu amor? E bem diferente do meu, devo dizer. Isso causa uma pequena confusão em mim algumas vezes, preciso dizer. Porque é o seu tempo dentro do meu corpo, assim, juntinho e muito misturado, então é natural que eu me confunda vez ou outra. Ainda estou aprendendo com você. E espero poder te ensinar também. 
Eu estou entregue ao que está por vir, meu bem. Já tive medo, já quis controlar, já chorei. Acho que superei. Estou tentando me entregar. Sentir você. O que me diz, o que espera de mim, o que está acontecendo aí. 

Me desculpe se eu choro demais, mas é que tudo o que acontece dentro de mim já está começando a transbordar. Ok, talvez esteja mais para um encanamento furado, eu confesso, e por isso te peço desculpas hoje. Não quero nunca que você pense que você causou isso de uma forma ruim. É só que ser sua casa mexeu demais com as minhas lembranças e histórias. Algumas coisas eu tive que mudar de lugar, outras jogar fora. Para outras, o que aconteceu foi a descoberta mesmo. O desvendar. Você está trazendo mais luz pra minha vida, filha. E tá iluminando tudo, a começar pelo meu coração, que eu pensava já conhecer. Imagina! Ainda tenho muito trabalho pela frente. 

Confesso que estou doida para sentir as dores. Estou desejando mesmo. Porque sei que não será em vão, não será ruim. São nossos corpos trabalhando em sintonia para que possamos nos dar a luz, ao mesmo tempo. Vou sorrir quando você disser que é pra valer, que já está a caminho. 
Estou sentindo vontade de ter aqui fora. É uma delícia sem precedentes te ter aqui dentro, um segredo só meu, só eu sei como é te ter aqui, parte de mim. Mas não posso te prender para sempre. A liberdade é uma das coisas mais belas do nosso mundo, quero que você venha aqui ver com seus próprios olhinhos. Quero que você veja tudo que a natureza é capaz de produzir, todo o segredo que guarda em cada feito, mas nos dá tudo de presente, para que possamos aproveitar do jeito que melhor nos for. Quero que você sinta o vento no rosto numa viagem de carro, e andando a cavalo, e correndo no parque, e pedalando uma bicicleta. Quero que respire profundamente diante de uma bela paisagem. Quero que escute o som do mar. Que ouça o silêncio do seu coração. Quero que sinta o gosto da vida aqui fora, linda e plena, que você construirá em cada passo. Que você seja capaz de enxergar as coisas boas do mundo, apesar do que nos dói. Que dance. Que suje. Que bagunce para depois arrumar (pode ser uma boa terapia). Que vá. Que volte. Que erre. Que gargalhe. Não deixe de chorar. Que cultive o frio na barriga. E que tenha em quem se aquecer. 
Quero aprender enquanto te ensino. E te ver construindo e inventando suas próprias verdades, enquanto eu refaço as minhas. Nós vamos viver muitas coisas juntas, filha. Mais do que já estamos vivendo – muito mais. O parto será apenas uma porta para o que nos espera. 
Seu pai e eu estamos te esperando. Pode vir no seu tempo, mas venha. Porque nós te amamos muito. E o amor não conta as horas, mas também tem pressa.


com muito amor,
mamãe.

                    


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Carta do dia: sobre sua irmã, você e os mistérios que cada uma carrega

Filha,
hoje a mamãe vai te contar duas histórias. Uma que já aconteceu e uma que está acontecendo. 

Antes de você vir morar aqui na minha barriga, outra pessoa veio. Era a sua irmã. Seu pai e eu tínhamos uma clara sensação de que era uma menina, e a ela daríamos o nome de Valentina. Era um nome lindo, forte e soava muito bem aos nossos ouvidos. Nós estávamos muito felizes e só esperando a data certa de saber se era mesmo ela quem estava aqui. Sua avó materna também amava o nome, disse até que ia sugerir esse, caso não tivéssemos falado antes.
Mas aí aconteceu uma coisa estranha. Não gostaram do nome que escolhemos. Em nossa empolgação inicial, não conseguíamos (eu) segurar a língua dentro da boca e falávamos até para quem não tinha perguntado que, se fosse menina, seria a Valentina. Era aí que acontecia: as pessoas ficavam meio estranhas quando ouviam esse nome, filha. Alguns detestaram, na verdade. Nos chamaram de corajosos (como se fosse ruim ser corajoso, veja só o mundo doido em que vivemos), loucos, e mais tanta coisa que nem vale a pena repetir aqui. A mamãe ficou muito nervosa quando isso aconteceu. Triste. Ao invés de ficarem felizes com a chegada dela, usavam suas energias para (tentarem, em vão) me fazer mudar de ideia. Para tentar me mostrar algo que não existia, que criaram em suas próprias cabeças. Declararam o fracasso dela na escola, de tanto que sofreria por carregar tal nome. Temiam que fosse uma menina “valentona”, “respondona”, “agressiva”. E a culpa seria nossa, minha e do seu pai, por termos escolhido esse nome pra ela.
Nós fomos irredutíveis, filha, não mudamos de ideia nem por um segundo sequer. Fiquei nervosa, fiquei chateada com a insistência das pessoas que me falaram isso, mas não mudamos. 
Primeiro, porque era esse o nome dela mesmo, a gente sabia. 
Segundo, porque – você vai ver – seu pai e eu temos uma forma só nossa de levar a vida, e não costumamos mudar de ideia por causa de terceiros. 
Terceiro, e muito importante: ser valente era também o que a gente desejava pra ela, assim como desejamos muito para você. Estou te contando essa história para registrar, filha: é preciso ser valente. Enfrentar as dificuldades, mesmo as que venham em forma de alguma rejeição dos mais próximos. Lutar para que nossos sonhos passem pro plano da realização. Assumir verdadeiramente suas escolhas, seus amores e seu caminho com consciência e peito aberto, mesmo que sejam coisas completamente fora dos padrões (ainda bem que existe o fora do padrão, você vai aprender isso mais adiante). Isso é para os valentes, meu bem. Ser valente é ser corajoso, acima de tudo. Sua irmã me ensinou um pouco sobre isso, e sinto que você vai me ensinar um tanto mais também. 

Sua irmã não veio. E sabe o que mais? Não chegamos a saber se era mesmo ela. Nunca saberemos, na verdade. Dia desses me dei conta que poderia muito bem ser um menino. Pode ter sido, pode não ter, simples assim. O mistério vai ficar no ar e na nossa história, e por mim tudo bem. Assim como permanece mistério a causa que a fez ir embora, como saiu tão rápido de mim sem ninguém ver, entre tantos outros.

Mistério. A vida da gente é cheia de mistérios, filha. Isso é uma das coisas mais lindas e incríveis que existe. A natureza é fascinante e carrega esses mistérios com todo cuidado que lhe cabe, para que assim permaneçam, a despeito de tudo que a mente humana seja capaz de produzir para tentar desvendá-los. Como parte da natureza que somos, também guardamos os nossos – e muitas vezes queremos trazê-los à luz da razão, mesmo que não seja esse o intuito da coisa toda: somos parte disso tudo, não uma peça a parte do quebra-cabeça. 

Com você não é diferente, filha. Você já tem seus próprios mistérios. Me traz experiências que ainda não tenho como explicar, e sentimentos igualmente singulares. Por exemplo, nunca tive pressentimento algum sobre o seu gênero. Não que seja uma coisa decisiva, mas como aconteceu da outra vez e como eu sou toda cheia de pressentimentos, me surpreendi quando me dei conta que dessa vez ele simplesmente não existia. Muitas pessoas disseram que era um menino, poucas que seria uma menina. Com 17 semanas e 3 dias, seu pai e eu entramos numa salinha escura e o médico nos disse que era uma menina que morava aqui na minha barriga: você, filha! Pouco tempo depois fiz outro exame, em outro laboratório, e a médica disse a mesma coisa: menina! Depois ainda teve o morfológico, que é um exame necessário mesmo, e na primeira imagem que surgiu na tela, a médica disse que era uma menina, sem que a gente precisasse perguntar nada. Três exames de imagem, feitos por médicos diferentes, em locais completamente diferentes. 
Mas não seria mistério se a história não continuasse. Existe, ainda, as pessoas que insinuam que essas imagens não condizem com a realidade, que você é um menino. Chegam até mim histórias de gente que pensava estar esperando um sexo, e veio outro. De gente que passou por isso, que é uma probabilidade real de acontecer. A primeira pessoa que me disse isso não é íntima da minha vida e falou de um jeito que eu não gostei, fiquei muito brava. Mas parece que tem mais gente jogando nesse time, então eu resolvi refletir: e se for mesmo um menino? E se não for, por que essas pessoas, que tem uma super sensibilidade a mais, disseram tal coisa? Se for um menino, vai ser completamente impressionante o fato de três exames modernos de imagem não terem visto o que era pra ver, considerando que não foram exames precoces. Vai ser uma história e tanto, fico até imaginando. Se realmente for menina, não sei o que essas tais pessoas me dirão. Por que sentiram ser menino? Qual a resposta dessa charada? Por que isso está acontecendo comigo?

Mistérios.

E sabe o que mais, filha? Por mais que as chances sejam de 50% para ambos os lados, quem carrega essa resposta e também o porquê desse mistério, é só você. O que eu sinto é que você traz consigo essa coisa só sua, de não entregar tudo assim de mão beijada, meio que não ligando muito para o que os outros esperam ou dizem, meio que brincando com isso, até porque não é tudo que podemos controlar, afinal de contas. Nem cientificamente, nem mediunicamente. Em julho – ou melhor, quando você quiser – saberemos parte da resposta com alguma certeza. Te chamamos de Agnes, de nossa pequena, nossa menina, pequena moça. Porque foi assim que você se mostrou até agora, então estou entendendo que é assim que você quer e que tem que ser. Se em algum momento daqui por diante, seja em um próximo exame, seja no seu nascimento, ou em qualquer momento da vida, você se mostrar uma pessoa do gênero masculino, por mim tudo certo – e pro seu pai também. 
É muito importante pra mim deixar isso claro e é esse o segundo e relevante motivo de registrar todas essas palavras: eu aceito os mistérios que cercam a minha vida, não luto contra. Tento aprender com cada um deles. E aceito os que você me traz também, sempre, porque vindo de você, não tem como não ser enriquecedor.

Enquanto o mundo corre lá fora, você tem o seu próprio ritmo aqui dentro, minha querida. Um ritmo que eu descubro um tantinho a cada dia, e que sempre me surpreende. E a forma como ele funciona é tão importante pra você, que está me mostrando desde já. Então não se apresse, não. As coisas são como devem ser, não precisamos complicar nada, muito menos lutar contra uma essência que é tão nossa. 

Você e a sua irmã são os meus mistérios particulares, que eu amo ter e que não param de me ensinar. A ser mais valente, a respeitar os tempos da vida, a aceitar o que não controlamos, a lidar com o que sempre tive dificuldade; e ainda entender que, sim, tudo bem as coisas estarem acontecendo desse jeitinho, algum motivo – ou mistério – sempre há de ter, e é muito bom (e dá um certo friozinho na barriga) fazer parte disso tudo. Obrigada, filha. Muito obrigada mesmo.


um beijinho e um chamego,
mamãe.

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