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Sobre o que eu preciso falar

Hoje eu tirei o dia pra desabafar.

Quando eu comecei a escrever no blog, eu tinha o único intuito de ter um lugar para desaguar meus pensamentos sobre maternidade – um tema que eu já amava mesmo ainda nem sendo tentante. Eu queria poder escrever as coisas que eu acreditava, que eu queria, que eu ansiava. Enfim, é pra isso que as pessoas fazem blogs pessoais, não é?

E, bem, eu sou uma pessoa que acredita, sabe. De verdade, eu acredito. Eu acredito nas pessoas, eu acredito em Deus, eu acredito no amor. Eu acredito. Acredito, inclusive, que a gente pode ver a vida de um jeito mais suave, mesmo nas pancadas e nos terremotos. Na verdade, eu passei a acreditar nisso com mais verdade depois que perdi meu bebê, em 2013. Eu passei a escrever aqui no blog como uma espécie de tábua de salvação, desabafava todas as minhas dores e aprendizados. Era a minha tentativa de não me afundar naquela tempestade. E deu certo.

Depois disso veio a gravidez da Agnes e a vida aconteceu da maneira que tinha que ser. Tudo foi dando certo – a gravidez foi bem, pari, amamentei, me mudei. Também cresci. E no meio disso tudo, ainda lá na gestação, eu fui entrando em grupos, fui lendo muitos relatos, fui acompanhando militâncias absolutamente necessárias, mas que acabaram me podando um pouquinho. Pois é, esse é um assunto delicado. Eu, que gosto de ver um lado bom em tudo, que preciso disso inclusive para organizar meus pensamentos, pensei que talvez eu estivesse romantizando a parada toda, coisa que a gente bem sabe que não faz muito bem, nem enquanto pessoas, menos ainda enquanto coletivo. Será que eu estava fazendo isso, meu Deus? Será que estava contribuindo para a propagação de uma coisa que, ao mesmo tempo, eu não concordava? No meio disso, comecei a perceber que as vezes algumas pessoas esperavam que eu falasse das dificuldades, do peso, dos problemas, mas quando eu via, estava dizendo que ela até que dormia bem prum bebê de 3 meses, que estava tudo bem na amamentação e que o pai dela adorava dar os seus banhos. E por que e falava isso? Porque era assim que eu estava vendo. Eu li tanto que as noites iam ser em claro, que quando percebi que nos ajustamos num ritmo de sono que dava certo pra nós duas, achei que estava sendo um sucesso. Eu respondia que ela dormia bem porque pra mim era o que era. Só depois de muitos meses me dei conta de que, na verdade, ela ainda acordava 3 vezes em várias noites, mas pra mim ela dormia bem. Mas o que as pessoas ouviam era: ela dorme a noite inteira, descanso 8 horas seguidas, sou foda, minha filha é um prodígio. Por que eu podia falar do que aprendi de bom com uma perda gestacional, mas não era entendida quando falava do que estava dando certo na maternidade real (real no sentido de que estava acontecendo mesmo, comigo, agora)?

Era como se eu não pudesse falar das belezas enquanto tinha tanta gente no meio da lama, sabe como? Eu comecei a me calar, porque não queria que me entendessem mal, porque queria também ouvir, porque não queria tirar o lugar de fala de quem está em outra vibe. Tentei, inclusive, me “adequar” e falar mais do que geralmente é escondido, mas me sentia mal. E olha, do alo dos meus 27 anos, vou falar uma das poucas certezas que eu tenho na vida: todas as vezes em que tentei me adequar, me ferrei totalmente. Na verdade, quanto mais eu falava do meu cansaço, mais cansada eu ficava, literalmente. Cheguei a conversar com o Cleber sobre isso. Amor, qual é o limite entre o desabafo e uma reclamação sem fim? Pensei muito sobre isso, depois volto pra falar desse assunto. E aí eu me calei. Nem sabia mais qual era a minha voz, ou o meu lugar, ou a minha turma. Puerpério é fogo, eu já disse. E pra mim também pegou nesse sentido.

Demorou pra eu perceber que, muitas vezes, a reação de quem está fora não tem a ver comigo, mas com a própria pessoa. Que a gente é espelho. Se você vê, está em você, é o que dizem. E isso também serve pra mim, para o que eu via. Mas este também é assunto pra outra hora. Demorou pra eu perceber que a minha forma de falar não estava anulando as outras, era só mais um jeito, que mesmo que eu concordasse com elas, não saberia falar da mesma forma, apenas porque não é a minha voz, não porque acho errado. E que tem lugar pra todo mundo nesse mundão.

Hoje eu acho que já me desvencilhei um pouco dessas amarras todas. Acho que tem lugar pra todo mundo e que cada um tem que fazer o que se sente bem. Essa sou eu, afinal. Estou tentando recuperar o meu ritmo de escrita e a forma como compartilho o que sinto. E queria muito falar disso aqui, porque a escrita tem poderes curativos em mim, então, é isso. Só queria mesmo dizer, pra mim mesma, que eu estou voltando pra mim, tentando achar o meu lugar aqui de novo. E que, dessa vez, é pra ficar.

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Por onde andei

Tenho a sensação de que já aconteceu muita coisa desde a última vez em que estive aqui. Ou que já vinha acontecendo desde antes. O fato é que senti saudades daqui e resolvi aparecer. Pra contar da vida, pra falar de nós.

Quando a pequena completou 1 ano, bateu forte em mim o lance de me reinventar. De novo, né? Porque ser mãe, pra mim, já é se permitir viver o novo sempre. E eu realmente me joguei nisso, mergulhei fundo em todas as novidades que apareceram, pelo tempo que tinha de ser. Mas estava chegando a hora de voltar à superfície e respirar outros ares novamente. Ver como seria esta experiência, de andar em outros caminhos que não fossem aqueles traçados por peraltices ou questões de cunho maternal.

Eu sabia mais ou menos o que queria fazer, só não sabia como.

Posso dizer que desde a época que quero ser mãe, quero também uma outra coisa, que sempre amei fazer e que faço desde que aprendi, aos 4 anos: escrever. Aliás, esse é um dos motivos de eu ter criado o blog: a minha paixão pela palavra escrita. Logo, é compreensível e até esperado que uma das minhas profissões mais respondidas quando criança era “serei escritora”. Eu fazia livrinhos, ilustrava, criava as falas, tudo. Era mágico.

Depois, mais do que a possibilidade de criar histórias, a escrita se tornou um refúgio. Para mim, que sempre fui tímida, escrever sempre foi minha melhor forma de expressão. Os livrinhos em folha sulfite ficaram lá na infância, como uma brincadeira, mas o ato de registrar meus feitos, sentimentos e pontos de vista cresceram junto comigo. Em algum momento do caminho, isso acabou se tornando só mesmo mais uma característica minha, algo normal. Eu escrevo porque é a única coisa que eu sei fazer, ué. Escrevo porque é como me comunico melhor, como resolvo minhas pendências internas, como elaboro o quer que esteja me incomodando. Sempre foi assim, pensei que continuaria sendo.

Mas aquela vontade de escrever um livro ainda morava em alguma parte do coração, isso eu sabia muito bem. Sempre tive certeza de que, em algum momento, as coisas iam acontecer e ele ia surgir. Provavelmente seria sobre algumas memórias que eu juro desde bem pequena que tenho e que vão morar no papel. Não sou boa em inventar uma história assim do nada, essa parte eu deixaria pra quem sabe. Isso tudo como uma possibilidade distante, uma vontade longínqua. Por hora eu seguiria escrevendo meus posts e outras coisas em outros lugares não publicados e fim de papo.

Só que aí vem a maternidade e muda nossas certezas de lugar, não é mesmo?

Com a vontade de voltar a fazer algo por mim e só por mim, a vontade de escrever um livro gritou forte. Como assim, gente? Eu nem conheço ninguém que possa me assessorar, e como eu ia vender, e que editora vai me publicar? Foram algumas perguntas que eu cansei de ouvir, numa vozinha irritante dentro da minha cabeça, querendo me impedir de seguir em frente. No fim do ano passado eu coloquei todas elas no modo silencioso para ver o que conseguia fazer com o que havia sobrado em alto e bom som: a vontade. Comecei a esboçar algumas coisas, colocar algumas ideias na tela em branco, tudo muito abstrato, sem saber o que seria amanhã.

No início desse ano eu decidi que isso ia acontecer e era assunto encerrado. Comecei a escrever diariamente com o intuito de levar isso para além dos limites da minha casa (e dos meus olhos). Ainda não vou dizer sobre o que é exatamente, mas tem muita memória, muita maternidade, muita infância, muito aprendizado e tudo mais que tenho visto por aí nesses anos todos de vida. Deve ficar pronto em um ano, se as coisas andarem como imagino.

Só que para a minha completa surpresa, algo aconteceu no meio do caminho. Um dia, cansada e lidando com sentimentos chatos que surgiram no meio das palavras, e não querendo entrar em pensamentos como “estou com bloqueio criativo” ou coisa do gênero, porque eles não ajudam em nada, abri uma nova tela em branco e comecei a escrever outra coisa. Outra coisa, nada a ver com o que havia na janela ali do lado. Uma história que não era minha, apesar de ser. E continuei escrevendo. E no dia seguinte também. E no outro, e no outro. E nos 30 e poucos dias seguintes a mesma coisa. Me apeguei na história e ela realmente aconteceu pra mim. Até hoje. Hoje eu acabei de escrever o meu primeiro livro de ficção. Um livro que não é sobre maternidade, não é sobre o meu universo, e que gostei muito de ter feito. Muito mesmo! Depois de pouco mais de 1 mês de trabalho. De madrugadas adentro, de sono, de bebê brincando longe com o pai e os avós, ou chorando querendo mamar, ou brincando na sala comigo inventando musiquinhas. 1 mês não sabendo o que aquilo ia virar, andando com a visão apenas até o próximo passo, e continuando mesmo assim. E as vezes achando que não ia dar muito certo, mas sem muito tempo de me ater nesses detalhes. Eu consegui. Um dia depois da Páscoa, celebro uma nova fase da minha vida, uma nova Marina que também divide espaço com as outras que já estão aqui.

Não sei o que vai ser desse meu pequenino filho que nasceu hoje. Não sei se vai ficar morando apenas na minha gaveta, ou se o jogo pro mundo em algum momento, tal qual uma mãe passarinha empurrando seu filhote do ninho para voar. Não sei se algum dia vou ganhar dinheiro com isso. Nem se alguém vai gostar. Por enquanto me basta o sentimento de saber que sou capaz de fazer o que eu quero. E que aquela menina que ainda ontem eu era, se orgulha da mulher que tenho me esforçado para me tornar.

Existe vida própria depois dos filhos, gente, e ela é linda!

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Cá estamos nós …

… prestes a completar 28 semanas de fabricação de pessoa aqui na barriga. Continuo com a clara sensação de que o tempo resolveu galopar em direção a julho, cada dia parece que passa mais rápido, nossa! Mas tá gostoso e tá dando pra curtir um bocado essa fase, é muito delícia!

Como deu pra perceber no post anterior, eu estava (estou…?) imersa num mar de introspecção, questões e outras coisinhas mais. Aliás, muitíssimo obrigada pelos comentários e pelo apoio, mesmo! Andava com a cabeça cheia, dormindo mal, pensando e fazendo várias coisas, minhas olheiras já estavam de panda, rs. Dia seguinte tive um encontro com uma doula linda, linda. Conversamos por 1 hora e meia, e eu percebi o quanto estava precisando daquilo. Conversar com alguém bem de fora, mas que fosse capaz de entender a minha visão de mundo etc e tal. Foi ótimo!! Saí com dicas para dormir melhor, uma respiração para acalmar e me sentindo bem mais leve. Acho que relaxei. Eu já tinha entendido e percebido claramente que precisava desacelerar o ritmo, que vinha de uma fase super frenética, e esse encontro só ajudou. Aí, ainda naquela semana, a roda começou a girar e as coisas estão acontecendo, finalmente, e se encaixando do jeito que tem que ser. Não do jeito ideal, óbvio. Mas do jeito que é pra ser agora. 
Ainda no feriado de Páscoa eu havia decidido que essa seria minha semana de descanso e de cuidar de mim, e assim está sendo. Já estava na hora de voltar minhas atenções pro que que tá rolando aqui dentro – física e psicologicamente, e incrível como esses pequenos nos dizem mesmo quando é hora de acelerar e quando é hora de dar uma pausa. Está sendo muito bom. Meu sono e minha alimentação já melhoraram super. Um dia de cada vez, naquele esquema que funciona por aqui. Corpo e mente agradecem – e a pequena também.
Por falar nela, preciso registrar que tenho certeza absoluta que ela tá dançando frevo aqui dentro. Só pode ser isso. A pessoa mexe, se remexe, se revira interinha, não sei como não cansa, haha. Já ouvi muito algumas mães dizendo que seus bebês ficaram na posição de nascer (cefálicos) praticamente 100% da gestação, sem surpresas. A Agnes não. A Agnes gosta de tudo com emoção. No morfológico do 2° tri ela estava muito bem sentada, obrigada. Já aconteceu, em consulta, dela fugir do sonar. Ou de, enquanto a obstetriz está apalpando o útero ela estar numa posição, quando pega o sonar para auscultar, ela já ter mudado. Dá pra ver claramente ela fazendo festa aqui dentro, só de olhar pra barriga, e agora que eu sei identificar melhor os movimentos, dá pra saber que ela não tem paciência de ficar parada, não. E assim seguimos, sem saber se alguma hora ela sossega de cabeça pra baixo, ou se vai ficar no ritmo ragatanga até nascer (depois que nascer nem comento agora, abafa o caso, kkkkk). A parte fofa toda vida é a relação dela com o Cleber. Ele põe a mão, ela mexe, às vezes de leve, às vezes forte. Ele conversa, ela responde. Sério, é toda vez. E eu sempre acho lindo!

Com tudo isso, só tenho a dizer que ainda bem que não organizei um chá de qualquer coisa, porque seria mais ou menos nessa fase. Não estou com ânimo para festas, nem em ser o centro das atenções, definitivamente. As coisas realmente acontecem da forma certa, amém. Em compensação, vou aproveitar esses dias pra adiantar as coisinhas que eu mesma vou produzir pra pequena. Enrolei um monte, já tenho vários materiais, mas agora vou começar mesmo. Em breve vou fazer umas fotos da barriga, coisa que faço questão de registrar com lentes e olhar profissional. ❤

Finalmente desencantei na escolha do carrinho e do bebê conforto e consegui comprar \o/ Eu pensei que nem ia ter nenhum, visto que sou super a favor do sling, colo em livre demanda e tal e coisa. Mas para alguns momentos acho legal ter, sim. Então, depois de muita pesquisa e indecisão, optamos por um dos primeiros que eu tinha gostado (clássico isso, haha). O bebê conforto encaixa na base do carrinho, do jeito que eu queria. Um é vermelho e o outro é preto, mas e daí, né?! O importante é que eu gostei, haha. Comprei numa promoção na internet (mas já tinha visto e analisado os dois ao vivo, na loja) e quando chegou, montamos pra ver se estava tudo certinho. Quem disse que eu queria desmontar e guardar depois? hahaha. Ficou até o outro dia lá no quarto, depois colocamos na caixa de novo. 

A quem interessar possa, é o Loola Up, da marca Bebé Confort, e o bebê conforto da mesma marca 🙂
                              
Bebê conforto vermelho, pra arrasar por aí 😛

                                        
Pretinho básico 😉
Quanto aos sintomas físicos, tá tudo indo bem também. Apesar de estar meio cansada e ter sentido essa necessidade de ficar quieta agora, a barriga ainda não pesa, tá super tranquilo abaixar, levantar e lavar o pé 😛
No comecinho da gravidez, enjoei feio de café. Só voltei a tomar há pouco tempo, e só tomo no café da manhã, com leite. Mesmo assim tenho sentido que a pequena não gosta muito, não, então tô tentando diminuir ainda mais. E não sei se tem a ver com a minha calma, mas a vontade de comer doces diminuiu muito essa semana. Até enjoei um pouco esses dias, e foi quando percebi. Andei tendo muitos desejos doces, mas agora tá super tranquilo, tanto que nem abusei na Páscoa.
A barriga deu uma crescida, acho eu. Também, com tanta animação aqui dentro, ela precisa de espaço, hehe. Tenho passado bastante creme e óleos para tentar evitar ao máximo as estrias, e por enquanto tem funcionado. Não vou comemorar nada ainda, porque tudo pode mudar, e não vamos ficar falando pra não atrair, kkkk. Olha só como estamos:

semana passada, com 26 semanas e 6 dias


Ai, acho que é isso, por enquanto. Já já eu volto com mais trololó!
Tá tudo bem aí com todo mundo? 🙂

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Gestação: caminho para dentro

Que eu sou uma pessoa intensa, que gosta de remexer no que está sentindo, buscar novas visões e entender bem o que se passa aqui dentro não é nenhuma novidade pra quem me conhece ou me lê. Isso acontece por uma série de motivos que, se eu fosse explicar direitinho, daria um (ok, mais de um) texto a parte. O fato é que eu sou mesmo assim e tudo bem, gosto disso. Só não sabia que isso mudaria um pouco quando eu engravidasse.

Na verdade, é meio complicado tentar explicar, porque como ainda estou no meio do processo, não sei em que pé estamos ou o que aprenderei com tudo isso. A sensação que eu tenho é que passou um vendaval surpresa por essas bandas e que ainda estou perdida. Percebo que há muita coisa para ser arrumada, limpa e organizada, mas é difícil saber por onde começar, tamanha bagunça do local. Aliás, isso aqui faz parte do começo da organização. Escrever, pra mim, é arrumar a casa, colocar cada coisa em seu lugar.
E não que seja uma coisa muito grave ou um problema enorme. Mas viver o novo, mesmo que seja cotidiano, faz a visão ficar mais apurada mesmo, não tem jeito. A prática é bem diferente da teoria, isso eu constato todo dia. E sim, isso mexe com o que a gente já sabe sobre nós mesmos. Ou melhor, com o que achamos que sabemos. Estar grávida é exatamente esse bagunçar de certezas. Ou é a maternidade, no geral, que é? Também não sei se isso acontece com todas as mulheres e só algumas é que decidem dar ouvidos a esse barulhinho de inquietação e ir investigar, ou se tem mulher que é mesmo super prática e bem resolvida. Fato é que eu tentei ignorar e colocar outras coisas em cima, mas não deu.

Lá atrás, quando comecei a estudar sobre gestação, parto e nascimento, fui criando uma espécie de base, que foi crescendo e se transformando claramente no que eu queria e desejava. Que demais!, eu pensava. Pude decidir isso assim tão cedo, imagina só, tem gente que só se dá conta do que realmente quer com 30 semanas pra lá, que bom que vou ter mais tempo pra me organizar.
ha-ha-ha.
Que tolinha que eu fui, achando que já estava assim tudo pronto, que a vida organiza a estrada dessa forma tão certinha pra gente só chegar e passar. Claro, por eu já ter muita informação e realmente já saber o que queria, muita coisa ficou mais fácil, sim. Já sabia desde o começo o que priorizar, aonde ir, com quem falar, quanto ter. Ter tudo encaminhado foi mesmo uma mão na roda, não posso reclamar. Mas eis que eu engravido e descubro, no meio do processo, que existem outras questões a serem abordadas. Questões que eu não encontrei em nenhum blog ou livro, pelo simples fato de serem só minhas. E que essas questões poderiam interferir, mesmo que indiretamente a princípio, nas decisões anteriores. E que só quem pode escolher alguma coisa sou eu, porque né?! empoderamento tem dessas coisas – e que ótimo que tem! Só que nem sempre é fácil escolher, esse é o ponto. Nem sempre é possível mudar uma rota assim, quando já se está pra lá do meio da linha de partida (e de chegada também). Nem sempre é fácil quando existe um prazo. E aqui está a minha principal questão: nem sempre é fácil quando existem outras pessoas envolvidas. Não só você. Não só você, seu bebê na barriga e seu marido. Outras pessoas. Ao mesmo tempo em que eu tenho plena consciência de que toda essa escolha está numa esfera muito pessoal e que não posso deixar de fazer, o que quer que seja, por causa da opinião de terceiros, também sei que bater de frente com o que se apresenta como obstáculo nem sempre é a melhor solução. É preciso saber dosar as coisas, e é nisso que consiste a bagunça que tenho que arrumar.

Na realidade, tudo isso tem muito mais a ver com assuntos pessoais e bem menos com o parto em si, ou com a gestação toda. Nem só de processos fisiológicos, nutrientes e semanas se faz um bebê. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, nutrientes e bebê se faz uma mãe. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, bebê e maternidade se faz uma nova mulher. Ah, acho que deu pra entender. Existem outras coisas. Existe aquilo que você acha que já está super bem resolvido, mas que é só numa situação dessas – com muito hormônio e alguma reflexão envolvidos – é que realmente vêm à tona e você percebe que não, não está super bem resolvido coisa nenhuma. No máximo estava pré-resolvido, com alguma decoração em volta, disfarçando e fazendo as vezes solução. Só aí você se dá conta da poeira que mora debaixo do tapete e o tamanho da faxina que terá que fazer, se quiser realmente viver num lugar limpo e parar de ter problemas respiratórios de uma vez por todas.

Quando você tem aquele click e de repente sabe de onde vem aquele tal barulhinho que não te deixava em paz, quando os acontecimentos são nomeados, eles passam a realmente existir, não é mais uma sensação ou uma ideia da sua cabeça. Você sabe pro que está olhando. E sabe, pelo menos a princípio, o que deve ser feito. E aí você chega em outro abismo: o saber o que fazer e a ação propriamente dita. Não sei se conseguirei construir essa ponte a tempo, porque realmente existem fatores externos que não sou eu quem comando. Isso me dá um certo desconforto, mas é preciso começar.
Posso deixar pra amanhã, pra depois que o bebê nascer? Claro que posso, a decisão é mesmo só minha. E poderia até ser mais fácil desse jeito. Mas quero ver é juntar fácil e maternidade na mesma frase – é quase um erro de concordância. Quero ver é dormir tranquila numa bagunça dessa.
Não faço ideia do que vai acontecer logo ali adiante. Mas pra saber só mesmo indo, não é? Então eu vou.

                                    
O caminho das pedras vai dar no mar.
Né?

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Pra gente se desprender

Eu preciso escrever um post sobre o livro O Poder do Discurso Materno, da Laura Gutman, me lembrem. Mas antes vou falar de outra coisa. Que é pra deixar registrado e seguir adiante, do jeito que tem que ser.

Logo que eu me descobri grávida, senti muita vontade de não contar pra ninguém, como disse aqui. Não era exatamente um casulo, vontade de ficar isolada. Só de me manter em silêncio sobre isso, guardar esse segredo pra mim. Como se eu sentisse que o bebê precisasse desse tempo sem muitas energias voltadas pra ele. Mas, aos poucos, comecei a perceber que eu também estava com medo (o que não anula o outro sentimento que acabei de comentar, eles coexistiam, apenas). Medo de dar errado. Medo de me jogar e quebrar a cabeça no asfalto. Medo de me entregar. Eu estava curtindo os sintomas e as mudanças todas, mas ainda não era uma coisa total, confesso. Os enjoos iam se intensificando – porque sim, muitas vezes o enjoo tem fundo emocional. Foi o jeito do meu corpo me dizer que estava sendo diferente dessa vez (pelo menos agora no começo, eu ainda não ouso dizer que vai ser tudo lindo), que estava tudo bem lá dentro. Coincidentemente, depois da minha consulta com a Cátia, os enjoos diminuíram 90%, acho que agora é só sintoma normal mesmo, rs.

Mas enfim. Como comentei no post sobre as primeiras semanas, estava meio chorona. Daí comecei a achar que tanto choro só podia ser por isso também, mais uma face do medo. Nem era tanto, eu realmente estou mais sensível, mas normal, eu choro fácil mesmo. Mas enfim, coloquei na cabeça que estava demais, me incomodei. Como eu sempre disse: não queria transferir para esta gestação os receios da outra.

Certo dia, no banho, minha ficha caiu. Eu ainda pensava constantemente na bolota. (Aliás, lembram desse post? Eu já sabia que estava grávida nesse dia). Eu ainda me prendia a ela. E sabe o que eu fiz? Comecei a conversar com ela (acho que nunca contei aqui com todas as letras, mas apesar de não termos ficado sabendo o sexo do bebê, tínhamos uma clara sensação de ser uma menina). Falei que a amo muito, e sempre vai ser assim. Que o lugar que ela ocupa em mim, aqui dentro do peito, não vai ser de mais ninguém, é um quarto na casa só dela. Que eu estava com um pouquinho de medo, mas que eu precisava me libertar para viver essa nova etapa da minha vida – e ela a dela, seja lá onde estiver. Que ela podia ir, porque eu também estava indo. Era a hora. E que não ficasse com medo também, pois daria tudo certo. Seremos sempre uma da outra, mas agora de uma forma diferente, como diz a música num outro nível de vínculo. E tudo bem ser diferente. Que tinha uma outra vida dentro de mim, e que eu amo as duas, mas que eu precisava me dedicar um pouquinho à essa, agora. Essa vida que está crescendo aqui, irmx dela, precisa do meu amor tanto quanto ela precisou, até falei que não precisava de ciúmes, rs – e é bem estranho, mas eu sinto que são pessoas completamente diferentes, ou seja, são amores diferentes, exclusivos.
Conversei, expliquei, chorei. E aos poucos foi mesmo passando. Como se eu tivesse nos libertado do que quer que estivesse nos prendendo uma à outra. Ficou o amor, mas se foi uma espécie de peso que ainda existia.

E aí segui em frente. Acho que já faz uns 15 ou 20 dias, mais ou menos.
Ainda um dia de cada vez, mas realmente o que eu sentia antes, no comecinho, não sinto mais.

E ontem, escutando o novo disco do Jeneci, prestei atenção na letra de uma música. Eu estava pensando em outra coisa, então a princípio nem me liguei com nada. Mas a música me pegou, a melodia é divina. Ouvi de novo. E comecei a chorar. É muito o que aconteceu e que eu acabei de contar aqui. Então resolvi escrever esse post, pra registrar tudo, deixar a letra e a música pra vocês também e dizer, de novo, que a gente se desprendeu (Pra gente se desprender, é o nome da música). Acho que foi quando eu percebi que realmente tinha acontecido. Já ouvi a música de novo, mas não me fez mal, foi só um insight daquele momento. Quem tiver um tempinho, ouça a linda voz da Laura Lavieri cantando, faz diferença. Mas vou deixar a letra também.

Eu sinto o tempo pairando em outro tempo
Correndo bem lento nas asas de um beija-flor
Que espera a flor acordar enquanto o dia não vem
Geleiras vão desabar mudando a cor do mar
Imenso que leva abraços e esperas
Minutos são eras a cada passo pro fim
Se o universo girar pra gente se desprender
Te encontro em outro lugar em paz
Ou não ou nunca mais

Agora é hora da gente se esquecer
Que o tempo e o vento não vão parar de bater
E a cada ponto final a história vai repetir
A gente é mais que um plural e a vida é muito mais
Que a gente espera temendo a toda queda
Deixa a geleira cair e o beija-flor descansar
Um novo agora virá
Escute o som do mar

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De repente…

E então você vive o luto e, aos poucos, a nuvem densa que pairava sobre a sua cabeça vai se dissipando.
Setembro chega e, com ele, você começa a viver dias mais felizes. Mais leves. Com mais sorrisos. Presença dos seus amigos. Piquenique. Cafés e sorvetes. Cinema. Namorando muito. Escrevendo alguns rascunhos. Saindo mais de casa. Até comprou umas roupas novas, coisa que não fazia há tempos. Até resolveu ficar por uns tempos sem comer carne, e está se sentindo muito mais leve assim. Feliz. 
Você começa a perceber que alguma coisa mudou em você. Se antes – antes mesmo, desde o ano passado – você preferia ficar em casa, numa imersão total, agora parece que aquele ciclo finalmente está se encerrando. Naturalmente, a vontade de sair, de viver novas coisas, chegou. E é isso que você tem procurado fazer, dia após dia. E mesmo quando fica em casa, está diferente. A energia mudou. Novos planos. Novas atitudes. Mais contato com a natureza. Viagem programada para breve. Pensando em detalhes das festas de fim de ano. Interagindo muito mais com aqueles que lhe fazem bem. Inventando um projeto novo. Muita coisa. Ao mesmo tempo. Apesar de agitada e em constante movimento, sua cabeça está leve.
Você ainda está se acostumando a esse ritmo novo, que chegou meio sem avisar. Percebe que é preciso – que você realmente quer – fazer certas coisas antes da próxima gestação. Já está fazendo, aliás. É tempo de ação, não mais de recolhimento. Você desenha uma nova rotina, com alguma flexibilidade. Finalmente, vislumbra algo que parece um caminho. Ou ao menos um atalho. Sensação de estar adentrando um novo terreno, em que a terra lhe parece muito favorável ao que você quer plantar. 
E então resolveu, junto com seu marido, que as tentativas só começariam em alguns meses…
Aí, numa segunda-feira, você acorda e, entre uma tarefa e outra, sente uma vontade absurda de ter um filho. Dentro de você. Fora de você. Consigo. Já. É  uma vontade tão real que é quase palpável. A pauta do texto que você começou a escrever horas antes fica sem sentido e você mal sabe o que fazer com esse sentimento. E resolve, então, escrever um outro texto.
E de repente, não mais que de repente, você se dá conta. 
Não importa o quanto você tenha mudado e quais são seus planos e ações. A sua essência sempre vai te lembrar os motivos que fazem seu coração bater mais forte e querer ir além. A maternidade é uma caixinha de surpresas, linda e intensa, e um filho nunca segue o que você determina como ideal. E, sim, eles te mostram isso a partir do momento em que se tornam desejados. 
Que bom que você está agora num caminho novo, com a cabeça mais leve e o coração mais tranquilo. Terra nova, e fértil, será mesmo necessária pra tanta novidade que está por vir. Quanto aos planos… ah, você já está acostumada a mudá-los a todo momento mesmo. Não vai ser novidade se fizerem isso dessa vez.
Arquivo pessoal. Foto de Lilian Higa, minha amiga e fotógrafa incrível

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9 de setembro

Há vinte quatro anos e 1 mês atrás, eu nasci. 

Há exatamente cinco anos atrás, eu beijava o meu marido pela primeira vez. 

Há dois anos e 1 mês atrás, ganhei um primo-sobrinho para dividir o dia de aniversário.
Há um mês atrás, eu renasci.
É, parece que o dia 9 de setembro gosta mesmo de mim. E eu adoro setembro, preciso dizer.
Um mês de renascimento. Quanta coisa aconteceu, quanta coisa eu senti. 
Seria muito óbvio se eu dissesse que muita coisa mudou nesse período. Mudanças que já vêm acontecendo há um tempo e só agora se consolidaram de fato. Ou não. O que sei é que elas estão acontecendo.
Se alguém me dissesse, há um mês atrás, que hoje eu estaria assim, com o coração muito mais leve do que naquele dia, eu mandaria a pessoa pra putaquepariu; mas ninguém disse, ainda bem – está sendo muito melhor descobrir isso assim, aos pouquinhos, enquanto vai acontecendo. 
Há uma semana fui completamente liberada do repouso e estou mesmo muito bem. Até dancei e pulei num show com amigos, no sábado (e também chorei, quando ouvi uma música muito marcante dos dias do passado, mas faz parte). Já podemos voltar às tentativas, inclusive, mas ainda não aconteceu. Ainda falta uma parte do ciclo, particular nossa, para ser vivida e encerrada.
Enquanto escrevo, me sinto realmente renascida. 
Talvez seja efeito do fim de semana, que foi lindo. Sábado e domingo felizes como há muito eu não tinha. Fundamental. Hoje o dia também foi ótimo. Para amanhã, tenho bons planos (e é meu aniversário de casamento!). Mas talvez não. Talvez seja realmente a sensação de que as coisas estão se transformando, de que a pausa, muito necessária, pela qual passei nos últimos tempos está finalmente se encerrando e novas coisas, cores e sabores chegarão aqui, muito em breve.
Ainda sinto uma saudadinha, um apertinho no coração quando me lembro, por um segundo, como eu poderia estar hoje (barrigamente falando). São pensamentos rápidos e não me atenho à eles. Minha bolota (<3) foi tão demais de incrível que, em algum lugar da minha consciência, eu já entendo que tinha mesmo que ser assim. A bagagem de aprendizado que ela me trouxe é imensa e estou vestindo cada um deles com muito carinho e com muito cuidado, pois são peças realmente muito importantes e muito raras – e quero que durem por muitos, muitos anos.
arquivo pessoal

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Dia estranho, mente inquieta…

Essa semana estou me sentindo bem melhor do que na semana passada, fisicamente falando.
Quer dizer, emocionalmente também, porque até consegui escrever um texto, e depois outro logo em sequência – a coisa está andando, mesmo devagar, mas está. O plano era ter vindo postar ontem a continuação dos aprendizados, porque são coisas que eu realmente não quero deixar passar em branco, mas os planos sempre mudam e acabei não vindo.

E hoje o dia foi particularmente estranho.
Sinto uma saudade absurda do meu bebê, da minha barriga, da gestação. Procuro, com todas as forças, não pensar em que semana eu estaria agora, ou qualquer coisa assim, mas é claro que não dá sempre certo e eu penso um pouquinho, sim. Não me martirizando ou lamentando eternamente, é mais uma… saudade mesmo, entendem? Não tem outra palavra que se enquadre melhor aqui. Antes de engravidar, eu sempre dizia que sentia saudade do que ainda não tinha chegado. Agora, então, é uma saudade real. Doi muito.
E muitas vezes é inevitável pensar, porque tinham coisas que já eram muito automáticas, já faziam parte do meu dia-a-dia: na hora de comer (eu sempre dizia “estamos com fome!!”), na hora do banho, em cada coisinha eu incluía o baby também, era sempre “nós” – e, da noite pro dia, ter que medir as palavras não é fácil. O Cleber também sente falta, ele sempre passava a mão na minha barriga quando estávamos deitados, conversava, dava “tchau” e – a parte que sinto uma baita falta – sempre dizia: “Amo vocês!”. Agora, todo dia quando ele diz que me ama, antes de ir trabalhar, eu fico esperando o plural, e ele nunca chega (porque claro que ele se controla, para não me deixar triste). São dessas pequenas coisas que sinto falta. O cotidiano, o que já me era natural.

Apesar de, neste momento, estar numa vibe mais pra baixo, me mantive bem durante boa parte da semana. Mas confesso que muitas vezes eu sinto um vazio, um “e agora?”, quando penso nos próximos dias e meses. Porque não é simplesmente “ah, tenta de novo”. E o que eu vou fazer até lá? Essa semana ocupei bastante a minha mente, pensei até em retomar umas ideias doidas antigas, quem sabe um projeto novo, não sei. Tenho pensado muito em trabalhar ou fazer um curso, pelo menos temporariamente. Porque com a mente ocupada eu não dou margem à tristeza excessiva e aí faz de conta que o tempo tá passando mais rápido, né? Mas hoje quebrei a cabeça por horas e horas e não soube o que fazer, o que decidir, me senti péssima… (até que, agora há pouco, conversei com a Nana linda e surgiu umas ideias, né querida? Obrigado, de verdade!). Não sei ainda o que vai rolar ao certo, mas sei que vai ter que rolar!

Minha mente está inquieta, meu coração aos “trancos e barrancos” (como diria meu pessoal lá de Minas), e estamos todos – eu, minha mente, meu coração – tentando achar uma solução que agrade todos e que seja para breve.

Espero que o Sr. Tempo colabore.
Prometo vir contar quando descobrir alguma coisa.

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Das coisas que aprendi

Ontem eu escrevi um textono meu outro blog, sobre uma “teoria de vida” que eu tenho: tudo em nossas vidas acontece por uma razão. Eu acredito nisso e me apeguei ainda mais a essa ideia agora, nessa tempestade que passei.
Claro que eu não posso afirmar com categoria “esse bebê veio pra isso, isso e aquilo outro”. Assim eu estaria, no mínimo, sendo prepotente. Além de estar diminuindo a grande missão daquela alma. Algumas coisas, com certeza, estão além do que supõe a minha vã filosofia – e eu também reverencio e admiro esse mistério divino. Mas eu acredito, também, que muita coisa que aprendi e vivi nesse tempinho se deu por sua presença aqui em mim. Disso eu posso falar. Porque eu percebo que algumas peças mudaram de lugar no meu tabuleiro, que algumas dúvidas e neuras que eu tinha, hoje ou não existem mais, ou estão em processo ativo de ser resolvido. E eu não posso simplesmente guardar isso, eu preciso registrar, porque além de ser ferramenta da memória, a escrita é minha aliada em muitas outras coisas. E eu vou fazer isso já, antes que eu me esqueça de alguns pormenores. Algumas coisas eu percebi durante a gestação e, por incrível que pareça, outras constatações vieram com a perda. Pois é, esta sou eu querendo encontrar algo positivo em meio a tanta dor.

Das coisas que me aconteceram durante a gestação:
Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que antes. Já até citei isso aqui no blog quando percebi. E sim, isso me surpreende, porque antes de engravidar eu era uma pessoa muito (muito!!) ansiosa, afobada, que fazia coisas por impulso e que sofria por antecipação. [Pra falar a verdade, isso era mil vezes mais frequente em mim antes de conhecer o Cleber – todo o processo de “sossega, Marina” (nome que eu acabei de inventar, rs) começou quando o conheci, não posso deixar de dar os créditos também a ele – mas desde que me descobri grávida passei a me sentir ainda mais calma pra lidar com algumas coisas do que antes]. Sendo sincera, não sei porque isso aconteceu, talvez tenha sido um amadurecimento mesmo, ou a minha forma de encarar certas coisas tenha mudado. Hoje eu consigo focar mais no que me faz bem e isso deve ajudar também. Só sei que até o meu irmão, que mora há mais 2.000 km de distância, disse que percebeu que eu mudei, que até o meu jeito de falar mudou – e ele disse isso alguns dias depois da perda- e isso só me mostra que o negócio pegou mesmo em mim, já que consegui permanecer assim, dentro do possível, até para encarar tudo que aconteceu de um jeito diferente.

Eu falei naquela blogagem coletiva que passei a confiar de verdade no meu corpo e em seus sinais, isso também foi algo que mudou. Aliás, acabei de ler o post de novo e me lembrei que eu tinha um medo real de algo dar errado. Naquela época, meus medos giravam em torno de uma gravidez anembrionária, ou de perder o bebê no comecinho – nunca nem pensei em algo dar errado com 17 semanas, mas enfim, aconteceu e agora estou aqui tentando colar os caquinhos. Mas o que quero dizer, além de tudo que citei lá no outro texto, é que ainda confio no meu corpo, sim. Eu poderia pensar que tem algo errado em mim (ou no marido, sei lá), mas esta nunca foi uma opção. Eu não sei o momento exato em que a vida do bebê se encerrou, só sei que eu tinha uma pulga atrás da orelha e isso me diz que sim, o meu feeling ainda funciona – e espero que continue assim por muito tempo – e o meu corpo trabalhou perfeitamente bem desde sempre, não há como negar. Também não me arrependo do fato de ter optado por fazer menos ultrassons (eu poderia ter feito um na semana anterior para tentar descobrir o sexo, mas não fiz), porque o fato de eu descobrir algo antes não ia mudar o desfecho da história – tudo acontece quando tem que acontecer, é o mantra que ecoo sempre, para me lembrar disso.

Sobre o tempo, eu poderia deixar para falar no post que vou fazer sobre as coisas que aprendi com a perda, mas aconteceu também durante, então vou citar nos dois. O que aconteceu foi que o meu ritmo diminuiu muito no tempo em que estive grávida. Eu fiquei mais introspectiva, não fui em shows, tive zero vontade de me exercitar. E eu respeitei isso, não tentei ir contra, não. Simplesmente porque acho que as coisas têm que ser vividas em sua totalidade (na medida do possível, claro). Foi um tempo fundamental para outra coisa que veio junto: a minha conexão comigo mesma (e, obviamente, com o bebê). Peguei mais leve fisicamente, mas emocional e psicologicamente foi intenso. Foi um tempo meu, em que me permiti viajar um pouco e que também veio à tona muitas respostas (com a ajuda do meu marido lindo, tenho que dizer, rs).

Não sei, tenho a impressão de que essas são só algumas coisas. É como se eu tivesse esquecido algo, ou talvez elas estejam relacionadas ao que citei aqui. Pode ser que algumas eu só descubra com o passar do tempo, quem sabe. Só sei que tenho uma sensação forte de que a minha fonte de luz me fez muito bem e que, entre outras coisas, ela veio para me ensinar mais sobre mim, sobre nós, sobre a vida.

Imagem: We Heart It

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Envergo, mas não quebro

Então a pessoa vem aqui, chora, reclama das inconstâncias da vida… e some. Aí é ruim, né gente?!
Daí que eu quero escrever montes e montes de coisas, mas eu sempre perco o fio da meada diante de tanto assunto. Ou seja, vamos começar aos poucos.

– Ainda estou de repouso. As coisas foram muito bem semana passada, no fim de semana comecei a acreditar que ia chegar ao fim, mas hoje tive uma (ingrata) surpresa e o sangramento (meio forte) voltou de novo. Pode durar até 3 semanas, então tá dentro do esperado. Mas como sou sensível pra essas coisas, preciso colocar o pé no freio, porque fico mais molinha mesmo.

–  Emocionalmente, estou indo bem. Senti aquela tristeza na quinta, já na sexta estava praticamente uma bipolar: ora queria uma gravidez pra ontem, já!, outra hora ainda chorava e nem queria pensar no assunto.
Agora estou firme, eu acho. Digamos que está tudo indo pros seus devidos lugares, mas ainda no esquema “um dia de cada vez” – meu lema de vida, rs.

– Por falar em fim de semana, sábado foi aniversário da minha mãe (beijo, mãe!) e fomos ao shopping rapidinho, já que eu me sentia bem e estava há uma semana de molho. Andamos, compramos, tomamos um café básico pra esquentar, e depois voltamos, porque me cansei rápido. Mas foi ótimo!

 um capuccino e uns docinhos pra aquecer 

Sábado. Ele nunca olha pra foto. E eu já consigo sorrir!
(alguma olheira ainda e disfarçando qualquer vestígio de palidez com filtros do instagram – mas estamos assim)

– Decidi que vou criar calos nos dedos, se preciso for, mas vou botar tudo isso que tá aqui dentro na tela (ou no papel). Tenho vontade de fazer isso já há algum tempo e nunca soube muito bem por onde começar (ainda não sei, mas né? isso é só um detalhe), mas, diante do que aconteceu e dos (novos) pensamentos que isso me trouxe, preciso mesmo fazer alguma coisa.

– Ou seja. Provavelmente, ainda surgirão alguns textos “reflexivos – oi, autoconhecimento” sobre o que passou. Não tenho um plano traçado – e os rascunhos estão quase todos na minha cabeça ainda – mas à medida que pintar inspiração para outros assuntos, vou postando também.

– Ainda não sei quando vamos – marido e eu  – voltar às tentativas. Agosto já está quase chegando ao fim (céus! já?) e, pelo menos o pensamento de hoje, é “descansar” em setembro. Ou seja, antes de outubro não rola. Tudo vai acontecer no tempo certo e eu vou atualizando vocês, na medida do possível.

– Já consigo ouvir música normalmente, amém! Não sei se todas, porque também não vou ficar escolhendo justo as que mais mexem comigo, né? Mas se já ouço os mesmos artistas sem chorar, já é um avanço e tanto! Tanto que o nome do post é uma música do Lenine. Um pedacinho dela aqui:

” (…)
Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mais volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibrio e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambú-taquara
Eu envergo mas não quebro
(…)”

– Ontem estava aqui de bobeira e resolvi dar uma mexida no layout do blog (já que moedas pra contratar um profissional eu não tenho). Achei que esse céu tem tudo a ver com o nome do blog, hahaha #aloca. E desvinculei total do Google + (que eu nem tinha escolhido, veio automático quando criei), agora só perfil Blogguer mesmo e tá de bom tamanho.

E chega, né? Escrevi demais!
E vocês, como estão?
Beijo pra todo mundo e que tenhamos todos uma boa semana 🙂

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