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Pra gente se desprender

Eu preciso escrever um post sobre o livro O Poder do Discurso Materno, da Laura Gutman, me lembrem. Mas antes vou falar de outra coisa. Que é pra deixar registrado e seguir adiante, do jeito que tem que ser.

Logo que eu me descobri grávida, senti muita vontade de não contar pra ninguém, como disse aqui. Não era exatamente um casulo, vontade de ficar isolada. Só de me manter em silêncio sobre isso, guardar esse segredo pra mim. Como se eu sentisse que o bebê precisasse desse tempo sem muitas energias voltadas pra ele. Mas, aos poucos, comecei a perceber que eu também estava com medo (o que não anula o outro sentimento que acabei de comentar, eles coexistiam, apenas). Medo de dar errado. Medo de me jogar e quebrar a cabeça no asfalto. Medo de me entregar. Eu estava curtindo os sintomas e as mudanças todas, mas ainda não era uma coisa total, confesso. Os enjoos iam se intensificando – porque sim, muitas vezes o enjoo tem fundo emocional. Foi o jeito do meu corpo me dizer que estava sendo diferente dessa vez (pelo menos agora no começo, eu ainda não ouso dizer que vai ser tudo lindo), que estava tudo bem lá dentro. Coincidentemente, depois da minha consulta com a Cátia, os enjoos diminuíram 90%, acho que agora é só sintoma normal mesmo, rs.

Mas enfim. Como comentei no post sobre as primeiras semanas, estava meio chorona. Daí comecei a achar que tanto choro só podia ser por isso também, mais uma face do medo. Nem era tanto, eu realmente estou mais sensível, mas normal, eu choro fácil mesmo. Mas enfim, coloquei na cabeça que estava demais, me incomodei. Como eu sempre disse: não queria transferir para esta gestação os receios da outra.

Certo dia, no banho, minha ficha caiu. Eu ainda pensava constantemente na bolota. (Aliás, lembram desse post? Eu já sabia que estava grávida nesse dia). Eu ainda me prendia a ela. E sabe o que eu fiz? Comecei a conversar com ela (acho que nunca contei aqui com todas as letras, mas apesar de não termos ficado sabendo o sexo do bebê, tínhamos uma clara sensação de ser uma menina). Falei que a amo muito, e sempre vai ser assim. Que o lugar que ela ocupa em mim, aqui dentro do peito, não vai ser de mais ninguém, é um quarto na casa só dela. Que eu estava com um pouquinho de medo, mas que eu precisava me libertar para viver essa nova etapa da minha vida – e ela a dela, seja lá onde estiver. Que ela podia ir, porque eu também estava indo. Era a hora. E que não ficasse com medo também, pois daria tudo certo. Seremos sempre uma da outra, mas agora de uma forma diferente, como diz a música num outro nível de vínculo. E tudo bem ser diferente. Que tinha uma outra vida dentro de mim, e que eu amo as duas, mas que eu precisava me dedicar um pouquinho à essa, agora. Essa vida que está crescendo aqui, irmx dela, precisa do meu amor tanto quanto ela precisou, até falei que não precisava de ciúmes, rs – e é bem estranho, mas eu sinto que são pessoas completamente diferentes, ou seja, são amores diferentes, exclusivos.
Conversei, expliquei, chorei. E aos poucos foi mesmo passando. Como se eu tivesse nos libertado do que quer que estivesse nos prendendo uma à outra. Ficou o amor, mas se foi uma espécie de peso que ainda existia.

E aí segui em frente. Acho que já faz uns 15 ou 20 dias, mais ou menos.
Ainda um dia de cada vez, mas realmente o que eu sentia antes, no comecinho, não sinto mais.

E ontem, escutando o novo disco do Jeneci, prestei atenção na letra de uma música. Eu estava pensando em outra coisa, então a princípio nem me liguei com nada. Mas a música me pegou, a melodia é divina. Ouvi de novo. E comecei a chorar. É muito o que aconteceu e que eu acabei de contar aqui. Então resolvi escrever esse post, pra registrar tudo, deixar a letra e a música pra vocês também e dizer, de novo, que a gente se desprendeu (Pra gente se desprender, é o nome da música). Acho que foi quando eu percebi que realmente tinha acontecido. Já ouvi a música de novo, mas não me fez mal, foi só um insight daquele momento. Quem tiver um tempinho, ouça a linda voz da Laura Lavieri cantando, faz diferença. Mas vou deixar a letra também.

Eu sinto o tempo pairando em outro tempo
Correndo bem lento nas asas de um beija-flor
Que espera a flor acordar enquanto o dia não vem
Geleiras vão desabar mudando a cor do mar
Imenso que leva abraços e esperas
Minutos são eras a cada passo pro fim
Se o universo girar pra gente se desprender
Te encontro em outro lugar em paz
Ou não ou nunca mais

Agora é hora da gente se esquecer
Que o tempo e o vento não vão parar de bater
E a cada ponto final a história vai repetir
A gente é mais que um plural e a vida é muito mais
Que a gente espera temendo a toda queda
Deixa a geleira cair e o beija-flor descansar
Um novo agora virá
Escute o som do mar
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7 dias, um de cada vez…

Uma semana de dor, de ausência, de saudade.
Se ontem eu estava achando que estava lidando com isso até que bem (na medida do possível), hoje não tenho certeza de nada.
Uma tristeza…

Choro pensando nos sinais que não percebi – dor de cabeça, insônia: isso já indicava, no meu contexto, no meu ritmo de vida, que algo não ia bem.
No sinal que percebi, mas não dei bola – a mesma sensação física que senti no corpo, perto do estômago/coração quando ela estava chegando, senti nas costas, no mesmo lugar, quando estava indo – não posso dizer que não fui avisada, apesar de não ter entendido nada quando senti isso certa noite.
No que eu nunca vou entender.

Pelo ultrassom que fiz, já fazia três semanas que algo estava errado, que o desenvolvimento vinha caindo, parando. Mas eu ainda a sentia aqui, ainda conversava com ela, fazia massagem…
Hoje eu olho minha barriga, reta, e percebo que ela estava grandinha, sim, quando eu achava que não estava (e percebo que eu também tinha alguma razão em implicar com ela, que se recusava a ficar mais durinha). Meus seios também já mudaram. Mas o meu amor, não.
A pele pálida e as olheiras ainda estão aqui, apesar de mais discretas do que há uma semana.

Uma semana. Parece que foi ontem. Parece que foi há meses.
Coisa esquisita esse negócio de tempo, né?

Ao mesmo tempo em que venho tentando (re)significar o que aconteceu e olhar tudo por um prisma diferente, com um significado maior – e preciso dizer que é nisso que acredito e me apego a cada instante, como um bote salva-vidas – também sou tomada, às vezes, por pensamentos tristes, de vazio. Como hoje…

… que faz um dia frio em São Paulo, e eu não me importo com isso, até gosto. O que me faz pensar que era mesmo ela que não era muito fã dos dias cinzas. E eu aproveito a garoa e a chuva pra chorar, como um disfarce.

Faz dias que não consigo ouvir música. Era um momento nosso, ainda não consigo encarar certas melodias. Mas nesse contexto de hoje, me peguei pensando numa música, que eu não vou dar play, pra não inundar tudo de vez, mas vou colocar aqui.

“A chuva é a vontade do céu de tocar o mar
E a gente chove assim também quando perde alguém
Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer
Assim se purifica o ar depois de chover”
A Chuva, Marcelo Jeneci

A música só tem uma estrofe e não está registrada em estúdio.
Ele (o Jeneci) diz que é uma letra inacabada, mas que gostou dela assim, e a canta em alguns shows.
Como um mantra. É sempre emocionante ouvir (e nesse show do link eu estava presente).
Então fico por aqui, repetindo meu mantra.
Porque como diz outra música dele: “quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar”.
E eu espero que ele volte logo; e que a felicidade volte a ser “só questão de ser”.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – a noite

Segunda – e longa – parte do post sobre a minha perda (a primeira aqui), e que também foi revisado entre lágrimas. Mais uma vez, é favor perdoar erros ou repetições.
Este é um relato sincero e com detalhes de como aconteceu, comigo, a parte fisiológica do processo.
Sinta-se à vontade para não ler, por qualquer que seja o seu motivo. 

À noite – acredito que já era umas 22:00 (ou foi antes?) – minha mãe fez um chá de canela pra mim. Eu odeio chá, não tomo de jeito nenhum. Mas naquela circunstância eu encarei como remédio, como uma forma de fazer com que o processo fosse o mais natural possível. Ela fez meio forte, só consegui tomar uns dois ou três goles pequenos, deixei o resto da caneca de lado. As cólicas iam e vinham, sem muita frequência, e eram perfeitamente suportáveis, como se eu tivesse pra ficar menstruada mesmo.
Comecei a pensar no meu último encontro com a doula, em que conversamos sobre as fases do parto. “Pródromos: continue sua vida normalmente. Fase latente: a coisa vai começar a engrenar. Fase de transição: um dor atrás da outra, quando já está no fim da dilatação, é quando mais doi. Expulsivo: não doi”. Juro que me lembrei da Isa me falando isso. A Betina tinha dito que eu ia entrar em trabalho de parto – e foi assim que eu resolvi encarar as dores. Emocionalmente, não gosto de pensar (nem de falar) que foi um parto – pela idade gestacional, porque não foi cheio de ansiedade e alegria para ver o meu bebê, porque não tem bebê aqui agora. Mas fisiologicamente foi um parto – guardadas as devidas proporções, obviamente. E eu não usei em momento algum a palavra aborto – aqui nesse texto é a primeira vez – e nem pretendo usar, porque dá um peso muito maior pro que já é bem difícil.
Eu queria ir dormir, mas o Cleber estava vendo um filme (tentando preencher a mente) e eu não queria sair do lado dele, então fiquei no sofá também. Me aninhei no peito dele e cochilei.

09 de agosto de 2013.
Depois que o filme acabou fomos pra cama, já era pouco mais de meia noite, e as dores estavam começando a ficar mais fortes, bem incômodas mesmo, mas passavam. Eu estava com medo de sair o feto enquanto eu estava deitada e ter que olhar – tinha muito medo mesmo. Perguntei isso pra Betina, e ela disse que provavelmente sairia dentro da bolsa, então eu não veria nada, mas tinha uma pequena chance de estourar e eu ter que ver. Entendam, eu não estava desprezando o meu bebê, de forma alguma, mas na minha cabeça realmente não era mais a Bolota ali, ela tinha ido embora dali pra sempre. E eu não me sentia preparada o suficiente pra lidar com mais aquilo. Fora que eu tinha medo da quantidade de sangue, por causa da minha sensibilidade. Conversei com Deus, entreguei meu medo. Rezei para ter forças para aguentar o que viesse, do jeito que viesse; peguei no sono.

Acordei com uma dor forte e fui ao banheiro, achando que tinha começado. Nada. Mas meu intestino começou a funcionar. Voltei pra cama, para tentar dormir – era 1:30 da manhã. Cochilei, me revirei na cama quando a dor vinha forte. Fui ao banheiro de novo. 2:30 da manhã, vi no celular. E uma hora depois, a mesma coisa, banheiro. Voltei pra cama, devia ser algo depois das 3:30 e antes de 4:00. Não tinha sangue ainda, só um tipo de corrimento marrom, fraco, sei lá. Eu queria ficar o máximo na cama, perto do Cleber, dormir, esquecer. Mas a dor estava aumentando e eu começava a me perguntar se aquela não iria embora, parecia não ter fim. Levantei. Andei pela casa. De tanto ler relato de parto, cismei que queria tomar banho, porque a água quente ajuda a aliviar a dor. Era muita dor – na parte de baixo da barriga e um pouco na lombar. Fui no quarto da minha mãe, mas ela dormia e eu não quis insistir em chamá-la (acordar o Cleber nem passou pela minha cabeça, eu queria que ele estivesse descansado de manhã – vai saber o que ia nos esperar). Voltei pra sala, fiquei de cócoras, tentei mexer os quadris, ficar apoiada na mesa. Nada fazia a merda da dor passar, estava demais. Comecei a sentir calor. Acordei minha mãe, não dava mais pra ficar sozinha. Eu disse que queria tomar banho, e quando ela foi responder, virei as costas e entrei no banheiro, queria vomitar. Sentei no vaso, tirei a roupa inteira (nossa, que calor que eu sentia), senti uma dor profunda… e vomitei. Foi muito intenso. O corpo realmente sabe o que fazer, hoje eu vejo. Minha mãe entrou no banheiro pra ficar comigo. Enquanto estava com a cabeça pra frente – por causa do vômito – olhei entre minhas pernas e vi que tava descendo uma coisa que eu suponho que fosse o tampão, mas não tenho certeza. Era uma coisa como uma “liga”, ou uma “gosma” (desculpem as palavras, não sei como dizer isso usando termos mais leves); só sei que desceu e ficou lá, meio parado, como se tivesse empacado. Como que eu ia me limpar e tomar banho daquele jeito? “Mãe, tá descendo uma coisa”. Ela disse pra eu ficar lá sentada, então. Minha barriga já era outra, bem diferente do que um ou dois dias atrás. A gente tentava conversar alguma coisa, qualquer coisa, mas não dava. Ela ficou lá em pé, do meu lado, e eu sentada, sem a mínima coragem de levantar. A dor era perfurante. Me lembro de dizer, em algum momento: “parabéns pra mim”, ainda esboçamos um sorriso. Ela disse parabéns e eu disse que era um renascimento – precisava acreditar nisso. Nessa conversa – que eu ainda disse que “nem havia nascido ainda”, porque era umas 04:30 da manhã, e eu nasci 06:20 – a dor passou. Ficou uma espécie de peso, mas a dor cessou. Aí, quando eu não esperava nada, senti uma coisa assim: ploft!, literalmente. De dentro de mim, pra fora. Senti “uma coisa” (que eu ainda não sabia o que podia ser) passando pelo canal. Foi rápido e não doeu. Fiquei surpresa com aquilo e avisei minha mãe. Olhei rapidinho e vi, de novo, aquela gosminha, mas dessa vez com um pouco de sangue. Eu ainda queria tomar banho, achava que tava só começando, não tinha muita noção das coisas – mas sim, já era o “expulsivo”, e pelo tamanho que senti passando, era mesmo o feto indo embora, junto com a bolsa, mas não pensei mesmo nisso na hora. Pedi água e minha mãe foi buscar. Não sabia mais se sentia calor ou frio. Pedi uma bolachinha de água e sal, porque comecei a perceber que minha pressão dava sinais que estava caindo. Comi um pedacinho só. Eu precisava deitar, não estava nos planos desmaiar no banheiro, ainda mais naquelas circunstâncias. Minha mãe trouxe uma blusa de um pijama dela e eu disse que precisava mesmo sair dali. Decidi que não queria nem me limpar, pra não ter contato com nada, e nem olhar pro vaso quando levantasse (minha mãe disse que olhou, mas como a água estava escura, não conseguiu ver o tamanho, nem nada). Coloquei a calcinha (com absorvente) e fomos pra sala. Foi o tempo exato de eu não desmaiar (depois ela contou que eu fiquei bem branca). Deitei e coloquei as pernas pra cima, pra circulação voltar. Ela trouxe uma cobertinha pra me embrulhar – estava com frio e a dor tava começando a voltar – e eu coloquei uma parte dela embaixo de mim, pra proteger a capa do sofá de algum acidente. Fui me esquentando e relaxando. Depois de um tempinho, foi me dando sono – talvez pelo cansaço, ou por não ter dormido nada, não sei. Já devia ser algo em torno das 05 e pouco da manhã. Dormi no sofá. Minha mãe sentou e coloquei as pernas no colo dela, e ela também dormiu.

Acordei quase 07:00, eu acho. Fiquei deitada mais um tempo, meio dormindo, meio acordada. Mas me deu fome. E vontade de fazer xixi. Meu pai já tinha acordado e veio me dar um abraço pelo meu aniversário. Levantei devagarzinho e fui ao banheiro. Achei que estivesse bem suja de sangue, mas não estava. Tinha um sangramento, claro, mas algo dentro do normal, digamos assim. O Cleber levantou, super preocupado comigo. Me deu um longo abraço – pelo aniversário e por todo o resto – depois fomos tomar café da manhã. Disso eu lembro, pois eu queria especificamente pão “na chapa” e café com leite, e assim foi.

Passei o dia todo em casa. O sangramento não aumentou demais, mas ficou constante. Eu estava muito triste, mas não chorei o tempo todo. Fui andar lá embaixo um pouco com o Cleber, mas voltamos logo porque não estava tão bem assim. Não quis falar com ninguém no telefone, porque estava muito sensível mesmo, então todas as ligações que recebi pelo meu dia – de pessoas que sabiam, ou não, do ocorrido – foram atendidas pela minha mãe. À tarde, enquanto ela falava com a minha vó (mãe dela), que sabe um monte de receitas de chás, pra tudo (depois eu conto disso), chegou a encomenda que eu tinha feito de um gorrinho lindo de coruja, pra ajudar no parto do Raul. Ainda veio uns tsurus lindos, e uma cartinha escrita à mão (obrigado, Débora!). Minha mãe começou a chorar quando viu, teve que desligar o telefone. A abracei e disse que não precisava ficar assim – mas ela ainda não havia chorado nada, então deixei. Depois eu também chorei.
A Isa ia vir aqui em casa, mas teve que atender um parto de última hora. Me ligou perguntando se por mim tudo bem ela ir, se eu estava bem (fisicamente), e como eu disse que sim, ela foi. E ficou de vir no sábado.
À noite, minha tia, minha prima, com o marido (irmão do Cleber) e o filhinho deles, que fazia dois anos naquele dia, junto comigo, vieram pra cá. Foi difícil. Não pela presença deles, ou por ver um bebê-quase-criança. Mas era uma alegria que eu não sentia. Chorei no quarto, com o Cleber, pra que ninguém visse.

No sábado, dia 10, a Isa veio aqui me ver e foi ótimo. Conversamos, rimos um pouco. Ela almoçou aqui, ouviu alguns causos da família. Me fez super bem mesmo. Eu ainda estava com medo da coisa desandar, fisiologicamente. Não tinha mais dor, só umas cólicas leves de vez em quando, e o sangramento ora ficava pouco, ora aumentava. Eu tinha medo de ir no hospital e eles me internarem. Resolvi, então, ir na Casa Angela, assim eu aproveitava pra contar o ocorrido. A Isa teve que ir embora, e fomos todos – meus pais, Cleber e eu – na Casa. A Fran, mesma EO da última consulta, estava lá. Mediram minha pressão, ok. Temperatura, ok. Ela ficou muito triste por nós. Disse que eu podia sentir a minha dor, sim, e que na hora certa viria outro bebê, mas que um não iria substituir o outro, e outras coisas mais. Daí foi examinar meu sangramento, e disse que estava dentro do esperado mesmo. Disse até que podia vir mais, mas que meu corpo estava sendo perfeito. Me deu uma guia pra fazer um ultra quando o sangramento acabar.

E foi isso.
Muito triste. Muito intenso. Muito dolorido.
E não posso deixar de achar que foi até rápido também.

À noite, ainda fomos num restaurante, tentar espairecer – essa está sendo a meta de vida do Cleber, não me deixar cair. Senti uma tristeza lá, quase chorei mesmo, mas segurei. Foi coisa rápida a saída.
No domingo à tarde dei uma caída, sangrou um pouco mais, e fiquei um bom tempo deitada. Chorei mais um pouco.
À noite, entrei em parafuso, achando que eu era uma merda e que não tinha me despedido direito da Bolota, que eu tinha agido errado. O Cleber conversou comigo, disse que eu tinha feito tudo que podíamos, que eu tinha rezado por ela, e até me lembrou que eu esperei o tempo dela, pois não fui ao hospital induzir, que tudo aconteceu no tempo de Deus, no tempo da natureza. Chorei mais.

Ontem a rotina voltou ao normal. E nem chorei muito, só um pouquinho quando fui tentar escrever uma carta pra ela, mas não consegui terminar.
Hoje passei o dia escrevendo esse relato – tendo que parar pra secar as lágrimas, comer e espairecer um pouco com outras coisas. Acho que a palidez tá passando aos poucos.
Parece que tá tudo meio distante, meio vago, meio turvo.
E estamos indo assim, um passinho de cada vez, porque ainda não consigo olhar pro futuro.
Mas um dia eu hei de conseguir.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia – essas coisas todas de consulta – e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse “esse sonar é antigo, então faz um chiado”. E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou… e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar – mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto – e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): “eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado” (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse “tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você”. No caminho, eu disse pra ele: “a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa”.

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: “você tá vendo alguma coisa?”, e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar – literalmente – o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico – devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: “olha, o seu bebê parou de se desenvolver”. Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei “e agora?”, e ela disse pra eu ir no hospital. “Agora?”, “é, acabar logo com isso, né?”, foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar – o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: “mãe, não tem mais bebê”, e ela ficou totalmente abalada – devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde – ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo – que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do “tenho que agir agora” e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: “ela acha melhor esperar. Né?” “É, na minha opinião é melhor esperar”. Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua…)

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Graças a minha base, não desabei

Tem gente que não entende o porquê de eu e o Cleber morarmos na mesma casa que os meus pais. Como se, casando, fossemos obrigados a nos afastar deles. Aqui não funciona assim. Somos uma família sempre unida, sempre fomos. Até o meu irmão, que mora há mais de 2 mil quilômetros de distância, se faz presente sempre. Temos a nossa independência e a nossa privacidade como casal, sim, à despeito de qualquer coisa que possam pensar.

Me lembro da época em que estávamos planejando o casamento. Para ir contratar o fotógrafo, por exemplo, fomos todos. Nós quatro para a reunião, conhecer o profissional que viria a eternizar um dos dias mais importantes da minha vida. Depois de assinar o contrato, ainda fomos à sorveteria que tinha em frente, comemorar mais uma conquista, rumo ao sonho maior. Foi assim em vários momentos. E quando eu “descobri” que não teria verba para contratar a decoradora dos meus sonhos – e nem nenhuma outra – todos se encarregaram de juntar as fotos que eu tinha de referência, fazer mil viagens à 25 de março, ir no Ceasa no dia anterior da cerimônia, e arrumar todo o salão, desde os arranjos de flores, até os docinhos na mesa – e ainda lembraram da lembrancinha dos padrinhos, que eu tinha me esquecido. Tudo isso enquanto eu curtia o meu dia de noiva, com hidro, massagem e tudo que eu tinha direito. Não me preocupei com absolutamente nada neste dia.

Hoje, 08 de agosto de 2013, tive o maior “baque” da minha vida até hoje. Sem muitas delongas, descobrimos que a vida que viria preencher nossas vidas, não vem mais. Não aquela vida. Não agora. Acabou.
O Cleber é um companheiro maravilhoso – sou muitíssimo abençoada por tê-lo em minha vida. Desde o comecinho, ele esteve presente em todas as consultas e exames. E quando eu precisava fazer jejum para algum exame, ele fazia junto, algumas vezes sem que eu nem notasse. Hoje não foi diferente. Ele estava comigo no consultório médico. Ficamos apreensivos com algo que havia se alterado e, mesmo tendo que ir trabalhar, desviou sua rota quando pedi, e me acompanhou num exame de emergência. Ele estava comigo naquela salinha à meia luz, quando vimos que, agora, eu só tenho um coração batendo dentro de mim, de novo. Eu chorei. O chão parece que se abriu sob meus pés. Ele me abraçou forte – porque também precisava de um abraço. Foi muito difícil. Foi absurdamente difícil. Pude chorar mais uns minutos, e depois começamos a tomar algumas providências. Enquanto eu falava com a minha mãe, ele falava com o meu pai que, como estava saindo pro almoço, pegou o carro e foi diretamente onde estávamos, nos buscar. Enquanto esperávamos sua chegada, eu observava as pessoas andando na rua, e era como se tudo tivesse em câmera lenta. Abracei meu marido mais muitas vezes. Ouvi suas palavras de carinho e de amor. Nos unimos ainda mais. Quando meu pai chegou, ao invés de irmos para o consultório da médica – que já tinha sido avisada – passamos no trabalho da minha mãe, que já nos esperava. Todos juntos. Sempre.

A minha doula e amiga, Isadora Canto, também se fez presente em suas palavras de consolo pelo telefone e internet. Está sendo fundamental tê-la, também, comigo agora.

E hoje à tarde, no carro, vendo nós quatro juntos, inventando algum motivo pra sorrir, eu percebi. Nada é mais valioso que isso. Nada é mais valioso do que ter as pessoas mais importantes da sua vida com você, nos momentos exatos em que mais precisa. Seja realizando seu sonho de ter muitas flores amarelas em sua festa de casamento. Seja largando seus dias de trabalho “apenas” para estar ao meu lado num momento de perda. Multiplicam a minha alegria e dividem a minha tristeza.

Está sendo muito difícil. Imensamente, eu diria. Mais do que posso mensurar em palavras. Mas hoje, se estou passando por isso mais firme (leia-se: chorando menos) do que nunca imaginei que ficaria, é também por eles. Minha família. A razão de eu ser quem sou.

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