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O lado bom

Tá limpo, não tem mais nada mesmo (…)

Essa foi a primeira frase da médica ultrassonografista, ao ver a imagem do meu útero na tela ontem, quando finalmente fui fazer o ultrassom para me certificar que estava mesmo tudo bem comigo, fisicamente. A mesma médica, inclusive, que me deu a notícia que eu nunca quis ouvir, há 25 dias. Ela usou o mesmo tom de voz baixo, calmo e, dessa vez, até admirado, pelo que via.
E agora eu posso escrever sobre como eu estou impressionada com o poder de funcionamento do corpo feminino. Aliás, este é – se não o maior – um dos maiores aprendizados de toda essa história, e eu quero dividir alguns pensamentos com vocês.

Pode parecer contraditório, mas ter acontecido tudo do jeitinho que foi  – fisiologicamente falando – me deu muita força.
Explico: o “único” medo que eu tinha em relação ao parto, era que o TP (trabalho de parto) não progredisse e eu precisasse de alguma intervenção; porque foi exatamente por isso – medo de intervenções, soro, acessos na veia, sem que haja real necessidade (e não por rotina hospitalar e formação inadequada dos profissionais, pra dizer o mínimo), sem que ninguém ao menos escute o que eu digo – que eu comecei a minha busca por um atendimento mais humanizado durante a gestação e o parto, muito antes de decidir quando viraria tentante. Na época, eu só queria um profissional que entendesse e respeitasse a minha sensibilidade, eu só queria saber se existia uma alternativa ou se eu seria obrigada a sofrer por horas a fio em um dos momentos mais importantes da minha vida. Mas aí eu me apaixonei pelo tema e hoje sou uma amante-(quase)-ativista da humanização do parto e nascimento, apoiadora convicta de que as mulheres se empoderem de todas as formas que couberem em suas vidas (e que eventualmente permitam-se ultrapassar seus próprios limites também). Tanto me envolvi com o assunto e tanto me senti segura pelas informações que obtive, que em dado momento esqueci da minha sensibilidade – eu já pensava na coisa toda em níveis sociais, não só nessa minha particularidade.

Bom, claro que me “lembrei” da minha sensibilidade no momento em que precisei fazer os primeiros exames do pré-natal, como vocês podem imaginar, porque é uma furação que não acaba mais (ok, é só uma vez, mas são muitos exames, então demora. 1 vez ou 10, a tortura pra mim é a mesma). Não bastando que eu me lembrasse desse “detalhe”, comecei a ouvir algumas vezes, quando eu dizia que teria parto natural: “mas você tem que aceitar que você pode precisar de intervenções”, “você tá com essa ideia fixa na cabeça, e se você precisar?”, “não dá para controlar tudo, bla-bla-bla” e todo leque de variações dessa especulação. Sem contar que quem dizia isso geralmente não se referia às mesmas necessidades que eu, quando sentia medo de ter que passar por isso de qualquer jeito; eu me referia a situações reais extremas, em que o uso de alguma intervenção intravenosa resguardasse a minha saúde e a saúde do meu bebê em primeiro lugar. Só mesmo se eu precisasse de um antibiótico, ou alguma situação em que a ocitocina sintética fosse inevitável – cesárea nem entrava nessa lista, porque nesse caso não haverá o que questionar: vão me abrir pra salvar meu filho e fim de papo (mas sim, claro que tenho medo de ter que passar por uma cirurgia, mas essa é outra história). As outras pessoas se referiam a qualquer outro motivo (como acelerar o processo pra acabar logo, ou sei lá o que). E ouvir isso, vindo assim de certas pessoas, não me ajudava em nada a encontrar um meio de lidar com o medo, só me irritava e me fazia pensar ainda mais no que eu temia, e eu sabia que só temer não adiantava, porque se eu me travasse, podia ser pior.
Eu tinha medo de sentir medo. Porque se eu sentisse medo, podia travar o processo do parto e eu teria que encarar uma intervenção que eu não aguentava nem pensar – e então me apavorava: como eu ia conseguir ser protagonista ativa na hora do meu parto, se quando estou com algo na veia fico com o braço literalmente paralisado, suando frio e tenho que me manter quieta? E então sentia mais medo. E era um ciclo sem fim. Eu precisava encontrar uma forma de saber lidar com isso e, definitivamente, ouvir aquelas frases, vinda de qualquer pessoa que fosse, não estava no pacote.
Aliás, por isso escrevi aquele texto, pra ver se encontrava um jeito de lidar com eles, caso eu não tivesse mesmo pra onde fugir (inclusive, na última consulta que tive na Casa Angela, tirei todas as dúvidas que eu tinha).

Percebam, o meu medo mesmo era do desconhecido. Não tinha como alguém me assegurar que eu não ia precisar de nenhuma intervenção no parto – isso não existe! E por ter aversão a algumas coisas, eu ficava com muito medo de ter que lidar com elas, sem ter pra onde fugir. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que dizem ter medo da dor ou de qualquer outra coisa no parto. Ninguém pode nos dar certeza de nada.

Pois bem, e o que me aconteceu? No mesmo dia em que eu tirei todas as minhas dúvidas sobre possíveis intervenções com a EO, mil baldes de água gelada caíram na minha cabeça. Quando a médica do ultrassom disse que eu deveria ir pro hospital dar prosseguimento e “acabar logo com aquilo” (nas palavras dela), minha cabeça ficou metade paralisada, metade desesperada. Na dúvida, desabei a chorar e inundei qualquer vestígio de consciência que me restou. Não sei se ficou claro no meu relato, mas eu realmente passei a acreditar que eu precisaria de alguma intervenção. Comecei a tentar me preparar, tentar ficar forte, porque eu precisaria ficar no hospital, iam me furar e eu não tinha como me livrar disso. Eu me sentia tão anestesiada, tão sem forças, que eu queria muito que alguém fizesse aquilo por mim; em algum momento devo ter desejado dormir e que tudo estivesse acabado quando eu abrisse os olhos novamente. Imagina, como eu iria encarar um monte de sangue sem desmaiar? O que eu tinha que fazer? O que iria acontecer em sequência? E se eu fizesse algo errado, e se desse tudo errado? Será que não dava para alguém fazer isso pra mim? E tudo isso eu pensava e sentia num curto espaço de tempo, entre o laboratório em que fiz o exame e o consultório da Betina, minha GO.
Eu não me sentia capaz de lidar com aquilo – essa é a grande verdade e só agora consigo elaborar dessa maneira. Eu não me sentia pronta para lidar com aquele desconhecido que se apresentava, sem cerimônia, bem à minha frente. Parando agora pra pensar, entendo as mulheres que querem logo de cara uma cesárea eletiva. Não ver era tudo que eu queria. (e antes que as mulheres que escolheram cesárea eletiva digam, não estou afirmando aqui que todas vocês optaram pela cirurgia pelos mesmos medos que eu senti, nem estou comparando a minha perda com o nascimento dos seus filhos, por favor!, cada uma sabe da sua história – o que eu disse é que eu consegui, por um momento, entender o medo que, porventura, alguma de vocês possa ter sentido, justo eu, que nunca entendi isso. Empatia, e não ataque). O fato é que, no meu caso, não existia “escolha”: induzido ou natural, ia acontecer pela mesma via de nascimento.

Mas tinha sido também por isso que eu havia me cercado dos profissionais mais humanizados, de todos os lados. Para os momentos de medo, para quando eu me esquecesse que sim, eu acredito que a natureza sabe trabalhar se a deixarmos fazer isso. Eu realmente acredito nisso, e super defendo esta ideia, mas passar por uma situação que te tira do eixo faz com que você esqueça até do seu nome. Sentei de frente pra Betina e, à medida que fomos conversando, fui recobrando alguma consciência. Ela me disse que eu podia confiar, que o meu corpo ia agir, mas que se fosse afetivamente muito pesado pra mim, podíamos ir pro hospital induzir. Disse que a escolha era minha e que eu não precisava decidir nada naquele momento, podia pensar um pouco antes, em casa, e tudo bem. Acho que nesse momento o empoderamento que eu tinha conquistado começou a se mexer em algum canto da minha mente. A situação era comigo. O corpo era meu. A escolha não poderia ser de mais ninguém. Por mais medo que eu sentisse – e eu sentia! – do que estava por vir, eu peguei a minha crença na natureza e fui embora pra casa.

Aqui cabe dizer que a minha mãe era uma das pessoas que mais dizia aquelas frases que eu tanto detestava, que eu podia precisar de intervenção, etc. Eu ficava doida de irritação quando a ouvia dizer aquilo. E no consultório ela perguntou pra Betina o que ela indicava (natural ou induzido), ao que ela responde “natural” sem nem pestanejar. Minha mãe acatou aquilo e não tocou mais no assunto. Mais tarde, quando chegamos em casa, ela só me disse: “eu sei que a escolha é sua e você quer natural, mas se quiser, posso fazer um chá que ajuda” – e essa foi a única intervenção que ela me ofereceu: um chá.

Eu comecei a sentir as dores, resolvi encarar tudo como um trabalho de parto e simplesmente senti. Senti as dores. Senti medo. Senti tudo. Acho que isso é se entregar, no fim das contas. Quando eu comecei a me sentir travada, com medo de ver o feto e passar mal, comecei a rezar com muita fé, pedindo a Deus que me desse força para o que viesse. Eu não queria me sentir travada, porque sabia que podia parar o processo e piorar tudo. As dores vinham cada vez mais fortes e eu fazia de tudo para que elas fossem embora rápido. Eu não sabia quanto tempo duraria. Eu não sabia o que ia acontecer. Não tinham regras, nem métodos, nada. Naquela madrugada eu estive o mais perto que já cheguei do abismo do desconhecido, literalmente. Então, me preparei mentalmente para o caso de demorar (eu sempre cresço as coisas, para me sentir mais preparada), ainda mais que eu sabia que podia demorar dias até o meu corpo expelir, nem me dei conta de que, se eu estava com as dores naquela intensidade, não teria como demorar muito mesmo. Tanto que ele expeliu e eu nem percebi que era aquilo. Foi tão rápido que eu nem tive tempo de travar. Minha pressão começou a cair, eu fui me deitar, acabei dormindo por quase duas horas e, só quando acordei, conversando com o Cleber e minha mãe, nos demos conta de que já tinha acontecido mesmo.
Esperamos, então, que eu tivesse um sangramento enorme, ou coisa assim, porque a Betina tinha dito que seria mais do que uma menstruação, por exemplo. Mais uma vez, cresci aquela informação na minha cabeça e esperei “o pior”. Não aconteceu. Não do jeito que eu esperei, pelo menos. Sangrei por uns 10 dias seguidos – depois ficou mais alguns escapes no meio do caminho, mas não foi a abundância que eu achei que seria. Usei aqueles absorventes noturnos e nem chegou a vazar, ou precisar trocar a cada hora. Senti umas cólicas também, mas tudo dentro do esperado. Mantive repouso por duas semanas inteiras, sendo que nos dias úteis eu não coloquei o pé fora de casa, levei a sério mesmo.

E a cada dia que passava, e para cada pessoa que eu contava, eu sentia algo dentro de mim, algo bom, quando eu focava que o meu corpo tinha feito todo o trabalho sozinho. Eu me apeguei muito a isso. Eu esperei, eu confiei, eu me entreguei  – e o meu corpo agiu! Senti medo? Muito! Mas eu aprendi, na prática, que se não tem mesmo onde se esconder, não há nada que possamos fazer, a não ser encarar o que vier. Eu me sentia numa estrada completamente escura, não sabia onde seria meu próximo passo nem o que encontraria adiante. Mas eu sabia que ficar parada não me faria chegar. A minha vontade de ver a luz novamente foi maior que o medo. E no caminho escuro e incerto que tive que passar, o único feixe de luz (ou consciência) que eu dispunha era a minha fé e as pessoas que eu amo – naquela noite, especificamente, a minha mãe.

E ontem (sábado), quando a médica me confirmou que estava tudo bem comigo, concluí, definitivamente, o meu maior aprendizado: o nosso corpo é perfeito. O meu útero está do tamanho normal já, a médica mal acreditou quando viu. Está limpo também, sem mais nada dentro.
A minha vontade é de contar essa descoberta para todo mundo. Eu sei que o que eu passei foi muito triste (e ontem chorei de novo, vendo o ultrassom do bebê – claro que ainda dói) e realmente não desejo isso para ninguém, nunca. Mas foi também a minha bolota que me trouxe essa consciência toda do poder que eu tenho guardado no meu corpo – e eu enxergo isso como o lado bom do que parece ser inteiro ruim.

– Se antes eu tinha medo de travar e dar tudo errado – hoje eu não tenho mais.
O meu corpo me deu um presente e tanto, me mostrou o que é seguir um comando seu (porque sim, quando você está imersa naquele momento, tudo que seu corpo pedir, você fará. Eu sentia tanto calor que só me restou tirar toda a roupa – e foi depois disso que aconteceu) e que ele funciona perfeitamente bem, apesar de qualquer medo que eu sinta.
– Se antes eu ficava brava com os medos da minha mãe (ou de qualquer outra pessoa) – hoje eu não fico mais. Meus pais foram incríveis! Respeitaram as minhas escolhas o tempo todo e ainda me deram todo suporte necessário para passar por isso.

– Se antes eu era super a favor do atendimento humanizado – hoje eu não quero outra coisa na vida! Reafirmou a minha certeza. Quero que todas as mulheres tenham a oportunidade de saber o que é ter a sua calma devolvida por uma médica, o que é receber um abraço apertado de um profissional num momento ruim, ou ter realmente a oportunidade de escolher o que quer que seja que será feito com o seu corpo, com todas as dúvidas realmente esclarecidas e segura de que será amparada no que decidir.
– Se antes eu admirava o meu marido – hoje eu quero me casar com ele de novo, a cada dia. Porque apesar de não o ter citado muito aqui, ele está presente em cada linha desse texto, segurando minha mão, me abraçando e, quando eu só pensava se daria conta de tudo, ele perguntou pra Betina quando é que podíamos tentar de novo – foi ali que eu me lembrei (ainda vagamente naquele instante), também, que aconteça o que acontecer, vai passar, e a vida continua.

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Das coisas que aprendi

Ontem eu escrevi um textono meu outro blog, sobre uma “teoria de vida” que eu tenho: tudo em nossas vidas acontece por uma razão. Eu acredito nisso e me apeguei ainda mais a essa ideia agora, nessa tempestade que passei.
Claro que eu não posso afirmar com categoria “esse bebê veio pra isso, isso e aquilo outro”. Assim eu estaria, no mínimo, sendo prepotente. Além de estar diminuindo a grande missão daquela alma. Algumas coisas, com certeza, estão além do que supõe a minha vã filosofia – e eu também reverencio e admiro esse mistério divino. Mas eu acredito, também, que muita coisa que aprendi e vivi nesse tempinho se deu por sua presença aqui em mim. Disso eu posso falar. Porque eu percebo que algumas peças mudaram de lugar no meu tabuleiro, que algumas dúvidas e neuras que eu tinha, hoje ou não existem mais, ou estão em processo ativo de ser resolvido. E eu não posso simplesmente guardar isso, eu preciso registrar, porque além de ser ferramenta da memória, a escrita é minha aliada em muitas outras coisas. E eu vou fazer isso já, antes que eu me esqueça de alguns pormenores. Algumas coisas eu percebi durante a gestação e, por incrível que pareça, outras constatações vieram com a perda. Pois é, esta sou eu querendo encontrar algo positivo em meio a tanta dor.

Das coisas que me aconteceram durante a gestação:
Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que antes. Já até citei isso aqui no blog quando percebi. E sim, isso me surpreende, porque antes de engravidar eu era uma pessoa muito (muito!!) ansiosa, afobada, que fazia coisas por impulso e que sofria por antecipação. [Pra falar a verdade, isso era mil vezes mais frequente em mim antes de conhecer o Cleber – todo o processo de “sossega, Marina” (nome que eu acabei de inventar, rs) começou quando o conheci, não posso deixar de dar os créditos também a ele – mas desde que me descobri grávida passei a me sentir ainda mais calma pra lidar com algumas coisas do que antes]. Sendo sincera, não sei porque isso aconteceu, talvez tenha sido um amadurecimento mesmo, ou a minha forma de encarar certas coisas tenha mudado. Hoje eu consigo focar mais no que me faz bem e isso deve ajudar também. Só sei que até o meu irmão, que mora há mais 2.000 km de distância, disse que percebeu que eu mudei, que até o meu jeito de falar mudou – e ele disse isso alguns dias depois da perda- e isso só me mostra que o negócio pegou mesmo em mim, já que consegui permanecer assim, dentro do possível, até para encarar tudo que aconteceu de um jeito diferente.

Eu falei naquela blogagem coletiva que passei a confiar de verdade no meu corpo e em seus sinais, isso também foi algo que mudou. Aliás, acabei de ler o post de novo e me lembrei que eu tinha um medo real de algo dar errado. Naquela época, meus medos giravam em torno de uma gravidez anembrionária, ou de perder o bebê no comecinho – nunca nem pensei em algo dar errado com 17 semanas, mas enfim, aconteceu e agora estou aqui tentando colar os caquinhos. Mas o que quero dizer, além de tudo que citei lá no outro texto, é que ainda confio no meu corpo, sim. Eu poderia pensar que tem algo errado em mim (ou no marido, sei lá), mas esta nunca foi uma opção. Eu não sei o momento exato em que a vida do bebê se encerrou, só sei que eu tinha uma pulga atrás da orelha e isso me diz que sim, o meu feeling ainda funciona – e espero que continue assim por muito tempo – e o meu corpo trabalhou perfeitamente bem desde sempre, não há como negar. Também não me arrependo do fato de ter optado por fazer menos ultrassons (eu poderia ter feito um na semana anterior para tentar descobrir o sexo, mas não fiz), porque o fato de eu descobrir algo antes não ia mudar o desfecho da história – tudo acontece quando tem que acontecer, é o mantra que ecoo sempre, para me lembrar disso.

Sobre o tempo, eu poderia deixar para falar no post que vou fazer sobre as coisas que aprendi com a perda, mas aconteceu também durante, então vou citar nos dois. O que aconteceu foi que o meu ritmo diminuiu muito no tempo em que estive grávida. Eu fiquei mais introspectiva, não fui em shows, tive zero vontade de me exercitar. E eu respeitei isso, não tentei ir contra, não. Simplesmente porque acho que as coisas têm que ser vividas em sua totalidade (na medida do possível, claro). Foi um tempo fundamental para outra coisa que veio junto: a minha conexão comigo mesma (e, obviamente, com o bebê). Peguei mais leve fisicamente, mas emocional e psicologicamente foi intenso. Foi um tempo meu, em que me permiti viajar um pouco e que também veio à tona muitas respostas (com a ajuda do meu marido lindo, tenho que dizer, rs).

Não sei, tenho a impressão de que essas são só algumas coisas. É como se eu tivesse esquecido algo, ou talvez elas estejam relacionadas ao que citei aqui. Pode ser que algumas eu só descubra com o passar do tempo, quem sabe. Só sei que tenho uma sensação forte de que a minha fonte de luz me fez muito bem e que, entre outras coisas, ela veio para me ensinar mais sobre mim, sobre nós, sobre a vida.

Imagem: We Heart It

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7 dias, um de cada vez…

Uma semana de dor, de ausência, de saudade.
Se ontem eu estava achando que estava lidando com isso até que bem (na medida do possível), hoje não tenho certeza de nada.
Uma tristeza…

Choro pensando nos sinais que não percebi – dor de cabeça, insônia: isso já indicava, no meu contexto, no meu ritmo de vida, que algo não ia bem.
No sinal que percebi, mas não dei bola – a mesma sensação física que senti no corpo, perto do estômago/coração quando ela estava chegando, senti nas costas, no mesmo lugar, quando estava indo – não posso dizer que não fui avisada, apesar de não ter entendido nada quando senti isso certa noite.
No que eu nunca vou entender.

Pelo ultrassom que fiz, já fazia três semanas que algo estava errado, que o desenvolvimento vinha caindo, parando. Mas eu ainda a sentia aqui, ainda conversava com ela, fazia massagem…
Hoje eu olho minha barriga, reta, e percebo que ela estava grandinha, sim, quando eu achava que não estava (e percebo que eu também tinha alguma razão em implicar com ela, que se recusava a ficar mais durinha). Meus seios também já mudaram. Mas o meu amor, não.
A pele pálida e as olheiras ainda estão aqui, apesar de mais discretas do que há uma semana.

Uma semana. Parece que foi ontem. Parece que foi há meses.
Coisa esquisita esse negócio de tempo, né?

Ao mesmo tempo em que venho tentando (re)significar o que aconteceu e olhar tudo por um prisma diferente, com um significado maior – e preciso dizer que é nisso que acredito e me apego a cada instante, como um bote salva-vidas – também sou tomada, às vezes, por pensamentos tristes, de vazio. Como hoje…

… que faz um dia frio em São Paulo, e eu não me importo com isso, até gosto. O que me faz pensar que era mesmo ela que não era muito fã dos dias cinzas. E eu aproveito a garoa e a chuva pra chorar, como um disfarce.

Faz dias que não consigo ouvir música. Era um momento nosso, ainda não consigo encarar certas melodias. Mas nesse contexto de hoje, me peguei pensando numa música, que eu não vou dar play, pra não inundar tudo de vez, mas vou colocar aqui.

“A chuva é a vontade do céu de tocar o mar
E a gente chove assim também quando perde alguém
Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer
Assim se purifica o ar depois de chover”
A Chuva, Marcelo Jeneci

A música só tem uma estrofe e não está registrada em estúdio.
Ele (o Jeneci) diz que é uma letra inacabada, mas que gostou dela assim, e a canta em alguns shows.
Como um mantra. É sempre emocionante ouvir (e nesse show do link eu estava presente).
Então fico por aqui, repetindo meu mantra.
Porque como diz outra música dele: “quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar”.
E eu espero que ele volte logo; e que a felicidade volte a ser “só questão de ser”.

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O relato que eu não queria fazer, nunca – o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia – essas coisas todas de consulta – e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse “esse sonar é antigo, então faz um chiado”. E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou… e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar – mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto – e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): “eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado” (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse “tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você”. No caminho, eu disse pra ele: “a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa”.

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: “você tá vendo alguma coisa?”, e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar – literalmente – o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico – devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: “olha, o seu bebê parou de se desenvolver”. Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei “e agora?”, e ela disse pra eu ir no hospital. “Agora?”, “é, acabar logo com isso, né?”, foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar – o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: “mãe, não tem mais bebê”, e ela ficou totalmente abalada – devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde – ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo – que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do “tenho que agir agora” e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: “ela acha melhor esperar. Né?” “É, na minha opinião é melhor esperar”. Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua…)

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