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Há leveza no olho da tempestade

Acabou a quarentena.
Em quarenta dias de parida, eu já: fiquei vários dias em casa, chorei, dei uns gritos, recebi visita, recebi ajuda sem precisar pedir, mas pedi ajuda também. Fui na exposição de quadrinhos do MIS, fui ao cinema assistir Vingadores: Ultimato, fui na faculdade fazer prova. Sem contar as consultas de pós parto e pediatra. Saí pra almoçar aqui perto de casa, fui ao parquinho com as duas sozinha, carreguei bebê no sling, ninei na bola, em pé, sentada, na rua, na chuva, na fazenda e numa casinha de sapê. Tentei dar uma atenção pra mais velha pelo menos parecida com o jeito de antes e fracassei lindamente. Estamos nos conhecendo de novo – todos aqui de casa. Estamos muito juntos, mas ainda tem espaço para momentinhos de solitude também, porque gostamos assim. Entre várias outras coisas de todo dia. Os quarenta primeiros dias de recém nascida foram completados com sucesso e estou achando isso muito legal.

Estou escrevendo esse texto para celebrar, para registrar e para não esquecer que, sim, é possível.

Esse puerpério está sendo muito mais leve que o primeiro e, mesmo que eu não goste tanto de ficar comparando, é meio inevitável. Então quero escrever sobre isso.

Que eu não estou me sentindo afundada em nada, nem sufocada, ou submersa. Quer dizer, estou. Claro que estou submersa aqui nesse microcosmos de início de vida e tudo mais. Mas não me sinto ausente de mim, sabe? Na verdade, estou me sentindo mais perto de quem sou do que em vários momentos na vida. Fatos reais. O que não significa que eu esteja plena, cabelos ao vento, unha feita, roupa colorida, vivendo pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome. Mas eu sei que essa pessoa está aqui, coexistindo com a mesma que fica de pijama o dia inteiro, que tem cheiro de leite e que sente umas tonturas vez ou outra, quando fica em meio a várias pessoas ao mesmo tempo. Essa sou eu.

Além disso, do que é esperado e bem normal desse período, aconteceu uma coisa que eu não esperava: surgiu uma vontade de fazer mudanças na vida. Foi a Liz nascer e – plim! – parece que um botãozinho foi acionado e várias vontades, desejos e sonhos ressurgiram na minha mente, estão aqui em linha de frente mesmo. Mas sem muito desespero pra realizar. Tem sido mais um norte. Um lugar para o qual eu quero caminhar. E sei que não vai ser de uma hora pra outra, nem que vou “pegar essa estrada” já amanhã, até porque pegar estrada com uma bebezuca é cansativo demais. Estou aqui no meu ninho, vivendo os dias, trocando fraldas, dando banhos, tomando muita água e comendo (ô sede e fome que dá!). Olhando pra essa pessoinha que chegou, me apaixonando pelos seus movimentos e sons, me cansando nas noites de picos de choro, me emocionando vendo ela e a Agnes juntas, dando conta de lidar com os novos comportamentos da Agnes agora como irmã, comemorando quando tomo banho com calma e valorizando cada refeição. Mas sabendo também que daqui a pouco outros movimentos vão acontecer, de mudanças sobre trabalho, estilo de vida e tudo mais. Alguns planos eu faço, me empolgo conversando com o Cleber e não me aguento em não pensar nisso, óbvio. Está latente aqui. Mas tenho me lembrado que tudo tem seu tempo. É importante respeitar os processos e os ciclos.

Estou bem mais calma e isso me deixa feliz.

Acredito que a Agnes esteja me ajudando nisso, mesmo sem saber. Porque eu olho pra ela e vejo o futuro. Eu vejo que passa. Que o presente é poderoso mas que muda a todo instante. Ela tem 4 anos (quase 5, como gosta de dizer) e me ensina todo santo dia que o momento presente é sempre perfeito, afinal. Eu relutei a aceitar, me neguei a olhar e admitir, no começo. Mas ela segue me ensinando.
Talvez seja o tempo que fez os seus milagres e deu conta de suavizar essa intensidade toda dos dramas que sinto. Eles ainda existem, os dramas. Mas não na mesma carga de antes. E isso tem sido muito bom de descobrir.
Sinto que a terapia foi importante. Meus processos todos de autoconhecimento. E, com certeza, os círculos de mulheres, rituais de cura e trabalhos com feminino profundo têm papel fundamental nessa conquista.

Ver a minha relação com o Cleber ganhar novos contornos também tem sido gratificante. Depois de um período de crise e até separação, estamos bem. A simplicidade da frase carrega muita verdade. Estamos cocriando nosso mundinho dentro desse mundão doido de meu deus. Isso nem sempre é fácil de explicar, mas é simples pra nós. E isso basta, né? Vê-lo se tornar pai de duas tem sido muito legal.

Outra coisa que tem contribuído muito para esse puerpério mais tranquilo é o fato de eu estar respeitando mais os meus limites. Recebi poucas visitas no primeiro mês, não me obriguei a ir em lugar nenhum nem fazer nada só porque era esperado que eu fizesse, exerci meu direito de dizer não quando queria. E percebo que quando me irrito ou me estresso é quando esse limite foi ultrapassado. É um cuidado constante, ainda não é automático pra mim, mas estou praticando.

Enfim, muitas coisas. Tenho sentido o puerpério como uma terra fértil mesmo. Principalmente por ver os sonhos que acordaram, que é uma coisa boa que quero colocar energia, me dedicar. Que essa semente seja plantada, que não voe com o vento. E que as sombras, aquelas que existem também, não se tornem o principal foco. Que tenham o tamanho certo apenas para que eu perceba e integre essas partes em mim. E vamos avante!

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Do que aprendo com a minha filha

Uma viagem serve para muitas coisas, inclusive pra gente observar ainda mais de perto o comportamento das pessoas. Com alguma sorte a gente aprende também.

Durante o trajeto de carro que fizemos de São Paulo até Sergipe (e depois de Sergipe a Minas, e de lá pra Sampa novamente), muitas vezes a Agnes ficava estressada e começava a chorar. Era calor demais, muito tempo sentada, muito tempo na mesma posição, confinada dentro de um espaço muito pequeno e com pouquíssimas possibilidades de se mexer e se entreter. Super normal ela se zangar, nem a gente aguentava tudo sorrindo e achando lindo, não há motivos para cobrar isso dela.

Quando parávamos o carro, algo mágico acontecia. Qualquer choro ou reclamação que ela pudesse estar demonstrando cessava imediatamente. Adorava sair do carro e queria logo ir pro chão esticar as pernas, leia-se: correr por todo lado, explorar o lugar, andar de um lado pro outro como se não houvesse amanhã. Ela sorria, andava, corria, conversava, brincava com a gente, mexia com as pessoas, tentava pegar tudo ao seu alcance. Muitas vezes a gente queria entrar e comer logo alguma coisa, mas sempre ficávamos mais um pouquinho lá fora pra ela curtir, ou então nos revezávamos nos cuidados. Os lanches dela acabavam sendo melhor aproveitados nos carro mesmo, porque lá fora o negócio era andar.

Era lindo de ver. Uma entrega, um desprendimento. Ela realmente estava vivendo o presente, como sabe fazer tão bem.

Do outro lado, não era raro acontecer de nós, adultos, descermos do carro e emendarmos uma conversa (ou um comentário solto que fosse) sobre como estávamos cansados, ou sobre como o trânsito estava ruim, ou sobre o quanto já estaríamos adiantados se não fosse aquele trecho lá atrás, onde aconteceu isso, isso e mais aquilo outro. A gente não se desligava.

Por sorte – e eu digo sorte porque não sei que outra palavra usar – percebi isso em tempo e reprogramei minha mente. Consegui curtir a viagem em sua totalidade, aproveitando todos os momentos realmente em tempo real, enquanto eu estava ali. Não me foquei no que deixei pra trás, nem nos problemas, nem no que ainda estava por vir, nem na chegada aos nossos destinos. Não pensei muito nem nas pessoas que nos esperavam, pra ser sincera – só mesmo o suficiente para mandar notícias de vez em quando, claro. Posso dizer que foi uma experiência ótima, que me trouxe uma sensação total de leveza. Leveza no sentido de não carregar os pesos que já tinham passado, de não prolongar o stress de 2 horas atrás, de não tentar prever a próxima parada. Apenas viver o presente, com o que quer que ele me traga.

Consegui. Estou tentando me manter assim ainda, mesmo já tendo retornado há dias. Parecia mais fácil lá na estrada, não sei porque. Aqui eu preciso “me lembrar” mais de ser assim, lá foi algo natural. Talvez aqui eu tenha mais distrações, não sei. Mas fica a pergunta: por que é tão difícil viver o presente? Por que a gente se prende ao que aconteceu lá atrás, ou sofre por antecipação por algo que ainda nem chegou, e se esquece de apenas olhar realmente para o que estamos vivendo agora? Quando é que a gente perde essa essência de só sair correndo quando podemos, ao invés de lamentar pelo tempo que ficamos sentados?

Observar minha pequena moça nessa viagem foi um aprendizado e tanto. Que bom tê-la por perto, para me fazer lembrar do que realmente importa, seja onde for.

 

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Para aquecer

“Pra que um sapatinho vermelho, se podíamos comprar logo a saída da maternidade?”
Foi o que disseram meus pais ontem, assim que chegaram da rua, me entregando uma sacola de presente pra Bolota.

Coisa mais fofa do mun-do!! 
Agora me diz: é pra aquecer o coração dessa mãe babona aqui, ainda mais nesse friozinho que faz em São Paulo, sim ou com certeza?
Essa semana tem mais conversa com a doula e tem a segunda consulta na Casa de Parto. E entre uma coisa e outra, posso inventar mais um monte. Ou seja, vamos nos ver bastante. 
Então esse post foi só um aquecimento mesmo 😉
Boa semana pra nós! E que seja linda…! 

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