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Breve relato de um desfralde (quase) relâmpago

Coisas acontecem, amigas.

Numa manhã de sábado, eu levantei cedo, me arrumei, comi umas bolachinhas, peguei minha bolsa e saí, rumo a uma aula experimental de yoga. Deixei Agnes e Cleber dormindo. Tudo isso antes das 8 da manhã. Andei até o metrô (quase 2 km), cheguei lá, fiz a aula, adorei, voltei comendo uma maçã, andei o mesmo tanto e, quando cheguei em casa, minha filha estava desfraldada.

Ok, quando eu cheguei, ainda não sabia do fato. Ela adorou que eu voltei, mamou, me contou que foi brincar no parquinho com o papai, o que comeu e tal. E aí me contaram que ela estava sem fralda. A manhã toda de calcinha. Deixamos o restante do dia, sucesso absoluto, sem escapes.

Nos animamos e mantemos o pacto de tirar a fralda de vez, não tinha como voltar atrás. Eu já tinha tentado antes, mas acho que nem ela e muito menos eu estávamos na vibe. Comprei um assento redutor recentemente, pra ver se ela animava, porque tinha medo antes de sentar no vaso sem nada e eu não gosto de penico, mas ela sempre dizia que queria a fralda e eu não insistia. Ou até ficava a manhã sem fralda, por exemplo, mas era como se fosse uma brincadeira, quando íamos sair, eu colocava a fralda e voltávamos à estaca zero. O Cleber tem uma abordagem mais direta, digamos assim, haha. Na troca daquela manhã tirou a fralda e conversou com ela, dizendo que iria ficar de calcinha, que não iria mais usar fralda e sim o banheiro, igual a gente blablabla. Ela até disse que queria a fralda, mas como ele conversou de novo e se manteve firme, ela aceitou e assim foi. Comprei umas calcinhas novas, porque ela tinha pouquinhas, e ela adorou a novidade.

Colocávamos a fralda só pra dormir a noite e tirava logo que acordava. No primeiro dia, a fralda acordou encharcada. Nos dias seguintes, não. Acontecia um ou outro escape durante o dia, lidamos tranquilamente e seguíamos o dia. Em casa, de calcinha. No parquinho, de calcinha. Pra sair, de calcinha. Soneca da tarde, de calcinha.

Mas depois de uma semana, mais ou menos, parecia que ela não estava mais tão satisfeita com essa nova dinâmica. Teve um dia que ficou sem fazer cocô, porque não queria ir ao banheiro. Ela dizia que queria, a gente tentava, mas ela não fazia. No dia seguinte, chorou querendo a fralda, que estava em cima da cama. E não estávamos tratando diferente, não demos bronca, nada. Durou uns três dias essa insatisfação até que, numa conversa, Cleber e eu chegamos a conclusão que ela estava ficando confusa por colocar a fralda de noite. Não estava funcionando. Como estava acordando sempre seca, resolvemos bancar a escolha e tirar de vez. Tiramos. E desde então, há quase duas semanas, só tivemos um xixi na cama (ontem, e acredito que porque fomos numa festa de aniversário e ela tomou muito líquido). Teve até um dia que ela me acordou 5:40 pedindo pra ir ao banheiro, tão linda, rs.

E essa é a breve história do desfralde total da Agnes, aos 2 anos e 7 meses.

Como eu disse, coisas acontecem. Eu já tinha tentado, mas sinceramente não tive firmeza nenhuma, ao menor sinal de resistência dela eu voltava atrás. E é claro que isso não ajuda muito, né. A segurança do pai foi um pontapé fundamental nesse processo.

Que bom que eu acordei cedo e saí de casa naquele sábado.

Quero ver agora qual vai ser o milagre que vai acontecer pra termos o desmame, mas vamos com calma, né. Um dia acontece (oremos! 😛 )

 

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O relato que eu não queria fazer, nunca – o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia – essas coisas todas de consulta – e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse “esse sonar é antigo, então faz um chiado”. E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou… e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar – mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto – e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): “eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado” (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse “tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você”. No caminho, eu disse pra ele: “a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa”.

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: “você tá vendo alguma coisa?”, e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar – literalmente – o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico – devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: “olha, o seu bebê parou de se desenvolver”. Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei “e agora?”, e ela disse pra eu ir no hospital. “Agora?”, “é, acabar logo com isso, né?”, foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar – o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: “mãe, não tem mais bebê”, e ela ficou totalmente abalada – devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde – ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo – que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do “tenho que agir agora” e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: “ela acha melhor esperar. Né?” “É, na minha opinião é melhor esperar”. Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua…)

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Um passinho à frente…

Eu sei que já contei aqui sobre a minha sensibilidade a sangue. Que comigo não rola assistir filme de ação ou terror, que dirá passar por alguma situação que envolva o dito cujo. E a coisa tende a piorar consideravelmente quando preciso tomar soro, ou fazer exames. É um tormento mesmo! Eu sofro antes, durante e depois.

E então a pessoa fica grávida e precisa, obviamente, passar por uma bateria de exames de sangue… e pensa: pra que que fui inventar isso?
Me consultei na Casa de Parto no início do mês e ainda não havia feito os tais exames. Até hoje.
Claro que estava deixando pra depois. “Não precisa pressa mesmo, já que a próxima consulta é só mês que vem” (rs). Mas não ia dar para fugir pra sempre.

Breve flash back:
no final do ano passado, fiquei meio adoentada. Tudo indica que tenha sido stress e cansaço: estafei mesmo.
O médico pediu um exame de sangue para vermos se podia ser anemia – porque eu sentia muita fraqueza. Fui num laboratório que tem meio perto da minha casa. Lá, fiz como sempre faço: avisei à enfermeira pra não dizer nada sobre o procedimento e fiquei olhando pro outro lado, concentrada na parede. Como uma nova tática, peguei o celular e liguei pro Cleber, que estava trabalhando, afim de distrair minha mente. Mas não teve jeito. Quando terminou o exame, minha pressão foi caindo, caindo… e antes que eu caísse junto, me levaram pra outra sala, onde tinha uma maca. Fiquei lá uns minutos, com meu pai (nunca, em hipótese alguma, posso fazer esse exame desacompanhada). Então a moça disse: “da próxima vez, pode pedir pra colher deitada, não tem problema, assim você não passa mal”. Aahh, que linda! Adorei! (porque geralmente o que os profissionais fazem é: mas nem dói nada, blablabla #aiqueodioqueeufico). Pronto, já sabia: da próxima vez que tiver que sofrer  passar por isso de novo, será aqui.
Fim do flash back.

Pois bem. Ontem o Cleber foi até lá fazer um orçamento prévio pra mim. E aí “caiu minha ficha”: não tem jeito, vou ter que fazer. E, mesmo lembrando que fui bem tratada nesse laboratório, fiquei com medo. Porque gente, a coisa é difícil. É acordar sabendo que vou passar mal dali alguns instantes. E em jejum. E como sofrimento pouco é bobagem – e pegando carona na chuva de hormônios de que dominam – sabe o que eu fiz? Chorei. Muito. Ontem à noite, “sofrendo por antecipação”, como diz minha mãe, tive uma crise de choro. Depois passou, claro. Mas acho que foi até importante lavar o medo um dia antes, rs…
Meu marido lindo, maravilhoso e cheiroso pegou meu iphone e colocou umas músicas novas. Era a nova tática nascendo…

Comecei meu jejum ontem, para já ir logo cedo hoje. Estava bem cheio lá, e pela primeira vez, usufruí meu direito de atendimento preferencial!!! Uhuull!!! Graças a isso, não demorou tanto para eu ser atendida.
Várias crianças saindo de lá com aquele adesivinho-curativo no braço, super naturais, e eu sofrendo por eles, haha. E pensava: é agora que eu desmaio e essas crianças ainda vão rir de mim aqui, que vergonha, rs!
É engraçado como percebemos o mundo através das nossas experiências, né: não consigo mesmo compreender como as pessoas – crianças e adultos – passam por isso sem sentir nada demais, até olham a coisa toda acontecendo, acham natural – ou não acham nada!! Não sei o que é isso! Assim como essas pessoas não compreendem o que eu sinto. Divagações à parte, voltemos ao caso…
A enfermeira me chamou, marido entrou comigo e, por sorte, antes que pedisse, ela me levou para uma sala onde já tinha maca. Era a sala infantil (que fofo! haha), que estavam usando devido ao grande número de pessoas. Pedi pra colher deitada, ela arrumou tudo pra mim e deitei. Peguei o celular, coloquei o fone, aumentei o som. Estiquei o braço, fechei os olhos, cantarolando baixinho e dei a mão pro Cleber. E esperei… de olhos fechados e cantando. Mas claro que sentia e percebia o que estava acontecendo. A mão, super gelada, suava um pouco até! Senti quando começou e vou dizer… não foi indolor, não. Mas me mantive firme. De repente (que pra mim foi depois de 30 horas), ela soltou aquela mangueirinha que amarram no nosso braço, o Cleber ficou segurando o algodão e, quando percebi, fiimm!!, já tinha acabado! Perceberam que eu não relatei queda de pressão? Gen-te!! Não passei mal!!! Fiquei deitada mais uns breves minutinhos só para me certificar. Levantei (com o braço duro-esticado, isso ainda não superei – meu braço fica imóvel por pelo menos uns 30 ou 40 minutos depois que acaba). E fomos embora! Simples assim. Tinha levado algo para beliscar e quebrar o jejum e vim comendo no carro, até chegar em casa e comer algo decentemente.
Mal acreditei que passei por isso! Assim, a mão da enfermeira não era das mais leves – e posso dizer que ainda agora sinto uma leve dorzinha, mas nada grave. O que importa, e eu mal acredito ainda, por isso me permitam repetir: eu não passei mal!!! 

Estou orgulhosa de mim! Para mim, que sei o quanto isso é uma dificuldade, foi um passo importante. Pequeno, eu sei. Mas “só por hoje” minha pressão não caiu, à despeito da tensão que eu senti por ter percebido tudo que a enfermeira estava fazendo, do jejum que eu estava e tudo mais…

E sabem o que eu fiz, ainda lá deitada, quando percebi que tinha conseguido? Agradeci minha Bolota.
Falei pro Cleber: o bebê está me deixando mais forte!
E foi isso mesmo que senti. Porque foi só por saber que é extremamente importante cuidar de mim – para então cuidar e dar toda saúde que eu puder ao baby – que eu passei por isso.
Quando o Cleber e eu ficamos de mãos dadas na hora do exame, era bem em cima da minha barriga que elas estavam repousadas. A Bolota também estava na corrente para me passar força. E deu certo!
Um passinho à frente! E pra mim ele vale muito!

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Relato de um dia ruim e uma nova esperança

continuação do post anterior, também está no meu outro blog, mas com uma ou outra alteração. aqui está mais completo. 
Era final de janeiro de 2012. Tudo para ser um dia de semana qualquer, mas já começou diferente. Eu sempre me levanto primeiro que o Cleber para adiantar o café da manhã e preparar as coisas. As crises de epilepsia dele se dão principalmente por cansaço mental, privação de sono, e o levantar brusco pela manhã. Pressa matutina você não encontra nesta casa, mesmo que estejamos muito atrasados.
Pois bem, naquela manhã, não me levantei, me lembro de que estava com muito sono. Ele foi tomar banho, voltou e eu mal o vi, confesso. Sei que, de repente, meu pai saindo do banho me chama e diz “Mara, o Cleber tá tendo uma crise, você não viu? Ouvi do banheiro”. Levantei num pulo só, tropeçando no edredom, tentando acordar e quando chego na sala o vejo tendo a crise deitado no sofá. Claro que me senti culpada por não ter visto nem ouvido nada. E ainda bem que ele percebeu que não estava bem e sentou no sofá, senão podia ter sido pior. Esperamos passar, ele recobrar a consciência e descansar um pouco e fomos ao hospital (já percebemos que no hospital eles exageram muito na medicação e preferimos não ir algumas vezes, confesso, mas era dia de semana e ele precisava de um atestado médico).
O hospital, particular, o mais perto de casa que atende nosso convênio, estava muito cheio. Fiquei com ele no quarto do soro, ele deitado e eu sentada ao seu lado. Era um quarto separado por biombos, não víamos os outros três ou quatro pacientes que também estavam ali. Ele dormia e eu lia. Muito calor no dia, e lá dentro também. E o hospital cheio. Um burburinho o tempo todo, pacientes gritando, enfermeiros entrando e saindo. Estávamos no primeiro leito, bem de frente pra porta, e a cortina não ficava fechada o tempo todo, então não tínhamos privacidade. Ele descansava e eu tentava não ouvir o que falavam pelos corredores para evitar que eu ficasse ruim. Percebi que chegaram uns estagiários novos, e alguém estava apresentando o hospital a eles, como uma visita monitorada. Não gostei. As horas passando, e eu sem comer nada. Mal tinha tomado café da manhã e já tinha passado bastante da hora do almoço. Pois bem, o soro dele acabou e ninguém vinha retirar, e eu comecei a ficar muito incomodada com aquilo, com a demora e com o que eu estava vendo voltar pela mangueirinha também. Levantei e fui atrás de alguém que pudesse nos atender. Levantei e tive uma tontura. Para todo lugar que eu olhava, só via agulhas, fios, soros, rostos sofrendo… e enfermeiros rindo, conversando entre si como que alheios ao que se passava em volta. Minha pressão começou a baixar, eu tinha certeza. Falei pro enfermeiro que estava ali “a medicação do meu marido acabou e ninguém vai lá tirar. Chama alguém, por favor”. Deixei-o lá e fui até a lanchonete do hospital tomar um ar e comprar uma água, nem avisei o Cleber. Não deu muito certo. Pra chegar lá era preciso passar por mais pessoas, e pela recepção cheia e quente. Quando peguei a água e tentei abrir, não consegui. Só me lembro que eu falei “não tô conseguindo abrir a água” e a lembrança seguinte já é a de me colocarem numa cadeira de rodas. Desfaleci por alguns breves minutos. E a cena seguinte foi até engraçada: eu entrando no hospital de cadeira de rodas e meu marido saindo, tinha acabado de receber alta.
Entrei na sala do médico e ele já falou: “você tá muito pálida, vai tomar soro e fazer um exame pra ver se tem anemia, tô preocupado”.
Parêntese: óbvio que eu estava pálida, tinha acabado de desmaiar, né!!!  Fecha parêntese.
Tentei explicar meu caso pra ele, que eu sempre fico sensível e passo mal em situações assim blábláblá. Mas ele nem me olhava, só falou “tá, mas você tá pálida, vai tomar soro pra hidratar e fazer exame”. “Mas, doutor, eu fico pior com o soro, porque sofro muito na hora que vão colocar”. Acho que falei mesmo para as paredes, porque a enfermeira me levou da sala.
Enfim, fato é que me levaram pro mesmo quarto em que eu estava como acompanhante.
Precisavam me colocar no soro e recolher material pra o exame. Eu não queria.
Aqui cabe dizer que quando acontece isso comigo, eu só preciso de repouso. Não preciso de mais situações que piorem o meu estado. Mas eu estava muito fraca e qualquer coisa que eu falasse, nem respondiam. 
Meu marido estava na sala do médico, pegando o atestado e finalizando as coisas dele, e também estava um fraco, obviamente, quando chegou para ficar comigo. 
Eu estava ficando mais nervosa, acho que só não desmaiei de novo porque já estava deitada. Não conseguiam achar minha veia. Eu falava “moça, não fala nada, eu não posso ouvir, só faz que eu não vou olhar”. Ela falava. E eu chorava. Para piorar um pouquinho mais, chegou uma outra enfermeira para conversar com ela sobre o que iam fazer depois do expediente, no fim de semana. Conversar!!!! Ela se distraiu e errou a mão (não posso escrever o que houve, porque não tá dando certo, mas em outras palavras ela arrebentou meu braço). Ela terminou o que foi fazer e eu continuei chorando. Não tinha coragem de mexer o braço, nem de olhar para qualquer outro lugar que não fosse o teto.
Minha sogra chegou para ficar comigo enquanto o Cleber ia almoçar (já eram umas 16:00, eu acho). Ela chegou, me acalmou um pouco, e viu que meu braço não estava muito bonito (acreditem, eu não tinha olhado pra ele de jeito algum). Foi lá e pediu pra enfermeira um algodão com água e limpou tudo direitinho., porque nem isso elas fizeram, me deixaram suja mesmo. Me deu água, e ficamos conversando um pouco. Eu dizia: “como vai ser quando eu tiver um filho, Edi? Vou desmaiar na hora do parto?”, e ela “Não, Má, fica calma, na hora a gente ganha uma força que não sabe de onde veio” e me acalmava, conversava outras coisas pra eu melhorar logo.
Saí de lá no finalzinho da tarde, com um grande hematoma no braço esquerdo, exames comprovando que a minha saúde estava ótima e um peso imenso no peito. Durante alguns dias ainda fiquei muito triste por ter sido tratada daquela maneira, sem o mínimo de respeito. E a pergunta que rondava minha cabeça nos últimos meses se tornou uma certeza: eu não poderia contar com a sorte e esperar que profissionais que, até então, eu nunca havia visto me atendessem quando chegasse o momento de colocar uma vida nesse mundo. Iria ser com uma equipe que eu confiasse plenamente, que tratariam o parto – que é um ato fisiológico, e não médico – de forma respeitosa e humana.
Naquela época, eu ainda sabia pouco sobre o assunto, mas já havia visto o vídeo lindo da Sabrina. Foi o primeiro vídeo que eu vi sem tampar os olhos em nenhum momento e achei um bom sinal. Fiquei feliz com o que vi. Havia, em algum lugar não tão longe de mim, pessoas capacitadas que entendiam que as vontades das mulheres devem ser respeitadas. Pessoas que entendem que a natureza é perfeita, e se podemos gestar, com certeza podemos parir também. O nosso corpo sabe o que fazer. Intervenções acontecem em alguns casos somente, e não “por rotina”, pra ir mais rápido; e mesmo se precisar intervir, o respeito vai existir em todo processo. Pessoas que sabem que a mãe é a protagonista, e não os médicos. Senti uma esperança de ser ouvida, finalmente.
Então eu comecei a pesquisar mais, ler mais, aprender mais. Algumas palavras, que antes não me eram familiares, hoje eu já entendo melhor. Parto natural, parto humanizado, doulas, intervenções de rotina (ocitocina sintética, episiotomia, etc, etc), parto domiciliar, cesárea eletiva. Como funciona ou não funciona com os convênios médicos, com os grandes hospitais particulares, no SUS. Medicina baseada em evidências. Taxas de cesáreas no Brasil. Mulheres empoderadas. E muito mais coisas. As peças foram se encaixando lentamente na minha cabeça e até hoje eu leio muito, claro, nunca vou parar de ler. Porque eu entendi que, para ter o meu maior desejo realizado, além de vencer essa minha sensibilidade, terei que lutar contra um sistema inteiro que domina o nosso país. Um sistema que está mais interessado em manter as agendas dos médicos livres aos fins de semana e feriados, e seus bolsos com mais dinheiro (fazendo os índices de cesárea chegar a mais de 90% em alguns hospitais particulares, quando a OMS recomenda até 15%), do que respeitar a fisiologia do parto, a ordem e o tempo natural de cada uma. Um sistema que já tomou muitas decisões por mim – e eu não posso permitir que a minha voz seja abafada dessa maneira.
Acho que aqui cabe dizer que eu não tenho medo da dor. Entendo-a como parte do processo de trazer a esse mundo um amor que ainda desconheço, mas sei que é incondicional. Sei que há modos de lidar com ela, e que quando eu as estiver sentindo e não me lembrar que escrevi isto, terei ao meu lado quem me lembre e não me faça desistir. 
Além do medo de cair nas mãos de um médico cesarista, eu tenho medo da violência obstétrica, que existe, que acontece com muitas mulheres. Infelizmente, é um quadro real no nosso país. Eu tenho medo disso porque eu já sofri violência psicológica em hospitais também, e doeu. Nem preciso de muita imaginação para saber que, se eu sofro isso hoje, grávida então a coisa vai piorar, porque ficamos mais sensíveis e tudo mais. Tenho medo de pessoas passando por cima de valores básicos, inutilizando aquela mãe – que só precisa ser ouvida, acalmada, encorajada, respeitada – como se seu corpo fosse objeto de estudo naquele momento.
Quer dizer, eu tinha medo. Não tenho mais.
Agora, um ano depois do que relatei ali no início, depois de tanta busca – interna e externa – me sinto mais segura. Sei também que terei que fazer alguns esforços financeiros para que eu tenha ao meu lado os profissionais que escolhi, mas todo esforço será recompensado, se Deus quiser. A minha sensibilidade vai ser superada também. Porque as pessoas que estarão comigo durante todo o tempo serão escolhidas a dedo. Pessoas de bem, que acreditarão na minha força e na perfeição da natureza. Porque hoje acredito mais em mim.
Não tenho mais medo, porque percebi que não estou sozinha nessa. Sou grata a Deus por ter descoberto tudo isso ainda antes de ter um filho. Muitas mulheres só se dão conta depois que tudo passa. E a força que todas temos, juntas, para superar e mudar esse quadro, é imensa.
Ainda há muito a aprender, e a maioria desses aprendizados virão mesmo com alguma prática.
Esta história está apenas começando…

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