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não precisa esperar nascer

No fim do dia
sinto o bebê mexendo
dentro do meu ventre
pela primeira vez por vários minutos
vezes seguidas
sinto
leves movimentos
a vida brincando dentro de mim
crescendo
reconhecendo espaços
mandando sinais
me fazendo lembrar do agora
do que importa ser
cultivado
nutrido
cuidado
e então eu paro
celebro
sorrio e consinto
a força é tão grande
potente
que a gente sente
mesmo antes de ver

e hoje
no limiar
entre o fim da tarde e o princípio do luar
lá estava a vida
ativa
a avisar
que já existe agora
e que não é preciso esperar nascer
para sentir
nascer
para dizer
nascer
para viver
abrir caminhos por dentro não só é possível
é o princípio
da vida
do sim
e da revolução de ser.

Marina Matos
em 11 de outubro de 2018.

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carta do dia: a natureza é mãe

Filha, tô te escrevendo porque eu também não quero esquecer.

Foi hoje cedo.

Depois de um tempo chorando – cansaço, sono, vontades, sentimentos – você no meu colo. nós duas juntas pra tentar acalmar os ânimos, lembrei de uma coisa e te falei:

-filha, você consegue, meu amor. isso não é seu. deixa ir. solta. deixa o vento levar isso embora, pra longe, pra libertar. a natureza sempre ajuda a gente, meu amor. é só você lembrar. o vento vai levar embora esse choro, deixa ele ir, tá?

-é, mamãe?

-sim, meu bem.

-tá bom!

e acabou o choro.

a natureza é mãe, filha. ela vai sempre dar colo e nos ajudar quando a gente pedir.

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Carta do dia: intuição e experiência

Filha,

mamãe tá indo pra Salvador hoje, sozinha. 
Vai ser rapidinho, veja só, hoje é quarta-feira e na sexta estarei de volta pra dormir com você. Mesmo assim já estou com saudade. Você disse isso pra mim também, que vai ficar com saudade quando eu estiver “lá no Salvador”. Você me perguntou porque eu estou indo, e porque estou indo sozinha. 

Sabe, filha. A mamãe está descobrindo como é importante a gente valorizar, ouvir e receber com muito amor a voz que vem do nosso coração. A respeitar as nossas vontades. A conhecer a nossa essência. A nos conectarmos com a verdade que guia o nosso caminho. Tenho feito isso com mais presença nos últimos meses. Vezes mais, vezes menos, porque é um aprendizado – e algumas vezes a gente ainda cai em erros antigos para aprender que aquela é uma questão a ser iluminada e trabalhada. Mas o fato é que tenho feito, sim. Tenho procurado ouvir mais as minhas intuições, acreditar nelas – e tem sido um caminho bem bonito, muito bom de trilhar e desvendar. 

Pois bem. Uma dessas minhas intuições me disse que eu devia seguir em frente e ir pra Bahia sozinha, mesmo que fosse por dois dias (e não cinco ou sete, no Carnaval, como era o plano original, rs). Que Salvador é terra de energia forte, e que eu ando precisando beber um pouco dessa fonte e conversar de perto com aquele azul profundo que é o mar que só tem lá. Que ir sozinha, a passeio, é bancar uma Marina que ainda é meio nova pra mim, mesmo que eu sinta que ela sempre esteve aqui esperando para ser vivida. Que isso também é o meu trabalho, porque eu preciso viajar e me movimentar para me entregar à escrita como sei que posso fazer. Que isso também é a minha espiritualidade, porque minha alma reconhece aquele lugar de uma forma muito gostosa, e pela primeira vez estarei presente numa festividade ao dia de Iemanjá. Que isso é a força da amizade, porque sem a presença e o apoio de Dai eu estaria ainda mais perdida do que o normal, rs. E provavelmente tem mais mil coisas que fazem essa viagem ser imprescindível, mesmo que eu não saiba responder com palavras. Coisas que ainda vão fazer sentido daqui alguns dias ou mesmo em décadas. Coisas que ainda nem sei que são pontos a serem considerados, mas que estão compondo esse cenário. E tudo bem. 

Eu espero que isso seja uma mensagem pra você também, filha. Que você pode, sim. Que você é livre. Que sempre pode conseguir o que quiser, basta continuar tentando, indo, sentindo o caminho e o seu coração. Que algumas coisas não tem explicação racional, graças a Deus. Ao ver os meus movimentos, espero que você entenda, que sinta forte aí dentro do peito, desde já, que fique gravado em você, que é cuidando da nossa verdade e do nosso sentir que a gente se fortalece e floresce. Cresce. Para seguir em frente, para cuidar do outro, para ofertar ao mundo o que de mais bonito vier desse cultivo. E também pela experiência em si, por nós mesmas, pelo tempo presente que é tudo o que temos – então que seja de significado e sentido.

O nosso caminho é construído todos os dias, meu bem. E enquanto estivermos aqui no planetinha azul é tempo de aproveitar, de ir, de viver. Eu espero que você entenda que estou seguindo uma intuição, e que isso é uma escolha possível e natural – uma das milhões de escolhas possíveis na sua vida, você terá milhares delas, acredite. 

Não estou buscando respostas definitivas, nem te escrevendo agora, nem nessa viagem. Estou interessada na experiência. No tempo presente que ainda está por vir. E em te abraçar no aeroporto na noite de sexta, com certeza. 

 

com muito amor,
mamãe.

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Em paz com a minha história

Esses dias eu vi aqui nas estatísticas do blog que o post com mais visualizações das últimas semanas é a carta que escrevi pra Agnes antes dela nascer (aqui o link pra ler a carta). Fiquei emocionada em reler aquelas palavras e relembrar o sentimento de espera, de calma e vontade de viver o parto ao mesmo tempo. A carta foi escrita no dia 10 de julho de 2014. Ela nasceu no dia 15. E fiquei pensando que ali na carta eu dizia que queria sorrir quando percebesse que ela estava dizendo mesmo que ia chegar, que estava me entregando pro parto, que queria viver cada dor que viesse com a consciência de que era um caminho nosso em direção a nos conhecermos.

E, bem. Pensando aqui direitinho… não foi bem assim que aconteceu.

Antes de falar que isso, o fato de não ter sido bem assim, é aquela velha máxima dos cuspes caindo na testa das mães, tô pensando em outra coisa.

Que para viver a leveza e o gostosinho que a luz traz pra nossa vida, invariavelmente a gente passa por uns breus, uns esbarrões nos móveis da casa até chegar pra abrir a janela ou acender a luz.

Tempos atrás eu pensaria assim “eu escrevi que queria estar feliz e leve para receber a pequena, aí três dias depois já estava em trabalho de parto e tudo foi tão diferente, tão pesado… será que eu menti pra mim mesma? Será que menti pra todo mundo falando que estava calma quando na verdade estava surtando de ansiedade? Eu sou uma farsa mesmo”.

hahahaha deixa eu colocar umas risadas aqui pra lembrar que rir da gente mesmo é uma boa pedida pra relativizar o tamanho das coisas.

Sim, eu era dura comigo mesma nesse nível. Uma cobrança surreal. Acho que nem dá pra dizer ainda que já mudei por completo. Estou em processo. Mas ter consciência de que esse é um ponto a ser trabalhado já me ajuda demais e coloca tudo numa nova perspectiva.

Hoje, quando eu reli a carta e quando me lembrei de como foi o trabalho de parto, o que senti foi tranquilidade, de novo. Entendimento. Clareza. Talvez três anos e meio tenha me dado a distância necessária para perceber que tudo aconteceu exatamente como tinha de ser. Que eu precisava enfrentar aqueles fantasmas para chegar até a luz (dar a luz). Que eu precisava encarar, sentir, reviver tantos anos de história para entender de uma vez por todas que aquilo era, sim, importante pra mim, que eram lembranças que moldaram boa parte da minha vida. E que eu já podia deixá-las, se quisesse. Eu podia ultrapassar aquele ponto e dar outros passos para além da estrada. Eu podia abrir a janela e ver a paisagem novíssima lá fora. Eu podia sair dali, afinal.

Não dava pra chegar na prática leve sem antes dar uma faxinada nas práticas recorrentes até então. Não deu pra ter um olhar leve ao entrar em trabalho de parto, porque eu tive acesso a pontos muito delicados da minha bagagem. Coisas que estavam latentes, já chegando na superfície (e eu nunca deixava sair, ficava contendo aquele tanto de coisa dentro de mim), e precisavam mesmo vir pro mundo de novo para liberar o caminho pro tanto de vida que estava chegando. Entendo realmente como uma estrada que eu percorri (ainda precorro), como um lugar que tive que passar pra chegar em outro.

Fim do ano passado aconteceu uma coisa semelhante. De eu estar sentindo algo bem bonito aqui dentro, mas quando fui de encontro com a ação primeiro surgiu uma bagunça generalizada. Fica parecendo que é “culpa” do sentimento, ou que eu não tinha entendido o que era, ou que idealizei demais e depois quebrei a cara. Mas não foi nada disso. E mesmo não tendo nada a ver com parto nem com maternidade, quando eu reli a carta entendi que era um processo semelhante. Do mesmo jeito que aconteceu antes, primeiro tive que encarar um bloqueio, perceber que ele existia, acolher, aceitar como parte do processo. E só agora, semanas depois, tô sentindo que aquilo não foi tudo. Foi uma parte. Parte que precisou existir para me mostrar mais um monte sobre mim e sobre o mundo. Sobre como me comunico, como transporto meus sentimentos mais abstratos pro mundo concreto. Sobre paciência. Sobre acolhimento. Sobre continuar em frente e confiar no poder da (nossa) natureza em nos mostrar o caminho. E que aquele sentimento, o bom, o bem, o leve, continua aqui. Ele precisava de espaço pra existir com mais potência. Ainda é tudo muito novo, o caminho está sendo aberto, eu só dei uns dois passos até agora, mas sei que em algum momento vou olhar esse período e sorrir por perceber que era inevitável que rolasse tudo que rolou.

Aquela calma que eu senti ao esperar o tempo da minha filha nascer ainda mora aqui dentro. Aprendi a confiar nela, a deixar que ela ficasse. E mesmo tendo enfrentado um deserto árido antes de chegar naquele momento mágico em que seguramos no colo pela primeira vez a pessoinha que até um segundo atrás morava dentro de nós, e por muito tempo ter acreditado que havia sido apenas peso e excesso, que eu queria ter vivido aquelas horas de outro jeito, hoje eu sinto que não, não foi tudo “errado”, ou torto. A calma estava aqui, sim. Ela sempre esteve. Até no deserto.

Contextualizando pra quem não acompanhou meu relato de parto (que eu pretendo reescrever qualquer hora dessas): fiquei quase trêsdias em trabalho de parto. Eu não “sofri” horrores com as dores das contrações, tanto que com 6 cm de dilatação (mais ou menos), na troca de plantão, as enfermeiras achavam que eu nem iria parir nas horas seguintes, com elas. Porque eu estava apenas deitada, sem contração regular ainda. Estava tudo bem com o meu corpo e com a bebê. Mas em algum lugar dentro de mim existia um turbilhão de lembranças e sensações. Eu digo que “demorou” pra Agnes nascer porque eu nem estava lá realmente. Eu estava longe, lá atrás, sentindo umas dores e uns medos tão antigos que já nem sei desde quando existiam. Foi um deserto que atravessei. Começou no domingo. Na madrugada de terça, quando me entreguei pro presente e aceitei que, sim, minha filha estava chegando, ela nasceu quarenta minutos depois. Também por isso eu digo que ela é a minha pequena mestra em me ensinar a viver o presente.

Então vamos lá, falando mais uma vez só pra registrar na minha mente: a calma e a conexão sempre estiveram aqui. Todas as horas de turbulência não significaram ausência disso, em mim. Foi uma parte do caminho. Uma parte que atravessamos. E depois seguimos, aprendendo a conviver, a deixar transparecer, a existir. Viver um momento crítico não quer dizer que somos aquilo em absoluto. Ou que todo o evento (ou o ano, ou a vida) é definido por isso. Vamos respirar e lembrar: tudo é caminho. Tá tudo bem em ser quem podemos ser no momento. Daqui a pouco a paisagem muda, a gente muda e seguiremos sempre aprendendo. Aprender a confiar nos caminhos da vida também é uma boa pedida. Paciência, gentileza e movimento, eis aqui um tripé bem importante nessa coisa de lidar com os nossos processos de evolução.

Olha, eu não pensei que os primeiros dias de 2018 me trariam uma “surpresa tão surpreendente”, mas aconteceu. Sim, estou em paz com o meu caminho. Estou em paz com a história do meu trabalho de parto. Ler aquela carta, além de mostrar isso, ainda me ensinou sobre outros pontos desse meu caminhar. Tudo é aprendizado mesmo – e como eu gosto de me conectar com isso.

Que venha um ano potente e cheio de possibilidades de crescimento para todas nós.

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Carta do dia: 3 anos de pura vida

Filha,

Hoje é 15 de julho e você já sabe o que isso significa. Faz tempo que você aprendeu que esse é o dia do seu aniversário. Esse ano, assim que a gente resolveu celebrar a sua vida numa festinha pros amigos mais chegados, você participou de tudo. Escolheu o tema de gatinhos e dizia para quem quisesse ouvir que ia ter bolo, suco de uva, suco de manga e suco de goiaba. E dizia que ia ser no “dia quinze de juio”. É hoje, filha! Hoje é dia 15 de julho. O dia em que você nasceu e trouxe muita vida, muita luz, muito amor, cor e desafios para a nossa vida. 

Eu tenho um orgulho danado de ser sua mãe, de estar com você nessa caminhada e nesse contato tão nosso que estamos construindo há três anos. Sou muito feliz sendo sua mãe – é um aprendizado diário de construção de desconstrução que estamos trilhando juntas. Muito obrigada pela paciência, pelo olhar, pelo abraço, pelo carinho e por tudo mais que somos juntas.

“Eu gosto de você do jeito que você é”. Você falou isso pra mim esses dias e meu coração ficou repleto de amor e felicidade. Eu falo isso pra você, geralmente antes de dormir, junto com todo o meu discurso de que você, o papai e eu somos uma família e que estaremos sempre juntos cuidando uns dos outros, que te amamos, e com algumas desculpas por algo que eu esteja achando que fiz de forma meio torta. E sempre digo que te amo do jeitinho que você é. Foi uma alegria descobrir que você entendeu e gravou essa frase a ponto de repeti-la pra mim, meu amor.

Você também diz que somos amigas, o que é verdade absoluta – você é uma parceirinha incrível que nós amamos ter por perto. 

Três anos, meu amor! Você cresceu nos últimos meses – tanto de tamanho quanto de desenvolvimento. Você já sabe que vai pra escola em breve (quando a mamãe finalmente decidir por alguma, rs). Começou a conversar mais com as crianças no parquinho, se apresentando e brincando junto, mesmo que ainda sinta um pouco de vergonha, mas tá lindo de ver você rompendo os próprios limites e indo até onde se sente confortável. Entende muito bem o que a gente fala. Muda de assunto quando leva bronca. Come bem, escolhe o café da manhã e o que vamos colocar no seu prato no restaurante. Quer me ajudar a limpar o banheiro, esfregar o chão e guardar as roupas nas gavetas. Tem uma memória incrível e sempre lembra onde guardou (ou escondeu) tudo. Empresta e divide os brinquedos e o lanche. Grita quando está muito cansada. Pega folhas pra fingir que é guardachuva. Leva a gatinha de pelúcia e a girafinha pra passear e ver a rua. Nossa, muita coisa. Não quero me esquecer dessas coisinhas que compõem esse nosso presente. É maravilhoso ir descobrindo o mundo com você.

Há três anos eu sou mãe, tô no começo da coisa ainda, mas é inacreditável o tanto que eu aprendi nesse tempo. Realmente, a potência da maternidade como ferramenta de transformação é muito grande e eu agradeço muito por ter embarcado nessa. 

Eu te desejo muita saúde pra brincar e correr e pular, muita alegria e dias de sol e céu azul.

Te amo muito, do jeitinho que você é.

 

com amor,
mamãe.

 

 

Fotos desse ensaio muito divertido feitas pela: família rz, amados que eu recomendo de olhos fechados, sempre ❤

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A timidez, a sapequice e a criança que eu fui

Depois do post das belezas e do encantamento pelos 2 anos e meio, vieram dias de alguns paradoxos pro aqui. Ah, maternidade. Nada é, tudo está.

A pequena anda tímida. Quer dizer, pensando bem, ela nunca foi a mais sociável dos bebês, de ir em colos alheios de cara, numa boa. Só mesmo com quem ela conhece bem. Mas agora, quando chegamos em ambientes com mais gente, quando as pessoas vem falar com ela, cumprimentar, brincar, ela abaixa a cabeça e põe a mão na boca. Fica um tempo assim, caladinha, por vezes se encolhendo um pouco. Pra se soltar, só depois de algum tempo, mais do que nunca.

É fase, será? É genético? É a personalidade dela? São os astros?

Eu fui uma criança bem tímida. Ainda hoje eu sou, apesar de já saber – e conseguir – domar e agir de outras formas. Mas a criança tímida que eu fui ainda existe aqui em algum lugar, sei que sim. E podem até dizer que isso nela é um reflexo meu. Sombras, ou algo assim. Em relação a isso, eu observo mais o meu sentimento quando a vejo assim. O que reverbera aqui dentro pode ser mais exagerado, o que nasce quando a vejo colocando as mãos na boca e enterrando o rosto no meu pescoço pode fazer reviver um monstrinho que vivia comigo lá atrás. É a minha história. E aí, pra não projetar os medos todos, ou seja, para não agir com ela baseada no que eu sentia há mil anos atrás, e não pelo presente, há que se ter muita análise e algum tempo mesmo. Fico repetindo isso pra mim, prestando atenção. Somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, sentimentos diferentes. Mesmo que algumas reações sejam parecidas, não quer dizer que ela está sentindo a MESMA coisa que eu. Essas coisas básicas de uma pessoa que faz autoanálise a maior parte do tempo. Tô acostumada, rs. Acaba que pra mim é até melhor, me faz bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes, quando acontece, não sei direito o que fazer. Não a forço falar com ninguém, mas não sei se tô acolhendo o tanto que “deveria”. Sinceramente, não sei.

E aí, quando chega em casa (e na casa dos avós, que é uma extensão da nossa, só que com mais “coisas permitidas”, se é que me entendem), a pessoinha pega fogo. Sobe, desce, pula, canta, conversa. Muito. Começou esses dias a ter mais enfrentamento dos limites. A gente fala não e ela fica parada, meio olhando de lado, calada, com aquela carinha de “estou te ouvindo, mas tô fingindo que não”, sabe assim? E continua fazendo. Ou então grita. Eu desligo a televisão pra refeição ou alguma outra coisa, ela vai e liga de novo, olhando pra mim. Olha, não é fácil. Essas coisas também fazem nascer sentimentos antigos, né. Dá vontade de dá uns gritos, de fazer a pessoinha entender que não é assim, que não dá pra ser tudo no seu tempo, que é preciso respeitar. Tanta coisa. Vários conceitos a gente quer que eles entendam num olhar – como muitas vezes foi com a gente. “Minha mãe olhava pra mim e eu já sabia que tinha ido longe demais”. Muitas vezes, é com a criança que um dia fomos que nos relacionamos, não com nossos filhos.

Tenho andando cansada esses dias. Emocionalmente cansada. E com uma intuição de que preciso alterar algumas coisinhas aqui na nossa rotina. Estar mais perto, brincar mais lá fora. Ficar mais tempo só nós duas.

Nada é, tudo está, repito de novo. Daqui a pouco os dias passam, as fases mudam e essa página já estará virada. Que eu saiba o que registrar nela, então. Pelo menos na maioria das linhas.

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De quando eu me vi nela

Ela pedia pra mamar, mas eu não queria naquele momento.
Na verdade, estava pedindo muito, toda hora. Mamou muito durante a noite (mas também deve ser pelo calor que fez, eu sei).
O fato é que estávamos em momentos diferentes ali naquela tarde.
Ela queria. Pedia. Chorava. Ôta mamá! Ôta mamá! É como ela fala.
Eu queria um tempo pra mim, um tempo sem ninguém me tocando. Eu precisava de espaço.
Falei que não podia atender àquele seu desejo, mas que podia ficar junto, acolher de outras formas.
Ela se distraia um pouquinho, mas logo voltava.
Nem as brincadeiras com o pai deram jeito. Nem o almoço.
E então, depois de um tempo, aquela angústia aqui dentro, tantas dúvidas, tanta neblina, eu percebi.
Ela também estava sentindo.
Toda vez que eu preciso de espaço por não estar bem, ela cola em mim. Parece que tem uma anteninha que detecta meus medos. Deve ter mesmo, não duvido, não.
E aquela minha vontade de dizer não aos seus pedidos, será que era só isso mesmo? Ou eu também queria validar um desejo meu? Ou eu também precisava dessa autoafirmação, de que eu tenho vontades, tenho direitos, tenho meus tempos. E que exijo respeito. E colo, se possível for.
E quando eu me enxerguei fazendo isso, não foi somente a minha filha que eu vi aqui puxando minha blusa pedindo pra mamar. Foi um reflexo.
Eu me vi.
Estávamos fazendo a mesma coisa, ao mesmo tempo.
Duas pessoas precisando de atenção e colo. Duas pessoas que queriam ser validadas, amparadas, aceitas como são e com o que precisam.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Atendi seu pedido.
Não precisa ser uma guerra, afinal. Isso aqui não é disputa de quem pode mais ou manda mais.
Relação a gente constroi todo dia, nas pequenas escolhas.
E que bom que a gente pode escolher de novo, quando percebe que aquela outra não está mais cabendo.
Que bom que ela é tão generosa e paciente com os nossos  processos diários.
Que eu também não desista de mim.

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Carta do dia: vamos juntas

Filha,

estes dias você tem estado mais grudada em mim, principalmente quando estamos em casa. Quer dizer, você sempre foi o “meu grudinho”, mas foi ficando mais solta e mais tranquila com o passar dos meses. Agora parece que voltamos algumas casas. Você tem preferido meu colo, só dorme bem se estou por perto, fica ao meu lado quando faço as coisas da casa, senta no meu colo quando estou escrevendo. Você quer contato físico, proximidade, algo concreto pros seus olhinhos curiosos.

Algumas vezes é complicado, porque eu preciso de um tempo pra mim também. Conciliar nossas demandas, nesses dias em que você está assim, muitas vezes cansa. Hoje por exemplo, que era para eu ter conseguido escrever e fazer outras coisas, não fiz nada. São quase onze da noite e só agora conseguir sentar aqui sozinha. Você já dormiu e ficou lá na cama, mas já acordou uma vez me chamando, em menos de 1 hora (ontem não ficou, dormiu no meu colo e por aqui ficou por todo o tempo que estive acordada, inclusive jantando).

E eu te atendo, meu amor. Mesmo não sabendo exatamente o motivo, mesmo tendo medo de você sentir algo que é só meu, que você não precisa sentir. Mesmo precisando de espaço também. Eu te atendo. Você é tão bebê ainda. Está crescendo, está aprendendo a ser você, a lidar com o tanto que acontece dentro do seu corpinho. É natural que precise de mais amparo mesmo, eu sei. Completamente compreensível que precise de mim, de um corpo físico, de uma voz conhecida, de um cheiro, um ritmo e um cuidado que você conhece desde sempre, não é?

Ia me desculpar por me mostrar tão frágil pra você algumas vezes, mas acho que não vou. Porque esta sou eu, meu bem. Esta é a sua mãe. A pessoa que chora, que fica meio pra baixo as vezes, que também precisa de cuidados. Eu sou assim e você me conhece muito bem. Inclusive, eu não preciso entender com a razão o porquê você está assim. Não preciso porque, muitas vezes, eu não sei explicar nem o que eu mesma estou sentindo – e mesmo assim sei que preciso sentir e viver para entender e deixar passar, e dar mais um passo. Daqui a pouco já assimilamos tudo isso e estaremos andando em outro ritmo, você vai ver.

Obrigada por estar comigo nessa caminhada, filha. Aprendo muito com a sua presença, saiba disso.

com amor,
mamãe.

 

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Ela

Esses dias estive pensando na Agnes e o quanto ela representa nas nossas vidas, na minha vida.

Ela tem um entendimento das coisas, de pequenas coisas, que me faz acreditar em Deus com muita força. É muito forte o que eu sinto por ela, o que eu sinto com ela. Sabe uma sensação de pertencimento? Uma sensação de que estou em casa, de que estou segura, de que estou bem? Sou eu com ela.

Já aconteceu dela me ver chorar. E sabem o que ela fez? Me abraçou. A Agnes olhou bem nos meus olhos e me abraçou apertado, com aqueles bracinhos no meu pescoço, a sensação mais gostosa da minha vida. Eu esperei a vida inteira por esse abraço, e ele veio. Eu esperei a vida inteira por alguém que me olhasse com carinho quando eu não consigo dizer nada, só chorar, e então receber esse abraço, que é a verdadeira promessa de que tudo ficará bem daqui a pouco.

Durante um tempo eu pensei que não era bom assumir isso, nem pra mim mesma direito, que dirá escrever sobre o assunto. Tinha medo de ser uma projeção, de acabar esperando que ela se comportasse de uma determinada forma, que atingisse expectativas que não existem. Nunca quis esse peso para a minha filha, por isso nunca o dei, sou bem consciente nesse aspecto, penso muito a respeito. Acontece que não é uma projeção, percebi dia após dia na nossa convivência, é um sentimento. Um sentimento real, forte, que nos une desde antes dela vir morar na minha barriga.

Na primeira gestação, quando ainda discutíamos os possíveis nomes, um dia o Cleber chegou do trabalho falando em Agnes. Achei que não era um nome que combinasse com aquele bebê na minha barriga, mas não descartamos totalmente. A vida aconteceu e não era mesmo para ter sido. Assim que a Bolota se foi, achei que não conseguiria pensar em bebês tão cedo, já contei isso muitas vezes, aliás. Só que 1 mês depois da perda, logo no primeiro ciclo, eu já pensava que não devíamos evitar nada, porque eu sentia que tinha de ser daquele jeito. “Eu não quero planejar e tentar, mas também não quero fechar as portas”, foi o que disse. Eu simplesmente não conseguia me imaginar evitando uma gravidez naquele momento. E não evitamos. E ela veio. Com uma presença marcante desde o início. E agora, escrevendo esse texto e pensando em quando estava grávida, li essa carta que escrevi pra ela depois de um sonho lindo, e pude perceber o quanto todas aquelas palavras fizeram sentido e se encaixaram perfeitamente no que estava por vir. O parto foi transformador, daquelas experiências que nos dividem em antes e depois. Não foi rápido e fácil, foi como tinha de ser, para nós duas. E desde então, em cada vivência nossa, em cada passo que damos juntas nessa relação, eu sinto que fica mais forte, não sei como. Somos muito nossos – nós três aqui em casa.

Ela confia tanto em nós, é tão lindo de ver a sua entrega ao que dizemos e ao que fazemos com ela. Tenho repetido ultimamente que não quero perder isso. Quero estar atenta sempre, para que esse vínculo só nos leve além, nunca nos prenda, nem se desgaste. Sinto que ainda tem muita história para acontecer, muita vida para viver. Ela veio mesmo para mexer com a gente, nos pegar pela mão e sair andando por aí enquanto explora possibilidades e descobre novos caminhos e olhares. Que sorte a nossa. “Que bom que você veio, filha. Sou muito feliz com a sua presença. Obrigada por tudo.”

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sobre alergia e amor

Eu ando com muita vontade de comer chocolate. Muita mesmo. Não de sentir o sabor chocolate em algum bolo ou outra coisa, mas de comer bombom, brigadeiro, ou em barras. Ando com vontade de comer doces, em geral. Leite condensado. Doce de leite. Beijinho. Sempre gostei de doce, sou uma formiguinha nata. Não costumo comer grandes quantidades de uma vez, mas como. Um bombonzinho inofensivo depois do almoço. Um brigadeiro de colher numa tarde de domingo vendo tevê. Essas coisas simples da vida, corriqueiras. Já faz parte da minha rotina. Ou melhor dizendo, fazia parte.

Já estou na quarta semana sem ingerir leite de vaca e seus derivados.
Nunca pensei que um dia eu fosse conseguir tal feito. Eu sou daquelas que simplesmente não consegue seguir dieta alguma. Quando eu estava organizando meu casamento e, obviamente, ansiosa com o evento, comia bastante chocolate. Me diziam pra maneirar, para estar bem no vestido e eu ignorava essas palavras solenemente, afinal de contas, o vestido é tinha que caber em mim, não é mesmo? E contrariando às expectativas, até emagreci. Quando eu estava grávida, pensava melhor no que ingeria, claro, pois sabia que tudo ia pro bebê, mas nunca deixei de comer nada. Havendo moderação, eu seguia com minhas guloseimas sem peso na consciência. Por isso eu pensava que jamais conseguiria me manter longe disso tudo. Mas ta aí, tô conseguindo. Com muita vontade de atacar umas guloseimas no meio do caminho, mas estou.

E só estou por causa da pequena pessoa que dorme tranquilamente aqui no meu colo enquanto escrevo essas palavras. Minha filha. Eu pensava que nunca ia conseguir porque antes não existia um motivo.
Ela tem uma pele muuuito sensível, então começou a ter assadura muito cedo. Primeiro só uma vermelhidão na pele, depois ficou mais feio. Troquei a marca da fralda descartável (porque as de pano não cabiam nem de longe quando ela nasceu), mas logo ficava igual. Resumindo: durante mais de 1 mês, melhorava por 5 dias e depois voltava a ficar ruim a pele de novo. Ia e vinha. Isso porque eu a troco sempre, só uso algodão e água/chá de camomila para limpá-la, seco direitinho. Não sou adepta das pomadas em todas as trocas, gosto de deixar a pele dela respirar. Uso a da Weleda, para alguns casos, e a boa e velha maizena mesmo. Mas nunca ficava 100% o bumbum dela. Cismei que tava vendo um muco no cocô de vez em quando. E estava mesmo. Até que um dia, começo de setembro, vi um risquinho de sangue. Apavorei. Levei num outro pediatra, que nem me deu bola, disse que podia ser das assaduras mesmo. Mas e elas, por falar nisso, por que nunca saram? Fiquei sem resposta. Uns 12 dias depois apareceu de novo. Como ela estava visivelmente bem, não chorava demais, não tinha outros sintomas, fiquei observando, tentando não me desesperar. Eu tinha receio de começar a dieta, achava que não ia conseguir. Mas aí 10 dias depois apareceu de novo e pra mim foi suficiente. Chega! Não liguei pra pediatra nenhum, eu sou a mãe dela, estava presenciando alguma coisa rolar e já tinha chegado no meu limite. A partir daquele dia, 30 de setembro, eu iria iniciar a dieta sem leite para ver o que acontecia. Era só um teste, até para parar de pensar nisso se nada acontecesse. Mas o que aconteceu foi que tudo melhorou. O bumbum ficou bonito, como deve ser um bumbum de neném. Não teve mais muco e nem vestígio de sangue. Foi muito rápida a mudança, no segundo dia eu já percebia claramente a diferença, até a consistência mudou.

No primeiro dia eu passei mal, fiquei fraca, muita coisa na minha dieta tinha o leite como base, eu adorava comer iogurte natural com frutas no lanche da tarde. Mas aos poucos fui aprendendo que existe vida sem esse alimento. Está sendo bom também para variar o paladar, hehe.
Nesse quase 1 mês aprendi bastante coisa sobre a alergia da proteína do leite da vaca, mais conhecida como aplv. Nem falo muito que a Agnes tem isso, porque o sintoma dela é só mesmo esse intestinal e é até leve, se comparado a outros bebês que sofrem mais. Vou continuar na dieta mais um tempo e depois reintroduzir algo para ver como ela reage. Mas o fato é que ela melhorou muito depois que parei de consumir esses alimentos. E vê-la bem é a minha maior motivação para seguir adiante, com toda certeza. Ver que ela está mais saudável, feliz, ganhando peso lindamente… é muito bom! Como pode a gente conseguir mudar tanto por causa de uma pessoinha tão pequena, né? Tô encantada por viver o amor materno, ver como ele acontece, o jeito que ele age e nos faz tomar certas atitudes sem pensar duas vezes. Eu já imaginava (óbvio) que ele era poderoso, mas senti-lo está sendo demais! Nos faz mesmo pensar no outro, deixar um pouco o próprio umbigo de lado – pelo menos é o que eu tenho sentido aqui nesses poucos meses sendo mãe. Esses dias eu até comentei: nunca pensei que ficaria tão feliz por ver um bumbum lisinho. Hahaha E é bem isso mesmo, uma felicidade por saber que o que estou fazendo está fazendo bem pra ela, que mesmo ainda estabilizando os sintomas, estamos no caminho. E é isso que me faz ir além, mesmo sentindo mil vontades.

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