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Talvez, talvez…

Atenção: post altamente abstrato. Estou tentando organizar as ideias e acho que não tem coisa com coisa, mas tô postando assim mesmo, rs. Agradeço a compreensão de todxs. 

Eu acho que sempre fui uma pessoa que confia. Confio nas pessoas, confio em Deus, confio em mim. Quer dizer, essa confiança toda foi e está sendo construída ao longo dessa minha estrada, mas de uma forma geral podemos dizer que sou confiante.

História para ilustrar: 
Em 2010, fomos todos (família unida, lembram? rs) ao shopping e meu pai aproveitou para comprar umas roupas, pois estava precisando. Ele é a pessoa que mais economiza, sempre quer tudo o mais barato possível. Nesse dia, ele se permitiu entrar numa loja em que nunca tinha comprado nada e gastar umas centenas de dinheiros. Estava clima pré-copa do mundo e o shopping, juntamente com o cartão Visa (isso não é um publipost, hahaha), fizeram uma promoção: a cada tantos reais em compras, você ganhava um cupom para concorrer a uma viagem à África do Sul para assistir um jogo do Brasil, com acompanhante. Meu pai, que adora um sorteio, foi lá e depositou seus cupons, olhou pra minha mãe e falou “nós vamos pra África!”; rimos todos daquela remota e longínqua possibilidade e a vida seguiu. Uns dias depois (não me lembro se uma semana ou duas) meu pai foi viajar, lá pra nossa roça, em Minas, onde mal tem sinal de televisão, quanto mais de celular, e deixou seu aparelho em casa. Uma tarde qualquer, eu estava aqui em casa, bem gripada, meio zonza até, o celular dele toca. Atendi. A moça do outro lado da linha diz: “(…) é sobre o sorteio da viagem, do shopping Eldorado, ele ganhou!!! (…)”. Gente, vocês não têm ideia. Eu pulava na sala, toda feliz, toda serelepe. Disse que ele estava viajando e ela pediu pra ele voltar logo, pois tinham que acertar tudo. Liguei pra minha mãe, que estava trabalhando, dei a notícia, ao que ela solta “mas será que é verdade? Será que não é golpe?”. Várias pessoas pensaram isso. Me senti meio ingênua, mas tinha certeza que era verdade. Esperei uns minutos, entrei no site do shopping e lá estava: o nome completo do meu pai como ganhador. Ele realmente voltou mais cedo para acertar tudo (nem passaporte eles tinham ainda) e quando ele foi assinar os papeis na administração do shopping, a mulher (a mesma que ligou) falou que eu fui a única pessoa que acreditou de primeira e comemorou, todas as outras acharam que era trote ou pegadinha. Resumindo: meus pais foram pra África do Sul, ficaram uma semana por lá. Assistiram ao jogo do Brasil (o último que ganhamos, ainda bem, rs), visitaram vinícolas, o Cabo da Boa Esperança, vários passeios, jantares, hotel legal, com absolutamente tudo pago. 
E algumas pessoas se espantam mais com o fato de eu ter acreditado de primeira do que na viagem que eles fizeram, hahaha
Enfim. Tudo isso pra falar que estou insegura comigo mesma.
pausa pra vocês rirem da minha cara, por ter enrolado tanto para dizer isso, super me sentindo demais pelos meus dotes confiancísticos e depois falar isso assim na cara dura.
despausa. 
prosseguimos. 
Talvez aquela crise que eu disse uns posts atrás não tenha ido embora totalmente. Talvez tenha ido embora a parte profissional e no lugar esteja a parte gestacional. Talvez eu seja a própria crise em carne e osso e ela nunca me abandonará #dramamodeon
Esse ciclo está sendo diferente. Eu disse que não queria voltar a tentar (nem evitar), porque foi isso que senti que deveria fazer naquele momento, a vontade realmente estava gritando aqui dentro, mas pode ser que isso mude daqui um ou dois ciclos e tudo bem, nada é muito definitivo na (minha) vida. 
Tá, mas não é sobre isso também que eu quero falar agora. Sinceramente, já faz uns três dias que estou diante da tela em branco esperando um melhor jeito de elaborar, e nada.
Tive várias sensações (referentes a um futura gestação, no caso) desde o início do ciclo. Várias. Fortes, fracas, felizes, de medo. Anotei quase todas para não esquecer e fazer um “estudo detalhado” depois. Tem sido um processo bem solitário, na verdade, ninguém sabe disso. Geralmente o Cleber sabe essas coisas, mas não contei dessa vez (o que não significa que ele não possa ter reparado em algo). Sei lá, é uma coisa minha, não quero muita interferência de fora agora.
Mas agora nesse final tá meio puxado. 
Talvez eu não tenha cumprido ao pé da letra a parte do “sem interferências de fora” e li mais do que deveria (o que não significa que informação me atrapalha, tenho aprendido realmente muuita coisa ótima e válida, que vale post depois; estou falando da minha autoconfiança mesmo). 
O fato é que comecei a “duvidar” das coisas todas que senti, é isso. Pode ser que eu esteja precipitada e tenha entendido tudo errado. Pode ser que seja tudo coisa da minha cabeça. Pode ser que eu seja mesmo muito ingênua e acredite até em Papai Noel. E sim, duvidar do que eu sinto, pra mim, é uma coisa grave.
Na verdade, o fato de ter perdido um bebê me deixou com o pé atrás nesse lance de gestação. 
(É isso! Insights assim só me chegam quando estou escrevendo. Enfim.)
Fico pensando como vai ser na próxima vez. Quero tanto um filho, que acho que nem consigo mensurar direito. Em contrapartida, acredito que tudo tem a hora certa para acontecer, mas que temos que fazer nossa parte, porque né?! nada cai do céu. 
Tenho medo de ter outra perda? Sim, um baita medo. 
Só que maior do que esse é o medo de não entender mais o que eu sinto. Medo de me iludir. 
Na verdade, eu não contei pra ninguém tudo que vem acontecendo também para evitar que me mandem relaxar e pra eu parar de ser ansiosa. Sabe, o que eu sinto agora pode até ser uma certa ansiedade, mas não é essa minha questão. Ansiosa eu sempre fui, só que hoje a uso mais a meu favor, não deixo que ela se transforme num stress (pelo menos tento). E, independente do que aconteça, maternidade sempre estará no meu topo de interesses.
Meus pensamentos estão bagunçados. Talvez ainda demore muito pro meu bebê chegar. Talvez eu me sinta culpada por não estar exatamente aonde eu achei que deveria estar (seja lá o que isso signifique). Talvez eu ainda tenha que aprender muita coisa, comer muito arroz com feijão para que as coisas aconteçam. Talvez eu deva fazer mais. Pensar menos. E veja bem, isso pode até não ser de todo ruim, e não deve ser mesmo. Só que eu ainda estou muito perto pra saber. Talvez daqui um tempo eu veja isso como só uma fase da espera pela espera. 
Só sei que agora, neste instante, tudo que eu queria era ter um pouco mais tranquilidade de novo. E encontrar algum sentido nessa minha bagunça.
Até lá, só me resta ir – quem sabe eu não (re)encontre a minha confiança pelo caminho e a pegue de volta pra mim?
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De repente…

E então você vive o luto e, aos poucos, a nuvem densa que pairava sobre a sua cabeça vai se dissipando.
Setembro chega e, com ele, você começa a viver dias mais felizes. Mais leves. Com mais sorrisos. Presença dos seus amigos. Piquenique. Cafés e sorvetes. Cinema. Namorando muito. Escrevendo alguns rascunhos. Saindo mais de casa. Até comprou umas roupas novas, coisa que não fazia há tempos. Até resolveu ficar por uns tempos sem comer carne, e está se sentindo muito mais leve assim. Feliz. 
Você começa a perceber que alguma coisa mudou em você. Se antes – antes mesmo, desde o ano passado – você preferia ficar em casa, numa imersão total, agora parece que aquele ciclo finalmente está se encerrando. Naturalmente, a vontade de sair, de viver novas coisas, chegou. E é isso que você tem procurado fazer, dia após dia. E mesmo quando fica em casa, está diferente. A energia mudou. Novos planos. Novas atitudes. Mais contato com a natureza. Viagem programada para breve. Pensando em detalhes das festas de fim de ano. Interagindo muito mais com aqueles que lhe fazem bem. Inventando um projeto novo. Muita coisa. Ao mesmo tempo. Apesar de agitada e em constante movimento, sua cabeça está leve.
Você ainda está se acostumando a esse ritmo novo, que chegou meio sem avisar. Percebe que é preciso – que você realmente quer – fazer certas coisas antes da próxima gestação. Já está fazendo, aliás. É tempo de ação, não mais de recolhimento. Você desenha uma nova rotina, com alguma flexibilidade. Finalmente, vislumbra algo que parece um caminho. Ou ao menos um atalho. Sensação de estar adentrando um novo terreno, em que a terra lhe parece muito favorável ao que você quer plantar. 
E então resolveu, junto com seu marido, que as tentativas só começariam em alguns meses…
Aí, numa segunda-feira, você acorda e, entre uma tarefa e outra, sente uma vontade absurda de ter um filho. Dentro de você. Fora de você. Consigo. Já. É  uma vontade tão real que é quase palpável. A pauta do texto que você começou a escrever horas antes fica sem sentido e você mal sabe o que fazer com esse sentimento. E resolve, então, escrever um outro texto.
E de repente, não mais que de repente, você se dá conta. 
Não importa o quanto você tenha mudado e quais são seus planos e ações. A sua essência sempre vai te lembrar os motivos que fazem seu coração bater mais forte e querer ir além. A maternidade é uma caixinha de surpresas, linda e intensa, e um filho nunca segue o que você determina como ideal. E, sim, eles te mostram isso a partir do momento em que se tornam desejados. 
Que bom que você está agora num caminho novo, com a cabeça mais leve e o coração mais tranquilo. Terra nova, e fértil, será mesmo necessária pra tanta novidade que está por vir. Quanto aos planos… ah, você já está acostumada a mudá-los a todo momento mesmo. Não vai ser novidade se fizerem isso dessa vez.
Arquivo pessoal. Foto de Lilian Higa, minha amiga e fotógrafa incrível

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Das coisas que aprendi

Ontem eu escrevi um textono meu outro blog, sobre uma “teoria de vida” que eu tenho: tudo em nossas vidas acontece por uma razão. Eu acredito nisso e me apeguei ainda mais a essa ideia agora, nessa tempestade que passei.
Claro que eu não posso afirmar com categoria “esse bebê veio pra isso, isso e aquilo outro”. Assim eu estaria, no mínimo, sendo prepotente. Além de estar diminuindo a grande missão daquela alma. Algumas coisas, com certeza, estão além do que supõe a minha vã filosofia – e eu também reverencio e admiro esse mistério divino. Mas eu acredito, também, que muita coisa que aprendi e vivi nesse tempinho se deu por sua presença aqui em mim. Disso eu posso falar. Porque eu percebo que algumas peças mudaram de lugar no meu tabuleiro, que algumas dúvidas e neuras que eu tinha, hoje ou não existem mais, ou estão em processo ativo de ser resolvido. E eu não posso simplesmente guardar isso, eu preciso registrar, porque além de ser ferramenta da memória, a escrita é minha aliada em muitas outras coisas. E eu vou fazer isso já, antes que eu me esqueça de alguns pormenores. Algumas coisas eu percebi durante a gestação e, por incrível que pareça, outras constatações vieram com a perda. Pois é, esta sou eu querendo encontrar algo positivo em meio a tanta dor.

Das coisas que me aconteceram durante a gestação:
Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que antes. Já até citei isso aqui no blog quando percebi. E sim, isso me surpreende, porque antes de engravidar eu era uma pessoa muito (muito!!) ansiosa, afobada, que fazia coisas por impulso e que sofria por antecipação. [Pra falar a verdade, isso era mil vezes mais frequente em mim antes de conhecer o Cleber – todo o processo de “sossega, Marina” (nome que eu acabei de inventar, rs) começou quando o conheci, não posso deixar de dar os créditos também a ele – mas desde que me descobri grávida passei a me sentir ainda mais calma pra lidar com algumas coisas do que antes]. Sendo sincera, não sei porque isso aconteceu, talvez tenha sido um amadurecimento mesmo, ou a minha forma de encarar certas coisas tenha mudado. Hoje eu consigo focar mais no que me faz bem e isso deve ajudar também. Só sei que até o meu irmão, que mora há mais 2.000 km de distância, disse que percebeu que eu mudei, que até o meu jeito de falar mudou – e ele disse isso alguns dias depois da perda- e isso só me mostra que o negócio pegou mesmo em mim, já que consegui permanecer assim, dentro do possível, até para encarar tudo que aconteceu de um jeito diferente.

Eu falei naquela blogagem coletiva que passei a confiar de verdade no meu corpo e em seus sinais, isso também foi algo que mudou. Aliás, acabei de ler o post de novo e me lembrei que eu tinha um medo real de algo dar errado. Naquela época, meus medos giravam em torno de uma gravidez anembrionária, ou de perder o bebê no comecinho – nunca nem pensei em algo dar errado com 17 semanas, mas enfim, aconteceu e agora estou aqui tentando colar os caquinhos. Mas o que quero dizer, além de tudo que citei lá no outro texto, é que ainda confio no meu corpo, sim. Eu poderia pensar que tem algo errado em mim (ou no marido, sei lá), mas esta nunca foi uma opção. Eu não sei o momento exato em que a vida do bebê se encerrou, só sei que eu tinha uma pulga atrás da orelha e isso me diz que sim, o meu feeling ainda funciona – e espero que continue assim por muito tempo – e o meu corpo trabalhou perfeitamente bem desde sempre, não há como negar. Também não me arrependo do fato de ter optado por fazer menos ultrassons (eu poderia ter feito um na semana anterior para tentar descobrir o sexo, mas não fiz), porque o fato de eu descobrir algo antes não ia mudar o desfecho da história – tudo acontece quando tem que acontecer, é o mantra que ecoo sempre, para me lembrar disso.

Sobre o tempo, eu poderia deixar para falar no post que vou fazer sobre as coisas que aprendi com a perda, mas aconteceu também durante, então vou citar nos dois. O que aconteceu foi que o meu ritmo diminuiu muito no tempo em que estive grávida. Eu fiquei mais introspectiva, não fui em shows, tive zero vontade de me exercitar. E eu respeitei isso, não tentei ir contra, não. Simplesmente porque acho que as coisas têm que ser vividas em sua totalidade (na medida do possível, claro). Foi um tempo fundamental para outra coisa que veio junto: a minha conexão comigo mesma (e, obviamente, com o bebê). Peguei mais leve fisicamente, mas emocional e psicologicamente foi intenso. Foi um tempo meu, em que me permiti viajar um pouco e que também veio à tona muitas respostas (com a ajuda do meu marido lindo, tenho que dizer, rs).

Não sei, tenho a impressão de que essas são só algumas coisas. É como se eu tivesse esquecido algo, ou talvez elas estejam relacionadas ao que citei aqui. Pode ser que algumas eu só descubra com o passar do tempo, quem sabe. Só sei que tenho uma sensação forte de que a minha fonte de luz me fez muito bem e que, entre outras coisas, ela veio para me ensinar mais sobre mim, sobre nós, sobre a vida.

Imagem: We Heart It

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Música para ouvir*

Eu sou uma pessoa completa e absolutamente apaixonada por música. Sempre tenho uma (várias) música para embalar os meus dias. Quando estou muito nervosa, ligo o som alto e apenas ouço as batidas da música (daquelas coisas que se aprende com o irmão mais velho; o meu me ensinou isso na adolescência; “abstrai” é o nome que damos ao momento). Quando estou muito feliz, também preciso de música. Pra faxina, pra cozinhar, algumas vezes até pra escrever (e pra fazer exame de sangue também, haha). Viajando de carro, então, é lei. E música nacional me prende ainda mais. Na verdade, é mais de 90% do que eu ouço, com certeza. Temos muita gente boa fazendo música aqui (gente que já se foi, gente que tá aqui faz tempo e gente que acabou de chegar), apesar dos piores serem mais divulgados na grande mídia, blah! E eu adoro saber mais da pessoa por trás do palco; algumas vezes admiro ainda mais o trabalho por saber um pouquinho quem ela é; adoro um making of. Adoro um show, adoro cantar (com a música, ninguém merece ouvir minha voz cantando sozinha), adoro dançar! Acho mesmo que a música tem um poder de nos deixar mais leves, mais conectados, mais felizes. Ano passado, inclusive, fiz amigos maravilhosos através da música, e somos um grupo grande e bem unido hoje em dia.

Então óbvio que com a gravidez não seria diferente. Tenho tido momentos muito gostosos com Bolota, ouvindo música. Em dias como hoje, que acordei com uma saudade danada desse bebê que ainda não nasceu (oi, meu nome é Marina e sinto saudade do que ainda não aconteceu), com uma pontadinha de aperto no coração, sentindo tanta coisa sem saber direito o quê, simplesmente faço dos canais dos artistas que mais gosto no youtube, ou dos meus dvds de shows (adoro!), ou do rádio, meus melhores amigos e, depois de uma hora ou duas, já estou me sentindo bem melhor, organizando mentalmente o que estava bagunçado. E como tenho ouvido muita música nos últimos dias, e como algumas delas já me ligam imediatamente ao meu bebê, quero registrar aqui apenas algumas que fazem sentido agora na minha vida, porque esse blog também é pra isso: depósito de memórias afetivas

“Pode ser um lapso do tempo
e a partir desse momento acabou-se solidão

Pinga gota a gota o sentimento

Que escorrega pela veia e vai bater no coração

Quando vê já foi pro pensamento

Já mexeu na sua vida, já varreu sua razão

Acelera a asa do sorriso
Muda o colorido, vira o ponto de visão”
(Música: Se não for amor, eu cegue)

Capa do cd é uma foto do netinho do Lenine dormindo sobre seu peito, como não amar?


“Talvez pelo buraquinho, invadiu-me a casa
me acordou na cama
Tomou o meu coração e sentou
na minha mão”
(Acabou chorare, versão Arnaldo Antunes)

para dias de saudade do que ainda não veio


“A Casa é Sua”, Arnaldo Antunes
penso que vou ouvir muito essa nas vésperas de parir, rs

“Alegria, Alegria”
porque é Caetano. Fim.



Todo o dvd Música de Brinquedo, do Pato Fu – que não é só para crianças. 
Gosto muito!



Ok, eu poderia ficar aqui por horas só colocando músicas que fazem parte da minha vida e que tenho ouvido agora, mas não ia acabar tão cedo e nem ninguém teria paciência – até porque, ninguém é obrigado a ter contato com o que eu gosto. Isso não é nem 1% do que ouço, mas por enquanto tá bom; talvez eu escolha um dia da semana para arquivar uma música aqui 😉 Memória afetiva preservada para Bolota ver no futuro, e depois vou acrescentando mais. 
* “Música para ouvir” é o nome de uma música do Arnaldo Antunes (sim, sou fã e ele é figurinha carimbada aqui em casa)

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A presença que eu sinto

Tenho me sentido muito próxima à Bolota. Mais do que nunca, eu acho.
É que eu ando sentindo muita coisa. Eu já sinto há muito tempo, na verdade, mas agora tá diferente. Passei a vida toda querendo decifrar umas coisas minhas, que me aconteceram bem lá atrás e que determinam muito quem eu sou hoje, de uma forma muito forte. Sempre tentei, mas nunca conseguia chegar aonde eu sabia que estava a resposta. Era como andar constantemente, mudar as rotas, refazer caminhos, quase chegar. Mas em algum momento eu me cansava ou me distraía, e parava. Depois tinha que recomeçar, e assim por diante. Até que eu engravidei. Foi como se, junto com o bebê, eu ganhasse uma percepção nova sobre coisas antigas. Eu sabia que mudaria, só não sabia que seria tanto, nem tão rápido.
Estou indo fundo em mim.
Eu achava que já estava começando esse caminho quando iniciei minhas leituras sobre maternidade ativa – e realmente estava, não posso negar -, mas só agora estou conseguindo acessar os lugares que eu não conseguia chegar antes. E eu preciso falar: tá sendo foda (não achei uma palavra equivalente, desculpem). Tanto no sentido de muito bom, quanto no sentido de muito difícil. Eu estou diante de uma porta e preciso abri-la. Estou tentando, mas ainda não consegui. Acho que sei como fazer, mas já entendi que algumas vezes é preciso mais do que saber o que fazer. Mas vou conseguir, e depois conto como foi.

O fato é que, se eu estou indo fundo em mim, no caminho eu cruzo sempre com a minha Bolotita. Neste momento, ela faz parte de um processo muito importante na minha vida. Não que eu esteja depositando num mini bebê a responsabilidade ou uma carga que ele não é capaz de carregar. Nada disso. É da certeza de um amor que eu estou falando. Se ela está em mim, literalmente, não tem como eu me conectar comigo e não me conectar com ela também. É inevitável.

E aí são duas coisas diferentes, mas igualmente intensas. Eu me descubro cada dia um pouquinho mais, e a sinto cada dia mais, também.
Temos tido momentos só nossos. Seja no banho, quando conversamos muito; ou quando coloco uma (sempre mais de uma, na verdade) música especialmente pra nós. Aliás, isso tem se tornado uma rotina muito agradável.
Sempre a incluo no que estou fazendo. Quando acordo mais cedo, com fome, viro pro marido e falo “amor, vamos levantar, a Bolota tá com fome”. Ou ao contrário, se quero dormir mais, digo que ela ainda não acordou. Reparei que não como mais chocolate nem muito doce como antes, acho o gosto mais doce do que eu posso suportar, e gosto de dizer que parece que a Bolota está puxando o pai, que não come chocolate quase nunca. Entre outras tantas coisas que gosto de inclui-la. É muito espontâneo, e tem sido bem divertido também.
E uma coisa muito louca no meio disso tudo que anda acontecendo: eu a sinto mesmo, aqui comigo. De uma forma bem mais ampla do que só sentir que tem alguém dentro da minha barriga. Acho que vocês entendem. Tenho sempre a sensação de tê-la no meu colo, ou perto de mim. Sempre. Já me peguei pensando – e acho que pra vocês posso dizer que até vejo a cena – várias vezes no pequeno bebê que estará aqui do lado de fora, em breve. Eu fecho os olhos e vejo. Uma pessoinha tão pequena a princípio, mas que eu respeito tanto, quero tanto, amo tanto. E aí é que eu chego a sentir o peso do seu corpinho no meu colo, de verdade. É tão real que até me arrepio quando penso nisso. Uma intensidade que eu ainda não havia experimentado. E como mãe é bicho bobo que só, sempre me emociono muito também. Várias vezes isso acontece, e em todas eu me surpreendo com a força desse sentimento. E sempre preciso agradecer a Deus por me permitir sentir tanto.

É… eu disse que estava indo fundo.
E daqui a pouco mudo o nome do blog pra “Travessia Materna”, porque é a palavra que chega mais perto do que ando vivendo.

Eu tô indo…
Foto: Arquivo pessoal
clicada pelo meu marido, em janeiro, lá em Aracaju.

ps: esse post faz parte da minha tentativa de abrir a porta que está prostrada na minha frente. 
Talvez surjam mais posts assim, ainda não sei. Só o que sei é que eu preciso escrever – e está sendo aqui porque me sinto muito à vontade com vocês. 

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Meu novo olhar

Imagem daqui



Uma vez por semana recebo um e-mail com uns dizeres mais ou menos assim: “O rosto do bebê está mudando. Os olhos, que antes ficavam nas laterais da cabeça, estão mais juntos um do outro, e as orelhas estão praticamente na posição definitiva. Nesta fase, os tecidos e os órgãos que já se formaram crescem e amadurecem rápido.”. Daí também chega um outro e-mail, com algumas informações a mais: “O comprimento do feto neste período é de aproximadamente 61mm e seu peso estará em torno de 13g. A face do bebê já tem aspecto humano. Os dedos das mãos e dos pés estão separados e as unhas continuam crescendo.” 

É claro que eu acho incrível, sensacional e lindo demais da conta saber (aproximadamente) o que acontece com o bebê em cada semana de sua pequena vidinha. E é fácil achar tudo isso, porque já temos uma ideia pré-pronta na mente de como será essa pessoa quando sair da barriga: oras, todo mundo sabe como é um bebê! Mas na realidade, é tudo muito abstrato. Não são todos esses detalhes que vemos claramente no ultrassom. Essas palavras são teoria. 
Quando recebo esses e-mails eu penso: como pode caber tanta coisa num espaço tão pequeno? Pensar que, num tamanho mais ou menos equivalente ao meu polegar cabem cérebro, olhos, boca, coração, fígado, unhas, dedos, braços, pernas, etc. Um organismo (quase) completo. Não pronto, óbvio. Mas existe! Penso em mim, no meu tamanho e em tudo que tem dentro da minha pele: quase tudo isso também cabe dentro de 6 centímetros (!!) 

E antes que me perguntem que droga é essa que eu tô usando, me deixando numa vibe toda doida, falando de uma coisa tão normal, explico. É que agora eu enxergo tudo de um jeito diferente. Aconteceu mais ou menos assim…
Entramos, marido e eu, naquela sala pequena e com uma meia-luz. A médica indicou onde ele deveria sentar e pediu que eu me deitasse. Colocou um gel gelado na minha barriga e começou a mexer aquele aparelho em mim. Apertou um pouco e… lá estava: o nosso bebê. Uma imagem em preto e branco, como uma tevê antiga e mal sintonizada. Para mim, nem a água nascendo na fonte era mais clara. Qualquer medo que, porventura, estivesse sentindo de algo ter dado errado, foi-se embora sem que eu nem percebesse, pois estava ocupada demais admirando, por uma tela, o que acontecia naquele exato instante dentro de mim.
Acostumada a ver nas telas somente o que vem de fora (ou do passado, se for uma foto), não contive a surpresa ao constatar que sim, aquela era uma imagem vinda de dentro. De dentro de mim. Em tempo real. Aquele bebezinho estava mesmo, todo esse tempo e ainda por mais algum, aqui comigo, em mim. Surreal.
Me transportei lá pra dentro e vi perfeitamente: uma pessoa crescendo no meu útero. Literalmente.
Conseguem entender a grandiosidade da coisa?
Foi mais que aquela sensação de ficha caindo. Foi uma mudança completa de perspectiva. E acho que me permitir enxergar tudo com os olhos da criança que ainda mora em mim, como se visse o mundo, maravilhada, pela primeira vez, deixa tudo ainda mais lindo.

Porque uma coisa é a teoria, um número ou uma afirmação; outra, bem diferente, é pensar literalmente no que aquilo representa. A maioria das pessoas não tem o hábito de trazer para si o que aprendem de mais abstrato, por mais que esteja acontecendo exatamente aquilo conosco, o tempo todo. Comigo isso mudou um pouquinho na faculdade, quando eu tive a oportunidade de ver no laboratório muitos dos nossos órgãos e ossos. Ali eu percebi a lacuna entre a teoria e a realidade e pensei: ainda bem que não somos transparentes putz!, é coisa pra dedéu! Nenhum livro dá conta de explicar com exatidão isso, não; nesses casos, a experiência de visualizar nos traz um novo entendimento.
Dá pra entender mais ou menos o meu raciocínio? Claro que a racionalidade não te deixa perceber essa lacuna, mas parando pra pensar melhor, é mais ou menos isso que acontece, sim. E é claro que eu já sabia de um monte dessas coisas que os e-mails dizem, que óbvio que o bebê está crescendo dentro da barriga, mas o fato é que agora eu sou parte integrante e fundamental do processo. E ver tudo isso como protagonista, e não como espectadora, muda tudo. Muito.

Quando marido e eu saímos na rua, com as imagens em mãos, ainda estávamos maravilhados pelo que vimos juntos naquela sala escura. E foi aí que eu disse: você não acha incrível que tudo isso (mostrando a extensão do nosso corpo) também cabe num serzinho tão pequenininho assim (mostrando o indicador e o polegar bem pertinho)? E ele ficou em silêncio pensando um pouco e consentiu, meio embasbacado: sim, é incrível!

E eu vou falar: todo esse acontecimento, chamado fabricação intensa de vida, mais conhecido como gestação, ganhou um novo sentido pra mim, muito mais amplo, muito mais profundo. É como uma nova consciência, eu diria. Complexa e apaixonante.
Não sei se me fiz entender como gostaria, mas vou afirmar de novo: essa é a coisa mais fascinante do mundo todinho. Um outro corpo, um outro organismo, completo, independente do meu (mas ainda dependente de mim) crescendo à todo vapor, bem aqui. Tão perto que nem posso mensurar. Está em mim, mas não sou eu.

Acho mais fácil pensar e visualizar isso no fim da gravidez, quando a pessoinha já é um bebê de fato, já tem o jeitinho e a carinha que vai dar oi pro mundão. Mas pensar nisso desde agora, onde tudo se transforma e evolui numa velocidade absurda, é realmente incrível. Tem sido incrível.
Desde o momento da fecundação coisas incríveis acontecem, sem uma pausa de um milésimo de segundo sequer. Em silêncio, duas vidas formam um outro ser. Um corpo passa a ser casa de outro.
Dois corpos ocupando o mesmo lugar no espaço  #chupanewton.

Isso me faz pensar no poder do corpo feminino. No quanto somos capazes de fazer, sem nem ao menos percebermos. E no quanto temos que acreditar mais em nós mesmas, sempre. Confiar na nossa capacidade, que é inata.
Porque a natureza é de uma beleza perfeita e muito sábia.
Existem mistérios que nunca serão revelados. E saber que, mais do que nunca, eu faço parte disso, me traz uma espécie de empoderamento novo.  
Me faz pensar que a gestação nos faz perceber o mundo de uma forma completamente nova, limpa, sem amarras, e que muita gente não entende, não vê sentido.
Mas não é mesmo pra fazer sentido. É apenas para sentir.

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