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Uma gestação, muitos sentimentos

38 semanas de gestação. Não tem como negar que estejamos na reta final. Se nascer hoje ou se nascer de 42 semanas, tá perto. Sendo assim, esse me parece um bom momento para falar de como eu fui invadida por uma montanha russa de sentimentos e sensações nesses meses todos.

Se me perguntarem como foi ou como estou em relação a gestação em si, é mais fácil responder. Eu me sinto ótima, me sinto feliz, me sinto plena, sinto que estou realizando um sonho. De verdade. Até agora tive uma gestação muito tranquila, graças a Deus. Sem contratempos, sem alterações, sem aqueles sem-fins de sintomas incômodos – só alguns mesmo. Pra quem emendou uma gravidez na outra, sendo que a primeira não teve um final feliz, passar por isso assim, dessa forma calma, sem turbulências, foi um presente. Não estou dizendo que não tive medo. No começo, claro que senti. Me permiti guardar a notícia só para os mais chegados por um tempo tanto para preservar a nova vida e me vincular a ela no nosso tempo, como também para evitar mil especulações e comparações desnecessárias com o que tinha me acontecido 2 meses antes. Eu não precisava do medo das pessoas, já tinha o meu para aprender a lidar. Aprendi a não projetar uma experiência na outra e foi bem gostoso ir descobrindo o novo. Eu não tive uma conexão instantânea com a Agnes assim, logo de cara. Apesar de ter sentido muito cedo que ela já estava aqui, ela foi um mistério morando na minha barriga por um bom tempo. E eu acolhi esse sentimento. Aos poucos fomos sendo cada vez mais uma da outra e hoje eu amo tê-la aqui dentro e conhecer seus movimentos e respostas. Mas sim, sinto que isso é um grão de areia diante do que ainda está por vir.
Sem contar que adoro estar grávida, adoro os sintomas e ver o quanto o nosso corpo é mesmo perfeito e sabe o que faz. Adoro curtir a barriga e conversar com ela, fico toda emocionada pensando em como vai ser quando ela estiver aqui do lado de fora, em como ela vai nascer e essas coisas todas. Amo! Amo compartilhar tudo isso com o Cleber, ver como ele já está construindo uma relação com a Agnes desde agora, conversando e brincando, e o quanto ele se empenha para entender meus sentimentos e se inteirar de tudo o que diz respeito a hora do parto e aos cuidados dela.

Agora, se o assunto é o resto do mundo… Ou melhor, se o assunto é o que o resto do mundo tem despertado em mim, aí é outra conversa.
Por um lado, gosto das pessoas perguntando, se interessando pela pequena, todos animadíssimos com a sua chegada. Mostro roupinhas pra todo mundo que vem aqui em casa, conto do andamento da montagem do enxoval e do quarto, fazemos festa. Entendo que um bebê faz as pessoas ficarem mesmo muito animadas – até porque eu fico muito animada quando sei que tem um pra chegar. Realmente gosto dessa parte.
Porém, ao que tudo indica, algum duende travesso passou por aqui e levou toda minha (pouca) paciência embora. Acabou rápido e eu tentei me virar como deu. Foi difícil aguentar mimimi. Foi difícil fazer ouvidos moucos e cara de alface. Foi difícil lidar com fofoca. Ou até mesmo com conversa fiada em horas inoportunas. Foi difícil, não. Está difícil, porque ainda não acabou. Eu sofro, eu fico com raiva, eu quero enforcar dar na cara de quem for. Depois, choro (nossa, como eu choro!). Tô chata mesmo, não posso negar. É uma espécie de tpm misturada com salto de desenvolvimento – pense numa combinação que não deveria existir.
A boa notícia é que não foi assim durante 38 semanas sem parar, ufa! Claro que houveram folgas, muitos períodos felizes e ensolarados. Mas é que esses aqui que conto agora, os dias mais cinzentos, quando meus hormônios me dão um baile daqueles… esses são intensos.
Muitas coisas aconteceram – algumas que foram “despertadas” por causa da chegada da pequena (mas que não tem a ver com ela, necessariamente), outras que não tinham nada a ver com a gravidez – e mexeram muito comigo. Que me fizeram enxergar uma parte do mundo de um jeito diferente. Sombras minhas, fatos dos outros. Situações, constatações. Na verdade, é complicado escrever sobre isso, acho que por isso nunca mencionei diretamente por aqui. Porque o que é meu, não quero/posso/consigo compartilhar agora, não quero falar por enquanto, e isso nem indica um problema, veja bem, só quer dizer que o meu modo de elaborar o que me acontece se dá assim mesmo: internamente. E não posso expor diretamente o que veio de fora, porque é preciso preservar os envolvidos, mesmo que os mesmos tenham me chateado muito algumas vezes.
O que posso dizer é que muitas vezes eu quis ir pra uma casinha lá na marambaia, porque realmente não foi fácil ser eu. Com o tempo eu percebi que tinha que me preservar, também pela Agnes, que sente e vive tudo o que vem de mim. Eu precisei me cuidar. Eu precisei aprender a relaxar (e ainda estou em processo). Quando deu, evitei sim situações que eu sabia que iriam me irritar ou me chatear, simples assim. Algumas vezes eu só quis um pouco de paz mesmo, pra curtir o presente e viver a gravidez. Nem sempre fui compreendida, mas era isso ou muito stress pra minha pequena e pra mim. E claro que nem sempre deu certo também, mas a vida é isso aí, tentativas e erros e acertos. Não dá pra ensaiar antes. Foi um grande e intenso aprendizado – está sendo, não sei quando (ou se) vai acabar.

Teve um dia que ouvi algo assim: “na verdade, não são os outros que mudam e se intrometem mais, elas sempre foram assim e a gente ia contornando e relevando para evitar indisposições. O que muda é a nossa postura diante do mundo. É saber que agora não ficaremos calados quando quiserem tomar decisões em nosso lugar – porque afinal tem alguém ali que depende inteiramente da gente”. E é exatamente isso. Não foram os outros que mudaram, fui eu. Não vai dar mais para ser como antes, e nem quero também, não faz sentido.
E então, escrevendo esse texto, percebo que nesses 9 meses gestei não só a Agnes, mas também a mim. Não só a mãe que serei, que isso é principalmente dia a dia, mas também a mulher que quero ser. Ainda não sei inteiramente quem vai nascer – e sinto que será um expulsivo doloroso, se me permitem a comparação – mas tudo bem né, tenho um longo caminho para (re)descobrir.

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Gestação: caminho para dentro

Que eu sou uma pessoa intensa, que gosta de remexer no que está sentindo, buscar novas visões e entender bem o que se passa aqui dentro não é nenhuma novidade pra quem me conhece ou me lê. Isso acontece por uma série de motivos que, se eu fosse explicar direitinho, daria um (ok, mais de um) texto a parte. O fato é que eu sou mesmo assim e tudo bem, gosto disso. Só não sabia que isso mudaria um pouco quando eu engravidasse.

Na verdade, é meio complicado tentar explicar, porque como ainda estou no meio do processo, não sei em que pé estamos ou o que aprenderei com tudo isso. A sensação que eu tenho é que passou um vendaval surpresa por essas bandas e que ainda estou perdida. Percebo que há muita coisa para ser arrumada, limpa e organizada, mas é difícil saber por onde começar, tamanha bagunça do local. Aliás, isso aqui faz parte do começo da organização. Escrever, pra mim, é arrumar a casa, colocar cada coisa em seu lugar.
E não que seja uma coisa muito grave ou um problema enorme. Mas viver o novo, mesmo que seja cotidiano, faz a visão ficar mais apurada mesmo, não tem jeito. A prática é bem diferente da teoria, isso eu constato todo dia. E sim, isso mexe com o que a gente já sabe sobre nós mesmos. Ou melhor, com o que achamos que sabemos. Estar grávida é exatamente esse bagunçar de certezas. Ou é a maternidade, no geral, que é? Também não sei se isso acontece com todas as mulheres e só algumas é que decidem dar ouvidos a esse barulhinho de inquietação e ir investigar, ou se tem mulher que é mesmo super prática e bem resolvida. Fato é que eu tentei ignorar e colocar outras coisas em cima, mas não deu.

Lá atrás, quando comecei a estudar sobre gestação, parto e nascimento, fui criando uma espécie de base, que foi crescendo e se transformando claramente no que eu queria e desejava. Que demais!, eu pensava. Pude decidir isso assim tão cedo, imagina só, tem gente que só se dá conta do que realmente quer com 30 semanas pra lá, que bom que vou ter mais tempo pra me organizar.
ha-ha-ha.
Que tolinha que eu fui, achando que já estava assim tudo pronto, que a vida organiza a estrada dessa forma tão certinha pra gente só chegar e passar. Claro, por eu já ter muita informação e realmente já saber o que queria, muita coisa ficou mais fácil, sim. Já sabia desde o começo o que priorizar, aonde ir, com quem falar, quanto ter. Ter tudo encaminhado foi mesmo uma mão na roda, não posso reclamar. Mas eis que eu engravido e descubro, no meio do processo, que existem outras questões a serem abordadas. Questões que eu não encontrei em nenhum blog ou livro, pelo simples fato de serem só minhas. E que essas questões poderiam interferir, mesmo que indiretamente a princípio, nas decisões anteriores. E que só quem pode escolher alguma coisa sou eu, porque né?! empoderamento tem dessas coisas – e que ótimo que tem! Só que nem sempre é fácil escolher, esse é o ponto. Nem sempre é possível mudar uma rota assim, quando já se está pra lá do meio da linha de partida (e de chegada também). Nem sempre é fácil quando existe um prazo. E aqui está a minha principal questão: nem sempre é fácil quando existem outras pessoas envolvidas. Não só você. Não só você, seu bebê na barriga e seu marido. Outras pessoas. Ao mesmo tempo em que eu tenho plena consciência de que toda essa escolha está numa esfera muito pessoal e que não posso deixar de fazer, o que quer que seja, por causa da opinião de terceiros, também sei que bater de frente com o que se apresenta como obstáculo nem sempre é a melhor solução. É preciso saber dosar as coisas, e é nisso que consiste a bagunça que tenho que arrumar.

Na realidade, tudo isso tem muito mais a ver com assuntos pessoais e bem menos com o parto em si, ou com a gestação toda. Nem só de processos fisiológicos, nutrientes e semanas se faz um bebê. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, nutrientes e bebê se faz uma mãe. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, bebê e maternidade se faz uma nova mulher. Ah, acho que deu pra entender. Existem outras coisas. Existe aquilo que você acha que já está super bem resolvido, mas que é só numa situação dessas – com muito hormônio e alguma reflexão envolvidos – é que realmente vêm à tona e você percebe que não, não está super bem resolvido coisa nenhuma. No máximo estava pré-resolvido, com alguma decoração em volta, disfarçando e fazendo as vezes solução. Só aí você se dá conta da poeira que mora debaixo do tapete e o tamanho da faxina que terá que fazer, se quiser realmente viver num lugar limpo e parar de ter problemas respiratórios de uma vez por todas.

Quando você tem aquele click e de repente sabe de onde vem aquele tal barulhinho que não te deixava em paz, quando os acontecimentos são nomeados, eles passam a realmente existir, não é mais uma sensação ou uma ideia da sua cabeça. Você sabe pro que está olhando. E sabe, pelo menos a princípio, o que deve ser feito. E aí você chega em outro abismo: o saber o que fazer e a ação propriamente dita. Não sei se conseguirei construir essa ponte a tempo, porque realmente existem fatores externos que não sou eu quem comando. Isso me dá um certo desconforto, mas é preciso começar.
Posso deixar pra amanhã, pra depois que o bebê nascer? Claro que posso, a decisão é mesmo só minha. E poderia até ser mais fácil desse jeito. Mas quero ver é juntar fácil e maternidade na mesma frase – é quase um erro de concordância. Quero ver é dormir tranquila numa bagunça dessa.
Não faço ideia do que vai acontecer logo ali adiante. Mas pra saber só mesmo indo, não é? Então eu vou.

                                    
O caminho das pedras vai dar no mar.
Né?

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A semana mais difícil (parte I)

Hoje é sábado, faz um dia cinza em São Paulo, e até um friozinho também.
Mas é um dia lindo, maravilhoso, tudo de bom. Não vou me esquecer dele tão cedo.

Corta!!
Vamos começar do começo.

Parte I – a montanha russa de sensações

Oficialmente, essa deve ter sido – se não a mais – uma das semanas mais estressantes da minha vida inteira. Não foi fácil, não foi divertido, não foi legal.
Porque não basta ser uma pessoa intensa, é preciso que essa intensidade seja possuída pelo ritmo ragatanga agora que estou em estado interessante e enlouqueça de vez. Meus hormônios decidiram, assim numa reunião de última hora e sem aviso prévio, que essa seria a semana ideal para surtar a mamãe aqui. Eles montaram uma montanha russa de responsa em algum lugar entre a minha cabeça e meus pés, e começaram a diversão (eu já contei que tenho medo e pavor de altura?)
E como eu disse no post de segunda, já estava pensando em muitas coisas novas, que ainda precisavam ser um pouquinho mais sentidas. E tudo indica, percebi, que as sombras (aquelas da Gutman) chegam antes do bebê nascer. Como um baby blues adiantado. E sabe do que mais? Até pensei que podia ser uma boa, porque melhor tomar consciência e elaborar tudo agora e deixar só um restinho, ou nada, para janeiro, do que ter que dividir tempo entre minha Bolota e a bendita sombra. Encarei como exercício de autoconhecimento mesmo – e estou em processo de reflexão e elaboração.
Pois bem. Somado a isso, temos problemas de cunho mais sociais, digamos. Estatuto do Nasciturno. Manifestações tomando proporções estratosféricas em São Paulo, e a polícia tendo lapsos de memória (oi, ironia) e tendo certeza absolta que voltamos uns anos no calendário e caímos direto na Ditadura Militar. Vocês não tem ideia do que sucedeu-se em mim: me tornei uma rede de eletricidade. Era muita energia. E muita raiva. E muita raiva. Não tava dando pra conversar muito tempo sobre esses assuntos sem que eu não me estressasse. E para não entrar em contato com nada disso? Só se eu fosse pra Marte. Mas se eu fosse, minhas sombras iam junto, gente linda. Não tinha pra onde correr, não.

E o que o ser gravídico faz quando muita coisa acontece, dentro e fora dela? Chora, minhas amigas.
Chora porque sentimentos antigos voltam à tona. Chora porque tem uns problemas acontecendo, com você, e só de pensar na pessoa você já tem vontade de chorar. Chora porque esse mundo tá todo errado e você está fabricando uma nova pessoa nesse exato instante, e tem medo do que pode acontecer. Porque quando você vira fábrica de pessoas, os problemas do mundo tendem a ganhar uma nova ótica, e você só se dá conta disso quando já está chorando pela coisa. E chora.
A Luíza, mãe da Bebê da Cabeça Quadrada e do Menino que não Sabia Chorar, escreveu lindamente aqui sobre isso.
(ok, essa é a parte que eu paro de falar porque já chorei, apesar de achar que faltaram algumas coisas, senão o post fica só sobre isso – e corre o risco d’eu chorar de novo. Sigamos)

Então. Quinta-feira, 13 de junho. Acordei não muito bem. E as horas foram passando e a minha animação acabando. Eu ainda não posso falar claramente aqui o porquê, desculpem, mas eu chorei. Sozinha em casa, sem ninguém pra ver, eu chorei muito. Sentia um peso no peito. Não tinha muito o que fazer. Foi o dia mais difícil de todos. Coincidentemente, ou não, foi o dia que o bicho pegou pra valer aqui em Sampa. Quer dizer, ainda ia pegar. Do-la-do de onde o Cleber trabalha. Ele trabalha na República, muito pertinho mesmo de onde o pessoal começou a se reunir. Graças a Deus eles foram liberados mais cedo, mas fiquei um pouco tensa mesmo assim. Aliás, na hora em que ele saiu do trabalho eu já estava mais calma, não estava mais chorando. Porque resolvi tomar um banho, para acalmar. Passar um óleo com calma, lavar os cabelos.
Não foi na quinta, foi na terça, mas cabe aqui então vou contar: tive uma conversa muito linda com a Bolota. Disse pra ela desculpar mamãe, que nada do que eu estava sentindo era sua culpa; expliquei o que era, contei mais umas coisas legais. Tudo fazendo massagem na barriga, no banho. Foi lindo e forte.
Na quinta eu rezei. Pedi à Deus e ao meu anjo da guarda que me acalmassem, porque podia fazer mal pro bebê. Pedi ajuda. Com muita fé e muita vontade. E quando o banho acabou, tudo tinha passado como num passe de mágica. A água levou embora as minhas dores.

Por volta das 16 e pouco, fui ao banheiro e vi que havia ali, no papel que tinha acabado de usar, um leve sangramento. O tempo deve ter parado, ou foi meu coração, não sei. Só sei que me assustei. Não era muito. Na verdade, era bem pouco, e eu não tinha dor alguma, então raciocinei que não devia ser algo de gravidade extrema. Fiquei esperando pra ver, sentadinha, descansando. No fim do dia não tinha mais nada, por isso decidi que não iria ao hospital, mesmo porque já era noite (e a coisa tava feia na cidade).


(continua…)

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