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Da calma para as curvas inesperadas

Teve uns dias aí pra trás que a Agnes não queria comer fruta no café da manhã. Fazemos essa refeição juntos, nós três, e ela queria comer pão com manteiga ou requeijão, tal qual estávamos fazendo. Agora que ela não reage mais ao leite de vaca, tenho liberado algumas coisas, como um pouquinho de requeijão. Ela adora! Enfim. Ela queria isso e era isso que ela comia. Ignorava solenemente o mamão, a banana, a ameixa ou o que quer que estivesse na mesa, só tinha olhos pro pão com requeijão.

Nessas horas, meus pensamentos voam longe. “Lógico que ela não quer fruta, os pais dela não estão comendo fruta no café da manhã! Preciso mudar minha alimentação também. Céus, ela comia tão bem de manhã, nunca mais vai querer fruta, pão não é assim tão nutritivo, sou um péssimo exemplo…” e assim seguia por tempo indeterminado. Eu realmente acredito que a minha cabeça tem uma vida própria, à parte dos afazeres do dia, só assim pra explicar esses surtos de vozes sem fim, hahaha.

Não briguei com ela, nem disse nada sobre esse comportamento. Fiz o que costumamos fazer nessas horas, em relação à alimentação: deixei que ela seguisse tendo (alguma) autonomia, mas segui oferecendo frutas todos os dias no café da manhã. Mesmo já tendo certeza que ela iria querer o bendito pão todos os dias daqui até 98 anos de idade.

E então, uns dias depois, eu ainda estava colocando a mesa e perguntei a ela: Filha, o que você quer comer? Já esperando a tal resposta. E ela disse: Mamão. Eu téo (quero) mamão, mãe. Fui pra cozinha quase descrente, mas segui firme no pedido. Cortei o mamão, coloquei no pratinho e dei a ela. Ela sentou em sua cadeira e apenas comeu todos os pedacinhos, sem nem lembrar de pão (naquele dia, rs).

E aí eu penso. Por que a gente sofre tanto, né? Como se tudo fosse assim tão definitivo, tão certo. Por que não confiar e seguir vivendo um dia de cada vez? A gente acha que nunca mais vai dormir, que eles nunca vão comer, que vão comer tudo errado. É tanta coisa que a gente pensa e já vai tendo certeza, sem se dar conta de que eles, esses pequenos danadinhos, estão experimentando o mundo, não querem saber nada de futuro ou de certezas absolutas. Só querem experimentar e viver. É claro que precisamos seguir no caminho que escolhemos e que achamos melhor, mais saudável e possível para nós e nossa família, mas quando surgir uma curva inesperada, dias difíceis e fora do que consideramos ideal, não é preciso sair correndo desesperada em busca de solução. Não assim no primeiro segundo, pelo menos.

Tenho visto, na prática, que é muito mais proveitoso esperar um bocadinho, não sair falando aquelas “profecias auto-realizadoras” (meu filho não come! ela é terrível! fulana odeia dormir!) e apenas observar o que realmente nossos pequenos estão fazendo. Principalmente porque eles mudam muito, o tempo todo. Não dá mesmo pra ser muito definitivo nessa fase da vida. Além do mais, pode ser que sejam só uns dias fora da rotina. As vezes a gente precisa mesmo variar, não é?

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Carta do dia: se cuida!

Filha,

hoje eu levantei mais cedo para escrever. Nesta altura da sua vida, enquanto me lê, você já sabe, com certeza, que escrever é algo que me faz muito bem, para dizer o mínimo.
Acordei cedo, porque de manhã é quando me sinto melhor para fazer isso, e porque seria um tempo em silêncio, já que você e seu pai seguem dormindo ali no quarto. Muitas vezes eu preciso ficar sozinha e curtir o silêncio, filha. Isso não tem nada a ver com você, seu pai, as pessoas, o ambiente. É algo meu mesmo. Algo necessário para colocar os pensamentos no lugar e seguir calma pela loucura do dia. Ou pelo menos tentar. Faz dias que não consigo isso, levantamos sempre todos juntos e você tem ido dormir tarde, nos acompanhando até não aguentar mais. Não tem sobrado muito tempo pra mim, e antes que eu começasse a reclamar disso e fazer dos outros um problema, decidi levantar mais cedo e resolver de vez a questão. Fiquei com medo que você acordasse em seguida, como acontece de vez em quando, mas já se passaram quase 2 horas e vocês ainda estão dormindo. Estou feliz. É muito bom quando a gente faz algo que nos faça bem, apesar do medo. E dá certo. E a gente percebe que o simples continua sendo resposta para as questões que nos afligem. Hoje eu cuidei de mim e queria te falar sobre isso, por isso escrevi.

É muito importante cuidar de si mesma, filha. Não esquece disso, tá?

Pode ser correndo todo dia por quantos quilômetros você quiser. Pode ser dançando. Pode ser saindo com amigos. Indo ao cinema sozinha numa segunda-feira. Viajando. Andando na rua prestando atenção aos detalhes. Parando prum café num dia corrido. Conversando com quem te acalma. Ouvindo música. Indo a shows. Pode até ser levantando mais cedo para curtir o silêncio da casa. 

É sempre possível, mesmo quado parece que não. Principalmente quando parece que não, pare um pouquinho e veja que você precisa ser cuidada também. E que dá certo, sim, não interessa o que todos estão dizendo ao seu redor. Não se deixe de lado, meu amor. Estarei aqui para te lembrar e fazer companhia quando quiser. 

 

com amor,
mamãe.

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Sobre o que eu preciso falar

Hoje eu tirei o dia pra desabafar.

Quando eu comecei a escrever no blog, eu tinha o único intuito de ter um lugar para desaguar meus pensamentos sobre maternidade – um tema que eu já amava mesmo ainda nem sendo tentante. Eu queria poder escrever as coisas que eu acreditava, que eu queria, que eu ansiava. Enfim, é pra isso que as pessoas fazem blogs pessoais, não é?

E, bem, eu sou uma pessoa que acredita, sabe. De verdade, eu acredito. Eu acredito nas pessoas, eu acredito em Deus, eu acredito no amor. Eu acredito. Acredito, inclusive, que a gente pode ver a vida de um jeito mais suave, mesmo nas pancadas e nos terremotos. Na verdade, eu passei a acreditar nisso com mais verdade depois que perdi meu bebê, em 2013. Eu passei a escrever aqui no blog como uma espécie de tábua de salvação, desabafava todas as minhas dores e aprendizados. Era a minha tentativa de não me afundar naquela tempestade. E deu certo.

Depois disso veio a gravidez da Agnes e a vida aconteceu da maneira que tinha que ser. Tudo foi dando certo – a gravidez foi bem, pari, amamentei, me mudei. Também cresci. E no meio disso tudo, ainda lá na gestação, eu fui entrando em grupos, fui lendo muitos relatos, fui acompanhando militâncias absolutamente necessárias, mas que acabaram me podando um pouquinho. Pois é, esse é um assunto delicado. Eu, que gosto de ver um lado bom em tudo, que preciso disso inclusive para organizar meus pensamentos, pensei que talvez eu estivesse romantizando a parada toda, coisa que a gente bem sabe que não faz muito bem, nem enquanto pessoas, menos ainda enquanto coletivo. Será que eu estava fazendo isso, meu Deus? Será que estava contribuindo para a propagação de uma coisa que, ao mesmo tempo, eu não concordava? No meio disso, comecei a perceber que as vezes algumas pessoas esperavam que eu falasse das dificuldades, do peso, dos problemas, mas quando eu via, estava dizendo que ela até que dormia bem prum bebê de 3 meses, que estava tudo bem na amamentação e que o pai dela adorava dar os seus banhos. E por que e falava isso? Porque era assim que eu estava vendo. Eu li tanto que as noites iam ser em claro, que quando percebi que nos ajustamos num ritmo de sono que dava certo pra nós duas, achei que estava sendo um sucesso. Eu respondia que ela dormia bem porque pra mim era o que era. Só depois de muitos meses me dei conta de que, na verdade, ela ainda acordava 3 vezes em várias noites, mas pra mim ela dormia bem. Mas o que as pessoas ouviam era: ela dorme a noite inteira, descanso 8 horas seguidas, sou foda, minha filha é um prodígio. Por que eu podia falar do que aprendi de bom com uma perda gestacional, mas não era entendida quando falava do que estava dando certo na maternidade real (real no sentido de que estava acontecendo mesmo, comigo, agora)?

Era como se eu não pudesse falar das belezas enquanto tinha tanta gente no meio da lama, sabe como? Eu comecei a me calar, porque não queria que me entendessem mal, porque queria também ouvir, porque não queria tirar o lugar de fala de quem está em outra vibe. Tentei, inclusive, me “adequar” e falar mais do que geralmente é escondido, mas me sentia mal. E olha, do alo dos meus 27 anos, vou falar uma das poucas certezas que eu tenho na vida: todas as vezes em que tentei me adequar, me ferrei totalmente. Na verdade, quanto mais eu falava do meu cansaço, mais cansada eu ficava, literalmente. Cheguei a conversar com o Cleber sobre isso. Amor, qual é o limite entre o desabafo e uma reclamação sem fim? Pensei muito sobre isso, depois volto pra falar desse assunto. E aí eu me calei. Nem sabia mais qual era a minha voz, ou o meu lugar, ou a minha turma. Puerpério é fogo, eu já disse. E pra mim também pegou nesse sentido.

Demorou pra eu perceber que, muitas vezes, a reação de quem está fora não tem a ver comigo, mas com a própria pessoa. Que a gente é espelho. Se você vê, está em você, é o que dizem. E isso também serve pra mim, para o que eu via. Mas este também é assunto pra outra hora. Demorou pra eu perceber que a minha forma de falar não estava anulando as outras, era só mais um jeito, que mesmo que eu concordasse com elas, não saberia falar da mesma forma, apenas porque não é a minha voz, não porque acho errado. E que tem lugar pra todo mundo nesse mundão.

Hoje eu acho que já me desvencilhei um pouco dessas amarras todas. Acho que tem lugar pra todo mundo e que cada um tem que fazer o que se sente bem. Essa sou eu, afinal. Estou tentando recuperar o meu ritmo de escrita e a forma como compartilho o que sinto. E queria muito falar disso aqui, porque a escrita tem poderes curativos em mim, então, é isso. Só queria mesmo dizer, pra mim mesma, que eu estou voltando pra mim, tentando achar o meu lugar aqui de novo. E que, dessa vez, é pra ficar.

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Carta para a Marina de 17

Querida Marina,

hoje você faz 17 anos. Você ainda não sabe, mas esse vai ser um ano um tanto quanto conturbado. Desculpe falar assim logo de cara, mas é verdade – e nós gostamos de trabalhar com muita verdade, você sabe.

Você vai mudar de escola, vai se apaixonar, vai quebrar a cara, vai chorar uma quantidade de lágrimas suficientes para suprir uma vila inteira. Vai ser foda. Você vai ter vontade de fugir, de ficar, de fazer com que tudo que está acontecendo seja de uma forma diferente. Vai fazer um monte de coisas que tem certeza que é porque você quer, mas depois vai perceber que não é bem assim. Mas eu não vim aqui hoje para dizer que tudo está perdido, ou o quanto você errou. Eu vim aqui para dizer que está tudo bem.

Sim, está tudo bem.

Não porque eu seja uma espécie de masoquista que gosta de sofrer e te ver assim, mas porque eu sei que você está inteira em tudo que está vivendo. Você é intensa, querida, muito intensa, e não faz nada pela metade. Você se entrega ao que quer que seja que esteja vivendo. E daqui a pouco vai perceber que se é para ficar pela metade num lugar ou com alguém, prefere ir embora logo – isso vai render muito pano pra manga ainda, mas siga firme no caminho, porque esta é você, afinal de contas.

Para não parecer que vai ser um fiasco de ano, deixa eu amenizar um pouco. Aos 17 você vai decidir voltar pra sua antiga escola, encerrar o Ensino Médio onde foi recebida na quinta série. Vai ter muitas risadas – muitas, muitas muitas mesmo, acredite. Vai ter amigas, códigos secretos, companhia para loucuras, para conversas infinitas depois da escola, para planos e tudo mais que a mente de vocês imaginarem. Vai ser foda!

Sabe, eu tenho muito orgulho da gente. Tudo isso que ainda vai acontecer nos seus 17 anos vai te marcar muito. Não exatamente pelos acontecimentos em si, mas pela forma com que você lidou com tudo, apesar de ainda nem pensar claramente sobre isso. E por como o caminho foi se desenhando depois. Independente de qualquer drama, os novos dias continuaram a chegar e você foi. Mesmo quando achava que aquilo nunca ia passar. Essa coisa de não fazer o que queriam que você fizesse foi ótimo, afirmou muitas coisas aí dentro, pode acreditar.

Hoje você completa 27 anos. Dez anos nos separam. Se eu te contar que você acordou ao lado do seu marido e da sua filha de 2 anos vai dar pra acreditar? E que agora você mora num apartamento que te traz calma e que tem um monte de coisa boa acontecendo? Não vou contar tudo, não quero estragar a surpresa. Ainda tem um bocado de histórias entre nós duas pra rolar, muita água mesmo. Aconteceu uma vida em dez anos. A sua vida. Só vem, querida. Continue caminhando que daqui a 2 anos você vai encontrar um cara muito legal e daí pra frente vai ser só sucesso, mesmo que tenha que dar novos significados a essa palavra. Dica: dar sentido ao que vive vai se tornar quase um passatempo, você vai gostar.

Pronto, chega de falar. Receba o meu abraço inteiro e demorado, acolha tudo que vier, já está dando tudo certo. Estou aqui para comprovar isso.

um beijo,

Marina.

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Ainda sobre medo

Esses dias eu falei que a pequena está numa fase de sentir medo. Hoje eu voltei pra falar sobre este tema, mas dessa vez focado em nós, as mães.

Como mãe, qual é o seu maior medo?

Confesso que pensei um pouco quando dei de cara com esse tema, não é um assunto que eu pense muito, na verdade. Conheço pessoas que usam muito essa expressão, dita pra criança, no caso: “não faz isso que eu tenho medo”. Não sei se vocês já ouviram, mas pra mim não faz muito sentido. Não deixar a pessoa viver determinada experiência por um medo que não pertence a ela. Eu sei que o nosso instinto é o de proteger, e se sentimos medo é claro que queremos evitar – inclusive queremos que todas as pessoas evitem, de preferência, que dirá nossos filhos. Mas ainda assim não é uma abordagem que eu uso, não gosto, não concordo.

Mas voltando ao assunto.

Para começar com o mais “clichê”, eu tenho medo da minha filha ficar doente. Ou de eu ficar doente e não poder ficar perto dela. Céus, isso realmente me dá calafrios!

Estava aqui pensando que, muito provavelmente, os maiores medos a gente sente quando não é mãe. Medo do que a gente ainda não sabe, não faz ideia do que vai ser. Medo de não ter bebê na barriga antes do primeiro ultrassom. Medo de perder. Medo de alguma intercorrência. Medo do parto. Medo de não dar conta. Não que toda mulher sinta todos esses medos, mas sei que são frequentes nas rodas maternas.

Pra mim, no comecinho, assim que tive a Agnes, havia o medo de ficar sem ela. Eu deixava as pessoas segurarem ela no colo, mas eu mesma não descansava, estava sempre ali do lado, pronta para intervir ao menor sinal de incômodo dela (puerpério, amigas, ele não brinca em serviço!).

Mas acho que uma das coisas que mais me traz esse sentimento é o de eu fazer alguma coisa com ela que a machuque. No sentido psicológico, emocional mesmo, porque fisicamente é claro que eu jamais faria nada assim. Tenho medo que a nossa relação se perca em algum lugar do caminho, que não nos entendamos. Veja bem, não é medo dela ir pra longe, sabem? Eu sei que ela vai crescer, vai sair, vai dormir fora, vai viajar, morar sozinha, etc etc etc. O medo é de que a gente não se entenda. Pausa para respirar. Realmente parei aqui escrevendo, porque me dei conta que mesmo que eu não saiba como será o futuro, o agora tem sido muito generoso. Nós nos entendemos muito bem, na minha opinião. Talvez o meu medo fosse do desconhecido, mas agora que estou aqui vivendo e sendo a mãe dela todos os dias, percebo que as coisas não são tão dramáticas assim. Que bom, né.

Acho que o medo tem muito disso, do não saber. As coisas tendem a ser mais assustadoras quando são hipotéticas. Os medos referentes a gestação, parto e amamentação, por exemplo, eu mandei embora lindamente com informação, livros, blogs, grupos e tudo mais. Não sei se funcionou porque eu esclareci tudo que me incomodava, ou se não tive mais tempo de pensar em nada, de tanto que pesquisei, haha. O fato é que o melhor caminho para enfrentar medos que ainda estão no campo da teoria é ler, conversar com pessoas, se inteirar do assunto. Na vida real, o negócio é mesmo ir um dia de cada vez, porque nada é garantido. Ir lidando com o que for à medida que as coisas forem acontecendo, porque já acontece tanta coisa todo dia mesmo, né, sofrer por antecipação não é uma boa ideia para adicionar à lista de pendências. Respira, inspira e, se pirar, a gente vê como resolve a bagunça depois.

Aliás, é focando nesse pensamento e aura zen que eu estou tentando me apegar quando penso na possibilidade de ter outro bebê. Como darei conta? Como dar atenção pra Agnes? Quando dormir? O que é dormir? São muitas questões. Um dia de cada vez, eu sei. Ouvi dizer que tudo vai se resolvendo quando tiver de ser. Oremos.

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Nova vista

Hoje o dia começou cedo. Começou ontem, na verdade.
Caixas, malas, sacos plásticos.
Embala, encaixota, desmonta.
Movimento. Gente.
Você vendo tudo de camarote – o colo da vovó.
Ouvindo os barulhos que tem medo, descobrindo o que é.
Casa virando bagunça virando vazio.
Marmitex na casa vazia.
Casa vazia se enchendo como num passe de mágica – mas era muito trabalho braçal mesmo.
Travessas de vidro espatifadas no chão.
Você cochilou no meu colo, incomodada com a ausência das camas e do sofá.
As camas couberam perfeitamente, fiquei tão contente.
E você, pequena, pulando no meio de todo esse movimento dizendo “nossa nova casa”!
Tão feliz, tão segura de seus passos.
Explorou o condomínio, a grama, andou descalço.
E quando viu a vista que tínhamos do parquinho,
sentou no chão, chamou a vovó pra sentar junto e ficou olhando.
O por do sol.
A lua também já estava no céu, sorrindo pra nós.
E pipas lá longe dançando, você adorando essa nova visão.

Hoje nos mudamos de apartamento, filha. Temos um novo lar.
Algo me diz que construiremos boas memórias aqui.

Foi um dia e tanto, o nosso.
Já jantamos, você está no banho, daqui a pouco dorme.
E amanhã começaremos um novo capítulo dessa nossa história.

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Carta do dia: vamos juntas

Filha,

estes dias você tem estado mais grudada em mim, principalmente quando estamos em casa. Quer dizer, você sempre foi o “meu grudinho”, mas foi ficando mais solta e mais tranquila com o passar dos meses. Agora parece que voltamos algumas casas. Você tem preferido meu colo, só dorme bem se estou por perto, fica ao meu lado quando faço as coisas da casa, senta no meu colo quando estou escrevendo. Você quer contato físico, proximidade, algo concreto pros seus olhinhos curiosos.

Algumas vezes é complicado, porque eu preciso de um tempo pra mim também. Conciliar nossas demandas, nesses dias em que você está assim, muitas vezes cansa. Hoje por exemplo, que era para eu ter conseguido escrever e fazer outras coisas, não fiz nada. São quase onze da noite e só agora conseguir sentar aqui sozinha. Você já dormiu e ficou lá na cama, mas já acordou uma vez me chamando, em menos de 1 hora (ontem não ficou, dormiu no meu colo e por aqui ficou por todo o tempo que estive acordada, inclusive jantando).

E eu te atendo, meu amor. Mesmo não sabendo exatamente o motivo, mesmo tendo medo de você sentir algo que é só meu, que você não precisa sentir. Mesmo precisando de espaço também. Eu te atendo. Você é tão bebê ainda. Está crescendo, está aprendendo a ser você, a lidar com o tanto que acontece dentro do seu corpinho. É natural que precise de mais amparo mesmo, eu sei. Completamente compreensível que precise de mim, de um corpo físico, de uma voz conhecida, de um cheiro, um ritmo e um cuidado que você conhece desde sempre, não é?

Ia me desculpar por me mostrar tão frágil pra você algumas vezes, mas acho que não vou. Porque esta sou eu, meu bem. Esta é a sua mãe. A pessoa que chora, que fica meio pra baixo as vezes, que também precisa de cuidados. Eu sou assim e você me conhece muito bem. Inclusive, eu não preciso entender com a razão o porquê você está assim. Não preciso porque, muitas vezes, eu não sei explicar nem o que eu mesma estou sentindo – e mesmo assim sei que preciso sentir e viver para entender e deixar passar, e dar mais um passo. Daqui a pouco já assimilamos tudo isso e estaremos andando em outro ritmo, você vai ver.

Obrigada por estar comigo nessa caminhada, filha. Aprendo muito com a sua presença, saiba disso.

com amor,
mamãe.

 

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O céu está mais limpo

A vida parece que está entrando nos eixos.

Desde que a gente se mudou para este apartamento, em dezembro de 2014, as coisas andam bem bagunçadas por aqui. Quer dizer. Parece que estávamos num momento total de transição, nos adaptando a sermos nós três, a sermos nós três sozinhos em casa, a ser casal de novo, a delimitar alguns espaços, a encontrar novas formas de trabalho e cumpri-las todos os dias. De onde eu olhava, só via uma montanha de bagunça, papeis e louça pra lavar.

Houve briga, houve lágrimas, houve medo. Se já é complicado se adaptar à vida de mãe, imagina somar a isso todo o combo que veio junto. (Só para ilustrar: marido saiu do trabalho para ser autônomo + bebê novo + puerpério + mudança de casa + lutos + falta de grana, sem contar as pendências do cotidiano). Foram tempos conturbados, preciso confessar. Mas, como tudo na vida, passou.

Entrei em 2016 com o sentimento que esse ano pegaria mais leve com a gente. E assim tem sido, até então. Não está tudo como uma brisa suave do campo. Temos agido muito, trabalhado bastante. Tem bastante movimento por aqui. Mas está bom. Eu estou sentindo a roda girar, sabe como? É por isso que não tenho do que reclamar. Se antes eu sentia que a  gente estava numa espécie de limbo, agora pegamos o ritmo novamente e estamos indo.

É tão bom ir!

Estou conseguindo escrever com mais frequência, estou aprendendo a fazer encadernação manual (me aguardem!), sendo mãe e, ainda por cima, vou voltar a estudar. Marido está trabalhando legal também. Estamos para mudar de apê de novo. Enfim, as coisas estão acontecendo, graças a Deus.

É difícil acreditar que tudo vai se acalmar quando estamos no meio da tempestade. A impressão que dá é a de que o céu nunca ficará limpo de novo, as nuvens seguirão pesadas por um longo longo tempo. Dei uma ou duas surtadas no meio do caminho. Mas aí eu aprendi a respirar. Comecei a colocar em prática aquela velha tática de ir vivendo um dia de cada vez. E de agradecer pelo que eu já tinha. Essa parte foi fundamental, na verdade. E aí, pouco a pouco, assim de um jeito meio tímido, as nuvens foram se dissipando e agora só chove de vez em quando aqui nas nossas cabeças. Já dá pra sair de casa e enfrentar a vida.

É o que temos feito nesse ano e eu tô feliz por isso.

E que este segundo semestre seja bom e seja alegre. Para todos nós.

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Assim caminha a maternidade

Dois anos é uma data bem importante dentro da “maternidade teórica”. Assim como os seis meses, eu acho. É tanta coisa que sabemos que é melhor evitar antes dos dois anos que olha, melhor pregar a lista na porta da geladeira para não esquecer.

Ou você pode fazer como eu. Usar esses indicativos todos apenas como uma espécie de referência e ir adaptando à sua realidade. Tentando não extrapolar demais, mas também tentando não surtar no meio da rotina nossa de cada dia. Porque a verdade é que a gente já tem muita coisa pra pensar e pra fazer, não é mesmo?

Então, esse é o momento em que eu exponho publicamente as duas maiores teorias que eu ignorei solenemente para o bom andamento desta casa.

Telas: acho que até 1 ano a Agnes não assistiu tevê. Quer dizer. Não que ela não soubesse o que era aquilo, nunca tivesse visto uma ligada ou coisa assim. Só não parava ali pra ver. A gente assistia série com ela na sala, brincando, então sim, ela foi exposta às telas desde muito pequena, mas foi só por volta de 1 ano que passou a se interessar por alguma coisa que estivesse acontecendo ali. Em algum momento depois disso, um dia, muito cansada, eu coloquei um desenho pra ela ver no netflix. Ela gostou – gosta até hoje, e o desenho é Sid, o Cientista. Assistimos juntas os 5 primeiros minutos depois ela dispersou. Não temos tv a cabo, mas de vez em quando ela assiste Cultura. Hoje ela já reconhece alguns desenhos, mas o tempo é bem limitado, até porque eu percebo que quando a tevê fica ligada demais ela se irrita com mais facilidade. Na tevê ela assiste: Thomas e seus amigos, Moranguinho e Patrulha Canina, na Cultura. Na casa dos meus pais, onde tem tv a cabo, ela assiste Masha e o Urso. No netflix tem Sid. O celular ela só pega pra brincar que tá ligando pra alguém, pra ver foto – e brincar de tirar selfie, rs. Sem desenhos, por enquanto. Joguinho ela não sabe o que é. E assim vamos.

Açúcar: ai, meu calcanhar de aquiles. Queria muito que ela não tivesse consumido açúcar nesses primeiros 24 meses, mas não deu. E o motivo principal é que ela consome as mesmas comidas e bebidas que a gente, na esmagadora maioria das vezes, então em algum momento eu acabei deixando e assim seguimos. Até 1 ano tentei evitar ao máximo, se ela consumiu foi realmente muito pouco. Mas agora os sucos já são adoçados (aqui fazemos com água, não puro) e os bolos caseiros também. Mas bala, pirulito, docinhos, bolacha recheada e refrigerante estão fora do hábito, amém! (teve um dia que ela comeu uma única bolacha, na verdade, que uma menininha deu pra ela num evento que estávamos, rs). Por conta da restrição ao leite fica mais fácil barrar algumas coisas e as pessoas respeitam. É mais complicado quando estamos em família com outras crianças, imagino que a partir de agora vai ainda mais difícil de controlar, porque ela tá pedindo tudo que estamos comendo. Suco de caixinha, por exemplo, só se estamos na casa de alguém e não tiver outra opção. Picolé também já liberei desde o verão, açaí então, nem se fala (ela ama!).

A verdade é que eu vou fazendo o que a minha realidade permite. Meio óbvio, eu sei, mas é sempre bom lembrar (para nós mesmas), para evitar qualquer tipo de comparação com a coleguinha ao lado. Se algum dia eu acordo incomodada com algumas atitudes que estou tendo no momento, tento buscar formas de melhorar o que dá, do jeito que dá. Se não é possível ainda, é abraçar a imperfeição e seguir assim mesmo. Melhor minha filha ter uma mãe possível e presente do que uma mãe sempre frustrada. Porque o que ela vê é o que está acontecendo, literal e inteiramente, e não o que está dentro da minha imaginação e dos meus sonhos. Ou de algum manual (que não existe e nunca existirá, aleluia).

E assim caminha a maternidade, com os passos que eu posso dar e que não me canse ainda mais as pernas ou a vontade.

E por aí, como foram os primeiros 2 anos?

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O segundo ano como mãe e a vida fora do binômio

Ainda no clima dos registros desse segundo ano de vida que está quase chegando, hoje quero falar um pouco sobre uma situação que, sinceramente, eu não havia me preparado muito. O fim do puerpério.

Veja bem, muito se fala sobre o pós parto. É uma fase delicada, em que o bebê está conhecendo o mundo, a mãe está conhecendo sua nova condição e ambos estão tão ligados um ao outro que é quase como se cordão ainda estivesse ali. Comigo foi assim, pelo menos. Tive um puerpério meio tenso do ponto de vista dos meus fantasmas e neuras. Do ponto de vista da fusão com a Agnes, entretanto, foi um período realmente intenso, mas que curti muito. Eu sabia que ia ser assim, eu realmente queria que fosse assim. Não senti muita vontade de ir a lugares sem ela, fazer as coisas de antes, nada disso. Eu estava tão mergulhada ali no nosso oceano que não concebia a ideia de fazer qualquer coisa sem a presença dela, simples assim. Com isso eu não sofri. Se havia vontade de sair, ver gente, eu ia com ela. Estava tudo muito bem resolvido na minha cabeça, estávamos felizes assim.

Aí o puerpério acabou. Mais ou menos quando ela fez 1 ano eu senti que estava acabando. E acho que todo esse segundo ano foi uma despedida disso. Sabe quando a gente vai na beira da piscina e fica só molhando os pés, sentindo a água aos pouquinhos, ainda decidindo se pula de vez ou se entra devagar? Essa fui eu nesse segundo ano. Não foi assim tão simples quanto eu achei que seria.

Eu nunca tinha ouvido falar de mãe que não sabe lidar com isso. O que eu vejo bastante é a vontade de voltar a ter tempo pra si, a trabalhar, a sair com amigos, namorar, viajar. Tudo em torno de um distanciamento muito esperado por aquela mulher, que muitas vezes se sente sufocada ou até mesmo presa na condição de puérpera. A minha maior dificuldade estava em justamente conseguir ter essas vontades. Porque eu fazia tudo que queria, só que com ela do meu lado. Unha, cabelo, cinema, encontros com amigos, show, viagem. Onde quer que eu fosse, lá estava minha pequena moça a tira colo. Só que aí o cenário foi mudando, as demandas foram diminuindo de um lado e aumentando do outro… Eu me via sozinha (quando ela estava com os avós ou só com o pai), por minutos que fossem, e a cabeça ainda estava nela. Demorou pra virar a chavinha aqui dentro e me permitir pensar só em mim, pra variar, rs.

Em janeiro comecei a fazer sessões de coaching e, além de todos os ganhos e descobertas que tive, foi incrível perceber o quanto aquelas duas horinhas semanais só pra falar de mim estavam me fazendo bem. O quanto eu estava precisando disso. Foi quando eu realmente relaxei e abracei essa nova fase. Hoje eu já estou mais adaptada a essa vida fora da fusão. Esses dias até fui numa sessão de cinema só com a minha prima, vejam só que avanço, rs.

Ah sim, com essa nova realidade surgem novos desafios, porque  nem sempre é tranquilo conseguir conciliar as minhas vontades com as demandas dela – mas com certeza já avançamos muito (não que haja um lugar a se chegar, mas né, deu pra entender o raciocínio, haha).

Estamos crescendo, filha, estamos sim. 

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