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Carta do dia: se cuida!

Filha,

hoje eu levantei mais cedo para escrever. Nesta altura da sua vida, enquanto me lê, você já sabe, com certeza, que escrever é algo que me faz muito bem, para dizer o mínimo.
Acordei cedo, porque de manhã é quando me sinto melhor para fazer isso, e porque seria um tempo em silêncio, já que você e seu pai seguem dormindo ali no quarto. Muitas vezes eu preciso ficar sozinha e curtir o silêncio, filha. Isso não tem nada a ver com você, seu pai, as pessoas, o ambiente. É algo meu mesmo. Algo necessário para colocar os pensamentos no lugar e seguir calma pela loucura do dia. Ou pelo menos tentar. Faz dias que não consigo isso, levantamos sempre todos juntos e você tem ido dormir tarde, nos acompanhando até não aguentar mais. Não tem sobrado muito tempo pra mim, e antes que eu começasse a reclamar disso e fazer dos outros um problema, decidi levantar mais cedo e resolver de vez a questão. Fiquei com medo que você acordasse em seguida, como acontece de vez em quando, mas já se passaram quase 2 horas e vocês ainda estão dormindo. Estou feliz. É muito bom quando a gente faz algo que nos faça bem, apesar do medo. E dá certo. E a gente percebe que o simples continua sendo resposta para as questões que nos afligem. Hoje eu cuidei de mim e queria te falar sobre isso, por isso escrevi.

É muito importante cuidar de si mesma, filha. Não esquece disso, tá?

Pode ser correndo todo dia por quantos quilômetros você quiser. Pode ser dançando. Pode ser saindo com amigos. Indo ao cinema sozinha numa segunda-feira. Viajando. Andando na rua prestando atenção aos detalhes. Parando prum café num dia corrido. Conversando com quem te acalma. Ouvindo música. Indo a shows. Pode até ser levantando mais cedo para curtir o silêncio da casa. 

É sempre possível, mesmo quado parece que não. Principalmente quando parece que não, pare um pouquinho e veja que você precisa ser cuidada também. E que dá certo, sim, não interessa o que todos estão dizendo ao seu redor. Não se deixe de lado, meu amor. Estarei aqui para te lembrar e fazer companhia quando quiser. 

 

com amor,
mamãe.

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Arquivado em Agnes, aprender, autoconhecimento, carta

Sobre o tempo e seus milagres

“Recém nascido é muito bom! Muito gostosa essa fase, que saudade

A frase acima foi proferida por mim e pelo meu marido exatamente ontem de manhã, enquanto conversávamos com uma amiga que está grávida.

Fiquei tão atônita quando caiu minha ficha pelo que tinha dito que tive que vir aqui escrever. Contar que o tempo opera milagres, se soubermos esperar. E se não soubermos também, porque não podemos fazer nada em relação a isso, só mesmo aguardar que ele chegue e faça o seu trabalho.

Por que estou falando isso?
Pelo simples motivo de que o meu pós parto foi pesado. Meus ombros doíam, literalmente. Eu achava que era por dormir mal ou posições erradas na hora de amamentar, mas na verdade era o peso que eu insistia em carregar que me doía o corpo todo. A Agnes era mesmo uma delicinha de bebê, claro. Mas o peso do turbilhão de hormônios e sentimentos que tomaram conta de mim me fizeram achar, na época, que aquilo não estava sendo tão legal. Que bem podia ser de outro jeito, que algo estava fora do lugar. Sim, estava mesmo fora do lugar. Não dá pra parir um bebê e sair imune disso. Nem só do parto estou falando, mas do todo. É novidade em todos os níveis possíveis. Tem gente que passa por isso de forma mais leve e serena. Pra mim foi intenso. E de tão intenso cheguei a achar que estava ruim. E cheguei a achar que por mais que o tempo passasse, eu ainda me lembraria do incômodo que sentia.

Aí sim, fomos surpreendidos novamente.

Agora é a hora que eu digo, tão espantada quanto poderia estar, que aconteceu. Eu não me lembro mais exatamente das chatices que senti no puerpério. Não de imediato. Eu sei que foi tenso, que foi custoso, que precisei lidar com uma catarse doida que eu achei que fosse me acompanhar até daqui umas duas vidas. Mas passou. Oi? Alguém me belisca pra eu ter certeza? PASSOU!!! A ficha caiu completamente hoje, nessa conversa com minha amiga. Marido e eu falando que era uma fase gostosa, que era muito bom etc e tal. Aura de nostalgia no ar. Só lembrança boa.

Como boa amiga que sou, não romantizei tudo. Falei que é intenso, sim, que o primeiro mês é o mais punk, de adaptação de todo mundo, só que também tem sua beleza e sua alegria.

Estaria mentindo se dissesse que já esperava por isso. Como disse, meio que me acostumei a sentir aquilo, a viver assim. Depois que o puerpério passou ficou tudo mais suave, claro. Só não pensei que chegaria o dia em que eu só me lembraria da parte boa. Do cheirinho de rn, de como é gostoso aquele pacotinho no colo, dos barulhinhos, de ficar com ela no colo o dia todo, de boas no sofá, amamentando de um lado e comendo do outro. Era muito legal, gente!
Mesmo estando aqui hoje, com essa sensação boa, não me arrependo de como foi, não sou dessas. Senti tudo que me cabia, tudo que veio, o combo completo. Agora estamos em outra fase, que também abraço inteira. E assim será sempre, se depender de mim.

Contudo, não deixo de agradecer ao Sr. Tempo, de novo e sempre, por me ensinar que ele sempre está a nosso favor e sempre fará o seu trabalho. Só é preciso lembrar que ele só trabalha em silêncio, e não na nossa pressa. Ele está sempre no horário. Ainda bem.

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Arquivado em acontece comigo, tempo

Sobre a arte de ser mãe e acolher também a criança que eu fui

Uma das coisas mais difíceis na prática da maternidade, na minha opinião, é lidar comigo mesma. É entender que muitas vezes, diante de uma situação rotineira, como um almoço ou a hora da soneca, quando o caldo entorna e as lágrimas surgem, o que eu enxergo (em mim) é a criança que eu fui. E mais, que a minha filha é um espelho que apenas reflete aquilo que vê. E nem todos os dias, em todos os momentos, ela vê beleza e harmonia. Há muita bagunça no mundo, e dentro de mim não é diferente.

Eu não estou aqui para me culpar. Nem para discorrer sobre a formação da psique da minha pequena – se ela vai interiorizar isso de tal ou qual maneira (já faço isso em outros momentos de insanidade, me deixem). Só quero dizer que nem sempre é fácil manter o equilíbrio. O equilíbrio vem do constante movimento, aquela coisa sobre andar de bicicleta, mas e quando bate o cansaço, como prosseguir? Também não quero fazer o discurso da mãe que sofre e coisa e tal, pois este nunca me apeteceu. Talvez eu até pudesse começar esse texto de outro jeito.

Uma das coisas mais difíceis na prática da vida, na minha opinião, é lidar comigo mesma. É entender que, muitas vezes, numa situação rotineira, o que me incomoda é o quanto de mim eu reconheço no outro. Perceber que a minha ação agora é uma resposta a uma atitude que já pereceu tempos atrás. Reagir conforme o passado nem sempre é uma boa ideia. Talvez nunca seja uma boa ideia. Mas quando os sentimentos afloram, raramente conseguimos pensar nisso a tempo.

Na minha relação com a minha filha não é diferente. Muitas vezes eu me vejo nela. Muitas vezes, eu vejo outras pessoas fazendo com ela o mesmo que já fizeram comigo e que me fez tão mal. Não tem como evitar reviver tudo de novo. Dá vontade de brigar, de voltar atrás, de fugir pro mato. Dá vontade de protege-la da dor que eu senti. É surreal, eu sei. E é por saber disso que tento fazer diferente.

Todos os dias eu repito o mantra de que a minha história é minha. Que sim, posso aprender com os erros e os acertos de outras pessoas, mas dificilmente o quadro se repetirá do mesmo jeito, sempre igual. E que bom que é assim. Estou construindo uma história nova, com uma pessoa nova, que vai achar seus próprios jeitos de lidar e interpretar tudo isso. Ou melhor, ela está construindo, não diz muito respeito a mim, em certo nível. Ao invés de querer protegê-la de um passado que ela não viveu, de uma história que ela não faz a mínima ideia que rolou, o que eu preciso fazer é acolher a criança que eu fui. Eu faço isso na minha autoterapia há uns bons anos já, mas tem sido mais efetivo desde que me tornei mãe. É libertador. O espaço que me sobra libertando esses fantasmas é bem grande. E o peso que eu tiro das costinhas da minha filha também não é pequeno.

Porque é isso, né. Se eu não quero projetar nela desejos meus, se não quero que ela atenda incansavelmente todas as minhas expectativas, é no mínimo incoerente projetar meus traumas e desventuras em sua vidinha ainda tão curta. Ela é uma pessoa inteira, nova, começando a formar sua linda e vasta bagagem, pronta para viver um sem número de histórias, incluindo algumas lágrimas e questões porque faz parte do processo. A mim cabe amparar, conduzir enquanto não há toda autonomia, acompanhar, acolher, ensinar e aprender. Projetar não é verbo que cabe nessa relação. Não cabe em nenhuma, mas com criança é ainda mais sério. Meu desejo é que eu saiba colocar a Marina criança no colo quando for necessário, para que a sua parte adulta esteja presente e inteira para ver a filha crescer saudável. Amém.

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Arquivado em acontece comigo, autoconhecimento, estive pensando