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Carta do dia: amor e gratidão

Filha,

meu coração está inundado de amor.
Fiz você dormir hoje e, depois que você pegou no sono, fiquei lá te olhando e aconteceu. Meu coração ficou inundado de amor e de gratidão. Por cada escolha da minha vida que me trouxe até aqui, por todos os nossos dias juntas, pela nossa parceria construída todos os dias. 

Sabe, filha, nos últimos meses a mamãe tem sentido vontade de fazer outras coisas, para além das demandas que a maternidade pede. Porque, como você sabe, eu sou uma pessoa inteira como você ou qualquer outro habitante desse nosso planetinha azul. E como pessoa inteira, eu tenho muitas áreas de interesse, digamos assim. Conciliar isso nem sempre é fluido e leve, mas sigo tentando fazer o caminho não ser tão pesado. Então, comecei a deixar você algumas horas com os seus avós pra sair com o papai; tenho trabalhado escrevendo quase todos os dias, estudado. Você tem ficado só com o papai também, para que eu consiga almoçar com amigas e andar de ônibus e metrô sozinha. 

E estivemos pensando em colocar você na escolinha. De vez em quando você pede, como se conhecesse muito bem o ambiente, mas até semana passada nunca nem tinha entrado em uma, rs. Fomos conhecer duas, mas não senti que era o lugar escolhido pra você passar suas tardes descobrindo novas coisas e fazendo outros tipos de laço. Fiquei incomodada, um nó se formou aqui no peito e eu até chorei. A gente (seu pai e eu) queria decidir um lugar e organizar mais a nossa rotina, mas ainda não rolou. E foi só depois que eu desabafei minhas neuras com ele e com outras pessoas foi que acalmei o coração e percebi: está tudo bem do jeito que está. Não preciso querer me encaixar num “jeito certo”, “mais recomendado” para seguir nossos dias. A gente tem escolhido como eles são há mais de dois anos, digamos que agora estamos pegando o jeito da coisa. Pode ser meio bagunçado, mas é o nosso jeito.

Sim, ainda queremos que você frequente uma escola, mas acho que acabou a pressa. Tudo acontece no tempo certo. E encontraremos uma que seja do tamanho ideal pra nós. 

Ah, não te contei. Hoje você dormiu sem mamar, abraçada com seu gatinho azul de pelúcia. E com carinho na barriga, como você gosta. Você tem mamado bem menos, e não foi a primeira vez que você dormiu assim; sinto que estamos em uma transição.

Já falei que meu coração está repleto de amor e gratidão? É só isso que estou sentindo agora. Quis te escrever para que você soubesse disso também (apesar de eu já ter dito no seu ouvido antes de sair do quarto, mas gosto de registrar assim, por escrito). 

Que bom que você veio, meu amor. Que bom que a nossa história está acontecendo de verdade. 

com amor, 
mamãe.

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Arquivado em amor, carta, eu mãe, presença

Sobre o tempo e seus milagres

“Recém nascido é muito bom! Muito gostosa essa fase, que saudade

A frase acima foi proferida por mim e pelo meu marido exatamente ontem de manhã, enquanto conversávamos com uma amiga que está grávida.

Fiquei tão atônita quando caiu minha ficha pelo que tinha dito que tive que vir aqui escrever. Contar que o tempo opera milagres, se soubermos esperar. E se não soubermos também, porque não podemos fazer nada em relação a isso, só mesmo aguardar que ele chegue e faça o seu trabalho.

Por que estou falando isso?
Pelo simples motivo de que o meu pós parto foi pesado. Meus ombros doíam, literalmente. Eu achava que era por dormir mal ou posições erradas na hora de amamentar, mas na verdade era o peso que eu insistia em carregar que me doía o corpo todo. A Agnes era mesmo uma delicinha de bebê, claro. Mas o peso do turbilhão de hormônios e sentimentos que tomaram conta de mim me fizeram achar, na época, que aquilo não estava sendo tão legal. Que bem podia ser de outro jeito, que algo estava fora do lugar. Sim, estava mesmo fora do lugar. Não dá pra parir um bebê e sair imune disso. Nem só do parto estou falando, mas do todo. É novidade em todos os níveis possíveis. Tem gente que passa por isso de forma mais leve e serena. Pra mim foi intenso. E de tão intenso cheguei a achar que estava ruim. E cheguei a achar que por mais que o tempo passasse, eu ainda me lembraria do incômodo que sentia.

Aí sim, fomos surpreendidos novamente.

Agora é a hora que eu digo, tão espantada quanto poderia estar, que aconteceu. Eu não me lembro mais exatamente das chatices que senti no puerpério. Não de imediato. Eu sei que foi tenso, que foi custoso, que precisei lidar com uma catarse doida que eu achei que fosse me acompanhar até daqui umas duas vidas. Mas passou. Oi? Alguém me belisca pra eu ter certeza? PASSOU!!! A ficha caiu completamente hoje, nessa conversa com minha amiga. Marido e eu falando que era uma fase gostosa, que era muito bom etc e tal. Aura de nostalgia no ar. Só lembrança boa.

Como boa amiga que sou, não romantizei tudo. Falei que é intenso, sim, que o primeiro mês é o mais punk, de adaptação de todo mundo, só que também tem sua beleza e sua alegria.

Estaria mentindo se dissesse que já esperava por isso. Como disse, meio que me acostumei a sentir aquilo, a viver assim. Depois que o puerpério passou ficou tudo mais suave, claro. Só não pensei que chegaria o dia em que eu só me lembraria da parte boa. Do cheirinho de rn, de como é gostoso aquele pacotinho no colo, dos barulhinhos, de ficar com ela no colo o dia todo, de boas no sofá, amamentando de um lado e comendo do outro. Era muito legal, gente!
Mesmo estando aqui hoje, com essa sensação boa, não me arrependo de como foi, não sou dessas. Senti tudo que me cabia, tudo que veio, o combo completo. Agora estamos em outra fase, que também abraço inteira. E assim será sempre, se depender de mim.

Contudo, não deixo de agradecer ao Sr. Tempo, de novo e sempre, por me ensinar que ele sempre está a nosso favor e sempre fará o seu trabalho. Só é preciso lembrar que ele só trabalha em silêncio, e não na nossa pressa. Ele está sempre no horário. Ainda bem.

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Bonitas somos nós!

Participei, junto com a Agnes, de um projeto fotográfico lindo, da fotógrafa Renata Penna. O projeto é o “Bonita é a mãe!”, que retrata a beleza do corpo pós maternidade. Corpo real, com furinhos, risquinhos, cicatrizes e o que mais for elemento para contar a história daquela mulher.

Foi muito legal participar, e muito importante.

Foi importante me despir ali naquela sala, junto com outras mulheres.
Foi importante fazer isso – um projeto com essa proposta, tão plural – com a minha filha.
Foi importante me permitir.
Foi importante perceber que eu estou me sentindo bem comigo mesma.

Sei que não posso “reclamar” do meu corpo, e nem quero.
Meu biotipo sempre foi esse mesmo. Sou magra, mas com quadril largo, bumbum grande. Sempre tive uma boa relação comigo mesma, mas acho que antes eu encanava mais com celulite, estria, ou coisas assim. Não era neurótica em arrancá-las de mim, mas dependendo da situação podia surgir uma vergonha.
O fato é que eu estou mais de 7 kg mais magra do que eu estava antes de engravidar. Usando números de calça que eu não usava há muitos anos. E eu tenho a impressão de que só estou assim por ter seguido a dieta sem leite, nem derivados, nem traços tão a risca. Porque eu cortei muita coisa do meu cardápio de rotina. Tive que reinventar receitas, descobrir sabores, me contentar com coisas que eu não queria, passar vontades. Foi difícil, no começo. Fiquei 5 meses assim. O que também nem é muito, comparado às mães que fazem isso por anos. Mas é a minha história. Tem também o fato de eu não estar tomando anticoncepcional, que sempre me deixa inchada e retendo líquidos. Foi uma decisão tomada por alguns motivos, mas ganhei esse efeito colateral de brinde, rs. Sem contar a amamentação, claro. E aí você pode pensar que eu não tenho nenhum motivo para me queixar, que muita gente luta para perder os quilos adquiridos na gestação e mais um monte de histórias. Mas quer saber de uma coisa? Todas as pessoas que eu encontro comentam que eu estou mais magra, que meu rosto está mais fino, etc e tal. Algumas falam elogiando? Sim, e obrigada mesmo, de coração. Mas também falam com muita surpresa, quase um susto. Como se fosse uma coisa ruim, como se eu estivesse doente. Juntando esses comentários ao fato de que eu não tenho mais tempo para ficar me olhando no espelho, nem sou cheia das vaidades, confesso que estava me sentindo um pouco pra baixo. Autoestima não andava lá muito em alta.

Daí surgiu a oportunidade de fazer essas fotos e eu, que adoro um ensaio, topei na hora.
E como me fez bem!
Percebi que não tenho mais nenhuma neura com o meu corpo. Já tinha poucas, mas acho que agora não sobrou espaço pra elas na minha vida. Não tenho mais tempo pra elas. Não senti vergonha nenhuma de me despir e fazer as fotos.
Quando vi o resultado fiquei muito feliz. Amei me ver junto com a pequena. Nas nossas bagunças, colos, mamás. E também amei me ver inteira, de corpo a mostra. Poxa, me senti bonita, sim!
Porque eu me reconheci ali. Me reconheço aqui. É o meu corpo real, que comporta as minhas histórias, as minhas dores, delícias e doidices. Não a da moça da capa da revista, nem a da colega, nem da vizinha, ou de quem for. Foi a mim que eu vi e nossa!, como gostei desse (re)encontro. Abriu precedentes para outras descobertas, ainda em andamento, eu diria.

Obrigada, Rê, pela oportunidade e pelo olhar. Fez um bem danado aqui pra mim.

Obrigada, filha, por ter vindo, pela companhia, pela travessia.
Esse meu corpo, definitivamente, não é igual ao que era antes de você vir fazer dele sua morada. E que bom que não é. Porque eu também já mudei um tantão desde que você chegou. Era mesmo preciso uma nova roupagem para esta nova eu. Que bom que temos histórias para contar. E muitas ainda por viver.

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