Arquivo da tag: lembranças

A timidez, a sapequice e a criança que eu fui

Depois do post das belezas e do encantamento pelos 2 anos e meio, vieram dias de alguns paradoxos pro aqui. Ah, maternidade. Nada é, tudo está.

A pequena anda tímida. Quer dizer, pensando bem, ela nunca foi a mais sociável dos bebês, de ir em colos alheios de cara, numa boa. Só mesmo com quem ela conhece bem. Mas agora, quando chegamos em ambientes com mais gente, quando as pessoas vem falar com ela, cumprimentar, brincar, ela abaixa a cabeça e põe a mão na boca. Fica um tempo assim, caladinha, por vezes se encolhendo um pouco. Pra se soltar, só depois de algum tempo, mais do que nunca.

É fase, será? É genético? É a personalidade dela? São os astros?

Eu fui uma criança bem tímida. Ainda hoje eu sou, apesar de já saber – e conseguir – domar e agir de outras formas. Mas a criança tímida que eu fui ainda existe aqui em algum lugar, sei que sim. E podem até dizer que isso nela é um reflexo meu. Sombras, ou algo assim. Em relação a isso, eu observo mais o meu sentimento quando a vejo assim. O que reverbera aqui dentro pode ser mais exagerado, o que nasce quando a vejo colocando as mãos na boca e enterrando o rosto no meu pescoço pode fazer reviver um monstrinho que vivia comigo lá atrás. É a minha história. E aí, pra não projetar os medos todos, ou seja, para não agir com ela baseada no que eu sentia há mil anos atrás, e não pelo presente, há que se ter muita análise e algum tempo mesmo. Fico repetindo isso pra mim, prestando atenção. Somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, sentimentos diferentes. Mesmo que algumas reações sejam parecidas, não quer dizer que ela está sentindo a MESMA coisa que eu. Essas coisas básicas de uma pessoa que faz autoanálise a maior parte do tempo. Tô acostumada, rs. Acaba que pra mim é até melhor, me faz bem. Mas a verdade é que na maioria das vezes, quando acontece, não sei direito o que fazer. Não a forço falar com ninguém, mas não sei se tô acolhendo o tanto que “deveria”. Sinceramente, não sei.

E aí, quando chega em casa (e na casa dos avós, que é uma extensão da nossa, só que com mais “coisas permitidas”, se é que me entendem), a pessoinha pega fogo. Sobe, desce, pula, canta, conversa. Muito. Começou esses dias a ter mais enfrentamento dos limites. A gente fala não e ela fica parada, meio olhando de lado, calada, com aquela carinha de “estou te ouvindo, mas tô fingindo que não”, sabe assim? E continua fazendo. Ou então grita. Eu desligo a televisão pra refeição ou alguma outra coisa, ela vai e liga de novo, olhando pra mim. Olha, não é fácil. Essas coisas também fazem nascer sentimentos antigos, né. Dá vontade de dá uns gritos, de fazer a pessoinha entender que não é assim, que não dá pra ser tudo no seu tempo, que é preciso respeitar. Tanta coisa. Vários conceitos a gente quer que eles entendam num olhar – como muitas vezes foi com a gente. “Minha mãe olhava pra mim e eu já sabia que tinha ido longe demais”. Muitas vezes, é com a criança que um dia fomos que nos relacionamos, não com nossos filhos.

Tenho andando cansada esses dias. Emocionalmente cansada. E com uma intuição de que preciso alterar algumas coisinhas aqui na nossa rotina. Estar mais perto, brincar mais lá fora. Ficar mais tempo só nós duas.

Nada é, tudo está, repito de novo. Daqui a pouco os dias passam, as fases mudam e essa página já estará virada. Que eu saiba o que registrar nela, então. Pelo menos na maioria das linhas.

1 comentário

Arquivado em aprender, assunto delicado, autoconhecimento, buscando solução, como lidar?, eu mãe, minha infância, reflexão, sentimento

O presente repetindo o passado

Estou na cozinha lavando a louça. Agnes na sala, brincando com umas xícaras e outros potinhos pequenos (todos de de verdade, coisas que ainda não tinha guardado depois da mudança) e com a boneca. Ela vai brincando e conversando comigo.

-Vô fazê um cházinho pá ela, mamãe.

-Tô tomando café tum leite, mamãe.

E assim por diante. Ela ia falando o que estava fazendo, eu ia respondendo, aumentando a brincadeira.

E de repente fui transportada para um lugar que eu bem conhecia.

Eu estava na área, arrumando todos os meus brinquedos, fazendo a minha casinha. Minha mãe cozinhava na cozinha ali ao lado, a dois passos de mim.

A gente brincava muito assim. Eu na minha casinha, pegava minha neném e ia visitar a minha “comadre” ali do lado. Ela seguia fazendo seus afazeres enquanto brincava comigo.

E de repente, não mais que de repente, a cena se repete sem que eu tenha consciência do que estou fazendo, sem planejar ou montar aquela cena. Ela simplesmente aconteceu. A roda girou, o tempo passou e ali estava eu, reproduzindo uma cena que me era tão familiar – e talvez por isso tenha sido tão instintivo. E tudo entrou em foco e me senti exatamente onde deveria estar. Construindo memórias com a minha pequena moça.

Sorri sozinha na cozinha, e seguimos assim, em meio a lembranças e brincadeiras.

1 comentário

Arquivado em acontece comigo, coisa linda, instinto, minha infância

Carta para a Marina de 17

Querida Marina,

hoje você faz 17 anos. Você ainda não sabe, mas esse vai ser um ano um tanto quanto conturbado. Desculpe falar assim logo de cara, mas é verdade – e nós gostamos de trabalhar com muita verdade, você sabe.

Você vai mudar de escola, vai se apaixonar, vai quebrar a cara, vai chorar uma quantidade de lágrimas suficientes para suprir uma vila inteira. Vai ser foda. Você vai ter vontade de fugir, de ficar, de fazer com que tudo que está acontecendo seja de uma forma diferente. Vai fazer um monte de coisas que tem certeza que é porque você quer, mas depois vai perceber que não é bem assim. Mas eu não vim aqui hoje para dizer que tudo está perdido, ou o quanto você errou. Eu vim aqui para dizer que está tudo bem.

Sim, está tudo bem.

Não porque eu seja uma espécie de masoquista que gosta de sofrer e te ver assim, mas porque eu sei que você está inteira em tudo que está vivendo. Você é intensa, querida, muito intensa, e não faz nada pela metade. Você se entrega ao que quer que seja que esteja vivendo. E daqui a pouco vai perceber que se é para ficar pela metade num lugar ou com alguém, prefere ir embora logo – isso vai render muito pano pra manga ainda, mas siga firme no caminho, porque esta é você, afinal de contas.

Para não parecer que vai ser um fiasco de ano, deixa eu amenizar um pouco. Aos 17 você vai decidir voltar pra sua antiga escola, encerrar o Ensino Médio onde foi recebida na quinta série. Vai ter muitas risadas – muitas, muitas muitas mesmo, acredite. Vai ter amigas, códigos secretos, companhia para loucuras, para conversas infinitas depois da escola, para planos e tudo mais que a mente de vocês imaginarem. Vai ser foda!

Sabe, eu tenho muito orgulho da gente. Tudo isso que ainda vai acontecer nos seus 17 anos vai te marcar muito. Não exatamente pelos acontecimentos em si, mas pela forma com que você lidou com tudo, apesar de ainda nem pensar claramente sobre isso. E por como o caminho foi se desenhando depois. Independente de qualquer drama, os novos dias continuaram a chegar e você foi. Mesmo quando achava que aquilo nunca ia passar. Essa coisa de não fazer o que queriam que você fizesse foi ótimo, afirmou muitas coisas aí dentro, pode acreditar.

Hoje você completa 27 anos. Dez anos nos separam. Se eu te contar que você acordou ao lado do seu marido e da sua filha de 2 anos vai dar pra acreditar? E que agora você mora num apartamento que te traz calma e que tem um monte de coisa boa acontecendo? Não vou contar tudo, não quero estragar a surpresa. Ainda tem um bocado de histórias entre nós duas pra rolar, muita água mesmo. Aconteceu uma vida em dez anos. A sua vida. Só vem, querida. Continue caminhando que daqui a 2 anos você vai encontrar um cara muito legal e daí pra frente vai ser só sucesso, mesmo que tenha que dar novos significados a essa palavra. Dica: dar sentido ao que vive vai se tornar quase um passatempo, você vai gostar.

Pronto, chega de falar. Receba o meu abraço inteiro e demorado, acolha tudo que vier, já está dando tudo certo. Estou aqui para comprovar isso.

um beijo,

Marina.

Deixe um comentário

Arquivado em acontece comigo, aprender, autoconhecimento, carta, sobre mim

do que eu não quero esquecer – III

das falas:

-Mamãe, vem cá, pufavô!

-Ditupa, mamãe.

-Que tão fazendo, gente?

-Mamãe? ti foi?

-Té toisa me ida (qualquer coisa me liga)/ Tão tá, be-eza (então tá, beleza) (sim, é a resposta/continuação do diálogo) (!!!!)

-passiá, dô (passear no escorregador = ir ao parquinho)

e do jeitinho que ela anda, toda despojada.
as vezes indo pra frente e olhando pra trás, meio torta, pra ver nossa reação, fazendo uma carinha muito fofa.
as vezes com os braços soltos.
a “corridinha devagar” que ela faz.

como arruma todas as bonecas pra dormir.

como separa as coisas por cor.

posso dizer que quero me lembrar de tudo? Posso e vou! Quero me lembrar de tudo, de cada momento que a gente tem e que vai moldando a pessoinha que está desabrochando bem debaixo do meu nariz.

Amanhã ela faz 2 anos.
E eu, hoje, sou só amor.

1 comentário

Arquivado em Agnes, amor, aniversário

Viajar com bebê é tudo de bom

Esta semana estava lendo uma matéria com dicas da família Nalu sobre viajar com crianças. Eu adorava assistir ao programa uns anos atrás, ficava pensando como seria incrível viver viajando, levando criança junto e tudo mais. Eu gosto de estar em movimento, me identifico, em algumas partes, com pessoas nômades – apesar de não viajar quase nada, se comparadas a elas. Enfim. Li a matéria e lembrei da aventura que fizemos no final do ano passado, quando fomos até o nordeste de carro com uma bebê de 16 meses. Bateu uma super saudade e resolvi vir aqui escrever mais um ‘cadim sobre isso.

A verdade é que, se eu pudesse ($), viajaria sempre, todos os meses, para todos os cantos, principalmente aqui dentro do país mesmo, pois são muitos os lugares que ainda quero conhecer. Adoro viajar, adoro pensar na viagem, fazer listas, comprar coisinhas especiais para botar na mala, adoro fazer as malas. E viajar de carro é especialmente bom, uma experiência a mais. Talvez porque foi assim que viajei na maior parte da vida, mas não vejo problema em ir por vias terrestres para qualquer lugar – a primeira vez que viajei de avião eu tinha exatamente 19 anos, então carro e ônibus são super tranquilos pra mim.

E é claro que eu não deixaria de viajar com a minha pequena companheira de aventuras. Quer dizer, em algum momento devo ter pensado se os contras não seriam maiores que os prós, mas resolvi encarar, de qualquer modo. Incluir os filhos na vida que temos e tanto gostamos é parte fundamental da caminhada, não acham?

Mas assim, também não tinha como achar que, com essa história de incluir, as coisas seriam como eram antes. Nem pensar. Ajustar minhas expectativas foi a primeira coisa que fiz desde que engravidei. Não daria para querer percorrer os mesmos km na mesma quantidade de tempo com um bebê a bordo. Me preparei mentalmente para paradas maiores, para não ter pressa, para lidar com possíveis crises de choro, entre outros imprevistos que pudessem surgir pelo caminho.

Já tínhamos viajado uma longa distância de carro com antes, quando ela tinha 7 meses. Daquela vez confesso que fiquei mais apreensiva, mas acabou sendo mais tranquilo do que o esperado, ainda bem. Acho que por isso me animei a esticar o caminho e ir pra Aracaju no fim do ano, rs. Com a diferença de que, desta vez, ela já estaria comendo normalmente (da primeira era comecinho da introdução alimentar, ela praticamente só mamou mesmo), lembrando que ela não consome nada com leite ou derivados, então teria essa preocupação a mais. O que fizemos foi levar muitos petiscos e opções de lanche para não depender apenas do que encontrássemos na estrada – até porque em alguns lugares “opção” não é uma palavra muito ampla, sem contar os trechos em que não tem nada a não ser mato e montanhas e árvores e carros. Acho que depois faço um post só sobre como foi a alimentação, porque o assunto rende bastante.

No quesito distração dentro do carro (mais conhecido como: mantendo a quiança na cadeirinha sem muito choro), tínhamos música, livros, bichinhos de pelúcia, brinquedinhos novos, nós mesmos, os quitutes disponíveis, bolsa da vovó, óculos de sol que estivesse dando sopa por ali, mostrar as nuvens no céu, batom. Pois é, até o batom entrou na roda. Numa momento crítico, minha mãe entregou um batom na mão dela, com o intuito que ela ficasse só no “tampa-destampa”, mas aí ela abriu, gostou, botou o dedo, passou na perna (e nos pés, e na cadeirinha, e em nós) e ficou nisso por preciosos minutos de paz. Nada que os versáteis lencinhos umedecidos não resolvessem depois. Ou seja, em algum momento é preciso desapegar. Costuma render boas risadas, recomendo. Ah, outra coisa que foi a sensação do entretenimento: uma caixa de canudos. De última hora comprei uma caixa de canudinhos, pra facilitar na hora de tomar os muitos sucos que fizemos e levei do jeito que comprei mesmo, na caixa. Ainda brincamos que era exagero. Mas não é que a Agnes amou ficar tirando os canudos e depois encaixando de volta no buraquinho? Foi uma boa surpresa. A caixa acompanhou o percurso todo, tanto na ida quanto na volta – e ainda sobrou canudo, hehe.

E no fim eu só falei de coisas que nem são exclusivas de viagens longas. Essas são minhas dicas da vida prática mesmo, apenas adaptadas para o momento. É assim que tento ser no dia a dia. Sempre buscando ser mais leve, estar mais presente, lembrando de respirar e acolher o que vier.

A verdade é que não vale a pena focar só no stress que vai surgir. Porque vai, simplesmente vai. Tem cansaço, tem trânsito, tem vontade de ficar sozinha, tem um monte de coisas chatinhas, mas também tem uma porção de momentos que estão sendo construídos com risadas, empolgação e até mesmo alguma calma. Consegui ler e escrever alguns rascunhos no carro, nos momentos que ela dormia e eu estava disposta, a despeito de todas as dúvidas se isso seria mesmo possível. É muito mais proveitoso quando nos abrimos para viver o que vier, seja onde for. No fim, é tudo memória. Tenho lembranças muito boas dessa viagem e não vejo a hora de vir a próxima.

Ah sim, ainda volto para falar de mais causos que adorei ter vivido e sobre como foi a alimentação da pequena na estrada. Me aguardem.

2 Comentários

Arquivado em acontece comigo, viagem

Do que eu não quero esquecer II

– como é delícia quando ela me abraça;
– como ela dorme bem e respira fundo quando eu deito ao seu lado;
– o jeito que ela joga longe o brinquedo quando perde a paciência – do mesmíssimo jeito que eu fazia (a genética, amigos, ela não tem limites);
– dela trazendo algum brinquedo pra mim – seu jeito de pedir pra eu parar o que estiver fazendo e ir brincar com ela;
– nossos banhos;
– todas as mamadas;
– ela sorrindo para todas as selfies que tiramos juntas;
– ela “dançando” com um bracinho pra cima;

só registrando porque eu sei que a memória é falha. e porque eu sei que ainda vai vir tanta coisa que eu não quero esquecer, que essas, tão primeiras, tão singelas, podem passar batido.

o primeiro post com esse título está aqui.

2 Comentários

Arquivado em Agnes

Lá no instagram

Como eu disse no outro post (aliás, super obrigada pelo carinho, suas lindas! Beijo babado da Agnes em todo mundo), às vezes escrevo umas notas curtinhas no instagram. Pensamentos, sentimentos do momento, essas coisas todas da nossa vida de mãe. Daí que resolvi colocar as que já escrevi aqui no blog, pra guardar e ficar o registro pra quem não me segue por lá. À medida que for juntando mais, vou trazendo pra cá.

Existiu um bebê antes da Agnes. Um bebê que só morou dentro de mim por 17 semanas, depois voltou pro céu dos anjos de luz. Eu aprendi muito com aquela gestação. Mesmo tendo sido breve, mesmo que o final não tenha sido o esperado. Me disseram que a dor ia diminuir com o passar do tempo e que quando eu engravidasse de novo ia ficar mais fácil, que o novo bebê ocuparia minha mente e meus dias. Não deixa de ser verdade, mas não é sempre assim. As vezes, ainda bate uma saudade – como tem sido nós últimos dias. Uma dor estranha, daquilo que não foi, mesmo tendo sido. O espaço que seria dela continua aqui. Em contrapartida, olho pra minha filha aqui do meu lado e sei, em algum lugar aqui dentro, que as coisas acontecem realmente como tem que acontecer. Tinha de ser a Agnes aqui agora, desse exato jeitinho. E isso traz uma espécie de calma pro meu caos. Um descanso. E então eu agradeço. Por tudo que aprendi e aprendo com as minhas filhas. Pelos mistérios da vida. E por me permitir viver o que vier. (7 de abril de 2015)

*******************************

8 meses e meio e estamos no auge do brincar no chão. Ela pede pra ir, quando está no colo. Engatinha a mil, se levanta no que estiver na frente, inclusive nas nossas pernas. Os dias estão muito animados por aqui – além de uma loucura e de nada no lugar, claro. To falando tudo isso só pra pontuar uma coisa: não existe essa de que colo estraga, que deixa mal acostumado. Se assim fosse, ela não estaria tão segura em busca da própria autonomia. Agnes ganha colo todas as vezes que pede, desde que nasceu. Passou o primeiro mês de vida quase todo nos meus braços. E agora ta aí, aumentando a bagagem do seu mundinho, cada dia aprendendo um tanto de coisas. E me ensinando mais. (31 de março de 2015)

 ***********************************

Ano passado, do alto das minhas 35 semanas de gestação, ele saiu do emprego fixo e decidimos, juntos, que ele trabalharia em casa para – entre outros motivos – estar perto da gente e estar mais ativo nos cuidados com a pequena. E olha, nem sempre é fácil. Tem os dias difíceis, tem a grana incerta, tem os olhares tortos pras nossas escolhas. Mas também tem os dias como hoje, em que eu vejo essa cena bem aqui na minha frente. Ele nina e ela dorme em 3 minutos, adora o colo do pai. Ver a relação deles sendo construída é lindo e são esses momentos que me lembram que vale a pena, sim, super. Por que ninguém disse que seria fácil, né?! Ainda bem que ninguém disse, aliás. Mas eu digo: vale a pena todos os dias. Muito. (9 de março de 2015)

**********************************

Depois de um dia cinzento – lá fora e aqui dentro – ela tinha dormido e eu aproveitei para tomar um banho relaxante. Marido preparando algo pra comer, eu já ia escolher um filme para vermos juntos, tudo se encaixando… Até eu ouvir alguém chamando no quarto e encontrar esse sorriso. Ontem esse plano funcionou, vimos “as vantagens de ser invisível” e foi ótimo; mas como todos sabem: nenhum dia é igual ao outro quando temos filhos, ta lá no contrato, a quem eu queria enganar? Então vamos para o plano B: desapegar de planos e curtir o que vier. Amém? (28 de fevereiro de 2015)

 **************************

Existem dias difíceis, dias bagunçados, dias furacão. E existe hoje, todos eles juntos num só. Não dormi direito, não almocei. Eu respirei? Mas vamo que vamo, que eu só sentei pra fazer a baby dormir. Enquanto ela descansa, tenho roupa pra estender, louça pra lavar, banheiro pra faxinar, janta pra pensar, e-mail pra responder, texto pra escrever e ainda recolher brinquedos e meias que os duendes espalham pela casa. Já chamei Caetano pra me ajudar. Vai dar tempo. Fui! (24 de fevereiro de 2015)

2 Comentários

Arquivado em dia a dia, instagram

2014, o ano!

2014 foi intenso.
Não só na minha vida. Nem foi preciso acompanhar as notícias do mundo todos os dias pra sacar que 2014 não veio de brincadeira, não. Teve copa, teve eleições. Teve eu tentando não surtar com esses assuntos. Não teve água. E aí eu só não surtei mais porque… nem sei porquê, devem ter sido os hormônios, haha. Teve gente morrendo. Putz! Como 2014 levou gente boa com ele, ninguém merece!! Me abalei. Teve bafões. E mais um monte de histórias pra contar.

Mas foi lindo também. E como foi lindo! Como dizer o contrário do ano que me trouxe minha filha?
Eu gestei. Eu pari. EU PARI!!! Amamentei (sigo amamentando, aliás, hehe). Me afoguei no puerpério. Me embrenhei na simbiose. Comecei, enfim, minha jornada como mãe. Como eu esperei por isso! Como eu sonhei e desejei e quis que chegasse esse momento. E ele chegou. Em 2014.
Eu revi tanta coisa. Enxerguei outras tantas. Ressignifiquei.
Fiz pré-natal humanizado. Não, fiz dois.
Chorei, briguei, fiquei puta, quis fugir.
Ri um monte, abracei, beijei, amei. Conheci gente nova, revi velhos amigos.
Que delícia foi essa parte!
Tentei fazer exercícios direitinho, mas não rolou, então fiz só o quanto deu.
Isso foi uma coisa que 2014 me fez aprender na marra: algumas coisas a gente faz só o quanto dá. E tudo bem. Existe o que a gente quer, o que a gente faz para que isso aconteça e, muitas vezes, sai tudo diferente do esperado. E isso pode ser uma merda, dá uma sensação estranha de atropelar – ou ser atropelado pelos fatos, na verdade. Mas também podemos nos surpreender positivamente. Algumas vezes a gente faz o que dá, algumas vezes a gente cede. 2014 também me ensinou a aprender a lidar.
Eu quis ficar sozinha, quis me isolar, quis ir pra caverna. Em alguns momentos eu realmente fui.
E sabe o que aconteceu? Foi lá que eu vi que é impossível ser feliz sozinho. Quando eu achei que ninguém entenderia meus motivos e os respeitaria, foi exatamente o contrário que aconteceu. Me senti acolhida, protegida, cuidada, amada. Então fico feliz por ter estado errada algumas vezes.

2014 me deu a prática.
2014 foi vida real. Foi ação. Reação. Emoção.

Também teve meu marido saindo do emprego fixo e virando autônomo do alto das minhas 35 semanas de gestação. Coragem! Teve eu tentando revender roupas pra poder ganhar mais uns trocados sem precisar sair de perto da Agnes. Teve a gente conseguindo alugar um apartamento novo, no nosso bairro mesmo. Um cantinho só nosso, um espaço a mais nessa cidade-caos. Teve o desenvolvimento lindo e encantador da Agnes. Teve a gente se conhecendo, virando família. Meus Deus! Somos uma família, temos uma casa! Obrigada, meu Deus!

Com toda certeza, escrevi infinitamente menos do que queria e precisei. Mas não foi por querer. Foi porque não dei conta mesmo. A escrita é minha terapia, meu passatempo, meu espelho. Muitas vezes não consegui parar um tiquinho que fosse para assimilar e botar no papel. Tentei escrever no calor da hora, mas nem sempre rolava. Valeu a tentativa.

2014 veio pra mostrar que sim, eu posso conseguir. Consegui tanta coisa, afinal! Mesmo que não dê tempo pra assimilar tudo no calor do dia-a-dia, a gente consegue. Basta ir.

2015 tá chegando.
Quero que seja leve, que seja lindo. Que seja exatamente como tem que ser.
Que tenhamos coragem de ir lá e fazer tudo o que temos que fazer para alcançar o que desejamos. Que façamos o nos move.
Estou animada para o amanhã.
Vamos?

3 Comentários

Arquivado em autoconhecimento, vida real

Precisamos falar sobre parto

Esses dias tenho me lembrado muito do meu parto. Uma lembrança boa, uma nostalgia do momento mais intenso da minha vida: o nascimento da minha filha. Eu olho pra ela hoje e penso no que passamos juntas naquela madrugada, em como ela se acalmou imediatamente quando eu falei com ela e a coloquei no meu colo. No vínculo que também nascia ali naquela banheira, pronto para crescer junto com a gente.

Uma vez vi a Ana Thomaz dizendo num vídeo que a gente precisa se entregar mais à vida, aos momentos. Parar de buscar – porque sim, estamos sempre buscando alguma coisa. E que ela aprendeu isso com seus partos domiciliares: parto é entrega, definitivamente não é busca. E aí uma ficha enorme caiu lá dentro da minha cabeça: eu demorei muito para me entregar. Justo eu, que vivo falando sobre isso, que entendo esse conceito etc e tal. Mas aconteceu. E quando a ficha caiu, eu chorei. Precisava lavar essa lembrança. Só aos poucos é que eu fui assimilando todos os fatos e digerindo o momento.

Quando eu penso em uma palavra sobre o meu parto, logo me vem ‘forte’ na cabeça. Um momento forte. No quesito intensidade, densidade mesmo. Foi forte. Foi lindo também, eu sei, mas de dentro do furacão eu senti primeiro a sua força. Mexeu comigo. Me desestruturou. E por alguns dias eu achei que tivesse alguma coisa errada. Ah, puerpério, seu fanfarrão! Turvou minha visão com uma sombra diante dos meus olhos. Sombra minha mesmo, aquela que tá sempre aqui, esperando os momentos mais sensíveis para vir à tona. Hoje eu li que “quanto mais perto chegamos da luz, mais haverá sombras”. Com certeza foi isso. É que algumas coisas foram muito difíceis pra mim durante o trabalho de parto. Eu suportei bem a dor, soube lidar com elas. Mas não posso dizer o mesmo de alguns sentimentos. Foi como se eu tivesse entrado num lugar em que morassem vários sentimentos e lembranças delicadas da minha vida. E eu não queria passar por aquilo, simplesmente não queria. Queria que fosse só bom, sabe como? Em algum nível, acho que tentei fugir. O que é exatamente o oposto de entrega. Fiquei eternamente esperando sair desse limbo para então entrar na coisa bonita de ‘estar em trabalho de parto’ e tudo mais (seja lá o que isso queira dizer), como se as duas sensações não pudessem coexistir. O fato das pessoas me falarem que poderia demorar muito ainda, de certa forma me fez esperar por algo diferente, tipo assim: ok pessoal, isso foi só um ensaio, vamos pra real agora (sem contar que isso brecou um pouco a minha intuição). Mas óbvio que não rolou, né. Já era a vida real. Já era trabalho de parto. Já era o MEU trabalho de parto, a minha história sendo construída, sem ensaios, sem pedir licença. Simplesmente estava acontecendo. A vida sendo vida, como dizem por aí.

E simplesmente não foi como “nos livros”. Não foi um parto de manual. Eu senti a primeira cólica/contração na madrugada de domingo. A Agnes nasceu na madrugada de terça-feira. Ok, no domingo pode ter sido apenas pródromos. A real é que eu não sei ao certo quando foi realmente que começou o TP. Na segunda pela manhã toda senti contrações. Cheguei na Casa Angela, estava com 5 pra 6 cm, colo médio. Não faço ideia de que horas comecei a dilatar. E nem ali, com mais da metade do caminho (em cm) percorridos, a coisa engrenou de vez. Tornou parar. Vinha e ia. Nunca por mais de 1 hora igual, com o mesmo intervalo. Meia noite tive uma ruptura alta de bolsa, acho que ficou mais perto uma contração da outra, mas não estava contando nada. Me falavam que podia demorar – e falavam por que? Porque eu não gritava de dor, estava tranquila, deitada, apenas “esperando”. Mas deu 3:30 e eu não quis mais ficar deitada, não dava. E 4:30 a Agnes nasceu. Foi de meia noite até às 4:30 que ficou mais intenso, mas só nessa última hora o bicho pegou de vez, sem piedade. Eu gritei no expulsivo. Vivenciei uma força animal, nunca antes vista por mim. Essa força vinha de mim – de algum lugar desconhecido, mas era minha. Era eu. Eu era forte, então? É meu esse poder de trazer uma pessoa ao mundo? Impressionante. Era um recado claro: não importava o que eu já tinha passado na vida, que lembranças eu tinha, como eu tinha me comportado até ali. Era hora de olhar pro agora. Uma nova vida estava chegando. Me deu todo tempo pra eu me preparar, mas agora era a nossa hora. Dali pra frente, seria o presente. Tempo presente. O meu presente. A Agnes estava me falando que faríamos aquilo juntas e que era hora de eu fazer a minha parte no acordo. E eu fiz. Foi tsunâmico. Foi transformador. Tranforma(dor).

Quando acabou eu estava extasiada de felicidade. Eu estava exausta. Foi muito cansativo aquela sabatina sentimental. As pessoas vinham me parabenizar, as enfermeiras ficaram encantadas em como tudo se deu. E eu pensava: vocês não sabem o que eu passei, definitivamente não sabem. Durante um tempo eu não achei tão bonito assim. Até que a poeira começou a assentar e minha doula veio me ver, trazendo as fotos do dia. Quando eu vi uma foto, eu na banheira, o Cleber me apoiando atrás, as enfermeiras me olhando, ali sentadas, eu percebi. Tinha sido lindo. Aquela foto é a própria imagem do meu plano de parto: não façam nada, apenas estejam ali para, e quando, for necessário. Quem vai parir sou eu, me deixem em paz (rs). E assim foi.

 

11.1

 

A imagem me traz uma sensação muito boa, vendo aqui de fora. De lá de dentro da banheira eu já estava na partolândia. Sabia que a Carina estava ali porque estava ao meu lado, sabia do Cleber porque segurava sua mão. E só. Em algum lugar eu imaginava que estava a Rose e a Janie, mas tudo suposto, eu não as ouvia. Não ouvi nem os clicks da câmera. Eu era pura emoção e sentimento ali dentro, encontrando a melhor posição para parir minha filha. Era como se fossemos só nós duas no mundo.

A partir do dia em que vi essa foto que as coisas foram se reajustando, que eu fui colocando tudo em seu devido lugar.
Foi forte, fortíssimo. Mas foi lindo também. Um portal que me levou pra uma outra dimensão, me fez ver as coisas por um outro prisma. Tudo aquilo que me visitou faz parte da minha história, de mim, mas agora está num lugar mais adequado. A verdade é que houve uma ruptura naquela banheira, a Agnes chegou chegando mesmo, rasgando minhas verdades em pedacinhos.
Um mundo novo passou a ser construído desde então; lá mesmo, naquela banheira. Vamos ver no que é que vai dar.

6 Comentários

Arquivado em parto, puerpério, reflexão